Teológico Pastoral

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sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Bispos emitem mensagem sobre Reforma Política no Brasil
Publicado em: 02/09/2014
Mensagem sobre a Reforma Política
 
A Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, atenta à sua missão evangelizadora e à realidade do Brasil, reafirma sua convicção, como muitos segmentos importantes da sociedade brasileira, de que urge uma séria e profunda Reforma Política no País. Uma verdadeira reforma política melhorará a realidade política e possibilitará a realização de várias outras reformas necessárias ao Brasil, por exemplo a reforma tributária.
Esclarecemos que este Projeto de Lei de Iniciativa Popular pela Reforma Política não está vinculado a nenhum partido político, tão pouco a nenhum candidato a cargos políticos eletivos, embora não haja restrição do apoio de bons políticos do Brasil.
Várias tentativas de reforma política foram feitas no Congresso Nacional e todas foram infrutíferas. Por isto, estamos empenhados numa grande campanha de conscientização e mobilização do povo brasileiro com vistas a subscrever o Projeto de Lei de Iniciativa Popular pela Reforma Política Democrática, nº 6.316 de 2013, organizado por uma Coalizão que reúne uma centena de Entidades organizadas da sociedade civil, como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), o Movimento contra a Corrupção Eleitoral (MCCE) e a Plataforma dos Movimentos Sociais.
O Projeto de Lei de Iniciativa Popular pela Reforma Política Democrática se resume em quatro pontos principais: 1) O financiamento de candidatos; 2) A eleição em dois turnos, um para votar num programa o outro para votar numa pessoa; 3) O aumento de candidatura de mulheres aos cargos eletivos; 4) Regulamentação do Artigo 14 da Constituição com o objetivo de melhorar a participação do povo brasileiro nas decisões mais importantes, através do Projeto de Lei de Iniciativa Popular, do Plebiscito e do Referendo, mesclando a democracia representativa com a democracia participativa.
Durante Semana da Pátria, refletiremos sobre nossa responsabilidade cidadã. Animamos a todas as pessoas de boa vontade a assinarem o Projeto de Lei que, indubitavelmente, mudará e qualificará a política em nosso País. A Coalizão pela Reforma Política e a coordenação do Plebiscito Popular coletarão assinaturas e votos, conjuntamente. Terminada a Semana da Pátria, cada iniciativa continuará o seu caminho.
Trabalharemos até conseguirmos ao menos 1,5 milhões de assinaturas a favor desta Reforma Política.
“No diálogo com o Estado e com a sociedade, a Igreja não tem soluções para todas as questões específicas. Mas, juntamente com as várias forças sociais, acompanha as propostas que melhor correspondam à dignidade da pessoa humana e ao bem comum. Ao fazê-lo, propõe sempre com clareza os valores fundamentais da existência humana, para transmitir convicções que possam depois traduzir-se em ações políticas” (Evangelii Gaudium, 241).
A Nossa Senhora Aparecida, Mãe e Padroeira do Brasil, suplicamos que leve a Jesus as necessidades de todos os brasileiros. E Ele, com toda certeza, nos atenderá. “Fazei tudo o que Ele vos disser” (Jo 2, 5).
Fonte: Comissão Brasileira de Justiça e Paz
 

sábado, 3 de agosto de 2013

Oração do Evagelho dominical - 4 de agosto de 2013

“Há coisas que são mentira, mas que aparecem
                              como verdade; aí se enraíza seu atrativo”.

“... a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (Lc. 12,15)

Sabemos da perene e escorregadia tentação – uma mentira perigosa que aparece como verdade-  de solu-cionar as inseguranças e medos de nosso eu através dos impulsos à cobiça que se aninham em nosso coração. Para Jesus Cristo, a primeira e maior tentação do coração humano é a “cobiça de riqueza”.
Uma vez preso à cobiça, o ser humano caminha, irremediavelmente, para a solidão, para o auto-centramento e desprezo dos outros.
Na parábola de hoje, o rico fazendeiro, no seu monólogo, revela o seu ideal de vida: vida longa, vida assegurada... Em seu horizonte de vida uma terrível solidão: parece não ter esposa, filhos, ou amigos. Não pensa nos camponeses que trabalham em suas terras. Seus verbos preferidos: acumular, armazenar e aumentar seu bem-estar material. Só se preocupa em “amassar riquezas para si”; todo o relato insiste no uso dos pronomes possessivos: minha colheita, meus celeiros, meus bens, minha vida... Ele não se dá conta de que vive fechado em si mesmo, prisioneiro de uma lógica que o desumaniza, esvaziando-o de toda dignidade. Aumenta seus celeiros, mas não sabe ampliar o horizonte de sua vida.
Aumenta sua riqueza, mas diminui e empobrece sua vida. Acumula bens, mas não conhece a amizade, o amor generoso, a alegria e a solidariedade. Não sabe compartilhar, só monopolizar.
Quê há de humano neste tipo de vida? A vida deste rico é um fracasso e uma insensatez, pois sua falsa segurança na posse dos bens vem abaixo. Quem vive centrado  em si mesmo, perde a vida; quem vive para o eu, não é rico diante de Deus.

