segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Homilia Dominical - 02 de Outubro de 2016

SOMOS SERES DE GRATUIDADE


“Somos simples servidores; fizemos o que devíamos fazer” (lc 17,10)
  
O evangelho de hoje nos propõe uma atitude que, à primeira vista, parece inaceitável: o empregado não deve reclamar quando, depois de todo o serviço no campo, em vez de ganhar elogio, ele ainda deve servir o jantar. Ele é um simples servidor do Reino, tem de fazer seu serviço, sem discutir.
Mas a intenção de Jesus é outra: Ele aponta para a dedicação integral no servir. A parábola desmascara a atitude daquele que, no serviço do Reino, busca seus próprios interesses, alimenta sua vaidade e busca ser o centro das atenções. Quem não gosta de receber elogios pelo seu serviço ao Reino? 
No entanto, trabalhar para buscar o louvor, o interesse próprio, o lucro, o reconhecimento, a fama, o poder... esvaziam o sentido da missão em favor da evangelização, pois são próprios de uma mentalidade calculista e materialista da sociedade em que vivemos, que procura compensação em tudo o que se faz. Na perspectiva de Deus, o fundamental é ativar o espírito de serviço e disponibilidade, que nunca poderá ser pago. Quem vive no espírito de comunhão nunca achará que está fazendo demais para os outros.

Generosidade, gratuidade, doação: palavras quase desconhecidas do nosso vocabulário e em nosso contexto social. Mas são elas que nos levam em direção aos outros, libertando-nos de nosso pequeno eu. São elas que nos afastam da mesquinhez, da vaidade, do egoísmo, da busca do “próprio amor, querer e interesse”. Por serem mais afetivas, mais espontâneas, ligadas ao coração, elas revelam-se na ação, não em função de um mandato, de uma lei, de um interesse..., mas unicamente de acordo com as exigências do amor, da solidariedade...
São elas que alargam o nosso coração até dilatar-nos às dimensões do universo, rompendo nossos estreitos limites e lançando-nos a compromissos mais profundos. Sentimo-nos livres para qualquer desafio e cada nova entrega é uma libertação maior: são novas oportunidades de serviço, de maior aproximação d’Aquele  que veio, não para ser servido, mas para servir e para dar sua vida pelo mundo.

 “Somos simples servidores”. Em algumas traduções da bíblia encontramos: “Somos servos inúteis”. Tal tradução é muito limitada, pois fomenta a acomodação, além de contraditória, pois servo inútil não serve. Servindo com simplicidade, não em função de compensações egoístas, mas em função da retidão, da fideli-dade e da gratuidade, seremos indispensáveis para o projeto de Deus.
Esta é a grandeza e recompensa do servidor no grande trabalho que realiza em favor do Reino: ultrapassar-se sempre, mas no amor; o êxito? entregue-o a Deus!
Afinal, é o Senhor quem realiza em nós o querer e o fazer, para além de nossa boa disposição (Fil. 2,13).
A grandeza, a dignidade, a capacidade redentora de toda atividade em favor dos outros  provém do fato de ser vivido numa profunda união pessoal com Cristo e com o desejo intenso de que nossa ação esteja em sintonia com a vontade e a glória do Pai, e não com as nossas buscas de compensações.

O chamado de Jesus é para “co-laborar”, para trabalhar com Ele; e deste chamado ninguém é excluído, porque Ele abriu essa possibilidade para todos (“chama todos e cada um em particular”). Qualquer que seja o trabalho , ele se define pelo afeto pessoal a Jesus, pela identificação com seu projeto libertador.
Por isso, é decisivo algumas indicações que contribuem para fazer do serviço ao Reino uma “experiência espiritual”: a pureza de motivações (por que faço isso? para quem faço?), a capacidade de “contemplar”, o crescer em gratuidade e a relativização de compensações, o deixar-se ajudar, a capacidade de agradecer...
A atitude de gratidão (consciência viva daquilo que cada dia nos é dado gratuitamente) nos motiva a viver o trabalho como serviço, libertando-o radicalmente de suas dimensões de rotina, de carga, e esvaziando-o de toda pretensão egoísta.
Quando vivemos nosso trabalho a partir da gratidão, o esforço que o mesmo trabalho exige brota de um modo mais natural, mais espontâneo...; por isso, “cansa” menos, “desgasta” menos...
Se vivemos a partir da gratidão, ficamos menos “dependentes” da compensação que os outros poderiam dar à nossa entrega ou ao nosso serviço. Como dizia S. Inácio aos estudantes de Coimbra, “são outros os soldos” que nos compensam.

Uma tentação sutil, presente em todos nós, é esperar reconhecimento e até elogios das pessoas pelo ser-viço prestado. Quem cai nesta tentação, passa a necessitar deste tipo de gratificação para manter seu entu-siasmo e seu élan apostólico. Fica a impressão que, no apostolado, ao invés de buscar agradar a Deus, busca-se recompensas humanas. Quando não há elogios e reconhecimentos explícitos, interpreta-se isso como uma ingratidão e uma falta de valorização, provocando uma baixa na própria motivação e entrega.
A verdadeira maturidade espiritual coincide com o sentido da gratuidade, ou seja, ajustar-se ao modo de agir de Deus, superando todo auto-centramento e todo voluntarismo; quem assim vive experimenta o consolo de sentir-se amado, perdoado e chamado por Deus, pois “o ser humano é fundamentalmente um ser de gratuidade”.
A gratuidade só pode ser vivida equilibradamente  em toda sua profundidade e intensidade por aquele que  é plenamente consciente de sua pobreza e indignidade radical, por aquele que, por ter-se sentido pecador e amado ao mesmo tempo, não deseja ser nem melhor nem mais perfeito, senão mais filho(a) de Deus pelo compromisso e doação.
E, precisamente movido pelo amor filial, deseja ativar todos os seus talentos e recursos, até o extremo de suas possibilidades, com o desejo de só agradar a Deus que tanto lhe ama.
A gratuidade, portanto, é o fruto maduro, resultado espontâneo do consolo do perdão e do amor, que habilita o ser humano a entrar no fluxo da ação salvífica do próprio Deus.

