Teológico Pastoral

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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Homilia Dominical - 27 de Agosto de 2017

AS PERGUNTAS INQUIETANTES QUE NOS HABITAM

“
E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15)

Já agradecemos alguma vez pelas perguntas que nos fizeram? Em um diálogo, as perguntas são a ponte entre as vozes, a confluência de corações, o brilho de luz compartilhada. Todas e cada uma delas nos fizeram crescer, mesmo aquela que parecia a mais trivial. Porque cada pergunta vem carregada de matizes, umas com carinho, outras de atenção ou de interesse, e, inclusive, algumas de desafio... Umas foram respondidas, outras não sabíamos como respondê-las, talvez nunca saberemos respondê-las...
A pedagogia de Jesus nos Evangelhos é feita de perguntas.
Jesus é um Deus que pergunta. São inúmeras as vezes em que Ele se aproxima das pessoas e as interroga. Desde o “quê buscais?” no início do evangelho de S. João, passando pelas perguntas na região de Cesaréia de Filipe, “quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”, “e vós, quem dizeis que eu sou?”, até à tríplice interpelação a Pedro, “tu me amas”?
Aquele que é a Verdade, o Caminho e a Vida, também se compõe de perguntas.

Jesus, com sua pedagogia fundada em perguntas, nos coloca diante do mistério de Sua vida e de Suas opções. Responder à pergunta “quem é Ele” é comprometer-se com Ele, é assumir o caminho d’Ele, é arriscar-se n’Ele.
Jesus aproxima-se das pessoas. Não procura convencer, argumentar, ou fazer seguidores à base de discur-sos. Suas perguntas ousadas colocam em crise visões distorcidas, falsas concepções e idéias pré-conce-bidas a respeito d’Ele. Com sua pergunta Jesus provoca uma radical decisão pró ou contra Ele, uma clara opção pró ou contra o Reino.
Um cristão que nunca tenha proposto seriamente esta questão a si mesmo, de uma maneira vital, não está maduro na maneira de viver o seguimento de Jesus Cristo.

Como cristãos nós nos definimos mais pelo perguntar do que pelo responder. “Perguntar” é buscar, é despertar a capacidade de nos deslumbrar diante deste mundo fenomenal que somos nós e diante desta realidade que nos circunda.
A espiritualidade cristã reacende em nós as grandes “interrogações existenciais”:  
“Quem somos nós? – Quê estamos fazendo? –
Por quê estamos fazendo? – Para quem estamos fazendo?...”
A índole interrogatória é traço típico da espiritualidade cristã; o perguntar é ousado; perguntar desafia, tem dose de irreverência; são perguntas de “conversão”, de mudança, que abrem para o futuro, para o novo. A pergunta é movimento, é vida... e suscita resposta viva, criativa, surpreendente... e inesgotável.
Não são perguntas para começar a caminhar, mas para reforçar nosso espírito de aventura e mobilizar nossos recursos interiores na busca do “sentido” de nossa identidade e da missão que realizamos.
Tais perguntas trazem à tona nossas motivações, nossas formas de agir, de amar e de sentir...
A busca é interior, o caminho é pessoal e coletivo, a resposta tem um toque de eleição comunitária.

Desde o início, ainda no paraíso, Deus buscou o ser humano com uma pergunta: “onde estás?”. Deus nos busca continuamente com suas perguntas. Nós somos resposta a essa pergunta primordial.
Igualmente, o ser humano é um amontoado de perguntas, é um ser que pergunta. Com pouco tempo de nascimento e quando vai se abrindo à aventura da vida começam suas perguntas: “por quê?”... um infinidade de “por quês?”
Também somos uma pergunta que fazemos a Deus e esperamos resposta. Quantas gostaríamos de fazê-las a Deus? Mas a resposta só virá quando o nosso coração estiver preparado para escutá-la: sem medo, sem angústias, em atitude de espera e confiança.
“Sê paciente com tudo o que ainda não está resolvido em teu coração... Procura amar tuas própri-as perguntas... Não busques as respostas que não podem ser dadas, porque não serias capaz de vivê-las. E é disto que se trata, de viver tudo. Vive agora as perguntas. Talvez assim, gradativa-mente, sem dar-te conta, possas algum dia viver as respostas” (Rainer María Rilke).

De fato, habitamos nas perguntas. Viver à escuta das interrogações nos mantém despertos no caminho.
São as perguntas que suscitam em nós o assombro frente à riqueza da realidade, a preocupação frente o drama da humanidade, a disposição frente ao futuro..., exigindo-nos assim viver continuamente numa atitude de escuta.

