segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Homilia Dominical - 20 de Agosto de 2017

VISITAÇÃO: o encontro com o outro faz saltar a vida em nosso interior


“Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre...” (Lc 1,41)

A festa da Assunção de Maria nos oferece uma privilegiada oportunidade para aprofundar o mistério de toda vida humana. A todos nos preocupa qual será meta de nossa existência. Para grande parte do povo católico, a festa de hoje, juntamente com a festa da Imaculada, é a festa de Maria. A Imaculada marca o começo de sua história, a Assunção marca o destino final. Entre ambos “mistérios” ocorre o transcurso de sua vida, numa contínua identificação com Deus, ao lado da vida de Jesus.
Porque “assumiu” Deus em sua vida, Maria foi “assumida” totalmente por Deus; ela deixou Deus ser grande na sua vida; por isso, Deus a engrandeceu plenamente.
Realiza-se, portanto, em Maria a situação final, já dentro da história, situação prometida a toda humani-dade: “ser um dia de Deus e para Deus”; Maria o é desde o início (imaculada) até o final (assunção), através de uma fidelidade de toda a sua vida.

Sabemos que o encontro definitivo em Deus só acontece quando preenchemos de sentido os “encon-tros” com aqueles(as) que cruzam nossas vidas.
No relato do Evangelho de Lucas, indicado para a festa de hoje, há duas mulheres, Maria e Isabel, que experimentaram profundamente o dom da gratuidade, e seu lugar de carência se converteu em lugar de abundância. As duas descobriram o dinamismo curador das relações e a riqueza que os encontros pesso-ais revelam.
As relações que nos constituem são o tecido pelo qual circula nossa abertura a Deus e por onde crescemos em humanidade, acolhendo e sendo acolhidos pelos outros.
Vivemos em um mundo hiperconectado, em contato permanente e presente, ao mesmo tempo, em todos os lugares. O mundo, nossa vida, se converteu num “chat” contínuo. No entanto, em meio a este “chat” universal, a conversação emudeceu; a maior parte de nossas “conversações” tornaram-se prisioneiras das telas (celulares, tablets, smartphones, internet). Corremos o risco de reduzir a comunicação à conexão. Banalizam-se os conteúdos da conversa, mas também são amputadas dimensões fundamentais da experiência da comunicação, sobretudo a presença física. Sem essa presença, sem o encontro pessoal, não é possível o diálogo e a verdadeira comunicação. Este empobrecimento da comunicação vivente com o outro, ou a atrofia e medo de um face-a-face, é sinal claro de uma profunda desumanização.

O “mistério da visitação” nos possibilita recuperar o sentido e o dinamismo de um encontro interpes-soal. O encontro é uma realidade inter-humana dinâmica e, até certo ponto, tem algo de arriscado e im-previsível, derrubando todas as nossas prévias tentativas de controlá-lo.
Podemos planificá-lo preparando estratégias; podemos acolhê-lo cheio de expectativas ou, pelo contrário, sem elas, esperando uma mera formalidade, repetição de outras situações semelhantes; podemos nos mos-trar desejosos ou desconfiados, seguros ou ansiosos... De repente, algo inesperado acontece, na outra pessoa, ou em nós mesmos, ou no contexto, convertendo aquele encontro numa situação única e original, afetando nosso viver ou transformando nosso eu profundo.
O evangelista Lucas nos apresenta uma visita inesperada: a visita daquela que não permanece fechada nem ensimesmada em seu mistério; a visita daquela que se sente impulsionada a sair de si mesma para colocar-se a serviço daquela que está necessitada de ajuda.
Uma visita alegre, espontânea e gratuita, porque cheia da experiência de Deus; Maria que faz Isabel sentir a alegria de uma maternidade não esperada e Isabel que faz Maria sentir as maravilhas que Deus realizou nela. Uma visita que se expressa em dois cantos de louvor e ação de graças: “Bendita és tu que acre-ditaste” e “Minha alma engrandece o Senhor”.

As duas mulheres se encontram em diferentes momentos vitais: Isabel na terceira etapa de sua vida, Maria quase na primeira, entrando na segunda. Uma é estéril e anciã, a outra, jovem e virgem, ambas portadoras de uma vida maior que elas mesmas, conhecedoras do mistério que crescia em seu interior.
Devido à sua gravidez, as duas se encontram fora da norma social, do estabelecido. Isabel é idosa para poder conceber, e Maria está grávida sem estar casada.  Ambas deviam sentir não só alegria no abraço, mas também a comoção e as dúvidas: “quê vai acontecer?”, “como vamos ajeitar as coisas?”...
Elas apoiam-se mutuamente no momento no qual estão, na situação que atravessam; reconhecem-se e se confirmam; estabelecem um vínculo entre elas, aceitam-se mutuamente; não se julgam nem valoram em função do que a sociedade considera correto ou incorreto; compreendem o que significa para cada uma delas que algo novo está crescendo em seu interior.
Maria não vai só servir a Isabel; ela precisa de alguém que a partir de sua experiência lhe diga: “vai em frente, que isso é de Deus”. Necessita que Isabel a confirme e a bendiga. E Isabel, por sua vez, necessita agradecer o sonho de Deus que as duas compartilham e que se tornou possível.
Isabel e Maria se convertem cada uma em comadre, em parteira da outra; a partir de seus diferentes momentos vitais, vão se ajudar a esperar e a passar o processo do “dar à luz”. Na vida nova que está se gestando nelas, no secreto, anseiam em uníssono para trazer ao mundo algo de Deus que estava oculto.
As duas sabem de espera e de dores de parto. O parto não é um fato isolado e acontece nele a contração e a relaxação, a dor e o prazer, a posse e o desprendimento, a tristeza e a alegria, o medo e a confiança.
Isto que as parteiras mencionam como momentos do parto, do “dar à luz”, são momentos de nossa vida, de nossos encontros. Todos nos reconhecemos aí. Somos parteiros uns dos outros, e necessitamos cuidar desses processos cotidianos onde a vida do Espírito se manifesta como luz da vida.

