quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Liturgia

EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ:
DA ÁRVORE DO PECADO E DA MORTE À ARVORE DA SALVAÇÃO E DA VIDA
(Liturgia da Exaltação da Santa Cruz)
 
Hoje temos a graça de celebrar a festa da Exaltação da Santa Cruz.
A palavra “Cruz” é usada, à vezes, para indicar uma pessoa, uma coisa ou uma situação que somos obrigados a suportar. Algo ou alguém que nos traz sofrimento, sejam doenças ou problemas a carregar pelas estradas da nossa vida. Aliás, na linguagem comum é difícil descobrir um significado positivo para a cruz.
Mas o sinal da Cruz é uma das primeiras coisas que aprendemos desde pequenos e, apesar de lembrar o sofrimento, o repetimos muitas vezes, mesmo em condições, circunstâncias e momentos de festa e alegria como no Batismo, no Crisma, nos casamentos e até mesmo quando estamos à mesa para um bom e saboroso almoço festivo com a família ou com os amigos. Evidentemente, a Cruz também nos diz algo de bom e de positivo.
A Santa Cruz que hoje é exaltada e que está no centro de nossas celebrações, é a Cruz de Cristo. Ela não faz sentido por si só, mas sempre em relação. É a mesma que Jesus abraçou livremente por amor.
Trata-se de um mistério de amor e, portanto, a mais alta expressão do amor que nosso Deus teve, tem e sempre terá por cada um de nós.
Afinal, quem pode amar mais do que um pai ou uma mãe? Segundo o profeta Isaías, só o amor de Deus é mais forte que o amor materno. Este é o tipo do amor que Deus tem por nós e do qual Ele mesmo é constituído (Deus é amor).
É este amor que faz com Ele envie o Seu Filho. Este, como sabemos, obediente ao Pai, se fez homem e se “esvaziou” até a morte, a mais humilhante e infame, reservada aos piores delitos, a morte de cruz.
Escutamos na segunda leitura desta celebração (Fl 2,6-11), São Paulo que descreve exatamente esse “esvaziamento” de Cristo que, por ser de natureza divina, se fez homem, entregando-Se nas mãos dos homens para ser morto ou, como se diz em outra parte, “se fez pecado”.
Jesus na Cruz é “esmagado” pelo mistério do mal ao ponto de morrer! Mas é justamente assim que Ele vence o mal: “de dentro” do seu modo mais profundo de existir.
A esse itinerário de “esvaziamento” de Si, corresponde a ação de Deus Pai que, por isso, O exalta e O constitui Senhor de todas as coisas, estabelecendo que somente no nome de Jesus haja salvação.
A espiritualidade oriental tem muito a nos ensinar sobre o poder do nome de Jesus. Nas nossas orações constituídas, às vezes, de muitas palavras, podemos recorrer à simples e segura invocação do nome de Jesus, repetindo-o, meditativamente. É uma oração simples e eficaz, como a famosa expressão usada pela oração do coração: “Senhor Jesus, tem piedade de mim”! Trata-se de um pedido de salvação, aparentemente, superficial, mas ao mesmo tempo, profundo!
No Evangelho (Jo 3,13-17) desta liturgia da Exaltação da Santa Cruz, o próprio Jesus, ainda que não fale explicitamente de salvação, faz alusão, claramente, no seu diálogo com Nicodemos quando diz: “E como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que, todos aqueles que nele crerem, tenham a vida eterna”.
Quanto à expressão “Filho do Homem”, é usada para se referir a Jesus, e o “ser levantado” a que se refere, obviamente, diz respeito à Sua crucificação e morte.
Está, portanto, estabelecido um paralelo com o Antigo Testamento: a serpente levantada na haste de madeira por Moisés, para que todos aqueles que por ela fossem mordidos e que a ela se dirigissem fossem curados dos seus pecados.
A simbologia é, de fato, muito rica e nos permite estabelecer ainda outro paralelo com o Antigo Testamento, mais precisamente com o livro do Gênesis, mencionado no prefácio da missa de hoje: “Pusestes no lenho da Cruz a salvação da humanidade, para que a vida ressurgisse de onde a morte viera. E o que vencera na árvore do paraíso, na árvore da Cruz fosse vencido”.
O Evangelho nos avisa que é crendo nesse Jesus “levantado” que se tem a vida eterna. Aquele que crê em Cristo Crucificado não morre, mas tem a vida eterna.
A expressão “Não morre”, aparentemente parece contradizer a experiência humana sensível, porque todos nós um dia morreremos. O “não morrer” a que se refere Jesus, só pode ser compreendido na ótica de uma fé que crê na vida do Céu na presença de Deus.
Refere-se à vida eterna. Isto é, àquela vida plena que começa já aqui na Terra, desde o Batismo, e que tem na morte uma passagem na direção do Pai que está nos Céus; um Deus no qual cremos, ao qual temos devotado toda a nossa vida, com confiança.
Este Deus não nos foi revelado por Jesus como um juiz impiedoso, mas fundamentalmente, como um Pai bondoso e misericordioso, cujo amor é gratuito.
Um Deus que nos amou por primeiro, nos ama incondicionalmente, e que apesar de nossas infidelidades, continua a nos amar, mesmo quando vivemos como se Ele não existisse, e nos espera, mesmo que estejamos ainda muito longe dele.
O Pai, rico em misericórdia, não enviou o Seu Filho “para julgar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele”. E essa salvação que Jesus nos garantiu com a Sua morte na Cruz e com a Sua ressurreição é destinada a todos, sem exceção.
Em cada celebração da Eucaristia esse mistério de amor de Deus é “reoferecido” pela salvação de toda a humanidade.
A propósito, se nos perguntássemos do que devemos ser salvos, ou do que o Senhor nos salva na Sua Cruz redentora, certamente a resposta seria: do pecado e da morte. E de fato! Uma resposta correta e verdadeira. Contudo, talvez um pouco genérica.
Procuremos, com sinceridade, examinando nossos corações e nossas consciências, ao celebrarmos a Exaltação da Santa Cruz, dar a esta pergunta uma resposta pessoal, com relação à nossa vida cotidiana.
De que precisamos, de fato, ser salvos? Do que a Cruz de Cristo me salva? Por que Cristo morreu na Cruz por mim? (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Superior dos Missionários Inacianos – formador@inacianos.org.br – Website: www.inacianos.org.br).


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