quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Artigo - Santidade



Perfeição ou Santidade
Pe. José Antônio Netto de Oliveira, SJ

Introdução:
Não é necessário um grande esforço de observação para notar que muitos cristãos e, particularmente cristãos consagrados, não vivem sua fé com alegria, não dão o um testemunho existencial de que o Evangelho é uma alvissareira e Boa Notícia para todo ser humano, uma libertação de todo medo, diante da revelação, em Jesus Cristo, da inexplicável misericórdia, perdão, amor incondicional de Deus para com suas criaturas.
Cristãos e cristãos consagrados parecem viver um interminável sentimento de culpa diante de Deus, sempre sentindo-se em dívida e conseqüentemente experimentando uma separação ou pelo menos uma distância e frieza no relacionamento com Ele. O Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, revelado como infinita ternura, misericórdia, amor, proximidade para com o homem pecador não é então percebido como Pai, mas como um juiz mal humorado, eternamente esquadrinhando nossa vida atrás de infidelidades, desobediências e fraquezas. Em vez da intimidade, da proximidade e da alegria que Jesus manifesta no seu relacionamento com o Pai, nós, como Adão no Paraíso, sentimos medo de Deus e procuramos esconder-nos.
Nós, cristãos, nem sempre temos sabido refletir em nossos próprios rostos a alegria de Deus: desde o escrúpulo até à angústia, desde a estreiteza de espírito, até à inimizade para com o corpo, desde um ascetismo não integrado, até um legalismo sem calor... damos demasiadas vezes a impressão de que somos pessoas mais presas do que libertadas por nosso Deus.
As causas desses sentimentos e comportamentos dos cristãos, pouco reveladores da Boa Notícia de Jesus, podem ser procuradas em múltiplas direções: no tipo de educação religiosa recebida, na psicologia pessoal mais ou menos propensa a sentimentos de culpa e de escrupulosidade, na experiência de se ter sido ou não amado com gratuidade, na experiência pessoal de Deus, nas múltiplas camadas teológicas e ideológicas que se foram superpondo, obscurecendo muitas vezes a experiência original do cristianismo e conseqüentemente a alegria cristã etc.
No presente artigo gostaríamos de ressaltar um aspecto dessa problemática, uma confusão que fazemos entre santidade e perfeição, em parte responsável, em nossa opinião, por essa distância e frieza no relacionamento com Deus e por certo sentimento de culpa permanente que impede a intimidade da filiação e a alegria de vivermos como filhos amados gratuitamente pelo Pai.
Confundir santidade e perfeição, com a conotação que a palavra perfeição tem aos nossos ouvidos hoje, é condenar-nos a uma eterna insatisfação conosco mesmos, a uma auto-condenação permanente, porque percebemos que somos cada dia mais imperfeitos, na medida mesmo em que avançamos na vida. Passar desse sentimento à verificação de que a santidade não é para nós, é um pulo. Desistimos então da santidade, não ouvimos mais o apelo de Deus "sede santos porque eu sou santo" e nos condenamos à mediocridade na vida cristã.
A Perfeição
A interpretação da santidade como perfeição tem suas raízes no Evangelho de São Mateus e mais particularmente em Mt 5,48 "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito". Examinemos rapidamente este texto.
Devemos notar primeiramente que a perfeição, segundo o Antigo Testamento, não é um atributo de Deus. Em nenhuma ocasião o Antigo Testamento chama Deus de "perfeito". Chama-o de "santo". Nos evangelhos o adjetivo "perfeito" (teleios) aparece somente duas vezes e ambas em Mateus: Mt 5,48 "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito" e Mt 19,21 "Se queres ser perfeito" pergunta Jesus ao jovem rico.
Na mentalidade hebraica a perfeição é antes um atributo do ser humano expressando a idéia de totalidade, aplicando-se ao que é completo, intacto, àquilo que de nada carece. Quando em Mt 19,21, Jesus diz: "Se queres ser perfeito", quer significar: se queres que nada te falte, se queres não ter limite algum.