À sombra do encontro entre Maria e Isabel e contemplando o modo de visitar e de ser visitado, agrade-cemos o tecido relacional que configura nossas vidas. É um tempo para orar os encontros, para conside-rar aqueles que precisamos continuar alimentando e aqueles que se romperam e que queremos reparar.
Agradecer os encontros que nutrem nossa vida. Trazer ao coração as pessoas significativas que nos fizeram provar o sabor do amor em nós e seus bons efeitos. Recolher agradecidamente os pequenos gestos de amor, de carinho, de escuta, de confiança, de paciência... que tiveram conosco.
Há visitas que não significam muito: só servem para matar o tempo e “jogar conversa fora”. E há visitas que despertam vida, que faz saltar a vida divina que carregamos dentro de nós.
Por isso, todos somos seres carentes de “mais visitações”. Visitações que despertem nossas possibilidades e sonhos, visitações que nos façam saltar de alegria, visitações que nos ajudem a reconhecer as maravi-lhas que Deus realiza em nós e nos outros.
Isabel e Maria se fazem valer mutuamente e despertam o melhor que há em cada uma. Viveram uma história de agradecimento e de libertação, se encontraram a partir da alma, a partir do mais profundo de si mesmas e se ofereceram mutuamente palavras amigas, palavras de encorajamento e de sabedoria.
Elas nos ajudam a nos perguntar: Quê tipo de história relacional queremos viver? Uma história a partir do ego ou a partir interioridade?

Texto bíblicoLc 1,39-45

Na oração: sua casa, lugar de visitação e encon-
                   tro, espaço humano de partilha, con-vivência, festa, ajuda...?
Ou, casa cercada de parafernália eletrônica de se-gurança, com entrada rigorosamente controlada..., impedindo o acesso até mesmo dos mais próximos (parentes, amigos)?
- Seja uma casa sempre aberta: “entrada franca”;
Casa, lugar do lava-pés, do mandamento novo, da amizade, da visitação...
Casa, lugar de unção-acolhida, serviço e cuidado...
Casa, lugar da gestação de novas vidas, da experiência de nascimentos permanentes...




segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Homilia Dominical - 12 de agosto de 2017

ASSUMIR NOSSAS TORMENTAS

“A barca, já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era contrário” (Mt 14,24)

Poderíamos começar nossa reflexão sobre o Evangelho, indicado para a liturgia deste domingo, com estas inquietantes perguntas: “Que farias tu se não tivesses medo? Que fariamos nós, seguidores e seguido-ras de Jesus, se não fôssemos afetados pelo medo?”
Chegamos à pós-modernidade com uma enorme carga de medo; somos atormentados o tempo todo pelo medo; um medo sem nome, um fantasma sem rosto, escuro como uma sombra e rápido como uma tempestade; medo cruel que afeta os corajosos e agride os ousados. Não existe depósito de munição mais potencialmente explosivo do que os estoques de medo guardados nas escuras profundezas do ser humano. Há um verdadeiro pânico permanente envolvendo grupos, pessoas e instituições.
Podemos afirmar que o centro dos evangelhos de Marcos e Mateus é uma espécie de relato de navegações e tormentas. Essa recordação de Jesus que acompanha seus amigos no barco e que “acalma” sua vida tormentosa (tormenta de dentro ou de fora?) está no fundo da tradição cristã.
O medo, a angústia, a insegurança , o espanto dos apóstolos, o não saber quê fazer na tormenta, é parte de nossa condição humana. Isso não nos faz menos pessoas, mas nos faz mais próximos, se somos simples e humildes.

Quando lemos com um pouco mais de atenção os capítulos centrais do Evangelho de Mateus passamos a ter convicção de que Jesus está continuamente “passando para outra margem” e convidando seus discípulos a fazerem o mesmo. Poderíamos dizer que o seguimento implica permanente travessia de uma margem à outra. Isto nos move a pensar que esta passagem não é geográfica; nesse deslocamento há algo mais profundo, ao menos um convite à não instalação. Nenhuma margem pode se converter em lugar de “parada”, todas são lugares de passagem.
Mateus realça que Jesus “forçou” os seus discípulos a entrarem na barca. Isto indica que não queriam ir embora e foi necessário obriga-los a se retirarem dali. Por quê? Sem dúvida, porque ao verem a oportunidade de que o Mestre se convertesse em rei, não queriam perder a ocasião de ter algo de poder, de vaidade, de prestígio. Compreende-se, assim, o mandato de Jesus a passar para a “outra margem”, a deixar de lado as solicitações do ter, do poder... para buscar o caminho do despojamento e da partilha.
A atualidade do relato é patente: quando os discípulos de Jesus não se contentam em ser o que são, mas buscam poder e prestígio, “faz-se noite”, não avançam, a tormenta se amplia, vêem em Jesus um fantasma que lhes dá medo, Pedro se afunda...
Seguir Jesus implica estar continuamente passando para a outra margem; passar para o outro diferente, não permanecer fechado em si mesmo. “Passar para o outro” como condição necessária para “passar para Deus”. Aquele que se instala, se perde, envolve-se na tormenta. É preciso buscar sempre novos espaços e novos horizontes. E toda travessia implica “correr riscos”.

