terça-feira, 23 de agosto de 2016

Homilia Dominical - 28 de Agosto de 2016

MESA: lugar da solidariedade e do encontro

“Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar” (Lc 14,10)

Em nossa sociedade há um complexo sistema de normas de protocolo através das quais cada um deve se situar, observando uma rigorosa hierarquia na posição social ou religiosa, segundo seu “status” ou impor-tância. Isso revela o afã que o ser humano tem de sobressair-se, de brilhar, de competir, de sentir e de querer estar por cima dos outros. Conviver com este desejo egocentrado parece tão natural que nem percebemos sua presença, em nosso interior e à nossa volta. Basta estar atento ao que acontece nos eventos sociais: casamentos, homenagens, festas...
Sabemos que o ego se move sempre a partir de suas necessidades; dentro dessas necessidades, a mais básica provavelmente seja a de “ser reconhecido”, que se expressa na necessidade de “ser o primeiro” e de buscar que tudo gire em torno dele e de seus interesses.
As palavras de Jesus abordam precisamente estas questões: quê lugar busco?; o que me move a fazer as coisas que faço?; quê interesses estão envolvidos?...
O ego busca “os primeiros lugares”: sonha em se destacar, ser visto, sentir-se reconhecido; ama o aplauso e os gestos de admiração em sua passagem; encantam-lhe as roupagens especiais e os sinais distintivos de sua valia; quer ter sempre razão e busca impô-la aos outros.

Frente a esta tendência, a palavra de Jesus vai à raiz: trata-se de des-identificar-nos do ego. Não somos essas necessidades, não somos o ego com seus interesses. Quando nossa identidade original emerge, deixa-mos de viver para o ego. Só quando nos vemos em profundidade, somos transformados.
Quando des-velamos e experimentamos nossa verdadeira identidade, nosso ego inflado cai e se esvazia. E com ele, se esvaziam também aquelas necessidades ridículas que guiavam nossa vida.
Jesus acaba com todo tipo de protocolo, convidando os seus seguidores à sensatez e ao sentido comum. O conselho de Jesus deve converter-se em prática habitual do cristão.
O lugar do discípulo, do seguidor de Jesus é, por livre escolha, o último lugar.
Suas recomendações no Evangelho de hoje mostram as regras de ouro do protocolo cristão: renunciar a considerar-se importante, convidar aqueles que não podem retribuir, dar preferência aos outros, convidar para sentar à mesa da vida aqueles que foram excluídos pela sociedade.
As palavras de Jesus são um convite à generosidade que não busca ser recompensada, a celebrar a festa com aqueles com quem ninguém celebra e com aqueles de quem não se pode esperar retribuição.
O cristão ocupa o último lugar para que não haja “últimos” nem excluídos; optar pelo “último lugar” é denunciar, com delicadeza e ternura, toda hierarquia desumanizadora. Maravilhoso gesto que revela a única aspiração daquele que se inspira em Jesus: a de construir um mundo de irmãos, iguais no serviço mútuo.
Quem assim vive merece uma bem-aventurança que vem se somar àquelas outras bem-venturanças do Sermão da Montanha: “Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir”.

À luz das considerações acima, preparar a mesa e fazer a refeição com os outros implica todo um ritual. Comer é mais do que ingerir alimentos, é entrar em comunhão com as energias que sustentam o universo e que, por meio dos alimentos, garantem nossa vida.
Por isso, a mesa, a ceia e o banquete são cercados por uma rica simbologia. O próprio Reino de Deus, a utopia de Jesus, é apresentado como uma ceia ou um banquete na casa do Pai.
O Deus que Jesus revela é Aquele que desce das alturas, entra nas casas, toma assento junto à mesa, come com as pessoas, serve-lhes o pão. Na intimidade da mesa, Ele restitui aos excluídos a dignidade e a auto-estima, pois eles são os preferidos do Reino da Festa.
“No Filho” o Pai é que entra na casa deles e come com eles; estabelece novas relações; perdoa-lhes, acolhe-os com compaixão e misericórdia, sacia-lhes a fome...
Os que tinham coragem de se sentar à mesa com Jesus, não podiam mais sair do mesmo jeito, pois a mesa do pão compromete com o pão, a justiça e o amor.

A chave de acesso ao mundo sagrado da mesa é sempre a relação com o outro. Para esse centro converge o ser humano em busca do alimento, para renovar suas energias, tomar novo impulso... descobrir-se humano. É junto à mesa que se dá o processo de humanização  e comunhão.
O nosso hábito de fazer refeição também revela traços de nossa personalidade e de nossos comportamen-tos cotidianos. O nosso modo de estar à mesa revela nossas habituais atitudes no relacionamento com os outros. A mesa é também lugar de denúncia de nossos fechamentos, de nossas pressas, de nossas resis-

tências ao diálogo, de nossos medos, de nossa dificuldade em acolher o diferente...
Com isso, percebemos que nem todo encontro de refeição alcança a sua finalidade, a sua ressonância positiva em nós humanos. A mesa pode ser corrompida, torna-se o lugar de rupturas, de frieza e de competição. É claro que a “culpa” não é da mesa; ela faz a sua parte: a mesa é sempre oblativa, acolhe-dora, congrega as diferenças, impele ao serviço... Mas, nem sempre, nossa resposta é de gratidão.
mesas para tudo; mesas solitárias, mesas da corrupção, do poder, da exploração..., tudo o que envolve interesses, seduções, vaidades... A frieza tomou conta das relações em torno à mesa; a ausência da ritualidade aumentou a distância entre seus participantes. Há uma verdadeira profanação da mesa ao  ser transformada em lugar de conchavos sujos, negociatas interesseiras, tramas maldosas.