Podemos dizer que o coração do ser humano é feito de “matéria nobre” e de profundas “ carências existenciais”.  Sua matéria nobre lhe vem de sua capacidade de amar, de sua disposição à comunhão e partilha, de sua abertura à transcendência. Não esqueçamos que o ser humano é imagem de Deus...
Suas “carências” provém de sua limitação criatural, e também de seu pecado. Esses “carências” do coração tomam o nome de insegurança, temor, desconfiança, medo do futuro, da morte...
Quê saída buscar diante da ferida existencial, da insegurança do próprio eu, da indigência do coração?...
Para muitos, o que acalma e apaga essa angústia existencial é a riqueza. Ao se cercarem de muitos bens (sejam materiais, como dinheiro, posses... ou espirituais, como as qualidades pessoais e os saberes), acaba-se toda insegurança, todo medo, qualquer tipo de angústia. Trata-se de um engano nada evidente.
O mal radical está, portanto, na “insaciável cobiça do coração pervertido”.
O engano acontece quando o coração se apega “pulsionalmente” às riquezas até depender delas; nesse caso, elas deixam de ser mediações do Reino para se converter em ídolos do próprio coração. Delas se espera a salvação, e não dos outros e nem de Deus.

O “afeto desordenado” às riquezas se apresenta não somente como problema ético, mas também como problema de fé. A fidelidade ao Deus único fica interditada e o seguimento de Jesus fica fragilizado.
Como todo ídolo, a “riqueza” provoca o fascínio, a adoração e as identificações mais perniciosas.
O apego aos “bens”  apresenta-se como uma das tentações mais poderosas para todo seguidor de Jesus.
A busca da própria segurança é a base da tentação pela “riqueza”.
De fato, o apego idolátrico aos bens tem suas raízes fundadas no pânico produzido pela insegurança.
O dinheiro, os bens, as posses apresentam-se, então, como solo firme sob nossos pés.
Mais ainda: a riqueza é algo mais do que solo firme e apoio; é carapaça protetora, é um objeto interno, corpo do corpo, ou coisa com a “qualidade do eu”. A dinâmica acumulativa, possessiva, própria do apego aos bens, possui toda a força do narcisismo e da auto-afirmação infantil.
Temos medo de “perder pé”; por isso, com a riqueza pensamos agradar e robustecer nosso ego.
Além disso, a riqueza tem um caráter “pegajoso”, possui uma sinistra aderência que, na medida em que mais se fixa, maior vai sendo sua força para atrair novas necessidades.
Finalmente, acaba-se por criar uma dura cortiça que defende e isola a pessoa do entorno e que a aliena numa insensibilidade para com tudo aquilo que não seja sua própria realidade.

É uma espécie de "embriaguez" na qual a alteridade desaparece.
A consequência mais lógica numa pessoa que se habitua a ter tudo ou querer tudo, é que ela chega a bastar-se a si mesma, desprezando ou desvalorizando os outros, inclusive a própria graça do Senhor.
A raiz de tudo é uma profunda auto-suficiência, que, sem dar-se conta, leva-a a considerar-se forte porque tem tudo.
No amor “perverso” aos bens e riquezas, não se trata já de “ter algo”, mas de “ter-se a si mesmo” numa tendência de orientação marcadamente centralizadora. A pessoa fecha-se sobre si mesma, rompendo todo impulso em direção aos outros, pensando conquistar uma segurança. Mas, na realidade, a pessoa está se situando na posição mais insegura que se possa imaginar, pois “se sou o que tenho e o que tenho se perde, então quem sou?” (E. Fromm).

O problema da relação com as riquezas se intensifica se levamos em consideração que, junto a estes fatores pessoais, é preciso acrescentar a influência e a determinação tão fundamental que vem do meio ambiente sócio-cultural. Nosso desejo não é alheio, certamente, às dinâmicas culturais nas quais este necessariamente se desenvolve, cresce e pode encontrar seus objetos de satisfação.
Por isso,  a dinâmica econômica de nossos dias deve ser levada muito em conta à hora de compreender as vias pelas quais circulam nossos vínculos com o dinheiro.
A armadilha de nossa sociedade de consumo está em que não descobrimos que quanto maior capacidade temos de satisfazer necessidades, maior número de novas necessidades nós criamos; e isso, sem possibili-dade alguma de marcar um limite.

Na criação da nova comunidade dos seguidores de Jesus, o compartilhar substitui a acumulação e se apresenta como alternativa àquilo que a sociedade de consumo impõe; aqui está configurada uma das propostas mestras na proclamação do Reino de Deus.
Contra a tendência a querer apropriar-se de tudo como busca de segurança e como defesa hostil diante do outros, Jesus nos convida a compartilhar, como abertura aos outros e como possibilidade para a criação da “nova comunidade” como alternativa às relações interpessoais de opressão e exclusão.
Na partilha, a primitiva tendência egoísta e agressiva dá lugar a uma atitude aberta, acolhedora e bene-volente frente ao outro. Além disso, onde há partilha, há superabundância (Mc. 6,30-46).
Texto bíblico:   Lc. 12,13-21

Na oração: “quê paixão move o meu coração? meu coração
                        está livre?; meus afetos estão ordenados?”
Temos muitas atitudes, posses, idéias, cargos, posições, bens... que consideramos como Vontade de Deus; na realidade é tudo “projeção” de nossos desejos, de nossa vontade, de nós mesmos...
Quê “apegos” estão travando minha vida e impedindo-me aderir a Cristo incondicionalmente?