E esta conversão à gratuidade possui uma dupla dimensão:
        - é abandono da confiança em si mesmo e esvaziamento do culto ao próprio eu.
A pessoa que confia em seu próprio esforço para se projetar e brilhar, sem abrir espaço à graça de Deus, vê-se condenada à esterilidade, experimenta a aridez interior, a insatisfação de quem se empenha inútil-mente, a angústia de quem se esforça sem conseguir a alegria da comunhão, e o desamparo de quem se vê triste, só e desolado.
Eis o que significa “gratuidade”: cair na conta de que tudo é dom e graça de Deus, que as boas obras, por mínimas que sejam, são um presente que Deus lhe concede poder realizá-las, que todo trabalho que se faça (mais ou menos importante, mais público ou mais escondido, com ou sem compensações...) é uma maneira pessoal de co-laborar com Aquele que fez de sua vida uma entrega por pura gratuidade.

Texto bíblico:   Lc. 17, 5-10

Na oração: Quantas dádivas! Sobrevivemos e
                   crescemos graças a um cem número de valiosos dons; e a natureza é um canto perma-nente ao Criador que nela se anuncia e espelha – ela é desdobramento de um amor sem limites.
Ao ver-se beneficiado, há quem exclame: “Não precisava tanto!”
Seja você assim. Você participa dessa misteriosa gratuidade.  Abra os olhos para essa diversidade a lembrar que as portas para ser e amar estão sempre abertas.
Familiarizado com a dádiva, seja eco permanente da gratidão” (Frei Cláudio Van Balen).
- Seu “serviço apostólico” na comunidade: pura gratuidade ou busca de compensações e elogios?


Homilia Dominical - 25 de Setembro de 2016

UMA PORTA E UM GRANDE ABISMO


“Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, ficava sentado no chão junto à porta do rico”(Lc 16,20)

Lucas, mais uma vez, nos introduz no tema de ricos e pobres, que, com esta parábola, alcança sua altura suprema. Trata-se de uma parábola forte, clara e inquietante, que corta a respiração e nos situa, a partir de Deus, na dinâmica das relações humanas. Deixar que a parábola se explique, que nos fale, que nos questi-one e que ilumine nossa vida, essa é a melhor atitude diante dela.
Este é o tema: um rico petrificado e fechado em sua riqueza, se apodrece com ela, ou seja, perde sua humanidade e se condena, não porque tenha feito coisas más, senão porque estava cego e não viu o pobre à sua porta. É, sem dúvida, uma parábola de nossa sociedade. Aqui é claro: há um “Mundo Epulón” que esbanja os bens reais da vida, enquanto à porta da casa se amontoam pobres e mais pobres.
Nesta parábola Jesus desmascara e denuncia, com olhar penetrante, a realidade cruel da Galileia e também a de nosso mundo atual.

A primeira parte da narração fala de um “rico” poderoso. Suas “vestes finas e elegantes”, indica luxo e ostentação. Só pensa em banquetes suntuosos todos os dias.
O rico não tem nome, pois não tem identidade humana. Não é ninguém. “Era tão pobre que só tinha riqueza”. Sua vida, vazia de amor solidário, é um fracasso.
Muito perto, junto à porta de sua mansão, está estendido um “mendigo”. Não está coberto de linho e púrpura, mas de feridas repugnantes. Não sabe o que é um festim; não lhe dão nem do que cai da mesa do rico para saciar sua fome. Só alguns cachorros de rua se aproximam para lamber suas feridas. Não tem ninguém. Não possui nada. Só um nome cheio de promessas: “Lázaro”, que significa “Deus é ajuda”.
O pobre está fora da porta, rodeado pelos cachorros da rua, mas só a uns passos da mesa do rico, que desperdiça comida em sua casa. O rico está dentro de casa, poucos metros os separam, mas há um abismo entre eles; não há palavras, não acontece nenhuma forma de comunicação entre eles. Estão muito próximos, só os separa uma frágil porta, mas o rico não “vê” o pobre, não lhe interessa sua pobreza, não o olha, não o escuta...

A cena é insuportável. O rico tem tudo, sente-se seguro, não parece necessitar de ninguém. Vive fechado em si mesmo. Não vê o pobre que morre de fome junto à sua porta.
Lázaro, por sua parte, vive em extrema necessidade, faminto, enfermo, excluído, ignorado por aqueles que lhe podiam ajudar. Sua única esperança é Deus.
Jesus não pronuncia diretamente nenhuma palavra de condenação. Seu olhar penetrante está desmasca-rando a cruel injustiça daquela sociedade. As classes mais poderosas e os estratos mais oprimidos parecem pertencer à mesma sociedade, mas estão separados por uma barreira invisível: essa porta que o rico não atravessa nunca para aproximar-se de Lázaro. Deus, que é Pai de todos, não pode aceitar essa cruel separação entre seus filhos.

A segunda parte da narração nos situa diante de uma grande mudança de perspectiva. A reviravolta é total. Ambos morrem, a morte os iguala, de maneira que o tema das riquezas passa a um segundo plano. Só permanecem eles, suas vidas..., perduráveis, de formas diferentes.
O pobre se salva porque foi simplesmente pobre. Salva-se pela misericórdia de Deus, ou seja, por graça (porque Deus é Deus). Por isso, a salvação é dom, pura graça.
O rico se condena por si mesmo, porque ele escolheu, porque não foi capaz de ver/descobrir/ajudar os pobres que estavam ao seu lado. Nessa linha, a condenação é a rejeição da graça da vida: não ter desco-berto o outro.
A conclusão que se deduz da parábola não é que os pobres do mundo devem manter-se como estão, já que esperam a glória futura depois da morte, mas que se abra a porta que separa o pobre do rico, de forma que possam comunicar-se.
Este relato não fala da condenação e salvação futura, mas da nova forma de vida compartilhada que deve se estabelecer neste mundo. O relato não quer que o pobre e o rico continuem vivendo simplesmente em mundos que se encontram hermeticamente selados, afastados um de outro, senão que se encontrem, que o rico abra a porta e ofereça ao pobre um lugar em sua mesa.
Durante o tempo de sua vida, o pobre mendigo e o rico fechado em seu “banquete” egoísta e em seu luxo não se relacionavam entre si, mas poderiam tê-lo feito, pois Lázaro jazia diante da porta da casa do rico: uma porta evoca a possibilidade de comunicação.
Depois da morte não tem como mudar as coisas. O tempo de mudança é este, esta vida.
Aquela barreira invisível na terra se converte agora em um abismo intransponível. O objetivo da parábola não é descrever o céu nem o inferno, mas condenar a indiferença dos ricos e poderosos.