Devemos recuperar o sentido da mesa como um altar que deve ser preparado e ornado com carinho, para ser digna de realizar a sua missão sagrada, pois sagrados são também aqueles que dela se aproximam, se apoiam e se reclinam sobre seus dons. A mesa é um sinal de comunhão; ao mesmo tempo que ela sinaliza, ela realiza aquilo que sinaliza, ou seja, a inter-comum-união.
Ela não é agente passivo, mas construtora de novas possibilidades de vida. A refeição em torno da mesa representa um ato comunitário e reforça nos participantes os laços de humanidade, de compaixão, de mútua confiança e de comunhão. Por toda esta carga de simbolismos, a mesa não pode ser posta de qualquer maneira; a sala que ostenta a mesa deve ser um local aconchegante e íntimo, para realizar o milagre do diálogo.
A mística da mesa da refeição, convida, convoca e se coloca na vida do ser humano como fator deter-minante de sociabilidade, de valores e equilíbrios sociais, enfim, de humanização.
Nela e com ela aprendemos a acolher o outro como dom. Aprendemos a nos doar, a partilhar, a receber, a escutar e a falar, a contemplar o outro em sua singularidade. A mesa é também o lugar onde acolhemos a dor e as tristezas do outro, com quem partilhamos nossa refeição. A mesa-refeição, portanto, é o lugar do suporte das relações, espaço que garante o sustento, que alimenta o corpo, o emocional, o psíquico, o espiritual e o social. Lugar humano e fecundo, onde o imprevisível pode acontecer.

Texto bíblicoLc 14,1.7-14

Na oração: Que maneiras – consciente ou inconsciente – tem meu coração para levar-me a buscar os “primeiros lugares”?
- quando convido alguém à minha mesa, o faço pensando na recompensa que me poderá devolver?
- Qual a compensação afetiva que espero?... Qual minha “agenda oculta”? O que espero “ganhar ou perder”?
- Quê lugar ocupa a mesa da refeição em minha casa?




Homilia dominical - 21 de Agosto de 2016

MARIA, PRESENÇA MISERICORDIOSA


“O pensamento volta-se agora para a Mãe da Misericórdia. A doçura do seu olhar nos acompanhe neste Ano Santo, para podermos todos nós redescobrir a alegria da ternura de Deus. Ninguém, como Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne. A Mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque participou intimamente no mistério do seu amor”.
Papa Francisco – Misericordiae Vultus)

Existe uma relação muito profunda entre Maria, Mãe de Jesus, o mistério da Misericórdia divina e a prática da misericórdia. Desde sua concepção, Maria foi envolvida na infinita misericórdia de Deus Pai, pelo Filho e no Espírito Santo. Ela nos foi dada como Mãe, por seu filho Jesus, a própria misericórdia, e ela nos ama também de modo misericordioso, especialmente os pecadores e sofredores.
O Papa João Paulo II destacou na sua Encíclica “Dives in misericórdia” que Maria é a “pessoa que conhece mais a fundo o mistério da misericórdia divina” (n. 9).
Maria é a mãe que gerou a misericórdia divina na Encarnação, graça extraordinária que a coloca numa relação intima com Deus, o “Pai das misericórdias” (2Cor 1,3). Ao responder ao anjo “Eis-me aqui” e  “Faça-se”, a Misericórdia divina se “faz carne” e entra na nossa história

Em qual sentido podemos proclamar Maria como “Mãe de misericórdia”?
O título “Mãe de misericórdia” assim se justifica: Maria é a mulher que experimentou de modo único a Misericórdia de Deus, que a envolveu de modo particular desde a sua Imaculada Conceição, passando pela Anunciação, como discípula fiel do seu Filho, até o grande momento da Páscoa d’Ele (paixão, morte, ressurreição, glorificação e Pentecostes). Ela é “kecharitoméne”, “cheia de graça”, ou seja, totalmente transformada pela benevolência divina (cf. Ef 1,6).
No seu cântico o “Magnificat”, por duas vezes Maria, a profetisa, exalta a misericórdia de Deus; movida pelo Espírito, ela louva o Pai misericordioso: “a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem”; “socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia”.
A misericórdia que Ela proclama no Magnificat foi vivida em todos os momentos de sua vida: desde o seu sim na Anunciação, até o momento em que acompanhou os discípulos de seu Filho nos inícios da Igreja. E continua fazendo-se presente até o fim dos tempos.

Uma característica que particularmente toca o nosso interior, dada a nossa condição humana frágil e necessitada do auxílio de Deus, é a Misericórdia, que em Maria ecoa com muita intensidade, como a for-ça de uma cascata, que penetra até os corações mais duros. Maria é, como rezamos, a Mãe da misericór-dia. Mas para entendermos como toda a vida de Maria proclama a misericórdia, devemos primeiro pene-trar no coração do Pai, rico em misericórdia, pois Maria é como a lua que reflete os raios do sol de justi-ça, que segundo a tradição da Sagrada Escritura é o próprio Deus.

Maria é a intercessora incansável do povo de Deus ; ela não deixa de apresentar as necessidades dos fiéis ao seu Filho. As “Bodas de Caná”, por exemplo, é uma concreta evidência de sua presença misericor-diosa. Ela se compadece da situação dos noivos e pede ao seu Filho realizar o primeiro “sinal”.  
Em Caná, portanto, a novidade está numa nova forma de presença de Maria, que não se encontra interes-sada, em princípio, por “fazer coisas”, por resolver problemas, senão para traçar uma presença. Ela está aí  para escutar e compartilhar um momento festivo; ela se encontra presente, num gesto de solidariedade que transcende e supera toda atividade.
Porque estava presente a Deus, Maria fez-se presente nos momentos decisivos de seu Filho, bem como fez-se presente na vida das pessoas. Uma presença que faz a diferença: presença solidária, marcada pela atenção, prontidão e sensibilidade, próprias de uma mãe.
Sua presença não era presença anônima, mas comprometida; presença expansiva que mobilizou os outros, assim como mobilizou seu Filho a antecipar sua “hora”.

