Teológico Pastoral

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domingo, 5 de maio de 2013

Nhá Chica

Nota Oficial da CNBB sobre a Beatificação de Nhá Chica
Brasília, 2 de maio de 2013


A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, com toda a Igreja, louva e bendiz a Deus pela Beatificação de Francisca de Paula de Jesus, carinhosamente chamada pelo povo de Nhá Chica, neste sábado, 4 de maio de 2013, na cidade mineira de Baependi. O reconhecimento pela Igreja da santidade de Nhá Chica, passado pouco mais de cem anos de sua morte, confirma a importância de se colocar em relevo o exemplo de sua vida de fidelidade a Cristo e ao seu Evangelho.
A Beatificação de Nhá Chica é uma mensagem de extraordinário significado e importância para nossa Igreja. Filha e neta de escravos, analfabeta, órfã ainda criança, viveu no escondimento, na pobreza e na simplicidade. Devota de Nossa Senhora da Conceição, consagrou seu tempo e consumiu sua vida, como leiga que testemunha a fé, servindo às pessoas, especialmente na nobre tarefa de escutar e aconselhar. Seu cuidado com os mais pobres rendeu-lhe o belo título de “Mãe dos pobres”. Aos que lhe atribuíam favores especiais, respondia com a verdade de quem crê: “Isso acontece porque rezo com fé”.
A biografia de Nhá Chica revela sua vida de intimidade com Deus e nos estimula a buscar o ideal proposto por Cristo, como nos lembra São Paulo: “A vontade de Deus é esta: a vossa santificação” (1Ts 4,3). O testemunho de nossa mais nova Beata torna-se, portanto, convite irrecusável a viver intensamente o encontro com Jesus Cristo que “implica necessariamente amor, gratuidade, alteridade, unidade, eclesialidade, fidelidade, perdão e reconciliação” e leva cada discípulo-missionário a se tornar “fonte de paz, justiça, concórdia e solidariedade” (cf. DGAE, 16).
Saudamos e agradecemos à Diocese de Campanha e a todos que se dedicam à causa de canonização de Nhá Chica, bem como ao Prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, Cardeal Angelo Amato, por presidir a cerimônia de beatificação desta Serva de Deus.
Que a Beata Nhá Chica alcance de Deus graças e bênçãos para todo o povo brasileiro e nos ensine a trilhar o caminho da santidade, vivendo na simplicidade e na pobreza evangélicas.
Raymundo Damasceno Assis Cardeal arcebispo de Aparecida (SP)Presidente
José Belisário da Silva Arcebispo de São Luis (MA)Vice-presidente
Leonardo Ulrich Steiner Bispo auxiliar de Brasília (DF)Secretário Geral

terça-feira, 30 de abril de 2013

Dia do trabalho

VIVA O TRABALHADOR

Jesus foi um trabalhador manual. Trabalho não é castigo e muito menos mercadoria e mero instrumento de produção e de lucro. A dignidade de todo trabalho esta na pessoa humana que o realiza “O trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho” (João Paulo II). O trabalhador é alguém co-criador com Deus e com seu reino, e construtor da comunidade. O trabalho é um “bem digno” e nunca pode servir de opressão, escravização e exploração das pessoas, porque dignifica o trabalhador, edifica a família, constrói a sociedade, transforma a nação. Portanto, o trabalho é algo positivo, criador, educativo e meritório. É preciso defender a prioridade do trabalho sobre o capital. O centro de uma empresa é o trabalhador. O capital é o fruto do trabalho e subordinado ao trabalhador. Por isso o trabalho é a chave central de toda a questão social. A técnica, o lucro, a globalização não podem ser adversários do homem, porque o “sujeito” do trabalho é a pessoa humana. Sem esta defesa do primado da pessoa humana sobre o capital, teremos sempre exploração, escravismo e manipulação de pessoas e de vidas humanas.
O trabalho é fonte de direitos e deveres do trabalhador. A dignidade do trabalhador, confere-lhe direito ao salário justo, à associação sindical, e sabemos que como “último remédio”, existe o direito à greve justa, depois do fracasso do diálogo e das negociações, como afirma a encíclica sobre o “Trabalho Humano” nº 20. Claro que a greve é um meio extremo que não pode se transformar em jogo político, muito menos em abuso de um direito. Enquanto não for respeitada a dignidade do trabalhador e a dimensão social do trabalho, o desemprego, o êxodo rural, o trabalho feminino, a desqualificação do trabalhador, a exploração do trabalho infantil continuarão sendo as grandes ameaças contra a vida e contra os direitos humanos. O Evangelho do trabalho significa “gostar do que fazemos, crer no que fazemos”. Uma nova economia que respeite o primado do trabalhador sobre o capital, uma nova política que se converta para o desenvolvimento social e elevação dos pobres, uma nova mística religiosa forte no profetismo e na opção misericordiosa para com os pobres, são alianças e parcerias urgentes para salvar a humanidade do desemprego, da fome e da exploração. Sem revolução econômica, política e ética, a paz é um sonho e as guerras, os assaltos, os sequestros, as mortes, são o alto preço que iremos pagando até o raiar de um mundo diferente fundamentado no evangelho e na justiça.
A humanidade tem dificuldades para equacionar a questão do trabalho. Ora luta com o desemprego, depois aparece o excesso de ócio. Há lugares onde o trabalho escravo oprime as pessoas e em outros lugares existe a super-especialização do trabalhador que é um fator excludente.
Estamos ainda desconfortados com o trabalho excessivo dos pais e o abandono dos filhos. Vivemos uma era de sucesso empresarial e do fracasso familiar. Surgiram doenças modernas provocadas pelo excesso de trabalho. A divinização da matéria gera idolatria e escravidão. Quanto stress, esgotamento, angustia provenientes do trabalho exagerado e divinizado.
Precisamos recordar a espiritualidade do trabalho que consiste em trabalhar com amor, com o coração, com alegria. O fogão, o volante, as máquinas, o bisturi, o computador, a vassoura são altares que santificam. É pelo trabalho que a pessoa se realiza, a família é sustentada, as potencialidades e criatividades afloram, a matéria é humanizada, a sociedade evolui e o trabalhador se santifica.
Dom Orlando Brandes
Arcebispo de Londrina
Folha de Londrina, 27 de abril de 2013
Construir a paz

Celebramos o Dia Mundial do Trabalho, homenageando São José Operário, lembrando que todo trabalho é digno, e todas as pessoas têm direito a trabalhar. Ele é fonte de sustento para a vida e faz com que o trabalhador se torne mais humano e realizado como pessoa. Podemos dizer que o trabalho, trazendo condição de vida, constrói a paz.
Jesus cita uma frase muito importante e motivadora de paz: “Dou-vos a paz, a minha paz vos dou” (Jo 14, 27). Paz que é fruto da boa convivência, de não colocar fardos pesados sobre os outros, de viver a nova lei do amor, ensinada pelo Senhor. A paz é fruto também da capacidade de superação das diferenças no seio de uma comunidade.
Estamos ainda em tempo de Páscoa, do projeto de “um novo céu e de uma nova terra”, na construção de um mundo diferente, mas também conscientes de que isto é possível. Não podemos ser intimidados pela constante onda do mal, da destruição e do desrespeito à vida, impedindo a concretização da paz. Muita gente vive em constante guerra interior.
A Páscoa, o trabalho e a paz devem solidificar a esperança do povo. Sem isto, o futuro fica obscuro e desmotiva a luta por uma vida feliz. A sociedade tem a necessidade de se nutrir de potencialidades com princípios de humanidade, tendo como meta a vitória da vida, ou a realização plena da paz interior e comunitária.
No mundo de violência generalizada na sociedade brasileira, também de uma mídia propagadora e motivadora disto, reina um clima de desvalorização da pessoa humana e de insegurança de todos. Podemos quase dizer que não estamos num país de paz. Alguma coisa precisa ser feita para reverter esta situação preocupante.
Apesar de todo desenvolvimento tecnológico nos diversos campos da atualidade, parece que o principal e mais urgente, que é o valor da pessoa humana, não progrediu. Não há verdadeira preocupação com a paz, porque ela não está sendo verdadeiramente construída por quem tem nas mãos o poder de fazê-lo.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Artigo