Ao afirmar "sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito" Mateus estaria projetando em Deus uma qualidade propriamente humana. Encontramo-nos diante de um antropomorfismo: Mateus nos convida a imitar em Deus uma qualidade que não é propriamente divina, mas que é a projeção em Deus de um ideal humano.
A perspectiva de Mateus aparentemente parece ser mais moralista que teológica: sua atenção está centrada no dever que se impõe ao homem, na conduta que este deve adotar com relação a seus irmãos para cumprir perfeitamente a vontade divina.
Verifica-se, pois, que neste texto de Mateus o ponto de partida da santidade já não seria Deus em primeiro lugar, mas o que o homem deve fazer. A atenção se desloca da misericórdia de Deus como na versão de Lucas "Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso", para a perfeição do homem em geral, como um progresso no desenvolvimento ontológico do ser humano. A santidade passa a ser vista como a perfeição no cumprimento da lei, manifestação da vontade divina e na prática das boas obras, frutos, basicamente, do esforço do homem.
Poderíamos contudo, vislumbrar uma outra interpretação, seguindo São Jerônimo e outros. O logion "Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito" liga-se com o texto precedente pela partícula de conseqüência "portanto". Ora, o texto imediatamente antecedente fala precisamente do amor sem limites do Pai que faz nascer o sol sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos e que ama a todos: amigos e inimigos. Assim poderíamos concluir que o discípulo deve ser perfeito no amor como o Pai Celestial é perfeito no amor.
Santidade, Perfeição e Pecado
Antes de prosseguir em nossas reflexões sobre a perfeição é iluminador considerar a relação entre santidade, perfeição e pecado. É mesmo curioso observar que a Igreja não assinale uma oposição radical entre santidade e pecado, podendo as duas realidades subsistirem simultaneamente na mesma pessoa ou no mesmo corpo social. A própria Igreja se auto-define como sendo pecadora e santa e os santos Padres não tinham escrúpulos de denominá-la "casta-prostituta": de um lado é patente sua infidelidade e mesmo suas traições a seu Esposo Jesus Cristo, e de outro é patente também à presença do Espírito do Esposo no meio dela purificando-a, salvando-a e fazendo dela sacramento universal de salvação.
Outra realidade que chama nossa atenção é o fato de os santos canonizados pela Igreja nunca se terem considerado santos, antes muito pelo contrário, todos se confessaram grandes pecadores, até o fim de suas vidas, e praticaram penitências por seus pecados que nos assustam. Apesar dessa consciência de serem imperfeitos e pecadores, eram santos e a Igreja reconheceu sua santidade, canonizando-os. Não existe pois uma incompatibilidade radical entre santidade e pecado. Pode-se ser simultaneamente santo e pecador.
Se passarmos à relação entre pecado e perfeição aí encontraremos essa incompatibilidade: não se pode ser simultaneamente perfeito e pecador uma vez que o pecado é a imperfeição por excelência. A perfeição exclui necessariamente o pecado.
Esta breve consideração poderá ajudar a entender melhor as reflexões que se seguem.
Ter pecado e ser pecador
É igualmente importante para a intelecção do que se segue captar a distinção entre ter pecado(s) e ser pecador.
Ter pecado(s) é a consciência que temos de ter falhado objetivamente no amor para com Deus, para conosco mesmos ou para com o próximo. Antes de nos dirigirmos ao sacramento da penitência, costumamos parar, fazer um exame de consciência perguntando-nos "quais os pecados que tenho", quais minhas faltas objetivas de amor, desde a última confissão. Comunicamos então ao sacerdote os pecados que "temos" e, se estamos arrependidos, somos perdoados, Deus nos assegura o seu perdão. Saindo da confissão já não temos mais pecados.