sexta-feira, 12 de julho de 2013

Oração do Evangelho dominical - 14 de julho de 2013

O BOM SAMARITANO: ícone da ternura evangélica

                                  “E quem é meu próximo” (Lc. 10,29)


Teria sido fácil para Jesus fornecer definições de “próximo”; se não o faz é por-que quer evitar que se considere o “próximo” como um objeto de estudo ou de investigação. Perante a pergunta inicial, Jesus não assume o papel que o escriba lhe propõe e, em vez de dar-lhe a resposta pedida, indica onde deve buscá-la: Jesus quer tirá-lo do mundo do saber para levá-lo ao do fazer.
O ícone do “bom samaritano” apresenta o próximo “em situação”, o pró-ximo concreto, histórico, que interpela e compromete cada um em escolhas de-cisivas, em relação às quais se demonstra se é ou não “próximo” do neces-sitado. Por isso, a interrogação inicial se inverte: já não se trata de perguntar-se “quem é meu próximo?”, mas “de quem eu sou próximo e como eu chego a ser próximo?”  O “próximo” não é somente o outro para mim, mas eu para o outro.
O “próximo”, no sentido expresso pela parábola, não pode nos deixar indiferentes; provoca uma respos-ta, compromete em uma ternura concreta, oblativa, capaz de risco, para socorrer o ferido.
A conclusão da parábola é um programa de vida. Jesus não diz: “agora, sabes, podes ficar tranquilo”. Afirma antes: “Agora vai, e  também tu faze o mesmo”.
Neste ícone, temos a magna carta da ternura como resposta do discipulado e forma de atualização concreta do amor evangélico.

Os personagens da parábola: um homem, assaltantes, um levita, um sacerdote, um samaritano; todos, exceto “um homem”, aparecem designados por sua função social: uns com prestígio e outros no mundo marginalizado (assaltantes, samaritano).
“Um homem”, sem mais especificações, representa cada ser humano, para além de suas conotações de nacionalidade, de nível social, de religião; é cada ser humano necessitado, carente, vítima... A novidade do evangelho consiste precisamente na superação de tais barreiras.
Na parábola, o desconhecido ocupa o centro do relato, visto que todos os demais personagens aparecem em relação com ele: os bandidos o assaltam, despojam, golpeiam e o abandonam; o sacerdote e o levita vêem-no e passam ao largo; o samaritano o vê, comove-se, aproxima-se, cuida dele. Até quando é levado à hospedaria continua sendo o pólo das atenções. Essa organização do movimento no espaço em torno de um homem reduzido à impotência indica seu papel central, mesmo que dentro de sua passividade. Todos os personagens se definem a favor ou contra ele: é assaltado, despojado, espancado, deixado semimorto, comiserado, enfaixado, conduzido, cuidado... De viajante passa a corpo inerte e, abandonado por uns, reencontra vida graças a outro.

O samaritano avista ali, no caminho, um homem, e um homem em perigo de vida; que fosse de outro povo ou outra religião, é irrelevante. O bom samaritano vai além dos dados de ordem social, moral ou religiosa; avista, para além das diferenças, um ser humano igual a ele, e por isso irmão.
Para o sacerdote e para o levita, o homem ferido converte-se em obstáculo a evitar: seguem adiante pelo outro lado. As normas de pureza proibiam-lhes contaminar-se pelo contato com a morte, visto que deviam manter-se puros a fim de participar do culto.
O samaritano não se deixa condicionar pela “prudência” de continuar o caminho, nem pelo medo de se aproximar do ferido; ao contrário, se detém e se envolve na situação do ferido: “Viu-o e teve compaixão” (sentimento que aparece na Bíblia referindo-se somente a Deus e a Jesus); assume o risco do encontro e se deixa interpelar pela necessidade do outro, cuja vida, para ele, conta mais do que prosseguir sua viagem.
Existem, portanto, duas maneiras de ver: permanecer alheio ou comprometer-se.
O sacerdote e o levita não mudam, a não ser passar  pelo outro lado; tal  atitude os faz aliados dos bandidos sob o signo da exclusão: saem do relato sozinhos, limitados a seu projeto, excluindo o outro.
O samaritano “viu-o” e foi afetado pelo que viu; isso evoca já um modo diferente de olhar o outro, não como um estranho ou com indiferença, mas como um “próximo” para servir com amor.
O termo “compaixão” revela um forte compromisso afetivo como “um comprimir-se do coração” e denota uma íntima participação na situação do ferido, um “com-partilhar” que se faz solidariedade.
O samaritano não organiza um socorro à distância, não se afasta em busca de reforços, mas ele mesmo põe mãos à obra, interessando-se pessoalmente pelo ferido e fazendo-se cargo de sua situação: com suas mãos o medica e enfaixa as feridas, o levanta e o carrega sobre sua cavalgadura; caminha ao lado por quilômetros e quilômetros e o entrega ao administrador da pousada.

