segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Quaresma - 4a. feira de cinzas

QUARTA-FEIRA DE CINZAS: quando caem as máscaras

“Ficai atentos para não praticar a vossa justiça na frente dos homens, só para serdes vistos por eles”

Todos os anos, vivemos um curioso itinerário: “passamos” do Carnaval à Quarta-feira de Cinzas. Trata-se de uma das expressões coletivas onde a tradição, a cultura, a história e a fé se encontram para deixar transparecer, com assombrosa claridade, um de nossos contrastes profundos. Assim somos nós, às vezes escondidos detrás de máscaras, ou envolvidos em plumagens brilhantes. E outras vezes, necessitados de nos desfazer de capas e envoltórios para poder contemplar nossa autêntica identidade, profunda e frágil ao mesmo tempo.
Algo disto acontece no Carnaval. É uma espécie de apoteose do sonho, do espelhismo, da vaidade. No carnaval não há nada mais que a fachada que alguém quer mostrar.
É uma curiosa metáfora de como, às vezes, podemos viver. Disfarçamo-nos de forte quando sabemos que somos vulneráveis; aparentamos ser resistentes quando, na realidade, estamos quebrados por dentro; manifestamos coragem quando o medo bloqueia o fluir da nossa vida; escondemos as inquietudes cotidi-anas, os desgostos ou as feridas, os fracassos e a falta de sentido na vida...

Vivemos a cultura da “civilização do espetáculo”. A humanidade passa por uma etapa de progressiva atrofia da interioridade, na qual a vida deixou de ser vivida para ser representada. As pessoas, como os atores que representam em um cenário o nas telas, vivem para mostrar-se para fora, carecem de sedimento interno. Através das redes sociais não há nada mais oculto, e o que é mostrado ao exterior está enfermo de superficialidade. As pessoas mais inventivas e criativas, que antes perseguiam ideais e causas mobilizadoras, agora já não conseguem senão representar uma farsa; nada escapa à banalização generalizada imposta por uma cultura focada na imagem pública.
É cada vez mais difícil a criação de um espaço interior, em sintonia e bem integrado com o mundo exterior. É cada vez mais difícil o caminho para a autenticidade, a esforçada vida que aposta pela profundidade pessoal e pelo compromisso.
Pode-se dizer que a civilização na qual nos movemos converte em árdua a aspiração evangélica do “escondido” e “oculto”, porque com a multiplicação de presenças superficiais – celular, tablets, face-book, whatsApp – nossa civilização trivializou e banalizou a intimidade.

 “Vestir-se de saco e cobrir-se de cinzas” seria a outra face dessa mesma moeda. É como quem tira a maquiagem frente a um espelho, para encontrar-se com a pele desnuda, como quem vai se despojando de camadas de roupas e vai ficando desprotegido.
Neste tempo de Cinzas a liturgia insiste para que possamos ver nossa verdade sem adornos; contemplar-nos e saber quem somos; aceitar nossa fragilidade, reconhecer os dons e os limites; descobrir as fendas por onde a vida se esvai, para ver se há algo a fazer com elas; confiar no Deus que nos conhece melhor que nós mesmos; e, ao “sair do próprio amor, querer e interesse”, poder partilhar este nosso ser no compro-misso com os outros.
Buscar a Deus onde Ele quer ser buscado e como quer ser buscado significa confrontar nossa própria interioridade, com toda sua complexidade de desejos contrapostos, e desmontar fantasias enganosas sobre nós mesmos e nossos objetivos na vida.
A experiência quaresmal significa: caminhar para a vivência de um Evangelho mais autêntico, lutar contra uma cultura que premia a exibição, mergulhar no “oculto” de modo que se dilate em nós um espa-ço interior, pois é no oculto e no escondido onde vai ser possível um encontro com o Deus verdadeiro.

A Quarta-feira de Cinzas se abre com o conhecido texto de Mateus sobre a esmola, a oração e o jejum. Tais “práticas quaresmais” são uma mediação para re-aprender o caminho de volta ao coração, des-velando (tirando o véu ou as máscaras) nossa interioridade para poder viver com mais verdade e coerência.
Mateus caricaturiza, exagera e amplifica o comportamento errôneo daqueles que vivem o “complexo do pavão”. O texto não critica que se dê esmola ou se faça oração e jejum, mas o “por quê” e o “para quê” de tudo isso: “para chamar a atenção”, “para serem elogiados pelos outros”, “para serem vistos”. Ou seja, faz-se da oração-esmola-jejum uma auto-celebração ou exibição de si mesmo.

Somos convidados a viver a Quaresma como um tempo de libertação. Neste tempo litúrgico teremos a oportunidade de experimentar um modo de viver, onde a verdadeira liberdade terá a chance de se expres-sar. Quaresma pode ser escola de vida para o restante do ano.
Não se trata de estar olhando nosso próprio umbigo: se queremos mudar as estruturas injustas, se quere-mos enfrentar o mal sistêmico, se cremos que outro mundo é possível, temos que começar por nós mesmos. Jejuar, dar esmola e orar... três simples propostas para sermos melhores e mais humanos.
A oração: um tempo para tomar consciência  que minha vida passa diante dos olhos do Senhor e saber o que Ele vê nela; somente diante do olhar compassivo do Senhor posso ativar os melhores recursos presentes em meu interior. Orar para conhecer mais o Senhor, para conectar com o que Ele deseja para mim e desejar, também eu, com Ele. Oportunidade de sentir sua presença em meu dia-a-dia, no cotidiano, e de reconhecer que, às vezes, Ele não passa: não o deixo passar. Tempo também de agradecer o bem que Ele realiza em minha vida e na das pessoas que me rodeiam. A oração é um encontro necessário, especial, insubstituível, para prestar-lhe toda minha atenção. E como em toda aprendizagem, persistir.
Como é minha oração? Deixo espaço suficiente à ação surpreendente de Deus?