Deus é o primeiro que deseja que vivamos bem, que sentemos à mesa e tenhamos o que comer, que nos vistamos com dignidade. Deus se alegra quando vê a mesa cheia de alimentos e todas as cadeiras ocupadas, todos com bom apetite, vivendo a partilha com o coração pleno de alegria e fraternidade.
Onde está então o problema? Está numa porta.  Cresce cada vez mais o número de portas que nos impedem ver, portas que nos distanciam da fome, do sofrimento, da pobreza, da desnudez que há do outro lado. A grande tragédia está no fato de levantar muros, cercas de proteção, portões eletrônicos, que nos impedem ver os rostos dos outros, que nos isolam dos outros, que nos fecham sobre nós mesmos como se ninguém mais existisse.
Diz o ditado que “comer demasiado mel nos faz perder o sabor”; o demasiado bem-estar nos impede ver o mal-estar dos outros; o fato de não carecer de nada, nos faz insensíveis diante daqueles que carecem de tudo; a abundância pode ser um obstáculo para sensibilizar-nos frente à carência dos demais.
Ao ler o Evangelho, nos damos conta de que Jesus, que não tinha nada, era muito sensível àqueles que careciam de tudo; em sua vida não havia nada que lhe impedisse ver a pobreza e o sofrimento dos outros. Isso despertava n’Ele a compaixão, o “sentir-com” os outros. O que os olhos não veem não chega aos nossos sentimentos. O que os olhos não veem não chega ao nosso coração.

Claro que não basta ver. É preciso que o coração seja impactado. É preciso que a realidade nos doa no coração. É preciso que a realidade nos comova.
Não basta saber que existem os pobres; não bastam as estatísticas sobre a pobreza no mundo. É preciso dar um rosto ao enfermo, ao desnudo, ao faminto. A dor sem rosto não nos diz nada. A nudez sem rosto não nos afeta; a fome sem rosto não nos impacta.
É preciso escancarar as portas dos nossos preconceitos, da nossa insensibilidade, dos nossos pré-juizos..., portas que nos fazem acostumar a ver famintos, necessitados, explorados...
Tudo isso pode nos tornar insensíveis. O que Jesus lamenta é nossa insensibilidade e nossa indiferença frente àqueles que passam penúria. Esta é sua condenação radical: uma barreira de indiferença, cegueira e crueldade separa o mundo dos ricos do mundo dos famintos. A riqueza pode ser um grande estorvo no coração; a púrpura e o linho podem ser um escândalo em um mundo de pobreza; os grandes banquetes podem ser um insulto em um mundo onde impera a fome.

Texto bíblicoLc 16,19-31

Na oração: quê impactos tem no seu coração o
                   mundo da exclusão e da violência?
- Quê atitudes você assume para diminuir a insul-tante riqueza de uns poucos e a escandalosa miséria de muitos?



quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Homilia Dominical - 19 de setembro de 2016

OPERAÇÃO FUTURO

“Os filhos deste mundo são mais espertos em seus negócios do que os filhos da luz” (Lc 16,8)

Um dos piores vírus que ameaça e mina as forças de nossas comunidades cristãs é a falta de iniciativas, é a atitude de acomodar-se com o de sempre, seguir os caminhos trilhados da rotina e da repetição. Rebanho “dócil”, sujeito a manipulações legalistas, sem maiores pretensões e sem criatividade no anúncio da Boa Nova do Evangelho.
Enquanto “dormimos” em nossa apatia e acomodação, outros (a partir de seus interesses próprios ou de grupos) aguçam sua inteligência e afinam novas estratégias, saem pelos caminhos e fazem ouvir sua voz.
Os “filhos deste mundo” tem mais “iniciativas” e ideias que os chamados filhos da luz. Até parece que a luz nos faz adormecer e nos acomodamos em um modo “normótico” de viver.
A parábola do evangelho deste domingo não pretende se referir em absoluto à corrupção e ao roubo, mas ela está centrada numa questão radical: “Os filhos das trevas são mais astutos que os filhos da luz”.
Em cada um de nós convivem a luz e as trevas. A parábola parece conter uma profunda ironia, ao confrontar-nos conosco mesmos e perguntar-nos de que maneira procedemos nos assuntos que concernem às “trevas” (ego) e naqueles que potenciariam a luz que somos.
A experiência nos diz que, quando é nosso ego que toma iniciativa, ele ativa meios, recursos, táticas, estratagemas..., com a finalidade de sobressair vaidoso e assegurar sua sobrevivência (como faz o empre-gado da parábola, que representa, justamente, o nosso próprio ego e seu mundo de interesses).
O que ocorre com a luz que é a nossa verdadeira identidade? Quê fazemos com o melhor de nós mesmos? Se empregássemos tanta motivação e tantos meios para que nossa verdadeira identidade se manifestasse e deixasse sua marca, nosso mundo seria bem diferente.

Jesus, na parábola, não louva o mal administrador por sua péssima administração e roubos. O que Jesus quer destacar é sua “inteligência” e “esperteza” para garantir seu futuro, a astúcia com que atua para atrair a benevolência dos credores de seu amo.
E aqui começa a “operação futuro” daquele administrador. Astuto e vivo, ele, antes de apresentar o balanço final, consegue fazer reduções nas dívidas dos credores. Objetivo? Fazer “amigos” para que quan-do fosse despedido do trabalho pudesse ser socorrido por eles em momentos de penúria.
Estamos falando do astuto a serviço de si mesmo (quer que os devedores o ajudem...; está comprando a solidariedade e a colaboração deles). Certamente, este administrador inicia uma subversão, mas o faz em favor de si mesmo, dentro do grande “clube” daqueles que se aproveitam roubando dinheiro. Não lhe interessam os bens do amo (nem a vida dos pobres), mas sua própria subsistência, em um mundo de ladrões que se sustentam a si mesmos, roubando do grande capital para benefício próprio.
Assim como alguns usam sua inteligência e sua astúcia para causar morte (tráfico de drogas e construção de armas, máfias de tráfico de pessoas e de prostituição, corrupção na administração pública...), porque não podemos ativá-la para buscar caminhos de justiça, criar pontes de reconciliação, despoluir o ambiente hediondo que nos envolve?