A mediocridade das respostas formatadas paralisam e fecham as portas às novas possibilidades. As perguntas, ao contrário, são o fio de ouro em meio ao cascalho que mobilizam o garimpeiro a buscar sem cansar. As respostas cortam o movimento, atrofiam a curiosidade, matam a criatividade e o espírito de a-ventura; elas impedem a mobilização dos recursos interiores da pessoa na construção do conhecimento, levando-a à apatia e à acomodação.
O momento é de tecer perguntas onde há mais respostas formatadas e fechadas.
Urge, pois, implementar e desenvolver hábitos, processos, que nos ajudem a sermos mais intuitivos através das perguntas que abrem acesso às reservas interiores de criatividade e imaginação, frente aos desafios cotidianos.

A pregunta “quem é Jesus” não pode ser respondida simplesmente com os dogmas.
A resposta deve ser prática, brotar do chão da vida. Nossa vida é a que tem que dizer quem é Jesus Cristo para nós. “Quê diz tua vida de mim?”
Do esforço dos primeiros séculos da Igreja por compreender a Jesus, devemos fazer nossas, não as respostas que deram, mas as perguntas que foram feitas.
A verdadeira pergunta é: “quê é, que significa Jesus Cristo em nossa vida?”  Não basta dizer que cremos em Jesus. É preciso nos perguntar: em quê Jesus cremos e quem é Jesus para nós?

Texto bíblico: Mt. 16,13-20

Na oração: nosso coração se encontra diante da revelação
                 do “eu original”, porque está enraizado na iden-tidade do próprio Jesus (“quem sou eu para vocês?”).
A contemplação da pessoa de Jesus é também desvela-mento do eu “escondido com Cristo em Deus” (Col 3), ou seja, revelação da verdade do eu, onde descobri-mos os traços de nossa própria fisionomia.
Não posso responder a essa pergunta – “Quem é Jesus para mim?” – se não me pergunto ao mesmo tempo: “Quem sou eu, diante do Senhor?” Sem identificação não haverá um encontro profundo com o Senhor.
O encontro comigo mesmo me aproxima do encontro com o Senhor e o encontro com o Senhor revela minha própria identidade.



sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Homilia Dominical - 1o. de março de 2015


TRANSFIGURAR A CAPACIDADE DE ESCUTAR

 

“E uma voz, que saiu da nuvem, disse: ‘Este é o meu Filho amado; escutai o que Ele diz’” (Mc 9,7)

 

O centro do relato da “transfiguração de Jesus” é ocupado pela Voz que vem de uma estranha nuvem, símbolo que a Bíblia usa para nos falar da presença sempre misteriosa de Deus que se manifesta e, ao mesmo tempo, se oculta. A Voz diz estas palavras: “Este é o meu Filho amado; escutai-o”.

Com este relato, Marcos quer indicar que o seguimento implica muito mais que uma simples confissão de fé no Jesus como Messias; os discípulos, no Monte Tabor, também passam por uma transformação: eles devem ser curados da cegueira e surdez espiritual que os impede de ver as exigências do amor e de escutar os apelos que os levam, como Jesus, a uma entrega radical de suas vidas.

 

Subindo ao Tabor interior, também nós seremos transfigurados: através desta experiência nossos olhos e ouvidos do coração se abrirão, capacitando-nos para contemplar a realidade tal como Deus a contempla.

Esta experiência igualmente nos capacita para alcançar também uma percepção diferente das outras pesso-as; não julgaremos mais as pessoas pelas suas aparências externas, mas as veremos com mais profundidade, no coração, como se estivéssemos aprendendo a “ver” com os olhos de Deus; da mesma forma, estaremos mais sensibilizados para escutar os outros com mais atenção, deixando ressoar em nosso interior as vozes que nos chegam das margens. Continuaremos descobrindo que olhar para o mundo e escutar seus clamo-res será um desafio e uma tarefa contínua que vai mais além de uma experiência isolada de encontro divi-no-humano sobre o alto da montanha.

A Transfiguração nos fala da verdade que carregamos dentro de nós, mas também de novos olhos e ouvidos abertos para entrar em sintonia com esta realidade interior.

Sem escuta profunda a vida se desumaniza e o ser humano se automatiza egoísticamente.

A escuta é o caminho da originalidade, é a condição para não se viver na inércia.

A verdadeira sabedoria nasce não do que está acumulado na memória, mas de uma transparente escuta no momento presente, essa simples acolhida que torna sábios os pobres, sensíveis ao sopro de Deus, este Deus sempre livre, sempre presente, desconcertante.