O jejum: deixar de lado o que causa dano, para afirmar o que merece um espaço em minha vida. O Senhor me chama a jejuar de pré-juizos, de incompreensão, de intolerância, de egoísmo, de soberba, de mentiras... Jejuar de desculpas que me impedem olhar a realidade de frente, e optar por assumi-la com toda sua dureza e sua riqueza. Distanciar-me da vida superficial-consumista e eleger a vida plena, profunda, comprometida. Aprender a jejuar, não como sacrifício vazio, mas por amor; abraçar a renúncia que me abre a uma vida nova.
De que jejuar em minha realidade de hoje? A quê renunciar para ativar a vida?

A esmola: chamado a partilhar o muito ou o pouco que tenho, a des-centrar-me, a fazer da minha vida uma contínua saída em direção aos outros, sobretudos os mais pobres e excluídos. Praticar a esmola libera os braços para acolher, alarga o coração para ser mais compassivo, movimenta os pés para uma maior prontidão no serviço, desperta uma presença inspiradora junto àqueles que estão abatidos...
Esta generosidade, à qual sou chamado, é a atitude central na escola da quaresma e da vida. Seus frutos: a liberdade, a justiça, a Páscoa.
Dar esmola é fazer tudo aquilo que me leva a sair ao encontro do outro em suas necessidades: ser mais consciente da injustiça e da violência, servir os outros, visi-tar o enfermo, estancar feridas afetivas, encontrar tempo para falar com a família, deter-me naquilo que é mais posi-tivo nos outros, ser membro ou voluntário de uma ONG...
Qual é a “esmola” que o Senhor me chama a entregar?

Texto bíblicoMt 6,1-6.16-18

Na oração: Qual é minha verdade, diante de Deus, de mim
                   mesmo, diante dos outros?
                   Quê máscaras costumo usar, e em quê circunstâncias?









Homilia Dominical - 19 de fevereiro

QUE FAZEIS DE EXTRAORDINÁRIO? 

“E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? (Mt 5,47)

Com estas palavras, Jesus estabelece a diferença entre o modo pagão e o modo cristão de viver o cotidiano. A “cotidianidade” de nossa vida está tecida de coisas “ordinárias”, contraposta ao que ocor-re de maneira “extra-ordinária”.
A maioria das pessoas vive restrita ao ordinário com o anonimato que ele envolve.
No entanto, no seio do ordinário pode brotar uma mudança, uma transformação.
“Se, às vezes, há um fastio na rotina, não raro ela revela um mistério insondável” (Cláudio Van Balen).
Quando assumimos o nosso ordinário e o vivificamos com injeções de novidade e de criação, ele se torna o “lugar” das experiências. E a “experiência é a sabedoria da vida”.
No ordinário se encontram as “pequenas práticas com sucesso”. O ordinário pode significar um avanço na aceitação do “pequeno”, das coisas mais simples... tudo tem sentido, tudo é digno de ser cuidado.
Nesse sentido, o ordinário que conserva, também pode provocar o surgimento do novo;
                        o ordinário que aliena, também está grávido de utopia;
                        o ordinário que nos acomoda, também pode ser o lugar da audácia e da iniciativa.

No evangelho de hoje, Jesus pergunta aos seus seguidores o que fazem de extraordinário. Isso nos leva a pensar que o cristão deve ser aquele que tem atitudes extraordinárias, comportamentos extraordinários, ações extraordinárias, etc... Portanto, esta é uma das características do cristão: ser extraordinário.
No entanto, quando pensamos em “extraordinário”, pensamos em enormes obras, coisas estrondosas, mirabolantes, etc...
O que é “extraordinário”? A palavra nos sugere pensar o seguinte: “extra” + “ordinário”.
“Ordinário” é o que está na ordem do dia, nas regras, nos comportamentos ditos normais de todos, na mesmice do dia a dia. Isto é o ordinário: acordar, trabalhar, estudar, casar, comprar, consumir, morrer,…
Milhões de pessoas passam a vida fazendo o ordinário. E simplesmente “passam”.
Aqueles que fazem coisas “além desse ordinário”, ou seja, “extra”, são pessoas “extraordinárias”.
Portanto, tudo aquilo que vai além da normalidade, do comportamento geral, isso é extraordinário.
Dessa forma, tiramos do conceito de “extraordinário” a necessidade de “coisas enormes”. Mas, coisas mais profundas, com mais sentido, com “sabor diferente”, com “características diferenciadas”.
O seguimento de Jesus é para aqueles que querem “algo mais”, que querem o “extraordinário”.