HOMENS E MULHERES DA ESPERANÇA

            Por natureza, somos movidos pela esperança. Sem ela, a vida perde seu sentido, seu brilho, sua razão de ser e nos torna pessoas tristes, carrancudas, desanimadas, sem objetivos, como se tudo fosse uma grande perda de tempo. A esperança, pelo contrário, nos mostra que tudo na vida tem o seu encanto, a sua beleza, e nada melhor do que acreditar que é possível mudar, e que para cada problema existem inúmeras saídas.
            A esperança é fundamental, porque ela nos move em busca de algo que ainda não aconteceu, mas poderá tornar-se realidade. No momento que atingimos, alcançamos aquilo que almejamos, já não esperamos mais, pois já é real. Mas isso não nos acomoda, pois cada projeto realizado, nos abre as cortinas para outros sonhos, outros voos, numa busca interminável do ainda não, querendo sempre mais e mais. Isso sim dinamiza a vida, nos torna pessoas inconformadas, olhando sempre em frente. A esperança é exatamente essa virtude daqueles que acreditam num amanhã melhor, e por isso não fazem do passado o melhor espaço da sua vida e nem o pior. O melhor ainda está por vir, e é com essa vida que nos colocamos sempre a caminho, pois o caminho é caminhar.
            A Bíblia nos apresenta uma história de esperança em dias melhores, em um mundo mais humano, justo e fraterno, onde todos vivam com irmãos, e todos tenham o suficiente para viver com dignidade. Meditando a palavra de Deus, encontramos homens e mulheres a caminho, sempre em busca de uma vida melhor, e isso significa, construção do Reino de Deus.
            Os profetas são os homens da esperança, e aparecem exatamente naqueles momentos em que tudo parece perdido, sem saída, sem um possível amanhã, cercado de tantas dores, sofrimentos e tragédias. Ele surge então para animar, confortar, levantar aquele que está decaído pelo peso da derrota e da descrença. Existem passagens que são verdadeiras flechadas de esperança para o desanimado e para o descrente. Para mim, o profeta Isaías é o profeta da esperança por excelência, o homem que sonha um mundo novo, onde lobo e cordeiro pastarão na mesma relva, onde a criança brincará com a serpente e nada lhe acontecerá, onde haverá vinhos finos e carnes suculentas para todos. É maravilhoso ler Isaías, sobretudo nos momentos de crise, quando tudo aparece negro, confuso e sem grandes expectativas de melhora. Ele nos levanta o astral e nos faz acreditar que é possível recomeçar.
            A esperança é a virtude daqueles que tem um coração jovem, que apesar da idade, continua cheia de sonhos e de projetos. D. Helder Câmara, grande cardeal brasileiro, foi um grande profeta da esperança, um sonhador que costumava dizer, ‘quando se sonha sozinho, não passa de um sonho, mas quando começamos sonhar a dois, o sonho começa a se tornar realidade’. Com 80 anos de idade ainda demonstrava uma garra, feita de muita esperança em um novo amanhã.
            Como passageiros no trem da vida, a exemplo de tantos homens e mulheres que encontramos na Bíblia, e de tantos e tantas que passaram por essa vida, somos chamados a sermos conduzidos pela esperança. É maravilhoso encontrar pessoas que tem um olhar para frente, sempre positivo e cheio de vida. É triste ver tantas pessoas que só sabem se lamentar e reclamar do seu passado, com aquele olhar triste e cheio de desânimo.
            Sejamos sinais de esperança, em um mundo de tantas descrenças, de tantas depressões, exatamente porque perdeu o brilho e o encanto com o amanhã. Vibrantes, animados, cheios de esperança, olhemos sempre em frente, na certeza de um novo amanhecer.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Artigo

Bispo explica a importância da caridade para os católicos

André Alves
Da Redação


A
''Na concepção católica, a caridade é uma forma de amar a Deus e ao próximo, que supera ao gesto de doação de bens, chegando à doação de si mesmo''
Desde sua nomeação como Pontífice, o Papa Francisco tem comovido o mundo com sua simplicidade e seus gestos espontâneos de atenção com as pessoas, e de maneira especial, com os enfermos e os mais necessitados.

Atitudes que faziam parte de sua vivência desde antes de sua nomeação como Papa, e que dizem respeito à vivência que todos os cristãos são chamados a seguir, no exemplo deixado por Cristo. 
A caridade tem uma importância relevante para os católicos. Fato é que Bento XVI, no início de seu pontificado, em 2005, escreveu aos fiéis sobre ela, na Encíclica "Deus caritas est". No documento, ele afirmou: "O amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas é-o também para a comunidade eclesial inteira. A Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor".

Conforme registram os dados bíblicos, a caridade está presente no Cristianismo desde seu início. E na Quaresma, ela é intensificada como uma prática orientada pela Igreja, unida à oração e ao jejum. Na concepção católica, a caridade é uma forma de amar a Deus e ao próximo, que supera ao gesto de doação de bens, chegando à doação de si mesmo.
De acordo com o Arcebispo de Belém (PA) e membro do Pontifício Conselho Cor Unum, Dom Alberto Taveira Corrêa, a caridade está além do fazer filantropia. Muitos podem fazê-la, explica o arcebispo, mas a Igreja quer externar os gestos sociais com espírito de caridade, ou seja, "amar o próximo com o amor de Deus."
Para o arcebispo, os cristãos são a porção consciente do Reino de Deus que deve procurar viver o amor de forma especial, visto que Seu Pastor, Jesus Cristo, foi quem o ensinou. No entanto, com relação à caridade católica e à caridade exercida por outras religiões, Dom Alberto ressalta não haver nenhuma divisão ou diferença. Segundo ele, o Espírito Santo é o inspirador de todo o bem que existe na humanidade.

"Não existe nenhum bem que é feito no mundo sem a ação do Espírito Santo. Qualquer um que faça o bem, católico ou não católico, tem o Espírito Santo que o inspira. Há pessoas que vão fazer o bem simplesmente para desafogar uma necessidade do próprio coração, outras fazem filantropia, outros fazem serviço social. Nós [Igreja] queremos fazer tudo isso que as pessoas fazem e muito mais, conduzidos pelo Espírito de Deus. E gostaríamos que todas as outras pessoas chegassem a essa raiz do bem que realizam.”
No Concílio Vaticano II, realizado entre os anos de 1962 e 1965, a caridade na Igreja ficou ainda mais enraizada. Segundo Dom Alberto, o Concílio buscou as fontes da própria vida da Igreja, redobrando a preocupação com o social e a opção preferencial pelos pobres. “Cada época isso se concretiza segundo a realidade. Hoje, nós temos problemas que são globais, porém, de uma forma diferente. Nós temos que responder dessa forma”.

Como dito, na Quaresma o exercício da caridade é intensificado e, neste ano, a Igreja propôs um amor voltado para o cuidado com os jovens. A temática da Campanha da Fraternidade, vivida especialmente neste período quaresmal, reflete sobre os jovens e a fraternidade. Dom Alberto explica que além do gesto concreto da coleta feita pela Igreja no Domingo de Ramos, a atenção e a abertura devem estar voltadas para a juventude, a fim de ajudá-la a se sentir acolhida e enviada por Jesus Cristo.