Trata-se de uma presença que é “música calada” nos lugares cotidianos e escondidos, que sabe enterne-cer-se e escutar as inquietações que procedem desses lugares. Uma presença que descobre o próximo no próximo, que sabe resgatar a solidariedade na vida cotidiana. Uma presença que se manifesta na ausência de recompensa ou de interesse próprio.


Em definitiva, Maria descobre que é chamada a dar de graça o que de graça recebeu. Sabe entrar em sintonia com os sentimentos dos outros e construir vida festiva, e vida em abundância.
Sua presença misericordiosa revela um gesto profético de solidariedade e de anúncio: presença que aponta para uma outra presença, a de seu Filho, a misericórdia visível. Sua presença dignifica e revela um novo sentido à presença de Jesus numa festa de Casamento.

A presença misericordiosa, silenciosa, original e mobilizadora de Maria des-vela e ativa também em nós uma presença inspiradora, ou seja, descentrar-nos para estar sintonizados com a realidade e suas carências. Tal atitude misericordiosa nos mobiliza a encontrar outras vidas, outras histórias, outras situa-ções; escutar relatos que trazem luz para nossa própria vida; ver a partir de um horizonte mais amplo, que ajuda a relativizar nossos problemas e a compreender um pouco mais o valor daquilo que acontece ao nosso redor; escutar de tal maneira que aquilo que ouvimos penetre na nossa própria vida; implicar-nos afetivamente, relacionar-nos com pessoas, não com etiquetas e títulos; acolher na própria vida outras vidas; histórias  que afetam nossas entranhas e permanecem na memória e no coração.

Evidentemente, nem toda presença é “saída de si”; uma pessoa pode passar pelos lugares sem que os lugares deixem pegadas; ela pode tocar a superfície das coisas e das vidas, mas esse contato deixa pouca memória e que logo desaparece. Com isso não há encontro nem aprendizagem.
Quando a pessoa se faz presença misericordiosa que desemboca no verdadeiro encontro, ela se expõe, se faz vulnerável, se deixa afetar... Mas essa é a oportunidade para transformar os olhares e os gestos de quem se atreve a sair dos horizontes estreitos e conhecidos.
São muitos os encontros que são fecundos para quem se faz presente e para quem acolhe esta presença. São muitas as pessoas cujas vidas ganham em seriedade, em profundidade, em compaixão e em alegria autêntica ao fazer esse caminho de saída de si. São muitas as pessoas que, em contato com vidas e his-tórias diferentes e reais, compreendem melhor suas próprias vidas e sua responsabilidade.

Textos bíblicosLc 1,39-56     Jo 2,1-12

Ó Maria, Mãe que experimentastes e gerastes a Misericór-dia, Mãe que proclamais e exerceis a misericórdia, fazei de nós autênticos(as) apóstolos(as) deste mesmo mistério de amor em nossos tempos e em nossos ambientes. Amém.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Homilia dominical - 13 de agosto de 2016

CONFLITOS: seguimento posto à prova


 “Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra?” (Lc 12,51)

A vida e a mensagem de Jesus revelaram uma novidade de tal magnitude que gerou uma radical confliti-vidade com as instituições sociais e religiosas de seu tempo. De fato, com a presença desconcertante de Jesus, chega até nós a “Boa-Nova”, não precisamente para pôr remendos à lei, ao culto e aos ritos, mas para revelar a possibilidade de uma nova maneira de viver, uma nova atitude frente àqueles que a religião excluía: pecadores, pobres e marginalizados.
Jesus não buscou o conflito (já que trazia uma mensagem de misericórdia e fraternidade) mas conheceu uma das experiências conflitivas mais dramáticas da história humana. Do começo ao fim, a crise e o conflito estiveram presentes em sua vida e em sua missão.
Tudo o que Ele fazia – suas atitudes, seus gestos, suas palavras revelava uma nova visão das coisas, um novo ponto de partida, um novo movimento, um novo projeto. Sua presença, inspiradora e provocativa, colocava em questão e desmontava toda uma estrutura social e religiosa que desumanizava.

Jesus tornou-se um sinal de contradição porque permaneceu absolutamente fiel a uma mensagem, a um modo de agir e a uma missão que havia recebido do Pai e que devia realizar com critérios e opções coerentes com o conteúdo do seu Evangelho.
O conflito não foi uma surpresa para Ele, nem uma espécie de fatalidade à qual se encaminhou sem saber porquê. O conflito foi algo que adquiriu densidade cada vez maior em sua consciência, primeiro como uma possibilidade, depois como uma exigência de sua fidelidade ao Projeto do Pai em favor da vida do ser humano.
Falar em conflito na missão de Jesus é o mesmo que falar da fidelidade de Jesus. O que tem valor em sua vida é seu amor fiel, e não os conflitos em si mesmos; o que é conflitivo é sempre ambíguo; o que lhe dá sentido é a causa justa que o provoca e a fidelidade a essa causa que gera um ambiente de tensão.
Esse é o sentido da bem-aventurança dos perseguidos por causa da justiça do Reino.
A Cruz vai ser o sinal e a síntese da dimensão conflitiva de Jesus e de sua missão.
Por ter vivido como viveu, não podia terminar de outra maneira. A dimensão conflitiva da fidelidade de Jesus à missão é o resultado inevitável do embate entre sua missão, que anuncia a justiça do Reino e as bem-aventuranças, e a realidade que não quer ouvir e rejeita a novidade do Reino. Sua existência não foi “neutra” no sentido de uma vida que passa sem ser percebida.
Jesus disse a verdade e desmascarou o poder em todas as suas formas: religioso, político, intelectual.
Desmascarar o poder é desmascarar os ídolos que causam a morte. Por isso, os conflitos enfrentados por Jesus são conseqüências de uma opção, de um caminho, de uma prática feita de amor e de solidariedade com os que mais sofrem e são oprimidos.