Há momentos em que daríamos tudo por uma chance de pedir a Deus para não corrermos riscos. Mas o risco é necessário. É importante poder enfrentar as dificuldades, o desconhecido e o incerto.
As experiências obscuras, as tribulações, as tempestades... são inerentes à fé cristã; estão presentes em todas as pessoas. Mas isso deve nos permitir renovar constantemente uma confiança e uma união com o Senhor na realidade mais cotidiana.
Percebemos que algumas pessoas fazem opção pelo porto seguro das falsas certezas e seguranças , mas outros preferem correr o risco do “mar agitado” e são capazes de construir o novo. As tempestades, o vento contrário, a escuridão da noite... “agitam a alma dentro de nós”.
Mas como enfrentar as turbulências que são frequentes no nosso processo de amadurecimento?
A sensibilidade, a criatividade, o espírito de iniciativa são nossos maiores aliados.
Para desenvolver ao máximo nossas potencialidades, temos de enfrentar dilemas, encruzilhadas, perplexidades e responsabilidades. Isto nos faz mergulhar na vida, desenvolver nossas forças, ativar e despertar outras possibilidades escondidas no chão de nossa vida.
Na tradição inaciana “formar-se é provar-se”. Só aquele que é posto à prova em sua fé e em suas convicções, se forma, cresce e amadurece.
Com certeza, muitos de nós já tivemos a experiência de que, quando fomos capazes de superar nossos medos e tomar decisões audazes diante de um futuro incerto, então se despertaram, no nosso eu mais profundo, outros recursos e capacidades que ignorávamos ter;  no final, nossa vida se viu enriquecida de uma maneira tal que jamais poderíamos imaginar.

Do meio dos ventos contrários e do mar agitado brota um forte apelo: Não tenhais medo”. Um apelo com força libertadora; é a força da voz de Alguém cuja presença alavanca o passo para a travessia: o passo da mudança, o passo da audácia de sonhar de novo, o passo para vislumbrar a outra margem...
Com o Senhor no barco de nossa vida, vamos além, fazemos a travessia... Ele é ao mesmo tempo: mestre, timoneiro, mastro, vela, horizonte, esperança, ar, mar, adorável presença...Salvador...
Os conflitos mais profundos do nosso coração são pacificados com o atrevimento da coragem, com a força da fé, com a imaginação solta, com a criatividade livre e desimpedida...
Por isso, é preciso rastrear, identificar, compreender e desterrar os medos de nossos corações.
É urgente substituir a cultura do medo pela cultura da coragem. A coragem desbloqueia energias, impulsiona decisões, levanta projetos, reacende a criatividade e o gosto por viver.
Sem a superação cotidiana desse medo, nossa missão estará comprometida; perderá sua força inovadora, garantida pela novidade do Projeto de Deus. O compromisso com o Reino requer de todos uma forte dose de coragem e uma alma ágil, animada e vivificada pelo sabor da aventura e da novidade.
Esperança e dúvida, temor e coragem, criatividade e rotina, andam juntas.
Tornamo-nos corajosos quando tomamos a decisão de arriscar.
Vencido o medo, nós nos tornaremos autênticos(as), criativos(as) e audazes seguidores(as) de Jesus. “Quem for medroso e tímido volte para trás” (Jz. 7,3)

Texto bíblico:   Mt. 14,22-33

Na oração: Para fazer a “travessia da vida” será necessário descobrir:
                   - quantos fantasmas há em sua vida que o paralisam, o impedem de avançar, o travam na hora de tomar decisões?
- Quantos fantasmas o impedem crescer, assumir os desafios, ser criativo...
- Numa dimensão mais ampla, quantos fantasmas há na igreja que não a deixam rejuvenescer-se, que a impedem viver um processo de contínua mudança, que a fazem suspeitar de tudo, que a fazem surda aos chamados de Deus no meio das tormentas da atualidade?




segunda-feira, 31 de julho de 2017

Homilia dominical - 6 de Agosto de 2017

A LUZ QUE NOS TRANS-FIGURA

“O seu rosto brilhou como o sol e as suas vestes ficaram brancas como a luz” (Mt 17,2)

“Saí de vossas trevas! Deixai para trás a segurança do vale e empreendei sem medo a subida ao mon-te, porque lá no alto a luz vos espera!”. Este poderia ser o apelo do evangelho da Transfiguração, que pede de nós mobilidade para sair das falsas seguranças de uma vida sem horizontes.
De fato, há em nós uma força atrofiadora que nos faz preferir a acomodação, permanecendo tranquilos, perdidos no imediato e alheios à capacidade de transfiguração que se esconde por detrás da aparente normalidade das pessoas e das coisas.
“O mundo está cheio de esplendor espiritual e de segredos maravilhosos, mas basta um pequeno cisco sobre nossos olhos para que tudo fique escondido”(Baal Sem Tov).
Por isso, no Evangelho de hoje, e com diferentes graus de intensidade, o evangelista sai da esfera plana das descrições precisas e exatas e se expressa na linguagem do excessivo, do simbólico, do totalizante: “seu rosto brilhou como o sol”, “suas roupas ficaram brilhantes como a luz”, “uma nuvem lumi-nosa os cobriu”...
E como contraste escuro frente a tanta luz, três pobres homens assustados que balbuciam disparates, que preferiam dormir e ficar aí junto a esta situação tão surpreendente.