Subitamente, o relato de hoje dá um salto e nos leva do administrador injusto (que atua astutamente  no interesse próprio) à exigência e possibilidade de converter o “dinheiro da iniquidade” (dinheiro que mata) em fonte de justiça e de amizade.
O dinheiro, enquanto mediação necessária, entra na categoria dos meios humanos a serviço de um fim.
Trata-se de fazer com que ele seja transparente, na linha da fraternidade e do Reino, ou seja, converter o dinheiro naquilo que deve ser: um meio de “relação transparente entre pessoas”, um meio de justiça e solidariedade amorosa, para que o ser humano atinja a meta de sua vida.

O dinheiro, portanto, aparece como algo funcional, mas facilmente pode se converter em senhor e dono da vida. Por sua própria natureza, ele confere uma segurança e uma autossuficiência que nenhum outro objeto pode fornecer.
Jesus tinha consciência dos riscos e perigos de uma vida enredada no dinheiro. Ele sabia da força de sedução que a riqueza exerce e da capacidade que ela tem de obscurecer a percepção correta da realidade. Jesus expressa isso dizendo: “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. Com estas palavras, Ele não só  desvela nossa tendência a divinizar o dinheiro, mas volta a insistir no dilema anterior: na prática, quê nos interessa mais, o dinheiro ou Deus? Quem, na verdade, ocupa o centro de nossa vida?


Entre as coisas que podem desordenar a pessoa, o dinheiro, sem dúvida, tem um poder de sedução todo especial. Ele revela o risco de gerar uma dinâmica de ganância, sem freio, que a pessoa não controla, endurecendo seu coração e conduzindo-a à presunção de autossuficiência, de se bastar a si mesma e de não precisar de mais ninguém.
Além disso, existem outras manifestações ligadas à ânsia de fazer do dinheiro o centro da vida: o desejo de prestígio, a ilusão de onipotência, de poder, de mando, o anseio de títulos, da aparência, de ciência, de status. E a vida não se ordena enquanto o fator dinheiro, desestabilizador por seu caráter “pegajoso”, não se situa no seu devido lugar.
De fato, o dinheiro, ao se tornar um fim em si mesmo, longe de pacificar, gera sempre novos temores, ansiedades e inseguranças: medo de perder o que foi conquistado, medo de que um rival consiga um bem cobiçado, ou ainda de ser superado na escala social, tornando vãos todos os esforços de uma vida...
Outro sentimento típico do avarento é a tristeza, ligada à frustração de não poder nunca encontrar algo que o satisfaça, fazendo-o sentir-se cada vez mais indigente. Torna-se tão pobre que só tem dinheiro.

Aquele que põe seu tesouro no dinheiro, põe ali o seu coração, seu interesse, sua força e sua afetividade. O dinheiro tem um tal poder de absorção, que ele se torna rival de Deus.
Quando uma pessoa faz do dinheiro a orientação fundamental de sua vida, quando o dinheiro é seu único ponto de apoio na vida e sua única meta, então a relação com o Deus e com os outro se dilui.
A razão é bem simples. Porque o coração do indivíduo afeiçoado ao dinheiro se esfria e se petrifica, distanciando-se das pessoas. Tende a buscar somente seu próprio interesse, não pensa no sofrimento, não vê as necessidades nem as injustiças que os outros sofrem. O coração enredado pelo dinheiro corre o risco de matar o espírito solidário, pois já não há mais lugar para o amor desinteressado, nem para a fraterni-dade. Só vive para acumular coisas e para fazer dos outros seus dependentes. E, por isso mesmo, nele não há lugar para o Deus que é Pai de todos. Assim, não pode acolher a Aquele que é Amor, Gratuidade.
A verdadeira riqueza, que de fato nos pertence, é aquela que recebemos ao partilhar o melhor que há em nós mesmos, tornando-nos assim participantes da generosidade abundante de Deus.

Texto bíblicoLc 16,1-13

Na oração: A quem sirvo? Quem é o “senhor”
                     que comanda o meu coração?
Deus pôs em minhas mãos tantos dons, tantas possibilidades... E quê estou eu fazendo com tanta “riqueza” que o Senhor me confiou?
Sou um administrador fiel e solícito, ou vou desperdiçando pela vida os “bens” (talentos e oportunidades) que o Senhor me deu e continua me cumulando?




sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Homilia Dominical - 11 de setembro

MISERICÓRDIA HUMANIZADORA

“Comamos e festejemos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver”… (Lc 15,24)

Revelar o rosto do Pai como Amor e Misericórdia foi, para Jesus, o cerne de sua missão: toda sua vida foi uma eloquente demonstração da misericórdia divina para com a humanidade. O “princípio miseri-córdia”, portanto, é o núcleo do Evangelho. E a misericórdia é o “amor em excesso”.
Na misericórdia, Deus sempre nos surpreende, sempre excede nossas estreitas expectativas, para abrir caminho a partir de nossas fragilidades. Só o amor misericordioso de Deus nos reconstrói por dentro, destrava nossa vida e nos abre em direção a um amplo horizonte de sentido.
Deus, em sua misericórdia reconstrutora, libera em nós as melhores possibilidades, riquezas escondidas, capacidades, intuições... e nos faz descobrir  nossa verdade mais verdadeira de pessoas amadas, únicas, sagradas, responsáveis... É ele que “cava” no nosso coração o espaço amplo e profundo para nos comunicar a sua própria interioridade. A força criativa da sua misericórdia põe em movimento os grandes dinamismos de nossa vida; debaixo do modo paralisado e petrificado de viver, existe uma possibilidade de vida nova ainda não ativada.
A misericórdia nos configura à imagem de Deus; é onde nós somos mais semelhantes a Ele.
A misericórdia, portanto,  é não só a mais divina mas também a mais humana das virtudes. É aquela que melhor revela a natureza do Deus Pai e Mãe de infinita bondade. É a que revela igualmente o lado mais luminoso da natureza humana. Por isso é a que mais humaniza as relações entre as pessoas.

