sábado, 15 de setembro de 2012

Liturgia dominical - 16 de setembro de 2012

A LOUCURA DA CRUZ:
FIDELIDADE AO PROJETO DO PAI
(Liturgia do Vigésimo Quarto Domingo do Tempo Comum)

Vivemos num mundo aberto às diversas experiências do conhecimento. O progresso tecnológico abre um leque de possibilidades para se conhecer, alcançar, chegar às pessoas, culturas e lugares mais diversos, com rapidez e facilidade, nunca vistos antes.
A tecnologia nos surpreende a cada nova invenção. Nada parece bastar para que nos projetemos sempre mais para um futuro sem fronteiras e sem limites para um novo conhecimento.
Vivemos experiências das mais diversas, descobrimos sempre um pouco mais de um mundo novo e de uma nova humanidade.
Entre tantas viagens possíveis, há uma que permanece sempre insuperável. Trata-se da viagem rumo ao conhecimento de Deus.
Quando parece termos chegado perto de conhecê-Lo um pouco mais,  descobrimos que naquele ponto de chegada se abre um novo caminho, uma nova descoberta feita de perguntas, de riscos, dúvidas e incertezas.  É o que ocorre com Pedro e os demais discípulos.
O Evangelho de Marcos deste Vigésimo Quarto Domingo do Tempo Comum (8, 27-35) nos ajuda a caminhar nessa viagem. Aliás, nos faz alcançar uma etapa central dessa caminhada com a pergunta sempre antiga e sempre nova: “quem é Jesus”?
Depois da cura do surdo-mudo apresentado no domingo passado, Jesus tinha realizado uma segunda multiplicação dos pães, para cerca de quatro mil pessoas. E enquanto os fariseus discutiam sobre o Messias, os discípulos, juntamente com Jesus, tinham saído de barco, mas esqueceram de levar pães suficientes.
Esse “esquecimento” oferece a Jesus a oportunidade de ajudá-los a dar um salto de qualidade. Os discípulos, de fato, não podem pensar como os fariseus e como Herodes. Devem, ao contrário, tomar cuidado com esse “fermento”, mas devem também abrir os olhos e os ouvidos para compreender que, além do pão comido, existe um outro e único pão verdadeiro, isto é, o próprio Jesus.
Em Betsaida Jesus dá um sinal a mais! Abre os olhos do cego. Hoje, em Cesareia, abre os ouvidos dos discípulos, para depois, abrir-nos os olhos da fé.
Jesus faz isso através de algumas perguntas dirigidas a todos os doze. A primeira é mais generalizada, como uma sondagem de opinião: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem”? E as respostas são as mais variadas.
A segunda pergunta toca o coração de cada um dos discípulos. É quase impossível dar uma resposta genérica, ou fugir dessa pergunta: “E vós? Quem dizeis que eu sou”?  A pergunta soa como uma reviravolta na vida dos discípulos, como também na nossa, principalmente porque aqueles que responderem, se comprometerão! 
O coração duro, necessariamente tem que “amolecer”, diante dessa pergunta. Diante de tal pergunta, não se pode ficar “em cima do muro”. Necessariamente, temos que escolher, fazendo, nesse momento decisivo, uma opção!
O coração de Pedro, cheio do Espírito Santo lhe dá coragem e faz com que opte, respondendo: “Tu és o Messias”!  Esta resposta constitui um momento forte para o grupo dos doze. Um momento de intimidade que não pode ser ainda revelado à multidão. Certamente ao chegar aos ouvidos do Mestre, a resposta de Pedro provoca um momento de grande alegria porque, finalmente, Ele é publicamente reconhecido como o Messias.
Depois de ter presenciado que Jesus havia aberto os ouvidos e a boca de um surdo mudo, e também e os olhos do cego, Pedro, e com ele os outros onze discípulos, compreende que os seus ouvidos são abertos para uma Palavra que vem de Deus. Sua boca pode professar a verdadeira fé! Os olhos podem, finalmente, ver o rosto de Deus!
Diante do entusiasmo geral, parece que Jesus conclui que pode ir mais além, indicando o caminho que o espera: “... começou a ensiná-los dizendo que o Filho do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei; devia ser morto, e ressuscitar depois de três dias”.
Mas é exatamente neste ponto que os discípulos tem um primeiro e novo obstáculo. Isto é, o caminho de Jesus, de agora em diante, será caracterizado pela Paixão e pela Cruz.
O Messias esperado é o Servo Sofredor do Senhor. Por isso a primeira leitura, do livro do Profeta Isaías (50,5-9ª), apresenta o terceiro dos quatro “cânticos do Servo Sofredor”.