A espiritualidade é a contracorrente do ordinário. Se, de um lado, o ordinário nos arrasta para a repetição e a conservação, de outro lado, a espiritualidade nos impulsiona para a busca e a descoberta.
Se permanecermos simplesmente no ordinário, então nos tornaremos medíocres e nos contentaremos com o “menos”.
A espiritualidade cristã é a espiritualidade do cotidiano, que conserva sua força transformadora, que é capaz de despertar o espanto e a admiração, apontando sempre para um horizonte mais amplo e mais rico;
é a espiritualidade que reacende desejos e sonhos novos, que suscita energias em direção ao mais;
é a espiritualidade que faz descobrir, escondida no ordinário, uma Presença absoluta que nos envolve;
é a espiritualidade que faz saborear o eterno e o Absoluto no ritmo doméstico e cotidiano da vida...
é a espiritualidade que projeta a vida a cada instante; abre espaço à ação do Espírito para que Ele nos expanda, nos alargue e nos impulsione para horizontes novos.
Uma pessoa certa vez disse: “todos nós somos chamados a sermos santos; e santo não é aquele que faz coisas extraordinárias, mas santo é aquele que faz as coisas ordinárias de forma extraordinária”.  Há aqui um sentido profundo: ser uma pessoa “normal”, mas que faz tudo de forma extraordinária. Fazer bem as coisas, com responsabilidade, com ética, com respeito, com justiça…
E temos muitas pessoas extraordinárias no mundo hoje, felizmente. Ocorre que os grandes meios de comunicação, ordinários (em todos os sentidos da palavra), não divulgam o que elas vivem: não retribu-em violência com violência, são capazes de entregar o manto e de não dar as costas a quem pede emprestado; amam os inimigos e rezam por aqueles que as perseguem. Vivem de maneira extraordinária. Tais pessoas fazem a diferença.

É a “mística” que nos desperta da letargia do cotidiano. E despertos, descobriremos que o cotidiano guarda segredos, novidades, energias ocultas, forças criativas... que podem sempre conferir novo senti-do e brilho à vida. O Reino se revela no pequeno, no anônimo, no ordinário e não só no espetacular, no grandioso. É o cotidiano que nos prepara para as grandes decisões.
Na vida cotidiana, as pessoas correm o risco de serem apenas imitadoras ou repetidoras, pois temem se perderem na busca do novo; as respostas são confirmadas, mesmo que estas sejam velhas e desfocadas e as perguntas são silenciadas. Fechado em si mesmo o ordinário torna-se pesado, desinteressado e frustrado.
As “ações cotidianas insensatas” podem ser “sensatas” (com sentido), se percebermos Deus presente nelas. Descobrir a presença divina escondida no ordinário é encontrar-nos acolhidos pelo abraço do Criador que nos envolve.

Falamos de uma cotidianidade humana, isto é, daquelas atividades de nossa vida diária que, embora irrelevantes em sua aparência, tem uma razão de ser, uma motivação e um modo de serem feitas que não se deve à mera casualidade ou a um impulso instintivo de repetição ou automatismo.
O cotidiano é o que vivemos e/ou fazemos cada dia: o conjunto de circunstâncias, atividades e rela-ções que formam a trama da nossa vida através da qual Deus se revela presente e atuante. Com essa inspiração, o cotidiano torna-se o “lugar” das experiências.
É na realidade diária que cada cristão é chamado a viver em comunhão com Deus e a deixar-se conduzir pelo mesmo Espírito que animou Jesus e o levou a inserir-se na trama humana, assumindo o risco da história. Ser cristão inserido no mundo, em meio às agitações cotidianas, é acima de tudo ter Jesus como referência de vida: suas palavras, suas ações, seu modo de relacionar-se com o Pai e com os irmãos...

Quando a vida cotidiana do cristão se torna monótona e se faz “normal”, é necessário sacudí-la com algum “detalhe não-normal”, que ajuda para revigorá-la e dar-lhe fecundidade.
Neste sentido, os tempos de oração são os momentos privilegiados para que toda pessoa, consciente de sua responsabilidade social e empenhada na transformação de seu “entorno” , possa encontrar em sua vida cotidiana a fonte e sua fecundidade transformadora.

Texto bíblicoMt 5,38-48

Na oração:   O Espírito nos faz abrir os olhos às realidades novas
                      em nossa vida cotidiana; mas nossos olhos somente se abrirão se formos fiéis à voz do Espírito nos simples atos de nossa vida cotidiana.
Suas atividades diárias formam parte do seu caminho para Deus? Você tem consciência que cada dia é um “tempo de graça”? Você “apalpa” a presença de Deus nas “rotinas diárias”?





quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Retiro de fevereiro de 2017