Ser pecador é a consciência que temos de nossa fragilidade. Saindo da confissão não temos mais pecado mas reconhecemos que estamos num estado de fraqueza, que somos vasos de barro, muito quebradiços. O pecado atingiu, de certa maneira, algo de profundo em nós, atingiu de algum modo o nosso ser, o nosso coração como diz a Bíblia (é do coração que saem os maus pensamentos, assassinatos etc.). Encontramo-nos todos numa situação de fragilidade. Cada um percebe no seu "coração" certas tendências inatas para o mal e para o pecado que os teólogos chamam de concupiscências, tendências para o orgulho, a avareza, a gula, a luxúria, a preguiça etc.. É porque estamos neste estado de fragilidade, é porque somos pecadores que voltamos novamente a cometer pecados e assim teremos de confessar-nos uma e outra vez até o final de nossa vida.
Reconhecer não somente que temos pecado mas também que somos pecadores é abrir-se para a verdade do próprio ser, é o início do esvaziamento de si, é começar a descer à verdadeira humildade diante de Deus e diante dos homens.
Impasses da perfeição
O conceito de perfeição que cada um tem em sua própria cabeça, não é puramente teórico, porque o conceito de perfeição forma-se ao longo da vida, é existencial e portanto vem marcado por cargas afetivas desde a primeira infância: os comportamentos corretos, perfeitos eram premiados, os imperfeitos, incorretos eram punidos. O conceito de perfeição foi-se formando em nós a partir de nossa educação, a partir de experiências integradoras ou traumatizantes, de sentimentos de culpabilidade e castigo ou de libertação e perdão. Normalmente terminamos com um conceito de perfeição que se identifica no plano pessoal com não ter defeitos, não ter vícios, não ter traumas nem marcas psíquicas negativas, não ter nenhuma fraqueza, nenhuma falha, nenhum pecado etc..
A busca da perfeição é um projeto do homem, um ideal humano. Trata-se de um projeto fechado dentro do próprio eu orgulhoso, que exige o máximo de si, o máximo de esforço para não falhar em ponto algum, uma vez que o perfeccionista está convencido de que somente será amado por Deus e pelos demais se for perfeito. Nesse esforço ele tende a contar exclusivamente consigo mesmo, prescindindo de Deus e dos outros.
A perfeição estaria no fim do caminho que traçamos para nós, do ideal que nos propusemos, ou então no topo de uma escada que decidimos subir com nosso esforço, galgando degrau por degrau, eliminando vícios e adquirindo virtudes numa busca tensa. A perfeição não suporta o pecado uma vez que o perfeccionista vê o pecado não como uma ruptura de laços de amor, não em relação a um outro, mas em relação ao próprio ideal: "falhei no meu ideal, no ideal que me havia proposto". Esta verificação é sempre sentida como humilhação.
O perfeccionista procura viver apenas com os melhores fragmentos de si mesmo, aqueles que estão conforme com as normas, com o ideal buscado, com o que pensa que os outros esperam dele. O resto, as fraquezas, as tendências obscuras, os fragmentos dos quais está menos orgulhoso, ficam trancados para sempre nas margens da consciência. Eles são recusados e negados. Desse modo, a chaga secreta que está fermentando, supurando e contaminando a vida nunca é reconhecida, nunca vem à luz. A perfeição, humilhada pelo pecado e pelas fraquezas, tende a fechar a pessoa sobre si, e fechá-la para Deus e para os outros. O amor desaparece. O perfeccionista tende a voltar-se sobre si, tornando-se seu próprio juiz e auto-condenando-se. Após certo tempo de luta sua vida pode tornar-se amargurada, amargurada consigo, com Deus, com os outros, com tudo.
A perfeição visa à própria pessoa; ela própria estabelece seus ideais e seus degraus, se mede e se compara, calcula e avalia. Suas quedas e falhas, visto que não têm um referencial fora de si, são amargas, entristecem, levam ao desânimo e à auto-condenação.