A Transfiguração está nos dizendo quem era realmente Jesus e quem somos realmente cada um de nós.
Essa cena que Mateus relata é um símbolo das muitas “experiências de transfiguração” que todos experimentamos. A vida diária tende a fazer-se cinza, monótona, cansada, e a deixar-nos desanimados, sem forças para caminhar. Mas, eis que surgem momentos especiais, com frequência inesperados, em que uma luz atravessa nosso coração, e os olhos de nossa interioridade nos permitem ver muito mais longe e muito mais fundo daquilo que estávamos acostumados a olhar até esse momento.
A realidade é a mesma, mas nos aparece transfigurada, com outra figura, revelando sua dimensão interior, essa na qual tínhamos acreditado, mas que com o cansaço do caminhar tínhamos esquecido. Essas experiências, verdadeiramente espirituais, nos permitem renovar nossas energias e, inclusive, entusias-mar-nos para continuar caminhando, com o sentimento de “como se víssemos o Invisível”.

Aquele Monte (Tabor) foi um espaço instigante para Jesus, lugar alto de sua experiência radical, de onde Ele podia ver os problemas da humanidade, para senti-los, para assumi-los e mudar... O mesmo Jesus nos faz subir à grande montanha para que vejamos as coisas de outra forma, de outra perspectiva...
É preciso, de vez em quando, tomar distância e nos afastar do cotidiano rotineiro e atrofiado, para ampliar nossa visão e contemplar o drama humano; é decisivo nos situar diante do calor de Deus (sarça ardente) para desvelar nossa verdadeira identidade. Somente assim a Montanha nos transfigurará para que nos empenhemos no serviço em favor dos “desfigurados” do mundo.
Todos nós aspiramos por experiências como a dos discípulos de Jesus no alto do Tabor. Mas nós não podemos nos encontrar com Jesus no Tabor da Galiléia. Necessitamos buscar nosso Tabor particular, os rincões de nossa morada interior onde estão as fontes que mais forças nos dão, as luzes com as quais nos sintonizamos para iluminar e dar um novo significado ao nosso compromisso primeiro.
Todos nós somos portadores de uma luz que procede de dentro, uma iluminação interior, que só aquele que vive a partir de sua própria interioridade consegue ter acesso a ela.

Ao relatar suas experiências espirituais, muitos místicos fazem referência a uma luz que ilumina com força seu interior. É uma graça que não se revela rara, pois temos consciência que “Deus é luz” e que o mesmo Jesus se definiu como a “Luz do mundo”. Somos envolvidos providencialmente por esta expansiva Luz.
Todas as pessoas que fizeram esta experiência de encontro com o “Deus da Luz”, puseram os meios para fazer a viagem interior e ativar a “faísca da luz divina” ali presente. Na medida em que se deixaram inva-dir por essa luz, aproximaram-se cada vez mais dela para vivê-la com mais intensidade e para deixá-la refletir em seus rostos e ações. Por isso, foram pessoas de presenças originais e iluminantes em seu meio.
No ritmo do cotidiano, o dom imenso da luz passa desapercebido. Que o digam aqueles que não podem ver; que o digam aqueles que nunca puderam estremecer-se diante de um pôr-do-sol ou diante das cores vivas de uma pintura; que o digam aqueles que nunca puderam ver o brilho de uns olhos cheios de amor...
Na costumeira cotidianidade, o perigo de não valorizar a luz é evidente; no entanto, para quem contempla sua cotidianidade, a formosura da luz que se derrama sobre nós que vivemos neste planeta sem luz própria é a prova da generosidade de Deus para conosco.

Por isso mesmo, há vidas luminosas e vidas obscuras. Há pessoas cuja luz interior trans-figura suas vidas: vivem na transparência da luz, seus gestos e atos são luminosos, admiram-se com o brilho da vida e desejam que tudo tenha esse brilho, iluminam com sensata positividade tudo o que acontece ao seu redor, colocam-se sempre na perspectiva de quem desfruta da cor e do amor no encontro com os outros...
O resplendor da Transfiguração brilha no interior de cada um de nós; não nos vemos vazios por dentro porque no mais profundo de nós, na morada mais interior, está o “sol de onde procede uma grande luz” (Santa Teresa de Jesus).
Deixar-se transfigurar. Somos seres de luz e nossa verdadeira transformação nasce de nosso interior.
Na Transfiguração, Jesus nos faz descobrir nosso verdadeiro ser, que vemos refletido n’Ele.
A transfiguração não é condição de um “iluminado”, mas a realidade de toda pessoa que é capaz de “sair de seu próprio amor, querer e interesse” (S. Inácio). Deixar-se transfigurar é descentrar-se e expandir sua luz, para realizar aquele chamado único de Jesus dirigido a todos nós: “Vós sois a luz do mundo”.

Transfiguração é festa da luz: Jesus é a Luz e no encontro com Sua Luz podemos ativar a tímida luz presente no nosso interior. Só assim podemos ampliar os espaços de luz em nossas vidas, para contagiar-nos de luz e para comunicar uma mística de luz em nosso entorno. Não se trata de falsas iluminações, mas de alcançar outra perspectiva de vida, mais luminosa, mais positiva, mais esperançada.
Para transitar na noite de nosso tempo precisamos buscar na Transfiguração a Luz que a ilumine e nos indique a direção e o sentido de nossa existência.
A “noite de nosso mundo”- carregada de tanta corrupção, violência, preconceito - pede pessoas marcadas pela experiência da Transfiguração, capazes de ver a presença d’Aquele que é a Luz no meio das realidades simples e cotidianas, no profundo do coração de cada ser humano, de cada realidade vivente, de cada palmo de nossa terra, no mistério insondável do universo grávido de graça.
Precisamos cultivar não só olhos que vejam a realidade, senão que sejam capazes de contemplar, no meio da noite, a presença da Luz: uma luz que brota das profundezas da realidade, do profundo do ser onde o Deus, Fonte de vida, sustenta tudo; uma luz que nos faz descobrir nosso ser essencial: filhos e filhas amados(as) e irmanados(as) com todos e com tudo.