RETIRO MENSAL – FEVEREIRO 2017
Tema: A mulher Consagrada é o rosto de Maria e da Mãe Igreja
                                                                         (Papa Francisco)
Sugestão para ambientação do retiro: Colocar em evidência a imagem de Maria
Invocação ao Espírito Santo
Dirigente: Motivadas pela graça de iniciarmos um ano jubilar sob a proteção e na companhia da Mãe de Deus e nossa, pela ocasião dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, no rio Paraíba, queremos, neste dia de retiro, celebrar, fazer memória e agradecer. Agradecer, sobretudo, ao Pai por ter “oferecido ao Brasil a sua própria Mãe”, como disse o Papa Francisco. E neste sentido, somos também convidadas a olhar para nossa Consagração e nos espelhar em Maria, mulher que “acreditou” nos planos do Senhor. Possamos, do mesmo modo, aderir ao plano de amor que Deus traçou para nós desde toda a eternidade. Que possamos nos colocar em sua presença com o coração desejoso de experimentar a alegria que brota do Evangelho, a fim de meditarmos, guardando no coração este grande tesouro, e comunicá-lo com nossa vida.
Maria, a mãe intercessora seja nossa companheira, nos auxilie, nos anime a contemplarmos Jesus, afim de que, colocando nossa confiança Nele, acreditemos que sua graça nos acompanha, assim como acompanhou sua Mãe e nossa amada fundadora Madre Clélia, em toda a sua trajetória terrena.
Canto: Companheira Maria...
Voz 1: A bem-aventurada Virgem Maria pelo dom da maternidade divina, que a une com o seu Filho Jesus Cristo, e pelas suas graças e funções singulares, está também intimamente unida à vida e à missão da Igreja. A Mãe de Deus é a figura da Igreja, o seu modelo exemplar, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Jesus Cristo.
Todas: Sendo a Virgem de Nazaré aquela que é “feliz porque acreditou”, ela está sempre presente no meio da Igreja, “de geração em geração”, sendo para ela modelo da esperança que não decepciona.
Voz 2“Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe”. Tendo acolhido o sinal que Deus lhes tinha dado, os pescadores tornam-se missionários, partilhando com os vizinhos a graça recebida. Trata-se de uma lição sobre a missão da Igreja no mundo: “O resultado do trabalho pastoral não se assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor” (Papa Francisco).
Todas:A companhia e a proteção maternal de Nossa Senhora Aparecida nos ajude a progredir como discípulas e discípulos, missionárias e missionários de Cristo!
Voz 3- Como a Virgem de Nazaré, que foi a primeira a acreditar, acolher a Palavra de Deus que lhe foi revelada na Anunciação e permanece fiel a ela em todas as provações, até à Cruz, da mesma forma, a Igreja também se torna mãe quando acolhe com fidelidade a Palavra de Deus e, pela pregação e pelo Batismo, gera para uma vida nova e imortal os filhos, concebidos por obra do Espírito Santo e nascidos de Deus.
Todas: A Igreja guarda a fé recebida de Cristo, a exemplo de Maria, que guardava e meditava no seu coração tudo o que se dizia respeito ao seu divino Filho.
Dirigente: No início deste retiro, elevemos ao Pai a nossa oração, rezando com as Palavras de Madre Clélia que viveu uma profunda devoção Mariana e nos ensina, com seu exemplo, a unir o nosso coração ao Coração da Virgem Maria.
 
 





A MARIA SANTÍSSIMA
Ó Maria, sede minha ADVOGADA. Falai por mim e por minhas pobres Filhas de Religião.
Ó Maria, sede minha poderosa BENFEITORA. Enriquecei-me de graças especiais.
Ó Maria, sede minha CONSOLADORA, consolai-me.
Ó Maria, sede minha ESTRELA, guiai-me em toda parte.
Ó Maria sede minha FORÇA, sustentai-me.
Ó Maria sede minha GUARDIÃ, protegei-me.
Ó Maria sede a minha LUZ, iluminai-me.
Ó Maria, sede minha MÃE, amai-me muito.
Ó Maria, sede minha PROTETORA, defendei-me.
Ó Maria sede meu REFÚGIO, escondei-me.
Ó Maria, sede o meu SOCORRO, vinde a mim!

Sugestões de textos para oração:
Lc 1, 26-38 (A anunciação)
Lc 1, 39-45 (A visitação)
Lc 1, 46-55 (O cântico de Maria)
Jo 2,1-12 (As Bodas de Caná)
Jo 19, 25-27 (Jesus e sua mãe)
Atos 1,12-14 (Presença de Maria no Pentecostes)
Mt 12, 46-50 (Os verdadeiros parentes de Jesus)
Antologia: 4.3 (A Maria Santíssima)

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MENSAGEM À IGREJA CATÓLICA NO BRASIL
ANO NACIONAL MARIANO
Na imagem de Nossa Senhora Aparecida “há algo de perene para se aprender”. “Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe”
(Papa Francisco)
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, em comemoração aos 300 anos do encontro da Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, nas águas do rio Paraíba do Sul, instituiu o Ano Nacional Mariano, a iniciar-se aos 12 de outubro de 2016, concluindo-se aos 11 de outubro de 2017, para celebrar, fazer memória e agradecer.
Como no episódio da pesca milagrosa narrada pelos Evangelhos, também os nossos pescadores passaram pela experiência do insucesso. Mas, também eles, perseverando em seu trabalho, receberam um dom muito maior do que poderiam esperar: “Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe”. Tendo acolhido o sinal que Deus lhes tinha dado, os pescadores tornam-se missionários, partilhando com os vizinhos a graça recebida. Trata-se de uma lição sobre a missão da Igreja no mundo: “O resultado do trabalho pastoral não se assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor” (Papa Francisco).
A celebração dos 300 anos é uma grande ação de graças. Todas as dioceses do Brasil, desde 2014, se preparam, recebendo a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida, que percorre cidades e periferias, lembrando aos pobres e abandonados que eles são os prediletos do coração misericordioso de Deus. 
O Ano Mariano vai, certamente, fazer crescer ainda mais o fervor desta devoção e da alegria em fazer tudo o que Ele disser (cf. Jo 2,5).
Todas as famílias e comunidades são convidadas a participar intensamente desse Ano Mariano.
A companhia e a proteção maternal de Nossa Senhora Aparecida nos ajude a progredir como discípulas e discípulos, missionárias e missionários de Cristo!
Brasília (DF), 1º de agosto de 2016
Dom Sérgio da Rocha


Bom retiro!