A perfeição dialoga com um código de normas e de exigências, dialoga com a lei. Esse código é, não raro, elaborado sob o peso do constrangimento de uma consciência culpada ou aterrorizada que fixa rigidamente as balizas de uma estrada fora da qual não se pode dar um passo sem que a auto-imagem se esfacele em sentimentos de fracasso irremediável.
A perfeição não justifica nem salva o homem. É Jesus quem no-lo diz na parábola do fariseu e do publicano que vão ao templo para rezar. Esta pequenina parábola teve o efeito de uma bomba atômica para a sociedade religiosa judaica, porque nela Jesus coloca tudo de pernas para o ar, inverte toda a concepção de justificação e salvação tranqüilamente aceita por todos, em todos os segmentos sociais. Todos estavam convictos de que as pessoas agradáveis a Deus, que estavam justificadas, eram os fariseus, fanáticos cumpridores da lei. Jesus afirma o oposto, esse homem não saiu do templo justificado. Sua pretensa perfeição no cumprimento da lei, o leva a um grande orgulho "não sou como os demais homens", ao desprezo dos outros, ao fechamento do coração para o amor, a prescindir de Deus, a pensar que se salva pelo próprio esforço, a exigir recompensa de Deus. Jesus afirma sem rodeios, tal homem não está justificado, a perfeição não justifica o homem.
O publicano sim, sai do templo justificado, está a caminho da salvação. O publicano capitula diante de Deus: reconhece seu pecado e sua condição de pecador, reconhece sua incapacidade de salvar-se por si mesmo, abre-se para um outro, abre-se para Deus de quem espera o perdão e a salvação. Esta humildade é a porta de abertura para sair de um mundo enclausurado em si mesmo, um mundo auto-suficiente e tenebroso, onde tudo gira em torno do próprio eu, onde não há lugar para o Outro e os outros, onde não há salvação possível.
"Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso"
A compaixão e a misericórdia são os mais característicos atributos divinos na teologia de Israel. Lucas nos convida, portanto, a imitar uma maneira de ser que é, antes de mais nada, a de Deus. Mostrando-se misericordiosos os discípulos de Jesus se assemelham ao exemplo que Deus nos dá. A atenção aqui está voltada para a visão dos sentimentos da misericórdia de Deus para com seus filhos, na sua solicitude para com os pecadores e os mais desamparados e necessitados. A conduta do homem deve se regular, deve imitar a conduta de Deus.
O versículo 6,36 conclui de modo natural à instrução sobre o amor aos inimigos. Lucas começa com uma recomendação: v. 27 "Amai os vossos inimigos..." Esta recomendação é reforçada por uma primeira consideração em forma negativa: "não imiteis os pagãos e os publicanos que só amam aqueles que os amam" (v. 32). Finalmente uma segunda consideração em forma positiva convida a imitar a Deus: "mostrai-vos como filhos do Altíssimo... e sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso".
Os exegetas nos asseguram que esta versão de Lucas reflete, mais exatamente que Mateus, o pensamento de Jesus, que nos convida a assemelhar-nos a seu Pai reproduzindo em nossas vidas os sentimentos de compaixão e misericórdia que ele tem para com os homens. Por meio dessa conduta com os irmãos aderimos a Deus, reforça-se nosso vínculo de pertença a Ele e, nesse sentido, somos santos como Ele é santo.
O tema da santidade, por conseguinte, deve ser reconduzido à interpretação que Jesus dá da misericórdia de Deus e ao que, de tal imagem paterna deriva, como norma e caminho para a conduta do homem e sua pertença a Deus.
A santidade
Em vez de optarmos pela perfeição, podemos optar pela santidade e santidade está relacionada com compaixão, com misericórdia, com amor, com esse convite que Deus nos faz: "Sede santos porque Eu sou santo". Deus é amor e nisso consiste a santidade de Deus. Trata-se pois de abrir-se para o amor, dentro mesmo dessa nossa realidade de criaturas limitadas, frágeis, pecadoras, vasos de barro como diz São Paulo. Ora, essa capacidade de amar nos é dada por Deus, é um dom de Deus.