Jesus não só sofreu a perseguição e os conflitos, mas também nos apresenta as consequências do seu seguimento. Quem vive radicalmente o Evangelho, vai ser rejeitado, perseguido...
O conflito faz parte da vida do(a) seguidor(a) de Jesus; ele(ela) vive em meio a uma realidade que resiste à novidade e à transformação de vida exigida pelo Reino.
De uma forma por si mesma desconcertante e misteriosa, o conflito constitui um chamado do Senhor, uma graça para seguir Jesus perseguido, com uma opção mais madura e com motivações mais purificadas, segundo o Evangelho.
Tendo por referência inspiradora a pessoa de Jesus e o modo de agir das primeiras comunidades cristãs, nós, seguidores de Jesus, devemos enfrentar com seriedade o sentido cristão dos conflitos pelos quais atravessamos. Deus também se revela no conflito; nos conflitos há uma manifestação do Espírito.

Não há só conflitos puramente “exteriores” (perseguições, acusações, oposições...), por causa do Evange-lho. Todo conflito sempre apresenta uma dimensão interior, mostra-se como uma crise do espírito. Conflito e crise andam juntos.
A crise é um período de insegurança, que convoca a uma nova síntese de valores e a uma vivência evangélica dos mesmos. O conflito gera a crise porque obriga a repensar, a aprofundar, arrancando-nos da aparente estabilidade e do conformismo.
Nesse sentido, o conflito e a crise são um apelo a uma progressiva conversão. São um convite a um aprofundamento da totalidade do compromisso cristão e a um crescimento em todos os valores que o conflito pôs em crise. Pode-se afirmar que não há seguimento cristão, nem aprofundamento de uma maturidade adulta que não passem pelas crises do conflito.
O conflito leva à maturidade e pressupõe a maturidade para ser assumido e superado.
O conflito pode converter-se em fonte de crescimento quando uma pessoa ou uma comunidade cristã deixa de negá-lo ou evitá-lo, mas quando aprende a manejá-lo com atitudes de integração, discernimento e compreensão. O conflito aprofunda e purifica a existência; aprende-se a discernir entre o essencial e o acidental e a despojar-se do inútil ou supérfluo para ficar com o que é mais importante.
O conflito se converte numa experiência positiva quando nos motiva a desenvolver novas destrezas, nos anima a buscar meios para manejar problemas, estimula nosso interesse pela comunidade e nos aproxima dos outros, nos leva a esclarecer nossos pontos de vista e a reexaminar nossas posturas...
Os conflitos demandam nossos maiores recursos criativos.

Tanto no processo pessoal do seguimento de Jesus como na configuração de uma comunidade cristã, os momentos de conflitos são inevitáveis; nesses momentos densos, de encruzilhada e de resistência, abre-se a possibilidade de descobrir um renovado sentido de unidade e consistência, que permite ao sujeito (pessoal ou comunitário) sentir-se a si mesmo no meio de constantes tensões.
Os conflitos abrem a possibilidade de intuir novas potencialidades ou pôr em jogo recursos que, até o momento da crise, talvez não tivesse necessidade de ativá-los. Por isso, os conflitos obrigam geralmente a uma tomada de decisão inadiável.
Os conflitos revelam o movimento da vida. A realidade é dinâmica, move-se, evolui. O absurdo de que-rer fixá-la em esquemas teóricos e modos ultrapassados de comportamento, fatalmente conduz ao confronto de forças, de idéias, de visões diferentes...
Os conflitos não são negativos. Eles nos ajudam a aceitar melhor a verdade e fazer nascer o novo, mais rico e mais amadurecido. O Evangelho nos lembra a morte da semente e a mulher grávida que aguardava sua hora, terminando por contribuir com vida nova para o mundo.
Em meio aos conflitos, também nossas comunidades cristãs podem crescer em amor fraterno. É o momento de descobrir que não é possível seguir a Jesus e colaborar com Ele no projeto humanizador do Pai sem trabalhar por uma sociedade mais justa e fraterna, mais solidária e responsável.
O conflito é um “ensaio da esperança”, uma certeza de que o Espírito “renova todas as coisas” sobre a face da terra.

Texto bíblico:   Lc. 12,49-53

Na oração: Rezar as atitudes pessoais
                   frente aos conflitos.
Como viver o Evangelho em meio a conflitos?
Como crescer e amadurecer no conflito? Como aprofundar nossa missão no conflito?
Descobrir a presença e o chamado de Cristo dentro dos conflitos.