No evangelho deste domingo encontramos, mais uma vez, o eterno conflito entre “Misericórdia” e “Lei”, entre “perfeccionismo” e “compaixão”. “Legalismo” e “perfeccionismo” andam sempre juntos; onde eles imperam, ali não há possibilidade de futuro, nem de vida nova; quem tem a lei na mão torna-se um juiz implacável, insensível, duro, frio… “Onde há misericórdia, ali está o Espírito de Deus; onde há lei, ali estão seus ministros” (papa Francisco).
Na parábola de hoje, Jesus “pinta” o rosto misericordioso do Pai; ele descreve a tipologia de dois comportamentos em relação ao fracasso do “filho mais moço”.
Em 1º lugar, o coração terno do Pai manifesta-se aberto; seu modo de proceder se exprime nessas cinco ações carregadas de sentimentos, afeto e ternura: ver, comover-se, correr, abraçar e beijar.
Em vez de julgar o filho e fazer com que ele se afunde em culpa, o pai o acolhe plenamente. O perdão devolve ao filho mais moço a sua dignidade de homem livre, a auto-estima e o sentido de pertença à família. O pai não aproveita a ocasião para praticar a pedagogia da culpa ou para tornar o filho dependente do seu perdão. O encontro não termina com o perdão. Há uma grande festa.

A festa sela o perdão no coração de quem rompeu a aliança.
Portanto, a festa não é o prêmio do erro; ela é a expressão tangível, clara, do perdão realizado. O perdão é total: oferece uma inédita possibilidade de vida para o coração de quem viveu a fundo a experiência do próprio fracasso.
O pai revela-se exagerado no perdão diante de quem errou. Ele tem tolerância e paciência com relação ao processo que se abre interiormente no filho que se arrependeu. O processo permanece aberto de maneira que o filho possa amadurecer e o erro possa trazer um ensinamento; em outras palavras, possa dar lugar a uma experiência construtiva para ele. O re-orientamento que o pai provoca no filho mais jovem, com o seu perdão e a festa, é tão forte, que o jovem será capaz de tirar proveito da sua experiência negativa.
A festa vem revelar que ele é amado incondicionalmente.

Ao contrário do pai, o filho mais velho revela um esquema mental fechado ao fracasso do seu irmão por estar ocupado com um “conteúdo perfeccionista”.
Por ocasião do encontro entre o filho mais moço e o pai, o “filho mais velho estava no campo”; isto já indica uma característica da sua personalidade: o dever antes de mais nada.
Ele havia perdido toda e qualquer orientação para consigo mesmo a fim de perseguir a perfeição.
Queria ser irrepreensível aos olhos do pai sem jamais desobedecer a uma única ordem sua.
Ao ouvir “músicas e danças”, perguntou a um servo a razão daquilo; este fato sublinha o quanto estava afastado dos acontecimentos familiares. Enche-se de cólera e não quer entrar para a festa.
Mesmo no plano afectivo, ele se encontra completamente longe da família. Ele mostra em suas palavras a sua total solidão. Talvez fosse um homem sem amigos.
Tinha uma relação com o mundo das coisas, dos deveres e dos princípios, não das pessoas.


O perfeccionista é um ser muito frio. Vive com a chama do sentimento no nível “baixo”.
O sentimento torna as pessoas mais humanas, ou seja, mais vulneráveis, mais frágeis.
A perfeição tinha deixado o filho mais velho vazio de sentimentos. Seu comportamento é de incompreen-são e de julgamento. Ele não se comove nem diante do destino do irmão nem tampouco diante da revela-ção da ternura paterna. A perfeição o deixou desumano.
Seguiu o “evangelho da perfeição”, não o da misericórdia.
O pai precisou sair da festa para procurar convencê-lo a entrar. Trata-se de uma alegria que o filho mais velho não é capaz de compartilhar.
Aos esforços paternos para fazer com que participasse daquele evento, ele responde não com a compaixão, mas com o argumento da obediência às obrigações e às proibições: “Já faz tantos anos que eu te sirvo sem ter jamais desobedecido às tuas ordens”. Nenhuma referência à vida de família, ao afeto, às relações...
O filho mais novo teve a coragem de pedir a sua parte, de arriscar, de viver a própria vida, de fazer as suas opções. Ele honrou a vida. O filho mais velho honrou os princípios, as normas... Nem passou por sua cabeça pedir a parte que lhe cabia. Se não consegue perdoar ao irmão é porque sabe que não é capaz de correr riscos. É um ser “autoblindado”.

A experiência de misericórdia gera em nós uma atitude correspondente de misericórdia. O Deus miseri-cordioso cria em nós um coração novo, feito de acordo com o Seu, capaz de misericórdia (“bem-aventu-rados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia”). É exatamente este o maior sinal da sua Mise-ricórdia: ama-nos a ponto de enviar-nos ao mundo como instrumentos de Sua reconciliação, pondo em nosso coração um Amor que vai além da justiça.
A misericórdia presente em nós é modelada e alimentada pela Misericórdia divina.
Como estilo-de-vida cristã a misericórdia nos descentra de nós mesmos e nos faz descer em direção ao outro, numa atitude de pura gratuidade. A vivência da misericórdia nos torna  realmente livres, e isso nos proporciona profunda alegria interior.
A misericórdia é humilde e não humilha, porque é discreta e silenciosa. Ser presença misericordiosa não significa pôr o outro de joelhos para que reconheça seus erros; ela nasce de um coração “educado” pela Misericórdia divina e se manifesta externamente com uma atitude mansa e condescendente. Esse Amor é uma força poderosa, não se rende diante do mal, porque é sempre capaz de redescobrir o bem ou de salvar a intenção do próximo, de abrir-lhe novamente a esperança...
"Devemos ser presença misericordiosa como pecadores, não como justos”.

Texto bíblico:   Lc. 15,1-32   

Na oração: Entrar no “fluxo” da misericórdia divina:
                          ser canal por onde circula o amor mi-sericordioso em favor dos outros.
- Recordar experiências onde você  se sentiu cha-mado a exercer o “ofício da misericórdia”. 








Retiro de Setembro

RETIRO MENSAL-SETEMBRO 2016


         Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus” ( cf. Mq 6,8)
 “

“Sede misericordioso como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36). É um programa de vida tão desafiador como rico de alegria e paz. O imperativo de Jesus é dirigido a quantos ouvem a sua voz (cf. Lc 6, 27). Portanto, para sermos capazes de misericórdia, devemos primeiro pôr-nos à escuta da Palavra de Deus. Isso significa recuperar o valor do silêncio, para meditar a Palavra que nos é dirigida. Deste modo, é possível contemplar a misericórdia de Deus e assumi-la como estilo de vida. (Papa Francisco – MV. n.13).