A santidade portanto me é dada por Deus e me é dada agora, imediatamente: sou amado por Deus, sem condições, agora, com todas as minhas imperfeições, pecados, fraquezas, debilidades, limitações, traumas... e esse amor de Deus sem condições, me torna capaz de amar agora, de fazer o bem agora, de servir agora, de ser santo agora, apesar de minhas imperfeições e fraquezas. A grande ilusão é pensar que só poderemos amar, servir, fazer o bem quando formos perfeitos. Somos santos agora e devemos amar agora embora sejamos também pecadores: somos uma Igreja pecadora e santa.
A santidade nunca é humilhada pelo pecado, porque a santidade é humilde. Somos humilhados quando pensamos ser alguém, quando nos colocamos num pedestal, quando nos julgamos melhores do que os outros... somos humildes quando aceitamos ser pobres, ser frágeis, limitados, pecadores, mas amados na nossa pobreza e fragilidade.
A santidade é recusa de deixar-se fechar no próprio pecado, é a capacidade de ultrapassar as próprias condenações porque um Outro nos acolhe e nos ama apesar de nosso pecado. A superação da auto-condenação está na entrega da vida a Deus, em saber-se amado como pecador porque pecadores seremos sempre até o fim da vida. Santidade é a certeza de não podermos salvar-nos a nós mesmos e acolher, na ação de graças, uma salvação que nos é oferecida gratuitamente por Deus que nos ama. A santidade nunca leva ao fechamento, antes se abre para Deus acolhendo sempre o seu perdão e abre-se para os outros no amor, no serviço e no dom. Santidade é a recusa de ser o seu próprio juiz, deixando o juízo para Alguém que nos ama e vela por nós com amor. A santidade liberta, é confiante, é alegre; leva-nos a passar da recusa e condenação de nós mesmos e dos outros para a descoberta de nós e dos outros.
Se a perfeição era colocada em termos de uma subida laboriosa de uma escada, a santidade pode ser também representada por esse símbolo da escada, somente que se trata agora de uma descida progressiva a caminho de uma radical humildade. De fato, se meditamos atentamente o evangelho, encontramos Jesus convidando continuamente seus discípulos a uma descida: quem quiser ser o primeiro, seja o último, o servidor de todos; quem se exalta será humilhado, quem se humilha será exaltado; se não vos tornardes como crianças não entrareis no Reino; felizes os pobres porque deles é o Reino...
Trata-se de um esvaziar-se progressivo de toda auto-suficiência e orgulho, de toda ambição de riquezas, de prestígio e projeção, de poder de dominação e opressão, no seguimento do Filho de Deus que "esvaziou-se a si mesmo tomando nossa condição humana". O orgulho fecha o homem sobre si e o impede de amar, de ser santo. A humildade é o reconhecimento pacífico da própria condição de criatura pecadora e frágil, mas amada por Deus, é a porta para a santidade, isto é, para poder amar os irmãos e irmãs pecadores e frágeis como somos amados embora pecadores e frágeis.
Permanecer aí, no fundo do templo, como o publicano da parábola, reconhecendo a própria pobreza, numa súplica permanente: "tem piedade de mim, Senhor, porque sou um pecador", celebrando a misericórdia de Deus para com todos os homens, é tornar-se vulnerável à dor, ao sofrimento, à falta de vida e de sentido de muitos irmãos no mundo, é começar a ter compaixão, misericórdia, é começar a amar, é caminhar para a santidade: "sede santos porque eu sou santo".
Contrariamente à perfeição que dialoga com um código, a santidade dialoga com Alguém, com o Pai, com Cristo, construindo-se nesse lugar privilegiado de liberdade aberta ao sopro do Espírito. O santo nunca se julga alguém infalível, antes é pobre e aceita ser fraco.