Texto bíblicoMt. 17, 1-9

Na oração: Na nossa vida cristã não faltam momen-
                 tos de claridade e certeza, de alegria de luz.
E tudo depende de nossa visão, ou seja, se nosso olhar só capta o imediato e rasteiro que nos rodeia, ou se é capaz de descobrir o profundo e o luminoso em tudo... “Tudo é segundo a cor da lente com que se olha”.
- Como é seu olhar? Mais além do imediato que o rodeia? você é capaz de ver a presença da Luz, da profundidade de sentido, da presença de Deus... que há por detrás de cada circunstância?
- Você é capaz de transfigurar o olhar para captar a presença da luz que tudo re-significa?





segunda-feira, 10 de julho de 2017

Homilia Dominical - 16 de agosto de 2017

TEMPO DAS RAIZES

“Quando o sol apareceu, as plantas ficaram queimadas e secaram, porque não tinham raiz” (Mt 13,6)

Temos perdido as raízes? Como conectar-nos com elas? Quê raízes nos alimentam? Onde estamos enrai-zados? Quais são as raízes que nutrem atualmente nossa vida? São as melhores?
Enraizamento, fincar raízes, viver da profundidade das raízes... O “novo” vem das raízes, vem de baixo, da base, do chão da vida. É preciso relançar uma nova radicalidade. Viver a partir das raízes, projetar a partir das raízes, criar a partir das raízes. É tempo de fortalecer as raízes; e viver o tempo das raízes para ser presença “diferenciada” na realidade cotidiana de cada um.
Neste novo contexto em que vivemos, marcado pelo desenraizamento, promove-se muito mais viver em mundos virtuais, em espaços criados pela tecnologia, comunicando-se através de relações informáticas com pessoas distantes, desenraizando-se do próprio chão existencial; no emaranhado das imagens e sons perde-se a noção daquilo que é essencial, decisivo para a vida; vive-se na superfície dos acontecimentos e de si mesmo; mina-se a consistência interior e fundamento sobre o qual se apóia a própria vida; esfria-se toda proximidade e relação com o outro; petrifica-se todo compromisso com as causas sociais...
Desenraizar-se é desumanizar-se.

Jesus, o homem enraizado em seu povo e sua cultura, traçou seu caminho em parábolas. Suas palavras romperam a ordem oficial do templo, a segurança dos sacerdotes, a razão dos escribas, colocando todos os homens e mulheres do povo frente à proposta de vida plena e feliz, desejada pelo Pai.
As parábolas parecem revelar a verdadeira identidade de Jesus; é como se alguém lhe perguntasse: “quem és tu? O que fazes?”. Segundo Mateus, Jesus é o verdadeiro semeador. Por isso, é decisivo prestar atenção ao seu modo de semear. E Ele faz isso com uma surpreendente confiança; semeia de maneira abundante; as sementes de humanidade são lançadas em todos os tipos de terrenos, mesmo entre aqueles onde a germinação parece difícil. O semeador não desanima nunca; sua semeadura não será estéril.

A parábola do “semeador” é muito precisa, nem uma palavra a mais, nem uma a menos; nenhum floreio ou comentários em excesso... Austeramente, Jesus descreve o que acontece com a semente, partindo das experiências normais da agricultura de seu tempo, um exemplo concreto do trabalho nos campos, de ma-neira que todos os ouvintes podiam entendê-lo.
Tudo é normal e todos se descobrem imersos nela, como se estivessem juntos construindo a parábola, buscando seu sentido. Pois bem, quando ela é escutada dessa forma descobrimos que ela desafia todas as convenções sociais, pondo em movimento nossa vida, pois ela fala de nós, do que somos e fazemos. Assim ela se revela surpreendente, pura transparência, como um chamado à nossa própria criatividade.
Nesse sentido, toda parábola vem iluminar e inspirar nosso modo de seguir e de nos identificar com Jesus; tal seguimento não é questão de uma simples adesão à pessoa de Jesus, mas um enraizamento na vida d’Ele, buscando ali a seiva que vai dar novo sentido à nossa existência.

A “nova radicalidade” (e não radicalismo) é a forma de seguir a Jesus. É uma radicalidade amável e expansiva, porque quem chega às raízes descobre-se enraizado na natureza humana, naquilo que todos compartilham e, por isso mesmo, descobre-se e sente-se enraizado no Outro.
Ninguém pode viver sem raízes, pois não se sustentaria de pé. Quando perde suas raízes, o ser humano se atrofia e fica privado de algo decisivo, essencial: de uma fonte de vitalidade.
A verdade é que a vida cristã nos pede “desenraizamento” de algumas realidades que nos envenenam e  fazem romper as relações (enraizamento no poder, na riqueza, na centralidade do próprio ego, na cultura da superficialidade...). Para dizer um “sim” ao seguimento de Jesus e enraizar-nos em uma realidade verdadeiramente consistente (sua palavra e vida) é preciso dizer “não” àquelas outras realidades, desprender-nos delas, desenraizar-nos delas.

Ao nos convidar a ter raízes profundas, o Evangelho de hoje está afirmando algo muito importante: nesta terra, nesta realidade social, cultural, eclesial e política, já está semeado o Reino, já está viva e ativa a presença do Deus fiel que cria futuro. Nós nos alimentamos desta realidade na medida em que nos deixa-mos semear nela.
Somente aquele que se deixa semear experimenta o sabor da seiva da vida de Deus entrando por suas raízes, percorrendo seu ser inteiro, fazendo-o crescer e dando os frutos de que nosso povo precisa. Aquele que não se deixa semear vive de ilusões e quimeras que envenenam sua existência.