 

Já diziam os antigos:“Fides ex auditu”;  a fé vem pelo ouvido; o próprio Deus deixa-se perceber pelo ouvido; faz-se “audível” para o ser humano.

Dentre os seres vivos criados por Deus, o ser humano é o único capaz de escutar e de falar, porque é o único criado à imagem e semelhança d’Ele, d’Aquele que é a Palavra cheia de verdade e a escuta cheia de ternura. “Deus é a Palavra suprema e o Silêncio infinito”.

Na Sagrada Escritura, o exercício do ouvido, a escuta, é prerrogativa tanto de Deus como do ser humano.

Escutar o “mistério” entranhável e sempre livre de Deus é o caminho para encontrar nossa originalidade, nosso nome, para nos encontrarmos n’Ele, como no melhor eco de nossa oculta beleza.

É Deus mesmo que abre cada manhã os ouvidos dos discípulos e os torna atentos à escuta.

Em toda Palavra de Deus existe sempre um dinamismo que nos des-vela e re-vela nossa verdade original. Voltar a escutar é voltar a ser criança.

Tudo é palavra e silêncio. Tudo no universo vibra, emite, transmite, fala, vive.

E ao mesmo tempo tudo é escuta e percepção.

 

A escuta estabelece a verdadeira relação entre os seguidores e Jesus.

No evangelho de hoje, o apelo à escuta nos interpela com força; é um apelo que brota da nossa própria vida, como abertura à profundidade de uma existência com sentido e horizonte; trata-se de um chamado a escutar uma palavra nova e original e que nos abre a uma dimensão transcendente, sempre apaixonante, de uma relação pessoal com o Criador e com os outros.

Desde nosso nascimento, começamos a viver uma relação com o meio ambiente que implica uma escuta e uma resposta. E assim nossa personalidade humana e espiritual vai se definindo.

No contexto atual, a atitude de escuta é um desafio; inimiga número um da escuta é a pressa e a ansiedade que ela costuma trazer consigo. O ritmo da vida não nos permite “lê-la” com claridade, com a entonação que ela exige e merece. Cremos ter uma riqueza interior que queremos proclamar, e preferimos que nos escutem, mas ao falar não articulamos bem nossa mensagem, desconhecendo que nossa riqueza interior se desperta primordialmente na escuta.

É preciso destravar nossa capacidade de escuta interior, para acolher e discernir as diferentes vozes que ali se fazem presentes. Sem interioridade e sem escuta do próprio coração, nós nos desumanizamos.

 

Educados na escuta interior, estaremos sensibilizados para a escuta da realidade. Permitir que cada realidade fale para nós sua própria linguagem. Isso é ter ouvidos para a escuta.

Aqui não se trata de ser puramente receptivos a algumas idéias, escutar determinadas palavras, senão de escutar com o ouvido do coração, de procurar captar a vida que pulsa no coração do outro. E isto exige uma profundidade que talvez esteja faltando, quando estamos nos movendo na superficialidade da vida.

Além disso, saber escutar o outro é uma simples, mas profunda acolhida humana. Saber escutar é acolher o outro. Há muita carência dessa capacidade em nossa sociedade globalizada, individualizada e sobretudo informatizada ou tecnologizada. Estamos rodeados de aparelhos e não de pessoas; tudo são ruídos e vozerio crônico. Todo o mundo quer falar, expressar-se. Mas falta o interlocutor que escuta sabiamente.

O Evangelho nos quer colocar no caminho de uma verdadeira humanização; daí a insistência em ter uma atitude aberta e acolhedora de escuta.

 

Texto bíblico:  Mc 9,2-10

 

Na oração:  Como restaurar em nós essa capacidade de escutar? A escuta se restaura no Silêncio, na capa-

                     cidade de acolher Aquele que fala no silêncio. Desse prolongado silêncio, acaba-se ouvindo a Palavra da qual brota todas as palavras humanas.

- Tomo consciência daquilo que obstrui os meus ouvidos e os torna “incapazes de prestar atenção”.

- Tomo consciência da superficialidade diante da voz da consciência e da incapacidade de escutar o outro, não deixando ressoar a sua voz no meu coração.

- Tomo consciência de todas as mensagens negativas que transformaram, seduziram e enganaram  meus ouvidos, tornando-os  surdos às mensagens celestes, à Palavra da verdade e da vida.

- Tomo consciência da hipersensibilidade auditiva que me faz reagir bruscamente frente à incompreensão ou me faz sucumbir  frente aos slogans da moda.

 

 

 

 
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