Contrariamente ao perfeccionista que pensa só poder ser amado se for digno, o santo aceita ser amado na indignidade, acolhe um amor que lhe é oferecido gratuitamente. Conseqüentemente não espera que os outros sejam dignos de seu amor para amá-los. Procura amá-los como Deus nos ama: é o amor gratuito que cria as condições de uma resposta.
Finalmente santidade é um combate, um afrontamento. Não é no fim da vida que se chega a santidade. Ela deve aparecer e aparece, de fato, em cada instante que passa, em cada pequeno ato de amor, de bondade, de compaixão, de abertura e acolhida do outro. Santidade não é um resultado que possa ser contabilizado, é antes uma tendência, uma superação diária, um esvaziamento progressivo de si. Santidade é um caminhar: um passo depois do outro.
Processo evolutivo: da busca da perfeição ao desejo da santidade.
Os autores do Novo Testamento e seus sucessores imediatos quando escreviam sobre o que chamamos "perfeição espiritual", ou "perfeição da vida cristã, queriam significar algo próximo do que chamamos "maturidade". Ora, só se amadurece usando tempo e experiência para aprender. O ponto crucial dessa aprendizagem é saber ouvir, é ter um ouvido atento primeiramente ao Evangelho, ouvindo Jesus que chama para segui-lo; em segundo lugar à tradição: o seguimento de Jesus ao longo dos séculos e finalmente, em terceiro lugar, ao próprio coração, isto é, à própria experiência como ser humano.
Nossa vida humana e espiritual avança não tanto através de cortes, de saltos bruscos, mas de um processo, com freqüência imperceptível aos nossos próprios olhos: quando nos damos conta, algo está mudado dentro de nós. Cotejando a experiência de muitas pessoas em sua caminhada espiritual, podemos descobrir um processo evolutivo que existencialmente poderíamos descrever como uma trajetória não igual para todos, mas com certas semelhanças.
As primeiras etapas na vida espiritual costumam caracterizar-se pela experiência de uma forte atração de Deus sobre a pessoa e pela presença de grandes consolações espirituais. Diante de tal generosidade divina, a pessoa, sobretudo se é jovem, sente-se desafiada em sua generosidade e deseja responder a tanto amor recebido gratuitamente: "Se Deus é generoso para comigo, devo ser generoso para com Deus". Esta generosidade primeira é freqüentemente interpretada em termos de perfeição: devo eliminar vícios, falhas, fraquezas, pecados... para responder e agradar a Deus.
O jovem lança-se então a subir a escada da perfeição, num esforço louvável e tenaz, mas nesse esforço conta muito consegue e pouco com Deus: confia em si, na sua generosidade, no seu esforço, no seu idealismo, na sua força de vontade. Nessa tentativa mescla-se uma forte dose de vontade de poder e, sobretudo, um orgulho sutil, que na sua sutileza não é percebido. Esta fase do esforço voluntarista centrado em si pode ter a duração de oito a quinze anos, dependendo do nível de profundidade da oração pessoal.
Em seguida, a pessoa começa a perceber pouco a pouco que estacionou, que não avança mais, que o carro não consegue mais subir a ladeira da perfeição, está derrapando. Entra-se progressivamente numa série de crises, de falhas, de quedas que aparecem sobretudo como fracassos no ideal proposto. Há uma sensação vaga de que os fundamentos da casa estão abalados. Problemas inconscientes não suficientemente trabalhados anteriormente, emergem agora com violência, exigindo gratificações. A experiência concreta se manifesta no aparecimento de paixões de todos os tipos que a pessoa julgava já ter domado definitivamente no passado: agora reanimam-se subitamente com força redobrada e experimenta-se a própria pobreza e fraqueza. Aos poucos chega-se a uma verificação: não só os fundamentos da casa estão abalados, a casa toda está em ruínas, "estava construída sobre a areia".
Há um período de angústia profunda, que não pode ser evitado, uma sensação de cansaço na luta, de não saber por onde recomeçar porque a pessoa sabe que não pode mais fazer uso do dinamismo gasto de sua vontade: a garra, o fogo, o idealismo da juventude, que acreditava superar tudo com a força de vontade, esgotou-se, acabou. E então?