O duro trabalho de lavrar a terra, de semear e semear-nos nela, supõe um amor pela terra. Acreditamos
nela, a apalpamos entre os dedos para sentir sua qualidade. O camponês ama sua terra não só pelo que lhe possa produzir, mas porque nela está presente a herança de gerações familiares que lhe precederam. Sua terra tem nomes e sobrenomes: para ele é um ser vivo com sangue de família em suas entranhas.
Amamos a terra na qual estamos semeados como Jesus amou o seu povo?
Ter as raízes fincadas na história, na realidade, raízes que a partir do oculto nutrem nossa vida e alargam o coração, é saber que temos uma origem e uma meta que é o próprio Deus.
Raízes que se entrecruzam por debaixo do solo, no profundo, compartilhando a mesma água e o mesmo húmus. Vida nova, que cresce a partir de dentro e a partir de baixo, a partir do oculto.
Ramos que se abrem e se curvam buscando a luz.
Uma vida iluminada. Profundidade, serenidade e descanso. Solidariedade e comunhão. Vida que cresce em companhia. Vida consistente. Solidão habitada e fecunda.

Muitas vezes o enraizamento supõe estar presente naquelas realidades das quais muitos fogem, das quais muitos renegam, ou que são somente terras de passagem, fronteiras que geram medo e insegurança.
O enraizamento supõe respeito para com toda realidade, amar a terra concreta tal como ela é, como Jesus que, na Encarnação, foi semeado naquela terra dominada e excluída da Palestina.
Foi no enraizamento do chão daquele povo que Jesus foi se humanizando e abrindo-se à novidade do Rei-no do Pai que tudo transforma. Assim expressa Jesus de si mesmo quando se comparou com a videira plantada na terra de Israel.
É preciso deixar-se semear não só onde a terra já está preparada durante gerações, mas também nas margens da realidade, na dureza das terras sem arar, cheias de pedregu-lhos e de espinhos. Não podemos fugir da realidade que temos de arar, semear e cultivar com sua dureza e com seu encanto.

Texto bíblicoMt 13,1-23

Na oração: Uma vida que se enraíza, é uma vida firme, consistente.
                   Por outra parte, as raízes na planta, são as que se introduzem na terra e crescem em sentido contrário do tronco, servindo-se como sustentação. Graças a elas pode absorver o alimento necessário para seu crescimento.
- quais são e onde estão as raízes nas quais seu coração se alimenta?
- onde apoia sua vida? quê é o que a sustenta?





segunda-feira, 3 de julho de 2017

Homilia dominical - 9 de julho de 2017

DIVINO CORAÇÃO HUMANO

“...porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para vós” (Mt 11,29)

Em toda visão antropológica, o coração ocupa o centro profundo de nosso ser, o nosso cerne mais íntimo, o coração do coração, que não consiste no mero sentimento, mas trata-se do centro existencial que nos permite orientar-nos como um todo e plenamente em direção ao bem, à verdade, à justiça...
O coração é uma dessas palavras sobre a qual toda a multiplicidade se torna uno.
Ele simboliza, para a grande maioria das culturas, o centro da pessoa, onde se unificam todas suas dimensões. Uma pessoa com coração não é a dominada pelo sentimentalismo, senão aquela que alcançou uma unidade e coerência, um equilíbrio de maturidade que lhe permite ser objetiva e cordial, lúcida e apaixonada, intuitiva e racional; nunca fria, mas sempre acolhedora; nunca cega, mas realista.
Ter coração equivale a ser uma personalidade integrada. O coração é o símbolo da profundidade e da interioridade. Só quem chegou a uma harmonia consciente com o profundo de seu ser consegue alcançar a unidade e a maturidade pessoais.

O coração do ser humano é a própria fonte de sua personalidade consciente, inteligente e livre. É o lugar de suas escolhas decisivas, fonte das bem-aventuranças, santuário da ação misteriosa de Deus e do encon-tro com Ele.
Recordações, pensamentos, projetos e decisões são alguns dos componentes essenciais do órgão vital por excelência. O que acontece nele tem caráter decisivo. “O mistério interior do ser humano, tanto na língua-gem bíblica como na não bíblica, se expressa com a palavra coração” (Xavier León-Dufour).
Por isso é importante permanecer atento aos seus movimentos. É a única forma de nos conhecer e de conhecer verdadeiramente uma pessoa. O coração pode palpitar ao ritmo da soberba ou da humildade, do amor ou do ódio, do egoísmo ou da generosidade. E está cheio de mesclas: de trigo e de joio.
Vivemos imersos em uma multiplicidade de realidades, imagens, ofertas, caminhos, ideias diferentes... No entanto, quando procuramos reunir e estruturar nossa busca e orientá-la para a realidade última de nossa existência, recorreremos a expressões, palavras, imagens que brotam do mais profundo de nós mesmos, do nosso coração.   
Trata-se, pois, de chegar à unificação de nossa pessoa, integrando a afetividade, a sensibilidade, a razão, os desejos..., para além da bela expressão de Pascal: “O coração tem razões que a razão não conhece”. O fato é que há “olhos no coração” que permitem compreender o que nem os olhos do corpo, nem a razão são capazes de perceber: “Rogo a Deus que ilumine os olhos dos vossos corações, para que conheçais qual é a esperança à qual fostes chamados” (Ef. 1,18).

A antropologia bíblica considera o coração como o interior do ser humano, num sentido muito mais am-plo que o das línguas latinas; não o coração entendido como o órgão da afetividade (uma zona muito in-consistente e instável), mas uma dimensão mais interna e transparente, que se converte em “sede” do espírito. Já no AT, o coração designava o complexo mundo interior do ser humano.
Fechamento, insensibilidade, indiferença, impassibilidade, surdez, falsidade, murmurações... eram razões mais que suficientes para exortar a uma mudança de atitude. “Eu lhes darei um só coração e infundirei neles um espírito novo: tirarei de seu peito o coração de pedra e lhes darei um coração de carne” (Ez 11,19). A conversão devia empapar todo o ser, especialmente o coração petrificado.