                                                                                           

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Homilia Dominical - 06 de agosto

UM CORAÇÃO EM DESEJO 

“Que vossos rins estejam cingidos e as lâmpadas acesas” (Lc 12,35)

As insistentes recomendações que recebemos, ao iniciar uma viagem aérea, contém um tom de advertência séria: somos informados que vamos passar por um momento de certa gravidade e nos recordam que a decolagem e a aterrissagem são momentos de risco e de instabilidade; por isso é preciso preparar-se e dispor-se. O aviso “afivelem seus cintos de segurança” corresponde ao imperativo “tende os rins cingidos e as lâmpadas acesas”, proferido por Jesus no Evangelho deste domingo. Tal apelo equivale a mobilizar-nos para realizar um trabalho, uma viagem, uma missão...
As advertências são necessárias, porque facilmente nos fechamos ao nosso habitual modo de viver, caindo na acomodação e na falta de atenção àquilo que acontece ao nosso redor. Continuamente estamos diante do novo e do imprevisível e preferimos nos fixar no que é passado e já conhecido, pois nos dá a impressão de segurança. Com isso não avançamos e nem crescemos. Perdemos ricas oportunidades.
É inútil se esquivar da passagem do tempo e suas consequências, não escutar seus avisos e dissimular seus efeitos. Facilmente enterramos nossa cabeça na areia, evitando tomar consciência daquilo que pede de nós uma atitude, colocar-nos de pé e sair ao seu encontro bem cingidos.
O tempo exige decisão, pois o tempo é sempre novo e nos abre a novas possibilidades. Somos “seres de travessia” mas a tentação a permanecer na “margem conhecida” é contínua.

Em que consiste, então, “ajustar o cinto” e “cingir-se”? De imediato, consiste na decisão de assumir a frágil existência, habitá-la com sentido e começar a acolher as mudanças que a passagem do tempo vai introduzir nela. Gostemos ou não, estamos diante de uma etapa diferente das anteriores, na qual, junto a e-videntes perdas, apresentam-se novas oportunidades. E dispomos também a assumi-la a partir de uma ati-tude de radical confiança em Deus, seguros de Sua presença e Sua companhia, em todo e qualquer tempo.
As palavras de Jesus são também hoje um chamado a viver com lucidez e responsabilidade, sem cair na passividade ou na letargia. Vivemos tempos densos, carregados de presença e que pedem de nós uma prontidão. Tempo para tomar consciência dos medos, receios e resistências despertados pela “travessia” da vida; tempo para tirar de dentro de nós aquelas amarras que impedem o fluir da vida.
Não é a hora de apagar as luzes e irmos dormir. É a hora de reagir, despertar nossa fé e seguir caminhando para o futuro, projetando e promovendo caminhos novos de fidelidade ao projeto de Jesus.

Como manter viva a esperança? Como não cair na frustração, no cansaço ou no desânimo?
Nos Evangelhos, encontramos diversas exortações, parábolas e chamados que só tem um objetivo: manter viva a responsabilidade do seguidor de Jesus. Uma das advertências mais conhecidas é a que encon-tramos no Evangelho deste domingo: “Tende cingido vossos rins e suas lâmpadas acesas”.
As duas imagens são muito expressivas. Indicam a atitude que os empregados devem ter quando, à noite, estão esperando que regresse seu senhor para abrir-lhe a porta da casa quando ele os chamar. Devem estar com a “cintura cingida”, ou seja, com a túnica presa à cintura para poder mover-se e atuar com agilidade; devem estar com as “lâmpadas acesas” para ter a casa iluminada e manter-se despertos.
A vida do seguidor de Jesus é um contínuo estar em alerta, estar sempre despertos, estar sempre em espera, estar sempre dispostos. Ele precisa viver com os olhos abertos às vindas surpresas de Deus; precisa estar com os ouvidos atentos para escutar seus passos; precisa viver sempre em prontidão para abrir a porta de seu coração.

As palavras de Jesus não contém nada de ameaça nem de cobrança; não alimentam um ego fechado nem sustentam nenhuma ideia de mérito. São palavras de sabedoria que convidam, ao contrário, a despertar para a Realidade que somos.
Despertar é uma das palavras básicas de todas as tradições de sabedoria. Todas elas nos alertam de que facilmente nos submergimos no sono da ignorância, crendo ser o que não somos e desconectados do que realmente somos; e esta é a fonte de muitos sofrimentos.
A condição humana pode ser definida em termos de “espera radical”  ou de “esperança”.
Porque nos definimos como radical espera, caímos na tristeza, quando vislumbramos um futuro ameaçador, ou nos entusiasmamos, pensando alcançar algo que nos agrada.
O filósofo Gabriel Marcel fez uma análise penetrante das atitudes humanas de esperança e desespero.
Esperar, para ele, é passar do “tempo fechado” para o “tempo aberto”, da superfície do “devir” para a profundidade do eterno, da fugacidade do “ter”  para a plenitude do “ser”.
A esperança, ao abrir-se para o futuro imprevisível, benfazejo e plenificante, cria o espaço vital que permite a realização daquilo que interiormente é desejado e buscado (“buscar e encontrar a Vontade divina”). Desesperar, pelo contrário, é fechar-se sobre si mesmo, enclausurar-se no tempo, que não faz mais que passar mecanicamente, sem trazer nada válido para a construção de algo novo. O futuro perde toda sua surpresa e mistério, feito mera repetição de experiências cristalizadas.

A espera tem, sem dúvida, um significado ativo; a espera não pode se separar da busca e do encontro, do atuar. Esperar é ousar re-nascer, vir-de-novo, re-começar... na fulgurante arte de tecer a vida naquilo que ela tem de mais íntimo e profundo. A espera, quando é carregada de amor e presença, faz crescer e conhecer regiões do coração até então desconhecidas e inexploradas.
Não mais confundir espera com impaciência. A dinâmica da espera inclui a surpresa. Esta certeza constitui o centro da experiência de fé. Por isso, a espera é sempre agradecida e confiada, uma autêntica sede de Deus. Brota uma certeza: o Esperado, quando chega, ultrapassa sempre o que se espera.
“Da aurora ao anoitecer, estou sentado à minha porta. Sei que, quando menos o penso, virá o feliz instante em que o verei. Enquanto isso, sorrio e canto sozinho; enquanto isso, o ar está se enchendo do aroma da promessa” (Tagore).