Sobre o Cor Unum

O Pontifício Conselho Cor Unum é responsável por fazer acontecer a caridade no mundo, em nome do Papa e da Igreja. Sob a presidência do Cardeal Robert Sarah, o conselho reuni-se uma vez por ano para discutir as questões que envolvem a concretização do bem no mundo. Ele responde a uma média de 60 situações de urgência e emergência por ano, como terremotos, guerras, etc. Ligado a esse conselho, existem várias fundações para o exercício da caridade.
Uma das funções do Cor Unum é administrar a coleta do óbulo de São Pedro, realizada durante a memória litúrgica de São Pedro e São Paulo, data considerada como dia do Papa. 
Dom Alberto diz que Bento XVI, enquanto Pontífice, teve um olhar especial voltado para a caridade no mundo, inclusive para o Brasil. "Todas as vezes que me encontrei com Bento XVI sempre me impressionaram as frases curtas e densas. Quando eu disse que era arcebispo de Belém, na Amazônia, ele olhou para mim e disse: 'Amazônia... Vocês precisam muito da caridade de Cristo'", recordou o arcebispo.
O Arcebispo de Belém foi nomeado por Bento XVI como membro do Pontifício Conselhor Cor Unum em 27 de outubro de 2012. À frente da Arquidiocese de Belém, Dom Alberto está desde 30 de dezembro de 2009.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Artigo - Misericórdia

Nos braços da Misericórdia
É tempo de quaresma, de conversão, oração, amor fraterno. Fixemos nosso corações na misericórdia divina. Deus nunca renuncia à sua misericórdia. Desde os tempos do profeta Oséias diz Deus: “quero a misericórdia e não o sacrifício” (cf Os 6,6). Misericórdia é a essência de Deus, é sua lógica, seu sistema, sua política. Não fosse a certeza da misericórdia, a vergonha, o remorso, nos levariam ao desespero e até à loucura. Quem descobre a misericórdia não continuará justificando seus pecados, mas, terá forças para saltar e soltar-se dos laços do mal.
A misericórdia divina não deve ser confundida com a permissividade o que seria tentar a Deus. Não podemos pecar na certeza de que a misericórdia tudo perdoa. Eis uma grosseira ignorância e uma maldosa manipulação de Deus. Pelo contrário, graças à fé na misericórdia nós batemos no peito dizendo perdão Senhor, vem em meu auxilio, cura e converte nosso coração, não queremos mais ser aliados do mal nem presos nas cordas do abismo e do mal. “Imploramos a misericórdia de Deus, não a fim de que ele nos deixe em paz em nossos vícios, mas para que nos livre deles” (Pascoal).
Por outro lado, a misericórdia nos torna misericordiosos, compassivos, compreensivos para com os outros. É a melhor resposta que damos a quem nos ofendeu. Ela quebra a espiral da violência, não permite que sejamos envenenados pela vingança, ódio, rancor que são destrutivos. A misericórdia nos faz abrir o coração e os braços a quem nos humilhou, injuriou, prejudicou. Pela misericórdia saberemos estar do lado dos órfãos, das viúvas, dos pobres, dos estrangeiros.
Ainda mas, a fé na misericórdia divina reaviva aquele artigo do credo onde rezamos: “creio na remissão dos pecados”. A misericórdia nos enche de esperança em sermos novos e melhores, nos ajuda ordenar nossa vida, nos torna sensível ao sofrimento alheio, nos dá sabedoria para discernir o bem e o mal. A mais dura das guerras é aquela contra o pecado, pois, as tentações nos iludem e arrastam apresentando-nos vantagens, prazeres, sucessos, luzes que na verdade são iscas para nos destruir. As tentações vêm sempre sob aparência de bem, de luz, de glória. “Não nos deixeis cair em tentação” rezamos no Pai Nosso.
Graças à misericórdia bloqueamos a violência, colaboramos com a paz, convivemos com pessoas difíceis e respondemos ao mal com o bem. Amar os inimigos é a mais pura expressão da misericórdia e o caminho decisivo para a fraternidade e a paz. É próprio da misericórdia abrir os braços à miséria pessoal e alheia. Estes braços se abrem para nós de modo especial no sacramento da penitencia, onde a ovelha ferida é acolhida pelo Bom Pastor, cujo coração é rico em misericórdia.
Enfim, a misericórdia é uma bem-aventurança, isto é, é o caminho da alegria, da convivência familiar e social, da felicidade e do bem estar interior. A misericórdia nos permite adormecer profundamente, viver sadiamente, conviver alegremente, morrer docemente. Fixando os nossos olhos nos santos evangelhos descobrimos que a vida de Jesus é uma manifestação da misericórdia de Deus com os pecados, os pobres, os excluídos. Olhemos também para Deus, suspenso numa cruz, seu corpo perfurado pelas cinco chagas, seu coração aberto, tudo isso é o preço da misericórdia que nos resgatou.
Os médicos, os psicólogos, os advogados e pastores sabem que a misericórdia é remédio, é cura, é solução dos piores problemas da humanidade. Os sacerdotes, nos confessionários, são testemunhas do poder da misericórdia e dos milagres da conversão e o início de uma vida nova. Nesta quaresma do Ano da Fé, entreguemo-nos nos braços da misericórdia, experimentemos a ternura e o calor do amor de Deus. Procuremos retribuir amor, abrindo nossos braços aos irmãos.
Dom Orlando BrandesArcebispo de Londrina
Folha de Londrina, 09 de março de 2013

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Artigo

ANO NOVO: OUTRO OLHAR, OUTRA VISÃO
Artigo do Pe. Adroaldo sj

“...porque olhou para  a humildade de sua serva...” (Lc. 1,48)
“Os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo o que ouviram e viram...” (Lc. 2,20)

Assim como a Encarnação do Verbo foi determinada a partir de um “olhar” que saiu do coração de Deus, que pousou sobre Maria e que voltou ao Seu coração, estremecendo-O de compaixão e movendo-O à ação, assim, este novo ano que se inicia, pede também de nós um olhar compassivo, esperançador e comprometido para com o mundo à nossa volta, movendo-nos em favor da vida.
Deveríamos, ao longo deste ano, situar-nos diante de Deus desse modo, com mais freqüência, deixando os olhos, os d’Ele e os nossos, se falarem silenciosamente.
O cristão é aquele que conserva límpido os seus olhos interiores, prontos para perceber a maravilha que está germinando em sua vida. Movido por um olhar novo, ele acolhe a surpresa de Deus, passa a ser surpresa para os outros, com seu gesto de amor imprevisto, com sua palavra que reanima, com sua visita que consola, com sua atenção para com todos os que levam uma vida obscura e monótona.

Com o olhar, podemos transformar uma pessoa, destruí-la ou reconstruí-la, aniquilá-la ou fazê-la renascer, restituí-la a si mesma e ao futuro, fazê-la chorar ou consolá-la, expressar-lhe ódio, indiferença ou amor...
É preciso purificar o olhar, cristificá-lo.
“Quando penso em Jesus, imagino o seu primeiro olhar à sua mãe Maria no fundo da manje-doura ou o seu último olhar que Ele lhe dirige do alto da Cruz” (Kahlil Gibran)
Contemplar o rosto do outro é sentir sua presença, sem pré-conceitos e pré-juízos..., vendo nele o sinal da ternura de Deus. Passar da contemplação à acolhida: este é o movimento da oração dos olhos.
Apreender tudo que há de invisível naquilo que vemos. Ir até aquele ponto inacessível onde se encontram os olhares. Aqui o “ver” torna-se “visão”;  e a visão torna-se união.
Muitas vezes, o presente mais precioso que podemos dar a alguém é um olhar diferente; o futuro, a aco-lhida, o perdão, a alegria... dessa pessoa podem depender desse olhar novo, cheio de afeto e confiança.
Em muitas situações difíceis da vida, o que salva é o olhar.
Num contexto de relações afetivas, onde os sentimentos são determinantes, qualquer caminho de volta ou de diálogo inicia-se sempre dom um olhar conciliador ou reconciliador.