Há, em todos estes gestos, uma “com-participação”, uma atenção pessoal que exprime a autenticidade da ternura evangélica. O samaritano realiza atos concretos e o faz com ternura transbordante, até ao excesso; ele vai além do simples apelo do dever.
Ninguém poderia ter-lhe pedido tanto. Detendo-se, curando o ferido e conduzindo-o ao lugar de descanso, ele já tinha cumprido seu essencial dever de justiça e podia sentir-se satisfeito. Mas, ele sente a neces-sidade de ir além. Sua ternura é verdadeiramente completa, genuína, sem interesses nem meio-termo: é uma ternura de puro dom, gratuita, uma ternura de benevolência.
Com justiça, os padres da Igreja gostavam de destacar que o primeiro grande Samaritano fora o Filho de Deus feito homem. Ele, em primeiro lugar, se deteve misericordiosamente junto a nós pecadores, descen-do de sua “cavalgadura” e fazendo-se nosso companheiro de viagem.

A “opção de vida” em favor do próximo é o indicador de uma vida aberta aos outros e comprometida na construção de uma convivência social na qual predomine a ternura e não a dureza de coração, o respeito à vida e o amor e não a violência e a exclusão.
Segundo a teóloga Maria José Torres “a parábola do samaritano tem consequências ético-políticas”.
Nossa compaixão deve estar perpassada de indignação ética, porque não há compaixão sem justiça. Daí apostar pelo modelo compassivo do cuidado.
Para voltar às raízes da fé, devemos reivindicar a compaixão como sinal de identidade do humano e do divino, porque parecer-se com Deus implica ser e atuar compassivamente. Deus tem entranhas de mãe e se comove por seus filhos mais sofredores, vítimas da maldade humana.
A parábola é uma exortação à misericórdia e à denúncia. Meu próximo não é só o que merece minha ajuda, mas também aquele que merece ser denunciado porque dá uma volta e deixa as coisas como estão.

Texto bíblico:   Lc 10,25-37

Na oração: Os personagens da parábola podem servir-nos de espelhos: talvez possamos sentir-nos como o
                     escriba cético que pergunta: “Quê devo fazer?”, sem contudo, comprometer nossa vida; ou como o sacerdote e o levita, tão preocupados em chegar ao culto que não nos sobra tempo nem atenção para o homem ferido jogado na sarjeta. Os três aparecem distraídos e dispersos em seus próprios projetos, planos, ocupações ou reflexões, querendo conhecer, no plano teológico, quem é o próximo, cumprir a Lei, chegar ao Templo, não contaminar-se com um cadáver...
No entanto, tudo isso os impede de viver centrados no essencial que, naquele momento, era atender ao homem ferido. O samaritano, ao contrário, aparece descentrado de si mesmo; é todo atenção solícita e eficaz no serviço do desconhecido que encontra em seu caminho, e isso o faz entrar em sintonia com o desejo e o coração de Deus.


sábado, 6 de julho de 2013

Oração do Evangelho de 07de julho de 2013

A PAIXÃO PELA MISSÃO NAS PERIFERIAS


“A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Lc. 10,2)

Em Jesus Cristo, Deus nos salva e, sempre respeitando nossa condição de homens e mulheres livres, nos convida a participar de sua obra: a construção do Seu Reinado neste mundo marcado pela dor e exclusão.
Deus convoca pessoas que tem espírito de audácia, de energia, de criatividade, de luta, de participa-ção, porque Ele não nos deu espírito de timidez, de covardia, de fuga... Nesse chamado dirigido a todos, cada um tem uma missão única, irrepetível e intransferível. O que está em jogo é a “messe do Senhor”:  “para quê e para quem trabalhamos?”; “o que nos motiva e nos inspira a trabalhar em favor do Reino?”
Para realizar essa missão, Deus nos cumula de qualidades necessárias, capacidades, criatividade..., enche o nosso coração de sonhos, projetos, desejos..., nos dá a liberdade que nos ajuda a construir o novo, a buscar o melhor, a realizar o maior bem, a tomar decisões sábias.
Mais ainda, Ele nos faz co-criadores, ou seja, colaboradores e criativos com Ele.
Trata-se de um chamado que “afeta” todo o nosso ser, com toda a nossa bagagem de inteligência, afetividade, qualidades e defeitos, influências e inclinações;  com todas as possibilidades que a vida nos oferece neste momento em que vivemos, diante das necessidades do mundo e da humanidade.

Na vivência desta missão, devemos ter sempre diante dos nossos olhos a pessoa de Jesus Cristo. Com sua vida e sua palavra, Ele descentraliza o mundo a partir da periferia, terra privilegiada, de onde podemos contemplar a história e a própria humanidade.
Cada passo na direção das periferias do mundo também é um passo contemplativo em busca do encontro com o Senhor da História, que nos chama de “baixo” e de “fora”.
Tendo Jesus se encarnado para sempre nas “periferias” deste mundo, porque deseja assumir toda a histó-ria a partir daí, também nós, seus seguidores, temos de voltar constantemente o olhar para as “novas periferias”, a partir de onde Ele continua nos questionando, nos chamando e nos enviando.
Isto quer dizer que o “centro” da história teve seu aparecimento na “periferia”.
A vida de Jesus é “ex-cêntrica”, porque não combina nem se ajusta com a construção social de todos aqueles que controlam o mundo a partir do centro.
Portanto, Jesus descentraliza a história para sempre e situa o surgimento da salvação nas terras excluídas.
O anúncio e a ação de Jesus provocam um deslocamento geográfico e social. O centro da história já não se encontra em Roma, nem em Jerusalém, mas sim na “margem”. Todo aquele que pretende encontrar-se com Jesus terá de voltar a cabeça e peregrinar em direção às massas excluídas.