Segundo a tradição bíblica, o que mais nos desumaniza é viver com um “coração fechado” e endurecido, um “coração de pedra”, incapaz de amar e de crer. Quem vive “fechado em si mesmo”, não pode acolher o Espírito de Deus, não pode deixar-se guiar pelo Espírito de Jesus.
Quando nosso coração está “fechado”, nossos olhos não vêem, nossos ouvidos não ouvem, nossos braços e pés se atrofiam e não se movimentam em direção ao outro; vivemos voltados sobre nós mesmos, insensíveis à admiração e à ação de graças. Quando nosso coração está “fechado”, em nossa vida não há mais compaixão e passamos a viver indiferentes à violência e injustiça que destroem a felicidade de tantas pessoas. Vivemos separados da vida, desconectados. Uma fronteira invisível nos separa do Espírito de Deus que tudo dinamiza e inspira; é impossível sentir a vida como Jesus sentia.
Quando vivemos a partir do coração, escutamos com mais paciência, olhamos com cumplicidade, toca-mos com ternura, sofremos com fortaleza, assumimos o risco com naturalidade, misturamos nossa vida com a dos outros e avançamos em comunidade realizando projetos solidários.

Jesus dava decisiva importância ao coração: “a boca fala daquilo que está cheio o coração” (Lc. 6,45); “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt. 5,8). “Onde está teu tesouro, ali está teu coração” (Mt. 6,21).
Jesus vivia a partir de seu coração e contagiava com a força poderosa de seu amor e de sua entrega.
Nele se realizou definitivamente sua promessa. Ele nasceu com um coração de carne, ou seja, humano, absolutamente divino. Estava chamado a ser o coração de todos, o centro nevrálgico da humanidade.
Jesus é o homem para os outros, que tem coração, um coração não de pedra, mas de carne. Sua vida, um sinal do bem amar, do saber amar. Mas, sobretudo, Jesus, em seu Coração, é a profundidade mesma do ser humano e de Deus. Nele está a fonte do Espírito que brota como água fecunda até a vida eterna.
Graças à Encarnação, o Filho de Deus trabalhou com mãos humanas, pensou com inteligência humana, sentiu com vontade humana, amou com coração humano.
O coração de Jesus nos fala de iniciativa, de liberdade, de entrega absoluta e amor profundo. O coração de Jesus revela que sua vida implica um movimento de saída, que provoca encontros pessoais, que transforma a vida daqueles(as) que o seguem, abrindo-lhes novos horizontes, ampliando a visão e descentrando-os de sua própria lógica.

O evangelho deste domingo mostra um dos mais vivos exemplos de coração agradecido que podemos encontrar. Jesus, que acaba de passar por uma profunda experiência de rejeição por parte das cidades da Galiléia, explode no canto que começa: “Eu te louvo, Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos”.
O coração de Jesus é sustentado, alimentado, irrigado pelo amor cuidadoso e providente do Pai.
É no coração que também nós, seus(suas) seguidores(as), poderemos estar em segurança, profundamente repousados. É no coração, “última solidão do ser”, que decidimos por Deus e a Ele aderimos. Aqui Deus marca “encontro” com cada um de nós. “Deus é mais íntimo a cada um de nós do que nós mesmos” (S.Agostinho).

Texto bíblicoMt 11,25-30

Na oração: Todos estamos no coração de
                    Cristo. Todos estamos no Amor de Deus. Todos fomos introduzidos na Sagrada Humanidade d’Aquele que, sendo Deus, se fez semelhante a nós para que possamos todos nos sentir n’Ele.
O coração se revela como imagem de amor, de humanidade, de entranhas compassivas. Identificamos as pessoas por seu bom coração, por terem entranhas de misericórdia.
- Você deixa transparecer seu coração na relação com as pessoas? As atividades que você realiza tem coração?



segunda-feira, 26 de junho de 2017

Homilia Dominical - Dia 02 de julho

HOSPITALIDADE: acolher para humanizar-se


“Quem vos recebe, é a mim que está recebendo; e quem me recebe, está recebendo Aquele que me enviou” (Mt 10,40)

Certamente todos já viram um invento recreativo para crianças, composto de um globo inflável que flutua sobre um reservatório de água; ali elas são introduzidas, e ficam se movendo prazerosamente.
Tal invento evoca um comportamento muito frequente nas pessoas atualmente. Sem se darem conta, elas mesmas fabricam uma bolha e se fecham nela como num reduzido microcosmo. Elaborado pela mente e inflado pelo ego, esse pequeno globo enclausura-as em um mundo muito definido e estreito: o êxito, a vai-dade, o dinheiro, os bens materiais, um ambiente raquítico de espaço e tempo, torna-se sua única realida-de. A presença do outro, sobretudo do “diferente”, é totalmente desprezada.
No entanto, para quem é seguidor(a) de Jesus, poderíamos perguntar se há algo mais além, por detrás dessa bolha, desse globo fechado no qual todos brincam como crianças inconscientes.
Despertar o “eu profundo e universal” é descobrir-nos como habitantes de um universo novo e espaçoso, um “eu sou” com sabor de infinito, com a consciência expandida que rompe a bolha e nos faz sentir a liberdade amorosa dos filhos e filhas de Deus.
Deus “se fez diferente” e é na “diferença” que Ele vem ao nosso encontro como chance de enriqueci-mento vital e de intercâmbio criativo. Deixemo-nos surpreender pelo Deus da vida que rompe esquemas, crenças, legalismos, bolhas...; ou nossa vivência de fé se reduzirá a um ritualismo fechado, impedindo sair de nós mesmos.
  “Aprendi que Deus, não tendo domicílio, só aceita a mística do ‘porta-em-porta’” (Frei Cláudio)