Vivemos sob o signo do olhar, sob o impacto da imagem, da sociedade do espetáculo. Nunca como hoje o olhar adquiriu tanta soberania e status diante dos outros sentidos; no entanto, é o sentido mais violen-tado pela quantidade de imagens despejadas sobre nós a todo momento.
O ser humano primitivo tinha um olhar limitado pelas suas necessidades; já o ser humano pós-moderno, devido à complexidade da vida, ao progresso da ciência e da tecnologia, está ficando com um olhar truncado pelas imposições artificiais criadas; cerceado em sua visão, ele não sente a realidade; agredido pelo acúmulo de imagens, ele não se deixa “afetar” por nenhuma delas. “Vê”  tudo e não “olha” nada.
A urgência em “ver” tudo tira a atenção e o tempo necessário para poder “olhar pausadamente”.

Pobre olhar! Prisioneiro do sistema, é manipulado e não dá sentido à realidade captada, não rompe, não vai além, não busca o novo nem faz mudanças... Portanto, um olhar desprovido de sentimento, de imaginação, de profundidade, de horizontes....
Treinado para ver o mundo através da lente das grandes redes de poder, de manipulação e de acordo com seus interesses, o olhar estreita-se, o mundo torna-se opaco e a superficialidade da visão não capta o “mistério” das coisas e das pessoas.
O “olhar contemplativo” está perdendo sua força criativa; marcado pela ansiedade de querer “ver” tudo ao mesmo tempo, a pessoa não é mais capaz de fazer uma “pausa” para se deixar “ver” pela realidade.
Marcado pelo olhar do racionalismo, ela tudo examina, compara, esquadrinha, mede, analisa, separa... mas nunca “exprime”. Daí o olhar reprimido, desviado, insensível, frio, duro, ríspido...
Este é o pecado contra o olhar: olhar supérfluo e imediatista, olhar esquizofrênico e narcisista, olhar morno, sem vibração, sem brilho, sem assombro... Nesse olhar não há lugar para a admiração, nem para a acolhida e a presença do outro. Só existe o olhar que “fixa”, escraviza e aliena.
Na verdade, o que imobiliza e petrifica é o olhar que se fecha no egocentrismo, que não se abre ao outro numa atitude de respeito, de fidelidade criativa. “Nossa civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era do olhar escravo” (Eugênio Bucci).


Sentimos a urgência de uma conversão do olhar; é preciso que o olhar busque a sua libertação de tudo aquilo que o oprime, o manipula e o intimida; há necessidade de recuperar o direito de olhar... de ver e de ser visto. Um olhar gratuito e desinteressado, “janela da alma”, que expande o ser humano numa atitude acolhedora de tudo que o rodeia; olhos que possibilitem o trânsito do olhar, revelando a interioridade e dialogando com o exterior, num movimento de ir e vir constante e interpelativo, onde ocorre a contínua criação de si, do mundo, do outro.
É possível debruçarmos sobre o mundo, a história, a vida, através do olhar. Recuperar o olhar que expressa acolhida e comunhão, olhar carinhoso que rompe a distância e a rejeição.
O olhar verdadeiramente humano não é um olhar de medusa, possessivo, mas um “olhar contempla-tivo”, que admira e acolhe o ser olhado e comunga sinfonicamente com ele.
O olhar contemplativo, que vê todas as criaturas e todas as pessoas, admirando-as e amando-as na singu-laridade do seu mistério, é um olhar feliz, pacífico e encantado.
Por ser um “olhar encantado” quer ver e olhar, admirar e contemplar sempre mais em profundidade, comprometendo-se com a realidade que o cerca.
Se nosso olhar se detivesse por um tempo em pousar e repousar no que ele vê, descobriria também que todas as coisas nos olham, que todas as coisas oram.
“Uma das verdades fundamentais do cristianismo, verdade por demais desconhecida, é esta: o que salva é o olhar” (Simone Weil).

Texto bíblico:  Lc. 2,15-20

Na oração: A partir do “olhar” admira-
                     do dos pastores, iniciar, ao longo deste ano, um processo minucioso de extirpação das “cataratas” do seu olhar interior: o olhar das lembranças negativas, das suspeitas, dos julgamen-tos, das comparações... e reacender o olhar contemplativo capaz de expressar a benevolência, a delicadeza, a acolhida, a cortesia, a serenidade, a modéstia, a afabilidade, a alegria simples de estar junto...
Recordar todos os “olhares amorosos” que Deus foi depositando sobre você ao longo da vida.
Coração e olhos espreitam na mesma direção. São os puros de coração os que verão a Deus (Mt. 5,8).
          “Dá-me, Senhor, um olhar livre, límpido e simples,
           que rompa as correntes do meu egoísmo e abra as portas de minha prisão.
           Dá-me um olhar profundo que não se limite a roçar as pessoas de modo fugaz, apressado.
           Que seja meu olhar desarmado, sem vínculos e atento.
           Dá-me, Senhor, um olhar que ultrapasse  a casca das coisas e penetre para além das fachadas.
           Um olhar explorador eu quero, que chegue, Senhor, ao teu aposento, no centro do ser e,
           no centro, fixe teu rosto  e, do centro, fixe o rosto do outro e, nele, te veja e de adore, Senhor”.
                                                                                                           