Há duas saídas possíveis para esta crise: uma é a do desânimo e do abandono: "a santidade não é para mim". Outra é a busca de uma saída em Deus: voltar-se para uma oração simples, de súplica humilde: "tem compaixão de mim, Senhor, porque sou um pecador", "do fundo do abismo clamo por ti, Senhor", "mais do que o vigia, espero pela aurora"... esperando a iniciativa de Deus. Trata-se agora de iniciar a descida da escada rumo à humildade radical. A verificação da própria indigência já é o início dessa descida, uma descida cheia de esperança, expectativa e confiança no amor, na graça, na salvação que vem de Deus. "O Senhor está próximo de todos os que o invocam, dos que o invocam na verdade". A súplica que brota do reconhecimento da própria pobreza, é sempre verdadeira. O lugar mesmo onde a busca da perfeição fracassa, pode ser o ponto de partida da estrada da santidade.
Conclusão
De um lado a busca, o esforço humano, a vida ascética, de outro a graça, o dom de Deus, o amor gratuito e transformante, a vida mística: atividade e passividade. Estas duas dimensões estão presentes em nossa experiência espiritual, mas em equilíbrio instável: por vezes nos perguntamos se não estamos contando unicamente com nosso esforço, nosso compromisso, nossa força de vontade e esperando pouco ou nada de Deus; outras vezes teremos a impressão de estarmos esperando tudo de Deus, passivamente, sem nada fazermos para procurá-lo. Gostaríamos de ver com clareza onde estamos e se estamos no caminho certo. Essa clareza nem sempre é possível. O que é possível é continuar avançando, sem ver claro, a partir do ponto aonde chegamos.
Santo Inácio percebe com clareza que a santidade é esse dom de Deus que transforma a criatura e a torna capaz de "em tudo amar e servir". Percebe também que há muitas desordens no ser humano que o impedem de acolher o dom santificador de Deus e por isso vai empenhar-se em fornecer meios e instrumentos para ordenar a própria vida e assim dispor-se para acolher o dom. Inácio está convencido de que o que transforma e santifica o ser humano é a graça, o dom, o amor de Deus, mas que é necessário uma busca, um esforço, uma ascese de nossa parte, que tem como única finalidade dispor-nos para acolher o dom e não conquistar, merecer a graça. O dom é gratuito, está à nossa disposição, mas há indisposições em nós para acolhê-lo, indisposições que Inácio vai chamar com vários nomes: cobiça de riquezas, honra vã do mundo, soberba, amor próprio, sensualidade, amor carnal e mundano, afeições desordenadas, pecados... Tudo isto está em nós e nos atrapalha, cria obstáculos à acolhida do dom de Deus.
Os Exercícios Espirituais são conhecidos como uma experiência em que a busca generosa de ordenação da própria vida no horizonte de Jesus Cristo, abre para a acolhida do dom transformante de Deus e conseqüentemente para a santidade, isto é, para em tudo amar e servir. "Cada qual esteja convencido de que tanto mais progredirá em todas as coisas espirituais, quanto mais sair de seu amor próprio, querer e interesse" (EE 189). Esse sair do amor próprio, do próprio querer e interesse tem como objetivo acolher um outro amor, um outro querer, isto é, a vontade de Deus, e um outro interesse, a saber, os interesses do Reino e dos outros. Esse sair implica uma missão: somos enviados e revestidos de uma capacidade de amar que não vem de nós, porque somos e seremos sempre vasos de argila, vasos de barro bem frágeis e quebradiços, mas dentro desse barro carregamos um tesouro, o amor de Deus derramado em nossos corações. Esse amor nos santifica, nos torna capazes de realmente "em tudo amar e servir".