A esperança, neste início de século e de milênio, parece ser ainda mais urgente e necessária.
Os homens e mulheres deste tempo, carentes de certezas, parecem ter perdido a firmeza das antigas “verdades eternas”, rocha onde se alicerçava a esperança cristã.
A esperança é como uma “memória do futuro”; tem caráter profético.  E, enquanto o anuncia, de certa forma, o prepara. Precisamente por vivermos tempos difíceis, precisamos mais do que nunca da pequena e teimosa esperança.
                    Pois “a esperança é uma filhinha que todas as manhãs acorda, lava-
                    se e faz a sua oração com um rosto novo” (Péguy).
A esperança é a disponibilidade de alguém engajado numa experiência de comunhão, que oferece o penhor e as primícias do que se espera.
Nesta esperança nos alegramos, mesmo nas horas mais difíceis e escuras da nossa vida. Esta é a esperança que desejamos viver comunicar ao mundo; é a esperança que dá calor e sentido às nossas esperas.

Texto bíblico:  Lc 12, 32-48
                        
Na oração:  O ser humano é um ser de “espera”.  Nesta vida, todos nós
                      esperamos algo que está sempre à nossa frente, além das nossas possibilidades atuais. O nosso coração está habitado por esperanças de todo gênero. O que nos diferencia é a qualidade, a consistência e o realismo das nossas esperanças.
- Em quê estou colocando a minha capacidade de esperar?   












terça-feira, 26 de julho de 2016

Homilia dominical - 31 de julho de 2016

A TIRANIA DO EGO

“Então poderei dizer a mim mesmo: meu caro, tu tens uma boa reserva para muitos anos. Descansa, come, bebe, aproveita!” (Lc 12,19)

O monólogo do “homem rico”, no Evangelho de hoje, revela que, tudo na sua vida, gira em torno do próprio eu: "meus celeiros", "meu trigo", "meus bens". Em sua vida, não existe espaço para Deus e para o próximo. Tudo é pensado em função de sua satisfação pessoal: solidariedade, partilha, misericórdia são palavras banidas de seu vocabulário.
Este homem reduz sua existência a desfrutar da abundância de seus bens. No centro de sua vida está só ele e seu bem-estar. Deus está ausente. Os empregados que trabalham em suas terras não existem. As famílias das aldeias que lutam contra a fome não contam.
Ele é expressão mais visível do dinamismo negativo que nos desumaniza: a avareza e a cobiça.

De onde vem a avareza e a cobiça? Onde se encontra a raiz do instinto de posse?
A parábola do “homem rico”, dominado pelo “ego possessivo”, é contada por Jesus a partir de uma demanda de alguém que d’Ele se aproxima e lhe suplica que resolva uma questão da partilha de bens com seu irmão, que lhe faça justiça. Jesus sabe colocar-se em seu lugar: Ele não veio ao mundo como juiz jurídico, legal. Como bom pedagogo, Ele parte de uma questão colocada por alguém e vai mais além da exterioridade da situação; ou seja, Ele vai à raiz dos problemas, que está no coração do ser humano.
Para Jesus é mais importante desmascarar a cobiça e a avareza que nos dominam que fazer valer os direitos na partilha da herança.
Podemos dizer que por detrás desse impulso de acumulação se esconde uma experiência de empobre-cimento humano. Na origem da avareza, parece existir um vazio afetivo, uma infantil experiência de inse-gurança e, em último termo, uma desconexão de nossa verdadeira identidade.
O vazio afetivo “exige” ser preenchido compulsivamente: esta é a fonte da ansiedade, que se traduz em variadas dependências, uma das quais, pode ser a afeição desordenada pelo dinheiro ou pelos bens mate-riais. Neste sentido, a cobiça ou avareza é esforço – inútil e estéril – de preenchê-lo.
Mais em profundidade, a avareza, enquanto necessidade ilimitada de acumular, se explica – como todos os comportamentos egóicos – a partir da desconexão de nossa verdadeira identidade. O que somos – em nossa identidade profunda – é Plenitude. Mas, quando nos distanciamos de nosso “eu profundo” ou o ignoramos, começamos a viver como seres separados e carentes, em luta permanente e esgotadora por dissimular aquela carência que cremos ser. Mendigamos migalhas – “ajuntamos tesouros para nós mesmos” – sem reconhecer que já somos “ricos diante de Deus”.

Esta carência existencial é reforçada pelo ambiente no qual vivemos, marcado pelo consumismo; a publicidade continuamente nos impõe a idéia de que só tem valor quem tem e acumula bens e riquezas.
Nesse ambiente, cada um de nós vai alimentando uma espécie de ego, vivendo centrados em nós mesmos e separados do resto do mundo. Tal ego é possessivo. Muitas vezes manifesta-se como um desejo insaciá-vel de dinheiro e de bens. Daí a obsessão pela riqueza. Toda a nossa economia está baseada na poderosa força impulsionadora do interesse individual. O ego exacerbado quer controlar o seu mundo: pessoas, a-contecimentos e natureza. A partir da riqueza, ganha força a busca do poder e do domínio sobre os outros.
O ego compara-se com os outros e compete pelos elogios e pelos privilégios, pelo amor, pelo poder e pelo dinheiro. É isso que nos torna invejosos, ciumentos e ressentidos em relação aos outros. Também é isso que nos torna hipócritas, dominados pela duplicidade e pela desonestidade.
Esse ego não confia em ninguém a não ser em si mesmo. É essa falta de confiança que nos torna tão inseguros. Ficamos inevitavelmente cheios de medos, preocupações e ansiedades. O nosso ego, ou individualismo egoísta, torna-nos solitários e temerosos.
O ego não ama ninguém além de si, atendendo apenas às suas próprias necessidades e à sua própria gratificação. Sofrendo de uma falta total de compaixão ou empatia, ele pode ser extraordinariamente cruel para com os outros.