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Artigo - Santidade



Perfeição ou Santidade
Pe. José Antônio Netto de Oliveira, SJ

Introdução:
Não é necessário um grande esforço de observação para notar que muitos cristãos e, particularmente cristãos consagrados, não vivem sua fé com alegria, não dão o um testemunho existencial de que o Evangelho é uma alvissareira e Boa Notícia para todo ser humano, uma libertação de todo medo, diante da revelação, em Jesus Cristo, da inexplicável misericórdia, perdão, amor incondicional de Deus para com suas criaturas.
Cristãos e cristãos consagrados parecem viver um interminável sentimento de culpa diante de Deus, sempre sentindo-se em dívida e conseqüentemente experimentando uma separação ou pelo menos uma distância e frieza no relacionamento com Ele. O Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, revelado como infinita ternura, misericórdia, amor, proximidade para com o homem pecador não é então percebido como Pai, mas como um juiz mal humorado, eternamente esquadrinhando nossa vida atrás de infidelidades, desobediências e fraquezas. Em vez da intimidade, da proximidade e da alegria que Jesus manifesta no seu relacionamento com o Pai, nós, como Adão no Paraíso, sentimos medo de Deus e procuramos esconder-nos.
Nós, cristãos, nem sempre temos sabido refletir em nossos próprios rostos a alegria de Deus: desde o escrúpulo até à angústia, desde a estreiteza de espírito, até à inimizade para com o corpo, desde um ascetismo não integrado, até um legalismo sem calor... damos demasiadas vezes a impressão de que somos pessoas mais presas do que libertadas por nosso Deus.
As causas desses sentimentos e comportamentos dos cristãos, pouco reveladores da Boa Notícia de Jesus, podem ser procuradas em múltiplas direções: no tipo de educação religiosa recebida, na psicologia pessoal mais ou menos propensa a sentimentos de culpa e de escrupulosidade, na experiência de se ter sido ou não amado com gratuidade, na experiência pessoal de Deus, nas múltiplas camadas teológicas e ideológicas que se foram superpondo, obscurecendo muitas vezes a experiência original do cristianismo e conseqüentemente a alegria cristã etc.
No presente artigo gostaríamos de ressaltar um aspecto dessa problemática, uma confusão que fazemos entre santidade e perfeição, em parte responsável, em nossa opinião, por essa distância e frieza no relacionamento com Deus e por certo sentimento de culpa permanente que impede a intimidade da filiação e a alegria de vivermos como filhos amados gratuitamente pelo Pai.
Confundir santidade e perfeição, com a conotação que a palavra perfeição tem aos nossos ouvidos hoje, é condenar-nos a uma eterna insatisfação conosco mesmos, a uma auto-condenação permanente, porque percebemos que somos cada dia mais imperfeitos, na medida mesmo em que avançamos na vida. Passar desse sentimento à verificação de que a santidade não é para nós, é um pulo. Desistimos então da santidade, não ouvimos mais o apelo de Deus "sede santos porque eu sou santo" e nos condenamos à mediocridade na vida cristã.
A Perfeição
A interpretação da santidade como perfeição tem suas raízes no Evangelho de São Mateus e mais particularmente em Mt 5,48 "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito". Examinemos rapidamente este texto.
Devemos notar primeiramente que a perfeição, segundo o Antigo Testamento, não é um atributo de Deus. Em nenhuma ocasião o Antigo Testamento chama Deus de "perfeito". Chama-o de "santo". Nos evangelhos o adjetivo "perfeito" (teleios) aparece somente duas vezes e ambas em Mateus: Mt 5,48 "Sede perfeitos como vosso Pai celestial é perfeito" e Mt 19,21 "Se queres ser perfeito" pergunta Jesus ao jovem rico.
Na mentalidade hebraica a perfeição é antes um atributo do ser humano expressando a idéia de totalidade, aplicando-se ao que é completo, intacto, àquilo que de nada carece. Quando em Mt 19,21, Jesus diz: "Se queres ser perfeito", quer significar: se queres que nada te falte, se queres não ter limite algum.
Ao afirmar "sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito" Mateus estaria projetando em Deus uma qualidade propriamente humana. Encontramo-nos diante de um antropomorfismo: Mateus nos convida a imitar em Deus uma qualidade que não é propriamente divina, mas que é a projeção em Deus de um ideal humano.
A perspectiva de Mateus aparentemente parece ser mais moralista que teológica: sua atenção está centrada no dever que se impõe ao homem, na conduta que este deve adotar com relação a seus irmãos para cumprir perfeitamente a vontade divina.
Verifica-se, pois, que neste texto de Mateus o ponto de partida da santidade já não seria Deus em primeiro lugar, mas o que o homem deve fazer. A atenção se desloca da misericórdia de Deus como na versão de Lucas "Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso", para a perfeição do homem em geral, como um progresso no desenvolvimento ontológico do ser humano. A santidade passa a ser vista como a perfeição no cumprimento da lei, manifestação da vontade divina e na prática das boas obras, frutos, basicamente, do esforço do homem.
Poderíamos contudo, vislumbrar uma outra interpretação, seguindo São Jerônimo e outros. O logion "Sede perfeitos como vosso Pai Celestial é perfeito" liga-se com o texto precedente pela partícula de conseqüência "portanto". Ora, o texto imediatamente antecedente fala precisamente do amor sem limites do Pai que faz nascer o sol sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos e que ama a todos: amigos e inimigos. Assim poderíamos concluir que o discípulo deve ser perfeito no amor como o Pai Celestial é perfeito no amor.
Santidade, Perfeição e Pecado
Antes de prosseguir em nossas reflexões sobre a perfeição é iluminador considerar a relação entre santidade, perfeição e pecado. É mesmo curioso observar que a Igreja não assinale uma oposição radical entre santidade e pecado, podendo as duas realidades subsistirem simultaneamente na mesma pessoa ou no mesmo corpo social. A própria Igreja se auto-define como sendo pecadora e santa e os santos Padres não tinham escrúpulos de denominá-la "casta-prostituta": de um lado é patente sua infidelidade e mesmo suas traições a seu Esposo Jesus Cristo, e de outro é patente também à presença do Espírito do Esposo no meio dela purificando-a, salvando-a e fazendo dela sacramento universal de salvação.
Outra realidade que chama nossa atenção é o fato de os santos canonizados pela Igreja nunca se terem considerado santos, antes muito pelo contrário, todos se confessaram grandes pecadores, até o fim de suas vidas, e praticaram penitências por seus pecados que nos assustam. Apesar dessa consciência de serem imperfeitos e pecadores, eram santos e a Igreja reconheceu sua santidade, canonizando-os. Não existe pois uma incompatibilidade radical entre santidade e pecado. Pode-se ser simultaneamente santo e pecador.
Se passarmos à relação entre pecado e perfeição aí encontraremos essa incompatibilidade: não se pode ser simultaneamente perfeito e pecador uma vez que o pecado é a imperfeição por excelência. A perfeição exclui necessariamente o pecado.
Esta breve consideração poderá ajudar a entender melhor as reflexões que se seguem.
Ter pecado e ser pecador
É igualmente importante para a intelecção do que se segue captar a distinção entre ter pecado(s) e ser pecador.
Ter pecado(s) é a consciência que temos de ter falhado objetivamente no amor para com Deus, para conosco mesmos ou para com o próximo. Antes de nos dirigirmos ao sacramento da penitência, costumamos parar, fazer um exame de consciência perguntando-nos "quais os pecados que tenho", quais minhas faltas objetivas de amor, desde a última confissão. Comunicamos então ao sacerdote os pecados que "temos" e, se estamos arrependidos, somos perdoados, Deus nos assegura o seu perdão. Saindo da confissão já não temos mais pecados.
Ser pecador é a consciência que temos de nossa fragilidade. Saindo da confissão não temos mais pecado mas reconhecemos que estamos num estado de fraqueza, que somos vasos de barro, muito quebradiços. O pecado atingiu, de certa maneira, algo de profundo em nós, atingiu de algum modo o nosso ser, o nosso coração como diz a Bíblia (é do coração que saem os maus pensamentos, assassinatos etc.). Encontramo-nos todos numa situação de fragilidade. Cada um percebe no seu "coração" certas tendências inatas para o mal e para o pecado que os teólogos chamam de concupiscências, tendências para o orgulho, a avareza, a gula, a luxúria, a preguiça etc.. É porque estamos neste estado de fragilidade, é porque somos pecadores que voltamos novamente a cometer pecados e assim teremos de confessar-nos uma e outra vez até o final de nossa vida.
Reconhecer não somente que temos pecado mas também que somos pecadores é abrir-se para a verdade do próprio ser, é o início do esvaziamento de si, é começar a descer à verdadeira humildade diante de Deus e diante dos homens.
Impasses da perfeição
O conceito de perfeição que cada um tem em sua própria cabeça, não é puramente teórico, porque o conceito de perfeição forma-se ao longo da vida, é existencial e portanto vem marcado por cargas afetivas desde a primeira infância: os comportamentos corretos, perfeitos eram premiados, os imperfeitos, incorretos eram punidos. O conceito de perfeição foi-se formando em nós a partir de nossa educação, a partir de experiências integradoras ou traumatizantes, de sentimentos de culpabilidade e castigo ou de libertação e perdão. Normalmente terminamos com um conceito de perfeição que se identifica no plano pessoal com não ter defeitos, não ter vícios, não ter traumas nem marcas psíquicas negativas, não ter nenhuma fraqueza, nenhuma falha, nenhum pecado etc..
A busca da perfeição é um projeto do homem, um ideal humano. Trata-se de um projeto fechado dentro do próprio eu orgulhoso, que exige o máximo de si, o máximo de esforço para não falhar em ponto algum, uma vez que o perfeccionista está convencido de que somente será amado por Deus e pelos demais se for perfeito. Nesse esforço ele tende a contar exclusivamente consigo mesmo, prescindindo de Deus e dos outros.