Também os muros estão voltando à moda. Não podemos esquecer que os muros foram criados para a segregação. O muro econômico e social se visibiliza no muro que segrega os excluídos e marginalizados. Um muro é uma ordem, um silêncio forçado e prolongado, é vontade de poder.
Muros são pedras no sapato dos poetas. Como tirá-los do caminho? Muros não têm semente, ainda que se multipliquem pelo mundo. O muro é um veneno. Muros são concretos: muros entre ricos e pobres, entre homens e mulheres, entre ignorantes e doutores, entre negros e brancos, entre centro e periferia...
Muros são urros. Muros são murros, são muito burros! Todos os muros deviam envergonhar, pois se os muros pudessem ensinar alguma coisa, desistiriam de serem muros.
Muitas vezes, os muros, as cercas e as portas nos protegem da diversidade, blindam nossa individua-lidade e parecem itens indispensáveis à sobrevivência. Assim, somos prisioneiros de nossa estreita visão de mundo e fazemos de nossa habitação uma couraça que enclausura.  Melhor a viagem que nos faz vulneráveis do que a segurança que nos rouba o caminho. Melhor enfrentar a vertigem do horizonte e usufruir da liberdade do que inventar cercas e muros reconfortantes que nos fazem cativos e solitários.

A vivência do seguimento de Jesus Cristo implica romper a bolha que asfixia a vida e derrubar os muros que cercam o coração, atrofiando a própria existência.
Hospitalidade é a palavra-chave na identificação com Aquele que se fez andarilho e buscou hospedagem. Hospitalidade é abrir um espaço para o outro.
Muitas vezes, ser hospitaleiro não é colocar alguém dormindo na nossa própria casa. É escutar alguém que é totalmente diferente de nós; é ter a capacidade de dar espaço à fala de alguém diferente.
Para abrir espaço para o outro é preciso nos desalojar do nosso próprio espaço; é preciso ser deslocado da nossa idéia de “estar sempre certo”, das nossas próprias convicções, dos nossos próprios sentimentos. Porque o peregrino tem o potencial de subverter, despertando ansiedades enterradas e aflições contidas.
Quem oferece a hospitalidade está rompendo com seu modo habitual de ser e viver. Abrir-se ao outro é sair de sua própria comodidade. O anfitrião, ao ser deslocado, encontra valores e atitudes dentro de si que o enriquecem. A melhor metáfora desta hospitalidade é a imagem da mãe que “faz espaço dentro de si para acolher o outro”, e assim multiplica a vida.
Tal hospitalidade se apresenta como um valor humano, espiritualmente vital e conectado com a vulnera-bilidade de todo ser humano que sempre requer ser acolhido; e, para acolher o outro, é precisa criar espa-ços habitáveis e abandonar lugares inóspitos.

Se quisermos que a vida cristã tenha a marca da Ressurreição, é necessário compreender que ela é chama-da a um compromisso diferente e mais profundo: sair da reclusão do nosso próprio mundo para entrar na grande “casa” de Deus; romper com o tradicional para acolher a surpresa; deixar a “margem conhecida” para vislumbrar o “outro lado”; desnudar-nos de ilusões egocêntricas; afastar a “pedra” da entrada do coração para poder viver com mais criatividade... 
As respostas do passado às questões atuais já não satisfazem; as velhas razões para fazer coisas novas, simplesmente já não movem os corações num mundo repleto de novos desafios.
Não há razão para permanecer nas bolhas e condomínios quando todas as circunstâncias mudaram.
A mudança de mente, de coração, de esperança, de paradigmas... exige que todos, de tempos em tem-pos, revisem suas vidas, conservando umas coisas, alterando outras, derrubando ideias fixas, convicções absolutas, modos fechados de viver...   que impedem a entrada do ar para arejar a própria vida.
Há, em todo ser humano, uma tendência a cercar-se de muros, a encastelar-se, a criar uma rede de prote-ção. Também os cristãos não estão imunes a esta tentação.
No entanto, nada mais contrário ao espírito cristão que a vida instalada e uma existência estabilizada de uma vez para sempre, tendo pontos de referência fixos, definitivos, tranquilizadores...
Numa vida assim faltaria por completo o princípio da criatividade, a capacidade de questionar-se, a audácia de arriscar, a coragem de fazer caminho aberto à aventura.

Texto bíblico:     Mt 10,37-42

Na oração:  O que é o específico do(a) cristão(ã)?
                    Buscar, no seguimento, fazer e viver o que fez e viveu Jesus. Para isso adota as atitudes, o olhar e a capacidade de contemplação da realidade que o mesmo Jesus adotou. Ele abraçou diferenças e novos horizontes. O Seu ministério ultrapassou as fronteiras. Ele rompeu com os muros do preconceito social, racial, religioso, de gênero... 
- Como cristãos, a graça que recebemos é estar com Ele e com Ele caminhar, olhando o mundo com os Seus olhos, amando-o com o Seu coração e penetrando no seu íntimo com a Sua infinita compaixão. Nossa vocação é a de construir pontes e ser presença reconciliadora em situações de fronteira, optando por uma “globalização na solidariedade”.
- Sua vivência cristã: risco da aventura ou medo asfixiante? Contínua surpresa ou perene rotina?  Espaço de liberdade ou vivências dentro de bolhas asfixiantes e muros de protecção?





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