Homilia dominical - 15 de fevereiro de 2017

JUSTIÇA DO REINO


“Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20)

É uma beatitude ter dentro de nós o desejo de um mundo melhor, no qual haja justiça.
É uma beatitude não estar satisfeito com a situação presente, porque seria uma infelicidade não ver as injustiças. Aquele que tem fome e sede de justiça não permanece imóvel, está “em busca”... e a busca da justiça não pode jamais se dar por terminada. O ser humano e o mundo carregam infinitas possibilidades de crescimento. Há aí uma tarefa sem fim.
A justiça não é uma virtude como as outras. Ela é o horizonte de todas. Todo valor a supõe; toda a humanidade a requer. É aquela virtude que contém ou supõe todas as outras.
A palavra “justiça” evoca em 1º lugar uma ordem jurídica (“jus”, em latim), ou seja, o respeito à lei.
A noção moral é mais ampla: a justiça dá a cada um o que lhe é devido, ou seja, refere-se a uma igualdade entre as pessoas.
Mas, no sentido bíblico, “ser justo” é “ajustar-se” ao modo de ser e de agir de Deus.

A justiça adquire, então, um sentido muito mais profundo: a integridade do ser humano é o eco e o fru-to da justiça soberana de Deus, da maravilhosa delicadeza com que Ele conduz o universo e cumula de dons as suas criaturas. Esta justiça de Deus coincide com sua misericórdia, sua bondade, sua santida-de... Segundo os livros Sapienciais, a justiça é a sabedoria posta em prática. É a sabedoria que ensina a temperança, a prudência, a justiça e a coragem...
Para os judeus, a justiça não é tanto uma atitude passiva de imparcialidade, mas um empenho apaixonado em favor do direito das pessoas.
Por isso, justiça deve ser interpretada como misericórdia criadora, na linha profética de Israel, na linha messiânica de Jesus, em forma de não violência ativa, a serviço dos últimos da terra.
A justiça entra em cena nas relações entre Deus e seu povo e entre os homens. Ela está presente nos campos jurídico, social, ético e religioso. É um conceito dinâmico, que significa mais agir do que ser. De Deus e dos homens se diz frequentemente que fazem a justiça, praticam a justiça...
A justiça divina é vista como “a mais sublime bondade” ou uma “força que salva”.
A justiça de Deus, portanto, não é poder universal, mas amor aberto e libertador.

No NT, a “nova justiça do Reino” refere-se a uma justiça que se exprime na maneira de viver e na forma de proceder com os outros. É uma justiça que radicaliza a nossa vida de tal modo que nos faz parti-cipar já do Reino messiânico. A nova justiça é, antes de tudo, uma exigência de amor entre as pessoas.
Jesus recupera o sentido e o espírito da Lei e não a interpretação casuística.
A Lei é mediação para expandir-se em direção aos outros e a Deus. Nela mesma, não tem sentido, desu-maniza. É legalismo. Quando a Lei nos abre aos outros ela se revela carregada de humanismo; do contrá-rio, cai-se no farisaísmo.
A preocupação de Jesus não era as minúcias da Lei, mas a prática do amor misericordioso, de modo especial em relação aos pobres e marginalizados. Com relação a isso Jesus foi radical.
Na vivência do amor não podemos descuidar nem da menor lei.
Quando estava em jogo a defesa da vida, Jesus não transigia.
Na relação com os outros somos chamados a ir além da Lei; não se contentar com a prática da lei em si, mas carregá-la de vida. Ela deve ser mediação para amar mais.
A vivência da lei também é processo; sempre podemos ir um pouco mais além dela.
A lei em si estipula um limite: daí o perigo de acomodar-se; a lei do amor, pelo contrário, não tem limites.
Jesus veio para alargar o horizonte do comportamento humano, nos libertar dos perigos do legalismo.

Quando alguém busca a vontade do Pai com a mesma paixão com que Jesus a buscava, vai sempre mais além daquilo que pedem as leis. Para caminhar em direção ao mundo mais humano que Deus deseja para todos, o importante não é contar com pessoas observantes de leis, mas com homens e mulheres que se pareçam com Ele, que se "ajustam" ao modo de agir do mesmo Deus; em outras palavras, a prática da justiça que é infinitamente superior à lei.
Aquele que não mata, cumpre a lei, mas se não arranca de seu coração a agressividade para com seu irmão, o desprezo ao outro, os insultos ou as vinganças, não se parece com Deus. Aquele que não comete adultério, cumpre a lei, mas se deseja egoisticamente a esposa de seu irmão, não se assemelha a Deus. Nestas pessoas reina a Lei, mas não Deus; são observantes, mas não sabem amar; vivem “corretamente”, mas não construirão um mundo mais humano.
A radicalidade exigida por Jesus pode, em princípio, assustar às pessoas; mas se trata de uma radicalidade que aponta para o coração. Jesus aponta diretamente para a necessidade de viver em conexão constante com o que há de melhor em nós mesmos, ou seja, ancorar nosso modo de viver nas raízes de nossa identi-dade profunda. Somente a partir desse “eu profundo” é possível perceber que o que brota daí tem a marca do amor. Esta forma de “ver” e de viver é mais importante que o culto. Por isso, o texto insiste em priori-zar a reconciliação antes de fazer a oferenda no altar. Primeiro a justiça, depois o culto.
E essa interioridade, por sua vez, se expressa no modo de olhar, de agir. É preciso arrancar do coração todo olhar possessivo, toda ação egoísta.
Mas Jesus não fala aqui de controle, nem de medo e punição.
Segundo a mentalidade oriental, olho direito é o olho consciente, é o olho masculino, que domina, avalia e julga, que quer vencer, e, às vezes, também matar, é o olhar do avarento que deseja possuir tudo.
O olho esquerdo é o olho inconsciente, o olho feminino, que aceita, admira, que observa e percebe.
A mão direita é a mão do realizador, daquele que se julga capaz de conseguir tudo que deseja; a mão esquerda, por sua vez, é a mão feminina, que recebe, que é carinhosa, que toca e cura.
Aquele que vê tudo só com seu olho direito, que se apodera de tudo, alimenta uma divisão interior e acabará criando seu próprio inferno nas profundezas do seu ego; é o inferno de seu caos interior.
Aquele que pensa que pode controlar tudo com sua mão direita, reprime muitos impulsos oblativos e abertos de seu coração, e acabará lançado no fogo de suas regiões reprimidas.
O decisivo é integrar e harmonizar os dinamismos interiores para que o seguimento de Jesus não desemboque numa batalha interior que desgasta e alimenta sentimentos de culpa.