Terminemos com uma página de rara beleza sobre a pureza do coração e conseqüentemente sobre a santidade, que se encontra no livro Sabedoria de um pobre, de Elói Leclerc (Editorial Franciscana, Braga, 1975, pp.137-140).
"... Depois de um momento de silêncio, Francisco perguntou a Leão: Irmão, sabes acaso o que é a pureza de coração? - É não termos falta alguma de que nos acusemos, respondeu Leão sem hesitar. - Então compreendo a tua tristeza, disse Francisco, porque temos sempre alguma coisa de que nos acusar. - Sim, concordou Leão, e é precisamente isso que faz com que eu perca a esperança de chegar um dia à pureza de coração.
Ah! Frei Leão, acredita-me, retorquiu Francisco, não te preocupes tanto com a pureza de tua alma. Volta o olhar para Deus. Regozija-te por Ele ser todo santidade. Dá-lhe graças por causa dele mesmo. Isso é que é, irmãozinho, ter o coração puro. E quando estiveres voltado para Deus, não voltes a debruçar-te sobre ti. Não perguntes a ti próprio em que ponto estás em relação a Deus. A tristeza de não sermos perfeitos, de nos descobrirmos pecadores é, ainda, um sentimento humano, demasiadamente humano. É preciso que eleves o teu olhar mais alto, muito mais alto. Há Deus, a imensidade de Deus e o seu inalterável esplendor. O coração puro é aquele que não cessa de adorar o Senhor vivo e verdadeiro; o que toma um interesse profundo pela própria vida de Deus e é capaz, no meio de todas as suas misérias, de vibrar com a eterna inocência e a eterna alegria de Deus. Semelhante coração é, há um tempo, despojado e cumulado. Basta-lhe que Deus seja Deus. É mesmo nisso que ele encontra toda a sua paz, todo o seu amor. E então, é o próprio Deus que é toda a sua santidade.
Deus, no entanto, exige o nosso esforço e a nossa fidelidade, observou Leão.
Sim, sem dúvida, respondeu Francisco. Mas a santidade não é uma realização do nosso eu, nem uma plenitude que nos damos a nós mesmos. Acima de tudo ela é um vazio que descobrimos em nós, que aceitamos e que Deus vem encher na medida em que nos abrimos à sua plenitude. O nosso nada, compreendes, quando é aceito, transforma-se no espaço vazio onde Deus pode, ainda, criar. O Senhor não deixa que ninguém lhe roube a sua glória. Ele é o Senhor, o único, o Santo. Toma, porém o pobre pela mão, tira-o da lama e fá-lo sentar no meio dos príncipes do seu povo a fim de que ele veja a sua glória. Deus torna-se, então o céu da sua alma.
Contemplar a glória de Deus, Frei Leão, descobrir que Deus é Deus, eternamente Deus para além do que nós somos ou possamos ser, alegrar-se, em cheio, com aquilo que Ele é, extasiar-se diante de sua eterna juventude e dar-lhe graças por causa da sua indefectível misericórdia, eis a exigência mais profunda desse amor que o espírito do Senhor não cessa de derramar em nossos corações. Ter o coração puro é isto. Mas esta pureza não se obtém à força de punhos e de tensão.
Que fazer para a alcançar? perguntou Leão.
Basta simplesmente nada guardar para si. Nem sequer essa percepção aguda da nossa miséria. Desprender-se de tudo. Aceitar ser pobre. Renunciar a tudo o que é pesado, inclusive ao peso das nossas faltas. Já não ver senão a glória do Senhor e deixar-se iluminar por ela. Deus é, isto basta. O coração como a cotovia ébria de espaço e de azul abandonou todo e qualquer cuidado, toda e qualquer inquietação. O seu desejo de perfeição mudou-se num simples e puro querer de Deus.
Leão escutava com ar grave, enquanto ia caminhando adiante de seu pai. Porém, à medida que avançava, sentia que o coração se lhe tornava leve e que uma grande paz o invadia".
Este artigo faz parte da Revista Itaici 18













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