Motivação do Retiro: A Igreja do Brasil nos propõe o estudo do livro do Profeta Miqueias, indicado para o Mês da Bíblia de 2016, com o tema: “Para que n’Ele nossos povos tenham vida”, e como lema: “ Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus” (Mq 6, 8).
O profeta Miqueias tem uma sensibilidade muito especial. Ele denuncia as injustiças que ferem o Projeto de Deus para seu Povo. Ao mesmo tempo, ele fala do agir misericordioso de Deus que perdoa, livra do castigo e salva da miséria. Seus escritos mostram que a prática da justiça não está dissociada da misericórdia. O apelo a amar a misericórdia é um modo terno de o profeta convidar à experiência de reconhecer a face compassiva de Deus. Para caminhar com Deus é preciso disposição para aprender com ele a se aproximar do ser humano caído, da pessoa marginalizada e excluída, da pessoa abandonada e desacreditada. Essa mensagem converge para a celebração do Jubileu extraordinário da Misericórdia.

Canto – Ao Espírito Santo (à escolha)

Motivação - Queridas Irmãs, Deus é misericórdia, por isso, somos todas chamadas a sermos misericordiosas. Onde existem cristãos, todas as pessoas deveriam encontrar um oásis de misericórdia, como deseja o Papa Francisco neste Ano Jubilar da Misericórdia.

Leitor 1 - Para sermos capazes de misericórdia, antes de tudo precisamos escutar a Palavra de Deus. Na Sagrada Escritura, vemos o agir de Deus para com seu povo: libertando-o do Egito, fazendo aliança no Sinai, acompanhando-o pelo deserto e educando-o para o amor e a fidelidade. Deus não se limita a afirmar o seu amor misericordioso, mas torna-o visível e palpável na Pessoa de Seu Filho, Jesus.

Leitor 2 - A palavra do Profeta Miqueias quer ser uma força que infunde coragem para olhar o futuro com esperança. Ele nos revela a grandeza do agir divino, no qual sua bondade prevalece sobre o castigo e a destruição: “Eu, contudo, estou cheio de força, do espírito do Senhor, de direito e de coragem, para denunciar a Jacó o seu crime e a Israel o seu pecado” (Mq 3, 8).

Canto – Misericordioso é Deus, sempre, sempre eu cantarei (3x)

Oração: Senhor, ajudai-nos a ouvir com solicitude a Vossa Palavra, através do profeta Miqueias: “Foi-te anunciado o que é bom, e o que Deus exige de ti; nada mais que praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar humildemente com teu Deus”. Amém!

Palavra do Papa Francisco: “Para a Igreja, a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica. Deus ‘manifesta a sua misericórdia, antes de mais’, a eles... Somos chamados a descobrir Cristo neles: não só a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas também a ser seus amigos, a escutá-los, a compreendê-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar através deles... Unicamente a partir desta proximidade real e cordial é que podemos acompanhá-los adequadamente no seu caminho de libertação” (EG. 198-199).

Palavra da Madre: “... existe o apostolado da Palavra de Deus, que nos oferece os mais variados meios para levar os pecadores a ouvi-la. Será que nós estamos exercendo o apostolado junto às pessoas a quem estamos obrigadas a ajudar?”

Sugestão de textos:
Mq 7, 8 - 20
Lc 4, 14 - 30
Lc 10, 25 - 37
 Sl 146
Antologia Espiritual, pág. 46, MgI p. 8-89



Bom Retiro!

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Homilia Dominical - 03 de Setembro de 2016

AS RIDÍCULAS TORRES E GUERRAS DE NOSSA VIDA

“...qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo”. (lc.14,33)

Trata-se de uma atitude, uma postura, uma entrega.
E a palavra é “tudo”. O discípulo pela metade não pode ser discípulo de Jesus. O seguimento pede  sinceridade na vontade e verdade no coração. Jesus não pode se contentar com “amor a prestações”, com retalhos de vida. Não servem as entregas pela metade.  
A entrega parcial não é entrega. O apego a algo ou alguém, que divide a afeição com Deus, anula o resto da entrega e torna impossível que nossa relação com Ele cresça, se desenvolva e plenifique nossa vida.
Deus não pode compartilhar nosso coração com ninguém. Ele é o Senhor absoluto de nossa vida. A entrega total ativa todos os nossos recursos, desperta nossas faculdades e incendeia nossa fé.
A fé, se é verdadeira, lança-se por inteira, sem dúvidas e sem reservas.
Esta é a atitude genuína e verdadeira diante da vida. Esta determinação é a que abre caminho, nos faz avançar em direção à meta do Reino.

Na experiência humana ressoa, desde sempre, a marca ou o chamado a transcender-se, a ir além de si mesmo. O seguimento de Jesus pressupõe a pessoa capaz de sair de si mesma, de descentrar-se. Deixar ressoar a voz do chamado no próprio interior implica um investimento de toda a pessoa.
Estamos inseridos numa cultura onde as entregas são vividas pela metade, as opções são de fôlego curto e os projetos não tem consistência.
Vivemos a chamada “cultura líquida” onde tudo parece que nos escapa das mãos. Não há solidez nas decisões ou as decisões são apressadas e superficiais, porque o horizonte está obscuro.

As duas breves parábolas, no evangelho de hoje, constituem um toque de realismo: “calcula tuas forças porque só poderás chegar à meta se te entregares com determinação”.
Jesus não impõe nenhuma condição, não quer gente que busque carreiras ilustres (para construir torres, para ganhar guerras...). Quer pessoas que sejam capazes de descentrar-se, de renunciar ao próprio ego, de desapegar-se daquilo que as atrofia e as limita, para investir numa proposta de vida que dá direção e sentido à sua própria existência.
Este é o lema de Jesus: renunciar a tudo para partilhar tudo.
O mundo está cheio de homens e mulheres que querem construir suas próprias torres, à custa dos outros, para isolar-se nelas; e de outros que querem jogá-las abaixo para poder construir as suas torres. Pura competição de torres (competição de egos). O mundo está cheios de “reis”, de “egos inflados” que querem ganhar guerras, que compactuam com o poder, a vaidade, a riqueza... Quantas guerras são realizadas em nome da religião, pensando servir a Deus! Quanto “poder religioso” que se impõe às consciências das pessoas, alimentando sentimentos de culpa e desumanizando-as! Quanto investimento pesado em “guerras internas” que desgastam e afundam num combate estéril.