Texto bíblicoMt 5,17-37

Na oração: A oração do tato é a oração de um corpo
                        que não se apega avidamente, que não se fecha ao outro.
Tocar a Deus ou deixar-se tocar por Ele não é sentir-se esmagado, mas sentir-se cercado de espaço.
A oração é um estreitamento que nos torna livres. Não oramos com os punhos fechados, nem com garras, nem com aguilhão na ponta dos dedos. Só se pode orar com as mãos abertas...
- Diante de Deus, deixar aflorar os sinais de “farisaísmo” presentes no seu cotidiano.




Homilia dominical - 8 de fevereiro de 2017

SAL E LUZ, PRESENÇA QUE FAZ A DIFERENÇA


“Vós sois o sal da terra… Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-14)

O Evangelho de hoje vem imediatamente após a proclamação das Bem-aventuranças. Isto quer dizer que aquelas e aqueles que fazem das Bem-aventuranças o programa da sua vida, são chamados a uma respon-sabilidade real e atual, ou seja, eles/elas não vão se tornar sal da terra e luz do mundo no futuro, mas devem ser presença diferenciada no aqui e agora, humanizando as relações e comprometendo-se com a vida mais justa e plena.
Jesus diz: “Vós sois”;  não diz “deveis ser”, ou “tenhais que vos converter em...” “Sois”: expressão que se refere à existência toda do(a) seguidor(a) de Jesus, em qualquer circunstância e tempo. Quem segue a Jesus Cristo, afetado por seu chamado, torna-se plenamente convertido em sal da terra e luz do mundo.
“Sal da terra…, luz do mundo”: muitas vezes estas duas imagens foram entendidas em chave proselitista, de um modo sumamente atraente para o ego e gratificante para a mente.
Ao ego lhe atrai sempre considerar-se em posse da verdade, particularmente por dois motivos: porque isso lhe traz uma sensação de segurança e porque lhe permite manter uma imagem de si “acima” daqueles que, para ele, se encontram no erro. Ao ego lhe encanta ser “especial”, brilhar, aparecer... Ao ego lhe encanta que o reconheçam como “sal” e como “luz”, já que ele não busca outra coisa a não ser sentir-se reconhecido a qualquer preço.

Se permanecermos no clima das bem-aventuranças, cairemos na conta que a pessoa que é chamada a ser sal e luz não sai publicando por aí; ela é sal e luz não por suas ideias, doutrinas ou normas morais que busca impor aos outros, mas por ela mesma, por aquilo que ela é em sua interioridade.
Concretamente, é “sal” aquela pessoa que nos ajuda a saborear a vida com mais profundidade, porque seu gosto por viver nos contagia e nos apoia para que possamos experimentar isso também.
É “luz” porque, com sua presença amorosa, dissipa nossas obscuridades e facilita que percebamos o senti-do luminoso de nossa existência, de nossa verdadeira identidade.
Ser “luz” e “sal”, portanto, é o mais radicalmente oposto a qualquer atitude de superioridade e de proselitismo. Nem a vaidade, nem o fanatismo trazem sabor e luz.
A vida de Jesus aparece como “sal” e como “luz” pelo que Ele era e vivia. Sua mensagem era sumamente simples, centrada no compromisso com todos e numa presença compassiva; afinal de contas, “sal” e “luz” é outro nome da compaixão. Jesus despertou um movimento humanizador, carregado de sabor e iluminação, afetando a todos que d’Ele se aproximavam. Ele não estava preocupado em fazer prose-litismo, nem anunciar uma nova religião, uma doutrina mais palatável... Sua presença des-velava a luz e o sal presente em toda e qualquer pessoa.

«Vós sois o sal da terra…” “Vós sois a luz do mundo…”:   constitui uma das afirmações evangélicas mais claras de que a missão dos seguidores de Jesus no mundo faz parte de sua própria identidade. Duas pequenas imagens ou afirmações para duas grandes atitudes.
As imagens do sal e da luz servem também de apoio para justificar duas formas diferentes de presença e de ação no mundo. A referência ao sal remete a uma ação invisível, pois concebe a presença dos cristãos no mundo sob a forma da encarnação, a presença silenciosa na realidade, a inserção na sociedade, deixan-do atuar, pelo testemunho de cada um, a força do evangelho que, como a semente, uma vez semeada, germina no campo, de dia e de noite, sem que o semeador perceba.
O específico da luz, por outro lado, é brilhar, ou seja, esta imagem realça uma forma de presença visível, através das ações comunicativas e, especialmente, do anúncio explícito, como meios para fazer chegar o evangelho ao mundo no qual o cristão é chamado a ser presença diferenciada.
De acordo com o texto, as formas de presença significadas pela luz e pelo sal são, as duas, inseparáveis. São duas formas de presença no mundo; duas formas de exercício da missão, de um modo de proceder que se dá por “contágio ativo”, caracterizado pela hospitalidade, o amor mútuo, a caridade para com os pobres, a alegria contagiante...