Uma comunidade cristã não é aquela que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquela que, movida por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí, “esvaziando-se”, participa ativamente da solidariedade de Deus com a humanidade, que é o centro da salvação.
A paixão pelo Reino mobiliza a pessoa a levar adiante a missão, a ir gratuitamente aos lugares do mundo onde há mais necessidade e ali realizar obras duradouras de maior proveito e fruto.
Para realizar esta nobre missão, não podemos permanecer sentados. Seguir Jesus exige uma dinâmica continuada, colocar-nos a caminho em direção às margens. Nada se pode comunicar a partir de uma cômoda instalação pessoal. A disponibilidade, o despojamento e a mobilidade são exigências básicas.
Corremos o risco de viver em mundos-bolha; podemos construir nossa vida encapsulada em espaços feitos de hábito e segurança, convivendo com pessoas semelhantes a nós e dentro de situações estáveis. É difícil romper e sair do terreno conhecido, deixar o convencional. Tudo parece conspirar para que nos mantenhamos dentro dos limites politicamente corretos. Todos podemos terminar estabelecendo fron-teiras vitais e sociais impermeáveis ao diferente.
Se isso acontece, acabamos tendo perspectivas pequenas, visões atrofiadas e horizontes limitados, ignorando um mundo amplo, complexo e cheio de surpresas. Muitas vezes “vemos” o diferente, mas só como notícia, como o olhar do espectador que sabe das “coisas que acontecem”, mas não sente e nem se compadece por elas.

O Evangelho de hoje nos convida a contemplar o mundo em suas fraturas e em suas possibilidades,  partindo da consciência de uma fraternidade ampla e do impulso a uma comunhão universal.
Só quando alguém começa a abrir-se, a remover-se por dentro, a “sair de si”, começa também a descobrir novos rostos, histórias e vivências, começa a pensar em círculos mais amplos e mais distantes, sente o im-pulso para o encontro e o compromisso com pessoas que estão em situações desumanizantes, passa a ter uma perspectiva diferente, começa a compadecer-se pelas feridas profundas que atravessam nosso mundo.
Aproximar-se das “periferias existenciais” é fazer como Moisés: descalçar-se frente a este terreno sagrado. A atitude de quem se aproxima destes contextos de exclusão não pode ser a do “salvador do mundo” que pensa que vai fazer milagres, nem a do turista que passa e registra tal realidade e não se deixa afetar pela dor alheia. Uma pessoa pode passar por diferentes lugares sem que estes lugares lhe deixem pegadas; ela pode tocar a superfície das coisas e das vidas sem que sua memória fique afetada.
Então não há encontro nem aprendizagem. Para que haja verdadeiro encontro, o deslocamento ex-põe quem se desloca, deixa-o vulnerável e “contaminado” pela realidade que encontrou. Quando alguém se desloca e se aproxima de realidades diferentes, é para encontrar, encontrar-se e aprender.

Encontrar outras vidas, outras histórias, outras situações…; escutar outros relatos que trazem muita luz para a nossa própria vida. Olhar desde um horizonte mais amplo, ajuda a relativizar nossos próprios abso-lutos e compreender um pouco melhor o valor das coisas. Escutar de tal maneira que o que ouvimos penetra na nossa própria vida; isso significa implicar-nos afetivamente, relacionar-nos com pessoas, não com etiquetas. Acolher na nossa própria vida outras vidas; abrir espaços para que as histórias dos excluí-dos encontrem morada nas nossas entranhas, na nossa memória e no nosso coração.
O encontro com o diferente possibilita também o encontro consigo mesmo, ou seja, encontrar a própria verdade. Isso implica em se perguntar pelo possível, pelo que deseja construir, viver de outra maneira, atuar conforme os valores que não estão em voga; implica também que se perguntar quê missão lhe toca a cada um viver neste mundo complexo e tantas vezes ferido.
Enfim, aprender, ou seja, carregar a própria história de um horizonte diferente, no qual cabem outras possibilidades e outras responsabilidades. Descobrir uma perspectiva mais ampla que ajude a formular melhor o sentido da própria vida.

O chamado e o envio de Jesus mobiliza  e expande a pessoa na direção dos outros; ela é convocada a “en-carregar-se dos outros”, encarregar-se das obras que solucionem os problemas das “maiorias excluídas”. Isso é o que significa paixão pelo Reino, paixão por levar adiante a missão, paixão por se fazer presente nas fronteiras (que não são apenas geográficas, sobretudo existenciais), ali onde os desafios são maiores, onde há mais necessidade e onde se espera maiores frutos…
Ante o clamor que vem da “margem”, como não sentir compaixão e solidariedade para com os “perde-dores” da história? A necessidade de olhar o excluído e de sentir sua exclusão como uma interpelação e um chamado, não é para nós moda nem sectarismo, mas o núcleo mesmo de nossa experiência espiritual tal como aparece no Evangelho.
Somos chamados a viver a solidariedade como um estilo de vida, fundado no modo de viver de Jesus.
A solidariedade significa encontrar-se com o “o mundo do sofrimento, da injustiça, da fome... e não ficar indiferente”. A solidariedade que nasce da compaixão leva a reconhecer no outro uma dignidade e uma capacidade criativa de superar sua situação.
Isso pede de todos nós uma atitude de abertura ao outro, o que implica colocar-nos em seu lugar, deixar-nos questionar e desinstalar por ele... Importa, pois, re-descobrir com urgência a solidaridade como valor ético e como hábito permanente de vida.
A certeza de que trabalhamos na “messe do Senhor” nos faz superar o medo de romper paradigmas e de vencer naturais resistências frente à mudança, bem como o não estar apegados ao costumeiro e rotineiro.