Mas Jesus não precisa de torres, não tem que ganhar nenhuma guerra. Nós também não. Mas queremos segui-lo. Pois bem, para estar com Ele temos de “renunciar a tudo”, para poder “ter tudo”, de outra maneira, em gratuidade. Sobram-nos muitas coisas, muitos planos; sobra-nos o desejo de segurança e de viver à custa dos outros. Por isso nos falta comunhão, gratuidade e vida fraterna.
Somos construtores de torres desde o grande relato de Babel. Cada um faz sua torre, todos juntos queremos fazer a grande torre da cultura mundial capitalista e neo-liberal, que é contada e medida com muito dinheiro e poder
Mas, temos “dinheiro” suficiente para fazer uma torre onde nos resguardamos e nos protegemos para sempre? A terra está cheia de ruinas de torres caídas. Entre elas caminhamos, sem nos dar conta de que logo também nossa torre cairá. Investimos em torres e guerras ridículas com a ilusão de alimentar nosso ego: auto-imagem, vaidade, aparência... Tudo ilusão, a queda será retumbante.
Todas as torres cairão; não temos refúgio e segurança definitiva neste mundo. No “descampado” estamos, junto com os outros, vivendo a comunhão em gratuidade; assim viveremos, assim morreremos, assim esperamos ressuscitar.

A perseverança tenaz para conservar o rumo nos desertos da vida é necessária para chegar ao oásis final.
Este é o caminho do Seguimento. Jesus quer seguidores com liberdade, com decisão e responsabilidade.
Para isso é preciso “renunciar a tudo” para ser pessoas, em amor e partilha. “Renunciar a tudo” para que todos possam ter, para que todos possam compartilhar fraternalmente tudo.

O que significa “renunciar a tudo” e desapegar-se dos seres mais queridos? Significa sair da visão egocentrada, nascida da crença errônea de que somos o ego. Talvez pudesse ser expresso desta forma: “Deixa de crer que és o eu separado (e fechado na torre) e descobrirás a riqueza de tua verdadeira identidade; não vejas nem sequer a tua família a partir do ego, porque sofrerás e farás sofrer; contem-pla-os a partir de tua verdadeira identidade, onde todos sois um, mas sem apego nem comparações”.
Não é a renúncia o que nos salva, mas o desenvolvimento e a expansão da vida em direção à plenitude.
A renúncia é sempre lícita e aconselhável quando se faz por algo melhor. O apego às coisas ou às pessoas impede-nos de mover com facilidade. Perdemos o fluxo da vida e o impulso do movimento, a suavidade do “deslizar pela existência”. Na vida cristã, o seguimento é questão de sedução, de paixão, de atração, de coração...; isso significa que Jesus Cristo é de fato o “amor primeiro”, aquele que antecede a qualquer outro, de maneira especial o amor aos familiares. Daí nasce a harmonia interior. Quando o seguimento torna-se o eixo central, todos os elementos de nossa vida, todas as afeições, todas as potencialidades do espírito, encontram-se em “seus lugares”, estabelecendo uma deliciosa experiência de paz. Os afetos “orientados” e “ordenados” à pessoa de Jesus, cria um novo referencial, um novo centro afetivo.
            “É necessário ter um importante objeto de amor para abandonar antigos amores”.
Em resumo, trata-se de ordenar o amor, para que amemos com um amor operativo, oblativo...

Portanto, para que haja “modificação afetiva” é necessário investir numa relação personalizante, ali-cerçada na pessoa de Jesus Cristo e nos valores do Reino. Só há transformação efetiva se houver impacto no mundo afetivo. Para mudar afetivamente é necessário “alguém” que possa despertar em nós um impacto afetivo. Existem dinamismos interiores que podem atrofiar ou expandir o seguimento de Jesus.
Se seguimos Jesus que nos seduz por sua verdade, sua personalidade, sua ternura, suas atitudes perante as pessoas e instituições, sua liberdade, sua presença compassiva, sua coerência na verdade e no amor..., seremos “afetivamente impactados”. E a afetividade ordenada nos fará livres; a liberdade, por sua vez, possibilitará uma abertura a um horizonte de sentido; será movimento para..., nos fará ir além de nós mesmos.
Nesse sentido, no processo de seguimento, a pessoa inteira é mobilizada: corpo, mente, afetividade, coração, sensibilidade...

Texto bíblico:  Lc 14,25-33

Na oração: Escolhe e decide. Escolhe teu Senhor e serve-o fielmente.
                     Não duvides, não adies, não esperes. Desterra as meias-medidas de tua vida e decide-te fazer as coisas com plenitude, sobretudo as coisas de Deus. É isto que Ele espera.
- quais são seus “amores” (afetos desordenados que exigem alto investimento) que fragilizam e atrofiam o seguimento de Jesus?


terça-feira, 23 de agosto de 2016

Homilia Dominical - 28 de Agosto de 2016

MESA: lugar da solidariedade e do encontro

“Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar” (Lc 14,10)

Em nossa sociedade há um complexo sistema de normas de protocolo através das quais cada um deve se situar, observando uma rigorosa hierarquia na posição social ou religiosa, segundo seu “status” ou impor-tância. Isso revela o afã que o ser humano tem de sobressair-se, de brilhar, de competir, de sentir e de querer estar por cima dos outros. Conviver com este desejo egocentrado parece tão natural que nem percebemos sua presença, em nosso interior e à nossa volta. Basta estar atento ao que acontece nos eventos sociais: casamentos, homenagens, festas...
Sabemos que o ego se move sempre a partir de suas necessidades; dentro dessas necessidades, a mais básica provavelmente seja a de “ser reconhecido”, que se expressa na necessidade de “ser o primeiro” e de buscar que tudo gire em torno dele e de seus interesses.
As palavras de Jesus abordam precisamente estas questões: quê lugar busco?; o que me move a fazer as coisas que faço?; quê interesses estão envolvidos?...
O ego busca “os primeiros lugares”: sonha em se destacar, ser visto, sentir-se reconhecido; ama o aplauso e os gestos de admiração em sua passagem; encantam-lhe as roupagens especiais e os sinais distintivos de sua valia; quer ter sempre razão e busca impô-la aos outros.