A perfeição estaria no fim do caminho que traçamos para nós, do ideal que nos propusemos, ou então no topo de uma escada que decidimos subir com nosso esforço, galgando degrau por degrau, eliminando vícios e adquirindo virtudes numa busca tensa. A perfeição não suporta o pecado uma vez que o perfeccionista vê o pecado não como uma ruptura de laços de amor, não em relação a um outro, mas em relação ao próprio ideal: "falhei no meu ideal, no ideal que me havia proposto". Esta verificação é sempre sentida como humilhação.
O perfeccionista procura viver apenas com os melhores fragmentos de si mesmo, aqueles que estão conforme com as normas, com o ideal buscado, com o que pensa que os outros esperam dele. O resto, as fraquezas, as tendências obscuras, os fragmentos dos quais está menos orgulhoso, ficam trancados para sempre nas margens da consciência. Eles são recusados e negados. Desse modo, a chaga secreta que está fermentando, supurando e contaminando a vida nunca é reconhecida, nunca vem à luz. A perfeição, humilhada pelo pecado e pelas fraquezas, tende a fechar a pessoa sobre si, e fechá-la para Deus e para os outros. O amor desaparece. O perfeccionista tende a voltar-se sobre si, tornando-se seu próprio juiz e auto-condenando-se. Após certo tempo de luta sua vida pode tornar-se amargurada, amargurada consigo, com Deus, com os outros, com tudo.
A perfeição visa à própria pessoa; ela própria estabelece seus ideais e seus degraus, se mede e se compara, calcula e avalia. Suas quedas e falhas, visto que não têm um referencial fora de si, são amargas, entristecem, levam ao desânimo e à auto-condenação.
A perfeição dialoga com um código de normas e de exigências, dialoga com a lei. Esse código é, não raro, elaborado sob o peso do constrangimento de uma consciência culpada ou aterrorizada que fixa rigidamente as balizas de uma estrada fora da qual não se pode dar um passo sem que a auto-imagem se esfacele em sentimentos de fracasso irremediável.
A perfeição não justifica nem salva o homem. É Jesus quem no-lo diz na parábola do fariseu e do publicano que vão ao templo para rezar. Esta pequenina parábola teve o efeito de uma bomba atômica para a sociedade religiosa judaica, porque nela Jesus coloca tudo de pernas para o ar, inverte toda a concepção de justificação e salvação tranqüilamente aceita por todos, em todos os segmentos sociais. Todos estavam convictos de que as pessoas agradáveis a Deus, que estavam justificadas, eram os fariseus, fanáticos cumpridores da lei. Jesus afirma o oposto, esse homem não saiu do templo justificado. Sua pretensa perfeição no cumprimento da lei, o leva a um grande orgulho "não sou como os demais homens", ao desprezo dos outros, ao fechamento do coração para o amor, a prescindir de Deus, a pensar que se salva pelo próprio esforço, a exigir recompensa de Deus. Jesus afirma sem rodeios, tal homem não está justificado, a perfeição não justifica o homem.
O publicano sim, sai do templo justificado, está a caminho da salvação. O publicano capitula diante de Deus: reconhece seu pecado e sua condição de pecador, reconhece sua incapacidade de salvar-se por si mesmo, abre-se para um outro, abre-se para Deus de quem espera o perdão e a salvação. Esta humildade é a porta de abertura para sair de um mundo enclausurado em si mesmo, um mundo auto-suficiente e tenebroso, onde tudo gira em torno do próprio eu, onde não há lugar para o Outro e os outros, onde não há salvação possível.
"Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso"
A compaixão e a misericórdia são os mais característicos atributos divinos na teologia de Israel. Lucas nos convida, portanto, a imitar uma maneira de ser que é, antes de mais nada, a de Deus. Mostrando-se misericordiosos os discípulos de Jesus se assemelham ao exemplo que Deus nos dá. A atenção aqui está voltada para a visão dos sentimentos da misericórdia de Deus para com seus filhos, na sua solicitude para com os pecadores e os mais desamparados e necessitados. A conduta do homem deve se regular, deve imitar a conduta de Deus.
O versículo 6,36 conclui de modo natural à instrução sobre o amor aos inimigos. Lucas começa com uma recomendação: v. 27 "Amai os vossos inimigos..." Esta recomendação é reforçada por uma primeira consideração em forma negativa: "não imiteis os pagãos e os publicanos que só amam aqueles que os amam" (v. 32). Finalmente uma segunda consideração em forma positiva convida a imitar a Deus: "mostrai-vos como filhos do Altíssimo... e sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso".
Os exegetas nos asseguram que esta versão de Lucas reflete, mais exatamente que Mateus, o pensamento de Jesus, que nos convida a assemelhar-nos a seu Pai reproduzindo em nossas vidas os sentimentos de compaixão e misericórdia que ele tem para com os homens. Por meio dessa conduta com os irmãos aderimos a Deus, reforça-se nosso vínculo de pertença a Ele e, nesse sentido, somos santos como Ele é santo.
O tema da santidade, por conseguinte, deve ser reconduzido à interpretação que Jesus dá da misericórdia de Deus e ao que, de tal imagem paterna deriva, como norma e caminho para a conduta do homem e sua pertença a Deus.
A santidade
Em vez de optarmos pela perfeição, podemos optar pela santidade e santidade está relacionada com compaixão, com misericórdia, com amor, com esse convite que Deus nos faz: "Sede santos porque Eu sou santo". Deus é amor e nisso consiste a santidade de Deus. Trata-se pois de abrir-se para o amor, dentro mesmo dessa nossa realidade de criaturas limitadas, frágeis, pecadoras, vasos de barro como diz São Paulo. Ora, essa capacidade de amar nos é dada por Deus, é um dom de Deus.
A santidade portanto me é dada por Deus e me é dada agora, imediatamente: sou amado por Deus, sem condições, agora, com todas as minhas imperfeições, pecados, fraquezas, debilidades, limitações, traumas... e esse amor de Deus sem condições, me torna capaz de amar agora, de fazer o bem agora, de servir agora, de ser santo agora, apesar de minhas imperfeições e fraquezas. A grande ilusão é pensar que só poderemos amar, servir, fazer o bem quando formos perfeitos. Somos santos agora e devemos amar agora embora sejamos também pecadores: somos uma Igreja pecadora e santa.
A santidade nunca é humilhada pelo pecado, porque a santidade é humilde. Somos humilhados quando pensamos ser alguém, quando nos colocamos num pedestal, quando nos julgamos melhores do que os outros... somos humildes quando aceitamos ser pobres, ser frágeis, limitados, pecadores, mas amados na nossa pobreza e fragilidade.
A santidade é recusa de deixar-se fechar no próprio pecado, é a capacidade de ultrapassar as próprias condenações porque um Outro nos acolhe e nos ama apesar de nosso pecado. A superação da auto-condenação está na entrega da vida a Deus, em saber-se amado como pecador porque pecadores seremos sempre até o fim da vida. Santidade é a certeza de não podermos salvar-nos a nós mesmos e acolher, na ação de graças, uma salvação que nos é oferecida gratuitamente por Deus que nos ama. A santidade nunca leva ao fechamento, antes se abre para Deus acolhendo sempre o seu perdão e abre-se para os outros no amor, no serviço e no dom. Santidade é a recusa de ser o seu próprio juiz, deixando o juízo para Alguém que nos ama e vela por nós com amor. A santidade liberta, é confiante, é alegre; leva-nos a passar da recusa e condenação de nós mesmos e dos outros para a descoberta de nós e dos outros.
Se a perfeição era colocada em termos de uma subida laboriosa de uma escada, a santidade pode ser também representada por esse símbolo da escada, somente que se trata agora de uma descida progressiva a caminho de uma radical humildade. De fato, se meditamos atentamente o evangelho, encontramos Jesus convidando continuamente seus discípulos a uma descida: quem quiser ser o primeiro, seja o último, o servidor de todos; quem se exalta será humilhado, quem se humilha será exaltado; se não vos tornardes como crianças não entrareis no Reino; felizes os pobres porque deles é o Reino...
Trata-se de um esvaziar-se progressivo de toda auto-suficiência e orgulho, de toda ambição de riquezas, de prestígio e projeção, de poder de dominação e opressão, no seguimento do Filho de Deus que "esvaziou-se a si mesmo tomando nossa condição humana". O orgulho fecha o homem sobre si e o impede de amar, de ser santo. A humildade é o reconhecimento pacífico da própria condição de criatura pecadora e frágil, mas amada por Deus, é a porta para a santidade, isto é, para poder amar os irmãos e irmãs pecadores e frágeis como somos amados embora pecadores e frágeis.
Permanecer aí, no fundo do templo, como o publicano da parábola, reconhecendo a própria pobreza, numa súplica permanente: "tem piedade de mim, Senhor, porque sou um pecador", celebrando a misericórdia de Deus para com todos os homens, é tornar-se vulnerável à dor, ao sofrimento, à falta de vida e de sentido de muitos irmãos no mundo, é começar a ter compaixão, misericórdia, é começar a amar, é caminhar para a santidade: "sede santos porque eu sou santo".
Contrariamente à perfeição que dialoga com um código, a santidade dialoga com Alguém, com o Pai, com Cristo, construindo-se nesse lugar privilegiado de liberdade aberta ao sopro do Espírito. O santo nunca se julga alguém infalível, antes é pobre e aceita ser fraco.
Contrariamente ao perfeccionista que pensa só poder ser amado se for digno, o santo aceita ser amado na indignidade, acolhe um amor que lhe é oferecido gratuitamente. Conseqüentemente não espera que os outros sejam dignos de seu amor para amá-los. Procura amá-los como Deus nos ama: é o amor gratuito que cria as condições de uma resposta.
Finalmente santidade é um combate, um afrontamento. Não é no fim da vida que se chega a santidade. Ela deve aparecer e aparece, de fato, em cada instante que passa, em cada pequeno ato de amor, de bondade, de compaixão, de abertura e acolhida do outro. Santidade não é um resultado que possa ser contabilizado, é antes uma tendência, uma superação diária, um esvaziamento progressivo de si. Santidade é um caminhar: um passo depois do outro.
Processo evolutivo: da busca da perfeição ao desejo da santidade.