Texto bíblico: Lc 10,1-12.17-20

Na oração:  diante de Deus responda: como você vive  hoje sua missão na família, no trabalho, no seu ambi-
                          ente, na sua comunidade? Que sentido você quer dar à sua própria vida?... em quê gastar suas
                          forças, capacidades?  Com quê profundidade as “periferias existenciais” lhe afetam.

                            


quinta-feira, 27 de junho de 2013

Oração do texto do Evangelho - 30 de junho de 2013

AUTORIDADE A SERVIÇO DA VIDA


“Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo o que tu ligares na terra...” (Mt. 16,19)

O texto nos ajuda a ler nossa vida. Afirma-se nossa identidade; e a identidade de uma pessoa é dada por aquilo que é sólido, consistente... no seu interior, que não se desfaz com as adversidades do mundo no qual vivemos (crises, fracassos...).
Toda pessoa possui dentro de si uma profundidade que é seu mistério íntimo e pessoal.
 “Viver em profundidade” significa “entrar” no âmago da própria vida, “descer” até às fontes do próprio ser, até às raízes mais profundas.
A própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que cada pessoa tem, para encontrar segurança e caminhar na vida superando as dificuldades e os inevitáveis golpes da luta pela vida. É no “eu mais profundo”  que as forças vitais se acham disponíveis para ajudar a pessoa a crescer dia-a-dia, tornando-a aquilo para o qual foi chamada a ser.
A oração é a chave interior que faz a pessoa chegar até o próprio “eu original”, aquele lugar santo, intocável, onde reside não só o lado mais positivo de si mesma, mas o próprio Deus. Este é o nível da graça, da gratuidade, da abundância, onde a pessoa mergulha no silêncio, à escuta de todo o seu ser.

Temos em nossas mãos as chaves da vida. O que fazemos com elas? Podemos abrir ou fechar, ligar ou desligar, atar ou desatar.... Ter a chave da vida: abrir ou fechar as portas do futuro, das relações, dos sonhos, da missão... Dar direção à vida. Atar e desatar os nós da vida.... Aqui está o grande desafio: abrir-se ou fechar-se. Abrir-se à vida, ao novo, ao outro, ao desafiante ou diferente... ou fechar-se...
Deus confiou e colocou em nossas mãos a chave da vida. Ele não impõe, não obriga. Corre o risco de nos criar livres. Aqui está a grandeza do ser humano: optar por uma vida aberta ou fechada, ser nó ou desatar, ligar ou desligar, expandir ou retrair...
Sempre há o perigo de construir, dentro de nós, um condomínio onde portas se fecham, chaves se perdem, segredos são esquecidos... e, com isso, mergulhamos na mais profunda solidão.

Pior ainda é quando confundimos o “poder das chaves” com a “chave do poder”. Quem tem a chave tem o poder.
 “Ter poder”: esta expressão ecoa forte no coração humano. O poder deslumbra, ofusca e pode facilmente se tornar o centro da identidade de uma pessoa. O poder é objeto de desejo de extraordinária magnitu-de e fascínio para o ser humano. Seu brilho encanta e seduz; sua proposta é extremamente atraente; para muitos, ele é a suprema ambição. Não há ser humano que não tenha sido tentado pelo canto desta sereia.
O coração humano sofre ao ver-se dominado por este desejo de poder que intoxica suas aspirações mais profundas de comunhão e solidariedade. A vida se torna uma arena de disputas. Talvez não exista relação mais ambivalente que aquela existente entre a pessoa e o poder. Os relacionamentos são balizados, tanto no espaço institucional como nos encontros interpessoais, pela disputa do poder; o exercício do poder se expressa nas atitudes de dominar, manipular, subjugar e definir tudo segundo os próprios interesses.
A perversidade do coração humano encontra no exercício do poder o campo mais propício para a reve-lação de suas mazelas, autoritarismos, vaidades... Em nome do poder gera-se a morte, a divisão, a solidão.