Frente a esta tendência, a palavra de Jesus vai à raiz: trata-se de des-identificar-nos do ego. Não somos essas necessidades, não somos o ego com seus interesses. Quando nossa identidade original emerge, deixa-mos de viver para o ego. Só quando nos vemos em profundidade, somos transformados.
Quando des-velamos e experimentamos nossa verdadeira identidade, nosso ego inflado cai e se esvazia. E com ele, se esvaziam também aquelas necessidades ridículas que guiavam nossa vida.
Jesus acaba com todo tipo de protocolo, convidando os seus seguidores à sensatez e ao sentido comum. O conselho de Jesus deve converter-se em prática habitual do cristão.
O lugar do discípulo, do seguidor de Jesus é, por livre escolha, o último lugar.
Suas recomendações no Evangelho de hoje mostram as regras de ouro do protocolo cristão: renunciar a considerar-se importante, convidar aqueles que não podem retribuir, dar preferência aos outros, convidar para sentar à mesa da vida aqueles que foram excluídos pela sociedade.
As palavras de Jesus são um convite à generosidade que não busca ser recompensada, a celebrar a festa com aqueles com quem ninguém celebra e com aqueles de quem não se pode esperar retribuição.
O cristão ocupa o último lugar para que não haja “últimos” nem excluídos; optar pelo “último lugar” é denunciar, com delicadeza e ternura, toda hierarquia desumanizadora. Maravilhoso gesto que revela a única aspiração daquele que se inspira em Jesus: a de construir um mundo de irmãos, iguais no serviço mútuo.
Quem assim vive merece uma bem-aventurança que vem se somar àquelas outras bem-venturanças do Sermão da Montanha: “Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir”.

À luz das considerações acima, preparar a mesa e fazer a refeição com os outros implica todo um ritual. Comer é mais do que ingerir alimentos, é entrar em comunhão com as energias que sustentam o universo e que, por meio dos alimentos, garantem nossa vida.
Por isso, a mesa, a ceia e o banquete são cercados por uma rica simbologia. O próprio Reino de Deus, a utopia de Jesus, é apresentado como uma ceia ou um banquete na casa do Pai.
O Deus que Jesus revela é Aquele que desce das alturas, entra nas casas, toma assento junto à mesa, come com as pessoas, serve-lhes o pão. Na intimidade da mesa, Ele restitui aos excluídos a dignidade e a auto-estima, pois eles são os preferidos do Reino da Festa.
“No Filho” o Pai é que entra na casa deles e come com eles; estabelece novas relações; perdoa-lhes, acolhe-os com compaixão e misericórdia, sacia-lhes a fome...
Os que tinham coragem de se sentar à mesa com Jesus, não podiam mais sair do mesmo jeito, pois a mesa do pão compromete com o pão, a justiça e o amor.

A chave de acesso ao mundo sagrado da mesa é sempre a relação com o outro. Para esse centro converge o ser humano em busca do alimento, para renovar suas energias, tomar novo impulso... descobrir-se humano. É junto à mesa que se dá o processo de humanização  e comunhão.
O nosso hábito de fazer refeição também revela traços de nossa personalidade e de nossos comportamen-tos cotidianos. O nosso modo de estar à mesa revela nossas habituais atitudes no relacionamento com os outros. A mesa é também lugar de denúncia de nossos fechamentos, de nossas pressas, de nossas resis-

tências ao diálogo, de nossos medos, de nossa dificuldade em acolher o diferente...
Com isso, percebemos que nem todo encontro de refeição alcança a sua finalidade, a sua ressonância positiva em nós humanos. A mesa pode ser corrompida, torna-se o lugar de rupturas, de frieza e de competição. É claro que a “culpa” não é da mesa; ela faz a sua parte: a mesa é sempre oblativa, acolhe-dora, congrega as diferenças, impele ao serviço... Mas, nem sempre, nossa resposta é de gratidão.
mesas para tudo; mesas solitárias, mesas da corrupção, do poder, da exploração..., tudo o que envolve interesses, seduções, vaidades... A frieza tomou conta das relações em torno à mesa; a ausência da ritualidade aumentou a distância entre seus participantes. Há uma verdadeira profanação da mesa ao  ser transformada em lugar de conchavos sujos, negociatas interesseiras, tramas maldosas.

Devemos recuperar o sentido da mesa como um altar que deve ser preparado e ornado com carinho, para ser digna de realizar a sua missão sagrada, pois sagrados são também aqueles que dela se aproximam, se apoiam e se reclinam sobre seus dons. A mesa é um sinal de comunhão; ao mesmo tempo que ela sinaliza, ela realiza aquilo que sinaliza, ou seja, a inter-comum-união.
Ela não é agente passivo, mas construtora de novas possibilidades de vida. A refeição em torno da mesa representa um ato comunitário e reforça nos participantes os laços de humanidade, de compaixão, de mútua confiança e de comunhão. Por toda esta carga de simbolismos, a mesa não pode ser posta de qualquer maneira; a sala que ostenta a mesa deve ser um local aconchegante e íntimo, para realizar o milagre do diálogo.
A mística da mesa da refeição, convida, convoca e se coloca na vida do ser humano como fator deter-minante de sociabilidade, de valores e equilíbrios sociais, enfim, de humanização.
Nela e com ela aprendemos a acolher o outro como dom. Aprendemos a nos doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade. A mesa é também o lugar onde acolhemos a dor e as tristezas do outro, com quem partilhamos nossa refeição. A mesa-refeição, portanto, é o lugar do suporte das relações, espaço que garante o sustento, que alimenta o corpo, o emocional, o psíquico, o espiritual e o social. Lugar humano e fecundo, onde o imprevisível pode acontecer.

Texto bíblicoLc 14,1.7-14

Na oração: Que maneiras – consciente ou inconsciente – tem meu coração para levar-me a buscar os “primeiros lugares”?
- quando convido alguém à minha mesa, o faço pensando na recompensa que me poderá devolver?
- Qual a compensação afetiva que espero?... Qual minha “agenda oculta”? O que espero “ganhar ou perder”?
- Quê lugar ocupa a mesa da refeição em minha casa?




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