Como evitar que o nosso ego nos domine e determine nossa vida?
O primeiro passo será desvelar e desmascarar nosso ego com todas as suas maquinações e duplicidade.
Só uma pessoa esvaziada de seu ego pode transformar-se e transformar a realidade.
O nosso verdadeiro eu está enterrado por baixo do nosso ego ou falso eu. Segundo o Evangelho a pessoa cresce e se enriquece na entrega e na desapropriação. Porque só assim deixa refletir algo da maneira de ser de Deus. Nisso consiste também em ser “rico para Deus”.
As palavras de Jesus, nesse sentido, são magistrais: “Tomai cuidado contra todo tipo de ganância...; a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (v. 15).
O Evangelho não nos convida ao conformismo. O primeiro é a justiça, querida por Deus, pregada e vivida por Jesus: que todos tenham pão, moradia, saúde... fruto da comunhão, da solidariedade, novo nome da justiça; isso é o Reino, a Nova Humanidade. Mas pode ocorrer que quando tenhamos o justo, o que nos corresponde como filhos e irmãos, ambicionemos mais. Esta cobiça, pecado de raiz, nunca nos permitirá descansar.

Na vida, todos precisamos de algumas seguranças. E aspiramos condições dignas de vida. Mas, há uma linha que separa a necessidade verdadeira da ansiedade imposta, a segurança do necessário e a insegurança do excesso e do abuso. Há uma tentação muito humana que a todos nos habita: a de ter mais, acumular sempre, apossar-se de tudo... Parece que não nos satisfazemos nunca com aquilo que conseguimos. Tudo revela-se insuficiente, e o impulso por acumular – riquezas, bens, relações ou experiências – se converte em voracidade.
É preciso estar sempre alerta para não se deixar determinar pelo dinamismo da cobiça. Até onde chegar na acumulação de bens?
A resposta cristã é “viver como Jesus”: viver confiados nas mãos providentes do Deus Pai/Mãe, buscando o Reino-Utopia como o mais importante. “O resto virá por acréscimo”. A verdadeira riqueza é investir  numa única fortuna: a do amor, do favorecimento da vida, a do des-centramento de si mesmo em favor do serviço ao outro, o das obras em favor dos mais pobres e desfavorecidos...
Porque “ser rico diante de Deus” não significa ter “acumulado” méritos, mas deixar cair nossa falsa identidade, tomar distância do ego e, pacificado e aquietado nosso interior, fazer-nos conscientes da Ple-nitude que somos.
“Ser rico diante de Deus” significa, antes de mais nada, descobrir a nobreza de nossa identidade profun-da, identidade unitária e partilhada, a salvo de ladrões, enfermidades e mortes. Trata-se da identidade pela qual nos experimentamos no “céu”, a Presença divina que somos e na qual vivemos.

Texto bíblico Lc 12,13-21

Na oração: Sabemos da perene e escorregadia tentação – uma
                   mentira perigosa que aparece como “verdade”- de so-lucionar as inseguranças e medos de nosso eu através dos impul-sos à cobiça que se aninham em nosso coração. Há coisas que são mentira, mas que aparecem como verdade; aí se enraíza seu atrativo.
- Dar “nomes” aos apegos que travam o fluir de sua vida.
- Quais são suas “verdadeiras riquezas” pelas quais investe o melhor que há em você.




terça-feira, 19 de julho de 2016

Homilia Dominical - 17 de julho de 2016

HOSPITALIDADE: espaço de coração dilatado,
                                           gratuidade e contemplação

“Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Maria, recebeu-o em sua casa” (lc 10,38)

Se existe uma atitude de vida que pede o resgate de sua profundidade e seu poder evocativo original é a da “hospitalidade”. É um dos termos bíblicos mais ricos, que nos ajuda a aprofundar e aumentar a compre-ensão sobre a relação com nossos semelhantes.
A hospitalidade é uma “experiência existencial”, situa-se no nível do ser. É uma acolhida gratuita. Aquele que é acolhido tem direitos, mas também tem deveres e aquele que acolhe está disposto a mudar sua rotina, e ambos estão disponíveis a renovar, a redefinir sua identidade: “Antes de representar um pro-blema para a minha identidade, ele (o hóspede) é estímulo para uma convivência sempre a reescrever, atualizar, enriquecer...” (Dal Corso, Marco).
A diaconia (serviço) da hospitalidade é um movimento que vem de dentro da pessoa e se estende no vaivém das relações humanas mais distantes e mais próximas. É abertura e disponibilidade àquele que interpela as nossas convicções, nosso modo rotineiro e estreito de viver.
Em contexto de hospitalidade, anfitrião e hóspede podem revelar suas riquezas mais preciosas e trazer vida nova um ao outro. Só quem tem coração dilatado vive a hospitalidade como surpresa provocativa.
A hospitalidade é antes de mais nada uma disposição da alma, aberta e irrestrita. Acolher o outro significa multiplicar a alegria do encontro, da novidade e da partilha, não só do pão mas da vida.