Nenhum exercício do poder é evangélico. Não há nada mais contrário à mensagem de Jesus que o poder. Jesus não transfere “poder” a Pedro; reforça nele a liderança para o cuidado e o serviço aos outros.
Nenhum ser humano é mais que outro, nem está acima do outro. “Não chameis a ninguém de pai, não chameis a ninguém chefe, não chameis a ninguém senhor, porque todos vós sois irmãos”. A única autoridade que admite é o serviço.
Jesus não exerceu poder porque o poder nunca é mediação para a libertação do ser humano (seja poder político, religioso, ou qualquer outra expressão de poder).
Jesus despoja-se do poder; Ele tem autoridade: “ensinava-lhes com autoridade e não como os escribas”. Sua autoridade é  caminho para o serviço e a promoção da vida.
Por isso a autoridade de Jesus não tem nada a ver com o poder que domina ou a liderança que se impõe.
Jesus tem “autoridade”  porque o “centro” está no outro; Ele veio para servir.
Quem tem “poder”, ao contrário, o centro está em si mesmo; por isso é que toda expressão de poder é violenta, exclui, decide pelo outro...
A palavra “autoridade” vem do verbo latino “augere”, que significa literalmente: aumentar, acrescentar, fazer crescer, dar vigor, robustecer, sustentar, elevar, levantar o outro, colocá-lo de pé, impulsioná-lo para frente... É a qualidade, a virtude e a força que serve para apoiar, para alentar, para ajudar as pessoas a serem elas mesmas, para fazê-las crescer, desenvolvendo suas próprias potencialidades.
“Autoridade” significa recuperar a autoria, devolver a autonomia àquele que está impedido de op-tar e de fazer seu caminho. Nesse sentido, a autoridade nunca é perigosa para a pessoa, jamais é impo-sição ou atentado contra sua legítima autonomia ou liberdade. A autoridade é essencialmente amor.

Também o exercício da autoridade deve ser medido pela palavra e pela obra de Jesus Cristo. E não pode ser de outra maneira, já que, se a origem da autoridade na Igreja é divina, também deveria ser “divina” o modo de exercê-la. Se toda autoridade provém de Cristo, deveria ser exercida à maneira como Cristo a exerceu, e isto vale tanto para aqueles que detém uma autoridade instituída como para aqueles que, devido às suas qualidades e carismas, exercem, de fato, autoridade de serviço nas comunidades cristãs.
Neste “como” se exerce e deve ser exercida a autoridade na Igreja está o desafio que as comunidades cristãs devem assumir.
O Evangelho de hoje é claro quanto à maneira como se deve exercer a autoridade: a partir do serviço. Aquele que serve não domina, convertendo-se no centro, mas anima e integra o diferente. Aquele que serve, despoja-se de seus interesses privados e investe sua vida em benefício de todos.
Isto significa que todos aqueles que exercem a autoridade hão de voltar sempre ao manancial de onde brota o autêntico ser da Igreja, que é a palavra e a ação de Jesus. Não deve existir autoridade na Igreja que esteja por cima da ação do Espírito; ela não deve buscar outra coisa a não ser a vinculação de todos os membros da Igreja no amor e no serviço mútuo. Uma autoridade que se desvincula do “carisma de autoridade” do Espírito tende sempre a converter a instituição em um fim, esquecendo que só pode ser justificada na medida em que serve à obra do Espírito.
A autoridade deve ser exercida no marco da visão de Igreja que o Vaticano II nos deixou, ou seja, potenciar a comunhão. É urgente que o exercício da autoridade na Igreja vá assumindo os traços caracte-rísticos de uma Igreja de comunhão, se queremos ser fiéis ao “modo de proceder” de Jesus.

Texto bíblico:  Mt. 16,13-19

Na oração: Muitos caminhos conduzem à própria interioridade. A oração é a chave de acesso; ela é esse silen-
cioso exercício de deixar que Deus me habite para que eu possa abrir as portas do coração e jane-
las da mente àqueles com quem me encontro.
Onde o Deus de Jesus tem liberdade de atuar, ali desaparece todo resquício de poder que desunamiza.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Oração do Evangelho dominical

SEGUIMENTO: dizer “sim” à pergunta que vem das entranhas

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Lc. 9,20)


Jesus, ao longo do percurso de sua vida pública, revela-se como uma “presença instigante”, ou seja, com suas “perguntas” ajuda cada pessoa a des-velar e aprofundar sua vivência no seguimento, a descrever seus “estados de ânimo”, a vislumbrar o sentido daquilo que estão buscando...
A originalidade da presença de Jesus não consiste em comunicar uma doutrina, uma teologia, uma moral... nem oferecer “respostas prontas”, mas em ser “pro-vocador” das grandes questões existenciais e desafia-doras dirigidas a cada um, possibilitando-o acesso às reservas interiores de criatividade e imaginação.
Mais ainda: a presença “pro-vocativa” de Jesus reacende no discípulo este atributo tão humano, que é a capacidade de questionar-se para buscar um sentido para a própria existência. As perguntas feitas pelo próprio Jesus  colocam o seu seguidor em  contínua busca, sintetizada na expressão “buscar e encontrar a Vontade de Deus”. São perguntas que o abrem para o futuro, para o novo, para uma decisão...

A pergunta é movimento, é vida... e suscita resposta viva, criativa, surpreendente... e inesgotável.
De fato, habitamos nas perguntas. Viver à escuta das interrogações nos mantém despertos no caminho.
São as perguntas que suscitam em nós o assombro frente à realidade interior e à riqueza da realidade exterior, exigindo-nos assim viver continuamente numa atitude de escuta. Com as perguntas fazemos história, e a história é abertura para a aventura. “Perguntar é aventurar-se”.
A pergunta nos faz descobrir a grandeza no pequeno e o mistério naquilo que é óbvio; ela nos faz ficar admirados pela percepção do extraordinário presente naquilo que é cotidiano.
A mediocridade das respostas formatadas paralisam e fecham as portas às novas possibilidades. As perguntas, ao contrário, são o fio de ouro em meio ao cascalho que mobilizam o garimpeiro a buscar sem cansar. As respostas cortam o movimento, atrofiam a curiosidade, matam a criatividade e o espírito de aventura; elas impedem a mobilização dos recursos interiores da pessoa na construção de seu projeto de vida, levando-a à apatia e à acomodação.