O símbolo da luz é ainda mais rico do que o do sal: a luz ilumina, aquece, guia, agrega, tranquiliza, reconforta. A Luz é força fecundante, princípio ativo, condição indispensável para que haja vida. Tem capacidade de purificar e regenerar. Em oposição às trevas, a Luz exalta o que belo, bom e verdadeiro.
Vivemos imersos num oceano de luz; carregamos dentro a força da luz. Ela sempre está aí, disponível; basta abrir-nos a ela com a disposição de acolhê-la e de fazer as transformações que ela inspira.
Pelo fato de ser benfazeja e criadora, a luz nos permite dizer com o poeta Thiago de Mello, no meio de impasses, ameaças e conflitos que pesam sobre nossa vida: “Faz escuro, mas eu canto”.
Há aqueles que, ao invés de serem presenças iluminadoras, estão mais preocupados em subir e ocupar a posição do candeeiro, para aparecer, para se colocar acima dos outros, serem vistos e elogiados pelas pessoas. Quem aspira estar no candeeiro revela não ter luz para iluminar os outros, mas uma luz auto-referente. O candeeiro não é para que os vejam; o candeeiro é para que a luz de suas vidas se expanda e ilumine melhor; o candeeiro não é para que estejam mais altos, mas é para que a luz de suas vidas chegue a lugares mais distantes.

O ser humano é luz quando expande seu verdadeiro ser, ou seja, quando transcende e vai mais além, desbloqueando as ricas possibilidades de humanidade. A luz, por si mesma, é expansiva.
Um fotógrafo profissional fez a seguinte afirmação: “minha profissão é escrever com a luz; muitos escrevem com letras, eu com a luz”. As fotografias dependem de como a pessoa administra a luz.
Uma preciosa motivação a buscar a luz dentro de nós mesmos, a buscar esse “retrato interior” que é movido a se expor diante dos olhares dos outros. Nossa vida pode ser apaixonante se a contemplamos e a construímos como um diálogo de vida e de luz.
O salmista utilizará um registro parecido, contemplando nosso espaço interior como uma fonte de luzes; uma fonte que deixa transparecer aquela Luz profunda que nos leva por caminhos de paz e serenidade:
Pois em Ti está a Fonte da vida e à tua Luz vemos a luz” (Sl 36,10).
Deixemo-nos iluminar pela Luz de Deus, levemos a Luz nas nossas pobres e frágeis mãos, iluminando os recantos do nosso cotidiano.
Somos uma “sarça ardente” diante dos outros, consumindo-nos constantemente, no humilde serviço; somos uma lamparina humilde, brilhando na janela da nossa pobre casa, indicando aos outros o caminho da segurança e do aconchego.

Texto bíblicoMt 5,13-16

Na oração: Sinto-me uma lâmpada com a responsabilidade de
                   iluminar no meio da sociedade?
- Quê atitudes e comportamentos meus projetam luz para potenciar a tímida luz presente no outro?
- E quais projetam sombras, para poder erradicá-las? Na família, no trabalho, na comunidade cristã?
- Estou integrado ou devo integrar-me em alguma comunidade, grupo ou movimento eclesial, para ser luz coletivamente?  A quê compromissos concretos o Espírito me impulsiona pessoalmente e à nossa comunidade para ser luz em nosso entorno?







Homilia Dominical - 1 de fevereiro de 2017

A LÓGICA SURPREENDENTE DAS BEM-AVENTURANÇAS

“E Jesus começou a ensiná-los: bem-aventurados...” (Mt 5,2)

O Evangelho que nos foi confiado é um programa para alcançar a felicidade, a vida ditosa, prazerosa, bem-aventurada. Na boca de Jesus brilha sempre a palavra chave: “Felizes”.
A felicidade, proclamada aqui por Ele, é já uma realidade presente na sua pessoa e na sua missão.
Todas e cada uma das bem-aventuranças são autobiográficas. Jesus viveu-as durante 30 anos antes de proclamá-las. Elas são, portanto, a expressão do que constitui o centro mesmo da sua pessoa e da sua vida, dos seus sentimentos, atitudes; numa palavra, do seu mistério.
Poderíamos dizer que as bem-aventuranças são o auto-retrato de Jesus. Elas são o compêndio do ministério de Jesus. Não é lei que se impõe por si mesma; é confissão: “o Reino chegou”.

As Bem-aventuranças não são uma doutrina, mas um estilo de vida, um modo de proceder. Jesus não prega diretamente uma moral. Proclama a “irrupção” da graça, do amor, da misericórdia, da justiça de Deus na história da humanidade.
Porque tem a certeza de que chegou a “hora” de Deus intervir na história, Jesus fica feliz e proclama fe-lizes” os até agora indefesos, oprimidos e marginalizados, mas que mantiveram viva a confiança em Deus.
Jesus fala da felicidade não no singular, mas no plural. Em outras palavras, o que Ele afirma é que a felicidade de cada um está em íntima relação com a felicidade dos outros, com quem cada um convive.
Todos sabemos que nas nossas igrejas fala-se muito mais da renúncia ao prazer, da mortificação, do sofrimento, da austeridade, do sacrifício, da suportabilidade e da resignação, ao passo que pouco se escuta sobre aquilo que deve mover as pessoas a buscar ser felizes, a deleitar-se com tudo aquilo que de bom Deus pôs no mundo e na vida, desfrutar o prazeroso, o sensível, o corporal. Não é comum encontrar pessoas que, espontaneamente, associem Deus e a religião à alegria de viver e, em geral, a tudo aquilo que nos faz sentir melhor, sentir-nos bem e ser mais felizes.
Portanto, o centro da fé cristã não está na religião com suas exigências de sacrifícios e renúncias, com suas verdades e suas normas, mas na felicidade dos seres humanos.
 “A ética de Jesus é a ética do prazer de viver para todos, da felicidade compartilhada por todos, sem excluir ninguém. E isso é o que mais custa assumir e aceitar como projeto de vida, porque a ascética mais dura não é a da renúncia, mas sim da doação” (José Maria Castillo).