Como comunidade seguidora de Jesus somos chamados a oferecer espaço aberto, hospitaleiro, onde os estranhos possam libertar-se de sua estranheza e transformar-se em nossos companheiros.
Talvez o conceito de “hospitalidade” possa oferecer uma nova dimensão à nossa compreensão de um relacionamento saudável e à formação de uma comunidade festiva e alegre em um mundo que sofre visivelmente de alienação, estranhamento e preconceito.
A hospitalidade envolve a escuta respeitosa daquilo que o outro tem a dizer, em uma abertura humilde do coração e da mente para compreender as diferenças e novidades que o outro nos traz. Aqui revela-se a diferença entre a hospitalidade de Marta e a de Maria, no evangelho deste domingo. A ansiedade e a preocupação de Marta impedem-na viver a hospitalidade com alegria. Seu ativismo compulsivo atrofia sua gratuidade e, quando se elimina a gratuidade, a vida pode perder seu sabor e seu sentido.

Como integrar Marta e Maria?
Marta é a eficácia do amor serviçal e hospitaleiro a um amigo muito querido que foi acolhido com todo carinho na casa familiar. Maria é a gratuidade que escuta absorta a novidade que Jesus traz. As duas dimensões da vida são necessárias.
Marta deve escutar o que diz Jesus e compreenderá que sua vida não fica limitada à tarefa de atender bem a familiares e amigos entre as quatro paredes da vida doméstica, senão que deve abrir-se para cuidar e servir o Reino de Deus que chega por todas as partes.
Maria não só deve estar atenta às palavras de Jesus, mas ao que dizem milhões de pessoas no mundo, suas solidões e suas alegrias, para que a novidade de Deus que se gesta em suas vidas encontre um rosto de lar onde possa ser acolhida e nascer na história.
Todos temos de ser Marta e Maria, o serviço eficaz e a gratuita contemplação de Jesus, irmanados em um modo original de viver a hospitalidade, onde o serviço pequeno e gratuito, a proximidade de portas abertas, o viver a cotidianidade como dom se constituem como a identidade cristã.

Essa é a nossa vocação: converter o “hostis” em “hospes”, o diferente em convidado, o estranho em amigo, e criar o espaço livre e sem medo, no qual a fraternidade pode ser experimentada em plenitude.
Na realidade, aqui se trata de um movimento expansivo onde se dá a travessia da hostilidade à hospitali-dade. Tal passagem é repleta de dificuldades: nossa sociedade é marcada pela presença de pessoas teme-rosas, defensivas e agressivas, agarrando-se ansiosamente ao seu modo fechado de viver, inclinadas a olhar ao redor com suspeitas, sempre à espera de que um inimigo de repente apareça e cause algum dano.
A hostilidade campeia nas redes sociais e a xenofobia circula como um veneno: daí a agressividade preconceituosa no campo político-social-racial-sexual...
De fato, ultimamente, os “estranhos” e “diferentes” tornaram-se mais sujeitos à hostilidade do que à hospitalidade: protegemos nossas casas com cães e trancas duplas, nossos edifícios com vigilantes, nossos colégios com guardas, nossas estradas com policiais, nossos aeroportos com seguranças, nossas cidades com polícia armada...
Nosso coração pode querer ajudar os outros e mostrar simpatia para com os pobres, solitários, rejeitados, minoritários...: no entanto, rodeamo-nos com um muro de medo e de sentimentos hostis, evitando instintivamente pessoas e lugares que possam nos lembrar de nossas boas intenções.
Em um mundo tão competitivo, mesmo pessoas próximas, como colegas de classe, de equipe, de trabalho, todos podem ficar infectados pelo medo e pela hostilidade quando sentem o outro como uma ameaça à sua segurança pessoal.
Muitas vezes, instituições criadas para oferecer espaço e tempo propícios para o desenvolvimento da hospitalidade (família, escolha, religião...), tornam-se tão dominadas pelo “defensismo” hostil que acabam atrofiando e bloqueando o melhor que cada pessoa traz em seu coração.

Hospitalidade não é mudar as pessoas, mas oferecer a elas um espaço no qual a mudança pode acontecer. Não é trazer homens e mulheres para o nosso círculo, mas oferecer uma liberdade sem as amarras de linhas divisórias. A hospitalidade não é um convite sutil para adotar o estilo de vida do anfitrião, mas a dádiva de uma chance para que o hóspede descubra o seu próprio estilo.
A hospitalidade não é uma tática para fazer de nossa fé e de nosso caminho critérios de felicidade; é abrir uma oportunidade para que os outros encontrem sua fé e seu caminho.
O paradoxo da hospitalidade é que ela deseja criar o “vazio”, não o vazio temeroso, mas um vazio amistoso no qual os estranhos podem entrar e descobrir a si mesmos livres como foram criados; livres para cantar suas canções, para falar suas línguas, para dançar suas danças; livres para expressar seus sentimentos e para seguir suas decisões. E isso não só no espaço físico da casa, mas nas redes sociais, nos diferentes grupos de interesse, nos relacionamentos...
O verdadeiro hospitaleiro é aquele que oferece o espaço onde não temos nada a temer, onde podemos ouvir nossa voz interior e descobrir nossa maneira pessoal de sermos humanos. A verdadeira hospitalidade é inclusiva e dá espaço para uma grande variedade de experiências humanas.

Texto bíblico:   Lc 10,38-42

Na oração: Continuamente nos deparamos com um Deus que chega gratuito e
                         imprevisível em nossa vida, suplicando hospitalidade. Quando Ele é acolhido,  nossa cotidianidade se converte em milagre.
- na relação com os outros, quê lugar ocupa a hospitalidade em sua espiritualidade cotidiana?




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