Questionar-se é provocar a interioridade e descobrir-se na interioridade. Questionar-se é ser profundo, é tocar a intimidade mais sagrada de si mesmo, é captar a efervescência criativa da existência.
Por isso, questionar-se é reconhecer-se como pessoa profunda e não superficial; inquietar-se é sair do imobilismo tradicional para assumir o potencial humano criativo.
Questionar-se é um gesto ousado para despertar o sentido da vida pessoal, para buscar um objetivo mais sério, é ser mais humano. Quando a pessoa não se questiona, é porque prefere o desânimo, a acomodação.
O ser humano deve perguntar-se sempre a respeito da vida, da missão, do futuro,... Por isso, interrogar-se é possuir sabedoria, ciência, arte, ética.
Perguntar-se também é um fenômeno inteligente para reativar as decisões pessoais.

É das profundezas de nossas entranhas que nascem as “perguntas” existenciais mais decisivas e inquieta-doras: quê devo fazer? quê estado de vida assumir? quê opções concretas viver? quais valores internalizar?...
Em nosso contexto atual, somos constantemente empurrados para fora de nosso ser mais interior, e incentivados a procurar “respostas” em vez de ouvir as “perguntas”. Não fomos educados a elaborar perguntas, mas quase que somente a conservar respostas.
Introjetamos respostas de perguntas que não foram feitas.
Muitas vezes procuramos, sem descanso, por respostas, indo de porta a porta, de livro a livro ou de mestre a mestre, sem termos escutado com cuidado e atenção as “perguntas” do interior.
“A tarefa do sábio é enredar-se em perguntas, desvencilhar-se de respostas”  (Nilton Bonder)
É lógico que as respostas são essenciais na vida, mas elas podem bloquear a capacidade criativa e o dinamismo da vida de cada um, fechando-nos num ciclo enfadonho de rotinas e ritualismos.
Quantas vezes nos surpreendemos fazendo perguntas existenciais para nós mesmos: quem somos? para onde vamos? tem sentido o que fazemos?...

Nós nos aproximamos da verdade graças às nossas perguntas.
As perguntas são, às vezes, mais importantes que as respostas, porque as respostas passam. E o que em um dado momento é uma boa resposta, pode não ser depois. É a pergunta que permanece.
E a pergunta é esta fome de verdade que nos faz escavar por dentro. Uma pergunta é como uma ferra-menta que nos permite escavar nosso poço interior. E cada golpe nos aproxima da fonte. Cada questão profunda nos aproxima da resposta. A resposta é a vida, é a fonte que jorra do fundo do poço.

Se nossas questões, nossos problemas, nossas perguntas existenciais não são testados e amadurecidos na oração e na solidão silenciosa, não é realista esperar por respostas verdadeiramente nossas.
Quantas pessoas podem dizer que suas decisões são realmente suas!
Afirma o poeta Rilke: “Quero pedir-lhe ao máximo... para que seja paciente com tudo o que não está resolvido em seu coração e que tente amar as perguntas por si mesmas...
Não busque respostas que não lhe podem ser dadas agora, pois não seria capaz de vivê-las”.

A Pedagogia de Jesus, portanto, se constitui numa atividade interrogante, que muitas vezes incomoda nossos “hábitos normóticos” de viver a vida cristã.
Sua pedagogia nos coloca diante do mistério das coisas, das pessoas, dos fatos, da criação... Por isso, em toda resposta, por mais objetiva que seja, ainda resta o inexplicável. Em toda clareza persistem as sombras, em toda convicção permanece uma dúvida.

O caminho de Jesus é um caminho de perguntas, um convite a situar-se como discípulo e  caminhar com o coração aberto a novas perguntas.
A resposta à pergunta de Jesus (“e vós, quem dizeis que eu sou?”) implica a adesão à pessoa d’Ele e ao seu projeto, o Reino; signfica fazer o caminho com Ele, colocar-se onde sempre se colocou, na margem, na periferia... Isso acarreta oposição, perseguição, cruz.
Tomar a Cruz significa prontidão, estar preparado...
A pergunta de Jesus – que Lucas apresenta em um contexto de oração – é uma pergunta expansiva e nos afeta a todos nós, seguidores d’Ele: É uma pergunta onde não valem respostas secas (“um profeta”) nem respostas aprendidas (teologicamente corretas), porque remetem à vivência pessoal e única de cada um. Quem é Jesus para mim? Pergunta instigante que nos ajuda a captar a originalidade de Sua vida, a escutar a novidade de Seu chamado, a deixar-nos atrair pelo Seu projeto, contagiar-nos por Sua liberdade, empenharmos por viver seu caminho.
Cada um de nós deve se colocar diante de Jesus, deixar-se olhar diretamente por Ele e escutar, a partir do mais profundo de si mesmo, Sua pergunta: “Quem sou Eu realmente para você?”
A esta pergunta responde-se mais com a vida que com palavras sublimes.
Texto bíblico:  Lc. 9,18-24

Na oração: Dá-nos cada dia, uma pergunta que nos
                         escave e que nos aproxime de Ti! De Ti que és a Fonte, o Pai de nossa inteligência, de Ti que colocaste em nós este desejo de verdade.



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