Os autores do Novo Testamento e seus sucessores imediatos quando escreviam sobre o que chamamos "perfeição espiritual", ou "perfeição da vida cristã, queriam significar algo próximo do que chamamos "maturidade". Ora, só se amadurece usando tempo e experiência para aprender. O ponto crucial dessa aprendizagem é saber ouvir, é ter um ouvido atento primeiramente ao Evangelho, ouvindo Jesus que chama para segui-lo; em segundo lugar à tradição: o seguimento de Jesus ao longo dos séculos e finalmente, em terceiro lugar, ao próprio coração, isto é, à própria experiência como ser humano.
Nossa vida humana e espiritual avança não tanto através de cortes, de saltos bruscos, mas de um processo, com freqüência imperceptível aos nossos próprios olhos: quando nos damos conta, algo está mudado dentro de nós. Cotejando a experiência de muitas pessoas em sua caminhada espiritual, podemos descobrir um processo evolutivo que existencialmente poderíamos descrever como uma trajetória não igual para todos, mas com certas semelhanças.
As primeiras etapas na vida espiritual costumam caracterizar-se pela experiência de uma forte atração de Deus sobre a pessoa e pela presença de grandes consolações espirituais. Diante de tal generosidade divina, a pessoa, sobretudo se é jovem, sente-se desafiada em sua generosidade e deseja responder a tanto amor recebido gratuitamente: "Se Deus é generoso para comigo, devo ser generoso para com Deus". Esta generosidade primeira é freqüentemente interpretada em termos de perfeição: devo eliminar vícios, falhas, fraquezas, pecados... para responder e agradar a Deus.
O jovem lança-se então a subir a escada da perfeição, num esforço louvável e tenaz, mas nesse esforço conta muito consegue e pouco com Deus: confia em si, na sua generosidade, no seu esforço, no seu idealismo, na sua força de vontade. Nessa tentativa mescla-se uma forte dose de vontade de poder e, sobretudo, um orgulho sutil, que na sua sutileza não é percebido. Esta fase do esforço voluntarista centrado em si pode ter a duração de oito a quinze anos, dependendo do nível de profundidade da oração pessoal.
Em seguida, a pessoa começa a perceber pouco a pouco que estacionou, que não avança mais, que o carro não consegue mais subir a ladeira da perfeição, está derrapando. Entra-se progressivamente numa série de crises, de falhas, de quedas que aparecem sobretudo como fracassos no ideal proposto. Há uma sensação vaga de que os fundamentos da casa estão abalados. Problemas inconscientes não suficientemente trabalhados anteriormente, emergem agora com violência, exigindo gratificações. A experiência concreta se manifesta no aparecimento de paixões de todos os tipos que a pessoa julgava já ter domado definitivamente no passado: agora reanimam-se subitamente com força redobrada e experimenta-se a própria pobreza e fraqueza. Aos poucos chega-se a uma verificação: não só os fundamentos da casa estão abalados, a casa toda está em ruínas, "estava construída sobre a areia".
Há um período de angústia profunda, que não pode ser evitado, uma sensação de cansaço na luta, de não saber por onde recomeçar porque a pessoa sabe que não pode mais fazer uso do dinamismo gasto de sua vontade: a garra, o fogo, o idealismo da juventude, que acreditava superar tudo com a força de vontade, esgotou-se, acabou. E então?
Há duas saídas possíveis para esta crise: uma é a do desânimo e do abandono: "a santidade não é para mim". Outra é a busca de uma saída em Deus: voltar-se para uma oração simples, de súplica humilde: "tem compaixão de mim, Senhor, porque sou um pecador", "do fundo do abismo clamo por ti, Senhor", "mais do que o vigia, espero pela aurora"... esperando a iniciativa de Deus. Trata-se agora de iniciar a descida da escada rumo à humildade radical. A verificação da própria indigência já é o início dessa descida, uma descida cheia de esperança, expectativa e confiança no amor, na graça, na salvação que vem de Deus. "O Senhor está próximo de todos os que o invocam, dos que o invocam na verdade". A súplica que brota do reconhecimento da própria pobreza, é sempre verdadeira. O lugar mesmo onde a busca da perfeição fracassa, pode ser o ponto de partida da estrada da santidade.
Conclusão
De um lado a busca, o esforço humano, a vida ascética, de outro a graça, o dom de Deus, o amor gratuito e transformante, a vida mística: atividade e passividade. Estas duas dimensões estão presentes em nossa experiência espiritual, mas em equilíbrio instável: por vezes nos perguntamos se não estamos contando unicamente com nosso esforço, nosso compromisso, nossa força de vontade e esperando pouco ou nada de Deus; outras vezes teremos a impressão de estarmos esperando tudo de Deus, passivamente, sem nada fazermos para procurá-lo. Gostaríamos de ver com clareza onde estamos e se estamos no caminho certo. Essa clareza nem sempre é possível. O que é possível é continuar avançando, sem ver claro, a partir do ponto aonde chegamos.
Santo Inácio percebe com clareza que a santidade é esse dom de Deus que transforma a criatura e a torna capaz de "em tudo amar e servir". Percebe também que há muitas desordens no ser humano que o impedem de acolher o dom santificador de Deus e por isso vai empenhar-se em fornecer meios e instrumentos para ordenar a própria vida e assim dispor-se para acolher o dom. Inácio está convencido de que o que transforma e santifica o ser humano é a graça, o dom, o amor de Deus, mas que é necessário uma busca, um esforço, uma ascese de nossa parte, que tem como única finalidade dispor-nos para acolher o dom e não conquistar, merecer a graça. O dom é gratuito, está à nossa disposição, mas há indisposições em nós para acolhê-lo, indisposições que Inácio vai chamar com vários nomes: cobiça de riquezas, honra vã do mundo, soberba, amor próprio, sensualidade, amor carnal e mundano, afeições desordenadas, pecados... Tudo isto está em nós e nos atrapalha, cria obstáculos à acolhida do dom de Deus.
Os Exercícios Espirituais são conhecidos como uma experiência em que a busca generosa de ordenação da própria vida no horizonte de Jesus Cristo, abre para a acolhida do dom transformante de Deus e conseqüentemente para a santidade, isto é, para em tudo amar e servir. "Cada qual esteja convencido de que tanto mais progredirá em todas as coisas espirituais, quanto mais sair de seu amor próprio, querer e interesse" (EE 189). Esse sair do amor próprio, do próprio querer e interesse tem como objetivo acolher um outro amor, um outro querer, isto é, a vontade de Deus, e um outro interesse, a saber, os interesses do Reino e dos outros. Esse sair implica uma missão: somos enviados e revestidos de uma capacidade de amar que não vem de nós, porque somos e seremos sempre vasos de argila, vasos de barro bem frágeis e quebradiços, mas dentro desse barro carregamos um tesouro, o amor de Deus derramado em nossos corações. Esse amor nos santifica, nos torna capazes de realmente "em tudo amar e servir".
Terminemos com uma página de rara beleza sobre a pureza do coração e conseqüentemente sobre a santidade, que se encontra no livro Sabedoria de um pobre, de Elói Leclerc (Editorial Franciscana, Braga, 1975, pp.137-140).
"... Depois de um momento de silêncio, Francisco perguntou a Leão: Irmão, sabes acaso o que é a pureza de coração? - É não termos falta alguma de que nos acusemos, respondeu Leão sem hesitar. - Então compreendo a tua tristeza, disse Francisco, porque temos sempre alguma coisa de que nos acusar. - Sim, concordou Leão, e é precisamente isso que faz com que eu perca a esperança de chegar um dia à pureza de coração.
Ah! Frei Leão, acredita-me, retorquiu Francisco, não te preocupes tanto com a pureza de tua alma. Volta o olhar para Deus. Regozija-te por Ele ser todo santidade. Dá-lhe graças por causa dele mesmo. Isso é que é, irmãozinho, ter o coração puro. E quando estiveres voltado para Deus, não voltes a debruçar-te sobre ti. Não perguntes a ti próprio em que ponto estás em relação a Deus. A tristeza de não sermos perfeitos, de nos descobrirmos pecadores é, ainda, um sentimento humano, demasiadamente humano. É preciso que eleves o teu olhar mais alto, muito mais alto. Há Deus, a imensidade de Deus e o seu inalterável esplendor. O coração puro é aquele que não cessa de adorar o Senhor vivo e verdadeiro; o que toma um interesse profundo pela própria vida de Deus e é capaz, no meio de todas as suas misérias, de vibrar com a eterna inocência e a eterna alegria de Deus. Semelhante coração é, há um tempo, despojado e cumulado. Basta-lhe que Deus seja Deus. É mesmo nisso que ele encontra toda a sua paz, todo o seu amor. E então, é o próprio Deus que é toda a sua santidade.
Deus, no entanto, exige o nosso esforço e a nossa fidelidade, observou Leão.
Sim, sem dúvida, respondeu Francisco. Mas a santidade não é uma realização do nosso eu, nem uma plenitude que nos damos a nós mesmos. Acima de tudo ela é um vazio que descobrimos em nós, que aceitamos e que Deus vem encher na medida em que nos abrimos à sua plenitude. O nosso nada, compreendes, quando é aceito, transforma-se no espaço vazio onde Deus pode, ainda, criar. O Senhor não deixa que ninguém lhe roube a sua glória. Ele é o Senhor, o único, o Santo. Toma, porém o pobre pela mão, tira-o da lama e fá-lo sentar no meio dos príncipes do seu povo a fim de que ele veja a sua glória. Deus torna-se, então o céu da sua alma.
Contemplar a glória de Deus, Frei Leão, descobrir que Deus é Deus, eternamente Deus para além do que nós somos ou possamos ser, alegrar-se, em cheio, com aquilo que Ele é, extasiar-se diante de sua eterna juventude e dar-lhe graças por causa da sua indefectível misericórdia, eis a exigência mais profunda desse amor que o espírito do Senhor não cessa de derramar em nossos corações. Ter o coração puro é isto. Mas esta pureza não se obtém à força de punhos e de tensão.
Que fazer para a alcançar? perguntou Leão.
Basta simplesmente nada guardar para si. Nem sequer essa percepção aguda da nossa miséria. Desprender-se de tudo. Aceitar ser pobre. Renunciar a tudo o que é pesado, inclusive ao peso das nossas faltas. Já não ver senão a glória do Senhor e deixar-se iluminar por ela. Deus é, isto basta. O coração como a cotovia ébria de espaço e de azul abandonou todo e qualquer cuidado, toda e qualquer inquietação. O seu desejo de perfeição mudou-se num simples e puro querer de Deus.
Leão escutava com ar grave, enquanto ia caminhando adiante de seu pai. Porém, à medida que avançava, sentia que o coração se lhe tornava leve e que uma grande paz o invadia".
Este artigo faz parte da Revista Itaici 18