Os enunciados das bem-aventuranças soam à primeira vista como “idealistas”, “utópicas”, não possíveis de serem colocadas em prática no mundo em que vivemos. No entanto, pela sua provocação e questionamento, elas são a proposta mais realista, mais revolucionária e mais eficaz jamais pronunciada.
As bem-aventuranças são a exposição mais exigente e, ao mesmo tempo mais fascinante, da mensagem e da “intenção de Cristo”. Elas são a plenificação daquilo que é o mais humano em nós.
Poderíamos dizer que as Bem-aventuranças são a quinta-essência do seguimento de Jesus.
De fato, percebemos uma resistência surda frente às bem-aventuranças, não porque nosso coração não se reconheça nelas, mas porque parecem tão impossíveis, tão distantes estamos delas...; vivemos mergulha-dos em tantas contradições, profundos dramas e violências que nos parecem desmenti-las. Incomoda-nos e inquieta-nos sua mensagem de humildade, de mansidão, de paz, de pureza, de misericórdia... quando, na realidade, estamos envolvidos em construir, em fomentar um mundo que é arrogante, agressivo, violento, intolerante, excludente, injusto...
Temos resistências em escutá-las porque elas nos colocam de novo frente à verdade para a qual nascemos, diante do mais original de nosso coração e de nossas entranhas humanas. A ética de Jesus nas bem-aventuranças encontra resistência para ser assumida por nós precisamente em virtude de sua desconcertante humanidade.
As bem-aventuranças nos esperam no pequeno, no cotidiano, no próximo mais próximo, e nos impul-sionam a proclamar: a paz é possível, a alegria é uma realidade, a justiça não é um luxo, a mansidão está ao alcance da mão... Elas nos dizem que nascemos para a bondade, a beleza, a compaixão...

Ao formular as bem-aventuranças, Mateus traça o perfil que caracterizará os seguidores de Jesus; elas condensam as atitudes básicas que os cristãos devem ter na relação com os outros, seguindo as pegadas do Mestre. Jesus propõe a ventura sem limites, a felicidade plena para seus seguidores. Deus não quer a dor, a tristeza, o sofrimento; Deus quer precisamente o contrário: que o ser humano se realize plenamente, que viva feliz... Jesus acreditava na vida, e queria que todos vivessem intensamente.
Por isso, as bem-aventuranças podem ser escutadas como uma mensagem que brota do mais profundo da vida e que tem como finalidade apresentar a qualquer pessoa o mais humano que existe em nós.
Ao proclamar bem-aventurados os pobres, os que choram, os perseguidos, os humildes... Jesus, certamente, jamais quis sacralizar a dor humana. Ele constata a situação do povo, de pobreza, humi-lhação, submissão; percebe o esforço que o povo faz para mudar a situação, e o proclama feliz nesta busca, porque esta busca mora no próprio coração de Deus.
Aos olhos de Jesus nada é mais perigoso para o espírito humano do que vidas satisfeitas, acomodadas, sem desejos, sem a afeição das esperas e o desassossego das buscas; corações quietos, indolentes, medro-sos, covardes, petrificados, sensatamente contentes com aquilo que são e têm.
Como são, ao contrário, humanamente repletos de vida os que quase nada são e têm, os que ainda se encantam com as buscas, os que sonham e lutam por um mundo novo. Sua vida é penosa, sem dúvida, mas repleta de razões, criatividade, entusiasmo e vitalidade.

As diferentes ciências (psicologia, filosofia, antropologia, etc) nos fazem cair na conta de que todos os seres humanos desejam ser felizes. Também elas nos permitem compreender que a felicidade não é uma situação existencial que possamos agarrar e possuí-la. Também não é uma sucessão interminável de pra-zeres que acabam por nos esgotar, mas uma forma de ser e de viver. Ela não emana do que temos ou fazemos, mas do centro de nosso ser.
A felicidade que buscamos é o que realmente somos, e isto só se revela quando a mente se cala. Ser feliz, portanto, consiste em experimentar na existência a plenitude de nossa verdadeira identidade.
Ser feliz é deixar viver a criatura livre, alegre e simples presente dentro de cada de nós. A felicidade é, assim, o livre curso da vida, o fluxo contínuo da Vida em nós que se “entre-tece” com a vida dos outros.

Texto bíblicoMt. 5,1-12

Na oração: O melhor modo de fazer esta oração é seguir um dos
                  “modos de orar” proposto por S. Inácio, ou seja: “Contemplar o significado de cada palavra da oração” (EE. 249).
* Rezar as dimensões da vida que estão paralisadas, impedindo-lhe de viver a dinâmica das bem-aventuranças.
* Olhe no mais íntimo de você mesmo e pergunte-se: há um coração que deseja coisas grandes ou um coração adormecido pelas coisas? Seu coração conservou a inquietude da busca ou você tem se deixado sufo-car pelas “coisas”, que terminam por atrofiá-lo?



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