domingo, 25 de março de 2012

domingo, 25 de março de 2012


Desejo de ver Jesus

Jesus, chegando a Jerusalém para a festa da Páscoa judaica, é aclamado pela multidão de peregrinos que acorrem à cidade para o cumprimento do preceito religioso de participação nesta festa. Entre estes peregrinos encontram-se gregos, os quais se dirigem a Filipe, manifestando o desejo de ver Jesus, o qual os atrai mais do que a própria festa.
Jesus, na ocasião de seu batismo por João, disse a André e ao outro discípulo que o acompanhava, quando lhe perguntavam onde morava: "Vem e vê" (Jo 1,39). Depois, o próprio Filipe, que já havia sido chamado por Jesus para segui-lo, convidou também Natanael para o encontro com Jesus, com a mesma expressão: "Vem e vê" (Jo 1,46). Agora são os gregos da região de Betsaida que se empenham em ver Jesus. "Ver" significa conhecer, ter a experiência da presença e do diálogo, em um tempo de convívio e comunicação com Jesus.
Filipe, diante do pedido dos gregos, vai dizê-lo a André. Filipe, bem como André e Pedro, era de Betsaida, cidade de cultura grega. Os próprios nomes de Filipe (Philippos) e André (Andréas) têm origem grega.
Quando Filipe e André falam com Jesus, ele lhes responde procurando remover qualquer equívoco. Está próximo o desenlace de seu ministério de amor e dom de si, sem temer perseguições, ameaças e morte. A sua glória não é o poder e o sucesso, mas o dom total de sua vida no amor, a ser assumido também pelos discípulos. O dom da própria vida é o ato fecundo que gera mais vida, tanto naquele que se doa como naqueles que são tocados por seu amor. A vida é fruto do amor e ela será tanto mais pujante quanto maior for a plenitude do amor, no dom total.
A metáfora do grão que se transforma exprime que o homem possui muito mais potencialidades do que aquelas que lhe são conhecidas. O grão que desaparece para dar lugar à planta e ao fruto é a conversão de vida. É libertar a vida de submissão e escravidão aos interesses dos chefes deste mundo e colocá-la a serviço de Jesus presente no nosso próximo. É alcançar a liberdade da vida eterna na prática do amor. Com o dom de si, novas e surpreendentes potencialidades se revelam. A morte, sem ser um fim trágico, pode ser também o começo de uma vida nova, mais plena, já neste mundo. Morrer para os limites e valores impostos por uma cultura de consumo e opressão, para viver livre na comunhão de amor e vida com os irmãos, particularmente os mais necessitados. Isto é servir Jesus, e assim se manifesta a glória de Jesus e a glória do Pai. Quem não teme a própria morte confunde o opressor poderoso, chefe deste mundo, e conquista a liberdade que tudo transforma pelo amor.
Viver é dar a vida e tem-se a vida à medida que ela é dada.

José Raimundo Oliva -
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