A apresentação do Servo sofredor coloca por terra todas as aspirações messiânicas fundamentadas na ilusão do poder e avisa que o Messias não é um libertador qualquer, muito menos um líder político armado para realizar revoluções sociais, ainda que necessárias, mas é Aquele que toma sobre Si os sofrimentos de toda a humanidade, para libertar o homem por inteiro!
Mas como é possível?  Por que o Senhor terá que passar pelo caminho da Cruz? É o raciocínio de Pedro.  Quantas vezes nós queremos viver um Evangelho e um Reino sem cruz! E quantas vezes, assim como Pedro, pedimos, e às vezes até mesmo exigimos que Deus se dobre à nossa vontade, e não nós à Sua?
Por que Jesus tem que sofrer? Por que nós temos que passar pelo sofrimento? Que sentido então, tem a nossa vida?
A resposta de Jesus a Pedro é mais do que uma simples resposta. É um olhar que se estende a todos nós, diante dessa postura. É um olhar que contém um misto de misericórdia e de reprovação. Pedro, então, é convocado diante de todos e escuta a famosa frase da boca de Jesus: “Vai para longe de mim, satanás”!
É como se Jesus dissesse: “vá embora, saia, do meu caminho, não impeça o meu caminho, caso contrário, você se comporta e age como satanás, que quer impedir o projeto de Deus”.  
É também como um convite que se dirige a cada um de nós, para que caminhemos neste novo jeito de seguir o Mestre, não obstante a nossa dificuldade de compreender os projetos do Pai.
O seguimento de Jesus consiste no despojamento expresso no ato de renunciar a si mesmo, no pensar que a nossa vida tem sentido e significado profundo, somente se e quando nos confiamos totalmente a Ele.
Significa estar “atrás” dele no caminho, e não, na Sua “frente”! Seguir atrás dele, ir na direção dos seus passos, na certeza de seguir um rumo seguro, e que Ele não nos decepcionará jamais!
Nesse caminho, como em qualquer caminho ou qualquer viagem, levamos uma bagagem. No caminho do seguimento de Jesus, nossa bagagem é a Cruz. Ela é pesada, se permanecermos parados com ela sobre os ombros; é leve, se caminharmos seguindo a Cristo; onerosa, se nos sentirmos injustamente esmagados pelo sofrimento, sem confiança e sem esperança; é suave, se virmos nela não apenas mais um peso, mas um apoio, um convite a nos erguermos da terra e do chão para olhar, como Jesus, as coisas do Alto. 
A Palavra de Deus nos convida a olhar hoje paras pessoas que, na dificuldade do sofrimento físico ou moral, nos ensinam a carregarmos a cruz, com Jesus. Elas nos ensinam que, para ganhar a vida verdadeira, é necessário aprender a “perder”, de acordo com os valores do Evangelho. Nesse sentido, é importantíssimo crescer na sabedoria de que, às vezes, é preciso “perder” para ter e “morrer” para viver a vida verdadeira.
O tema da fé é retomado ainda na carta de São Tiago, na segunda leitura (2,14-18), num texto fundamental para a vida cristã. Trata-se da consciência de que a fé sem as obras é morta!
Como no domingo passado, hoje também a carta de São Tiago contém a proposta de um exemplo muito concreto. Apresenta-nos os irmãos que não tem o que vestir e nem o que comer e avisa-nos que não podemos nos contentar em dizer a eles apenas uma boa palavra ou fazer-lhes uma oração.
Como comunidade somos chamados a agir, dando-lhes roupa e alimento na emergência, mas não só. Somos chamados a dar uma ajuda concreta e que vai além do emergencial. Porque se a nossa fé não se exprime em obras, torna-se simplesmente conhecimento intelectual, inútil, à qual Tiago fará a comparação com a fé dos demônios, logo no versículo seguinte (2,19).
Neste ponto o texto da segunda leitura retorna a mensagem que nos é transmitida no Evangelho e nos ajuda a compreender que a profissão de fé de Pedro, adquire o seu valor somente quando compreendemos que é necessário carregar a Cruz com Cristo, levando até mesmo o peso dos outros, sobretudo dos mais pobres.
Deixemo-nos permear, corpo e alma, pela força do Sacramento da Eucaristia, para que em nós prevaleça sempre e fortemente a ação do Espírito Santo, para o seguimento fiel de Jesus Cristo. (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Superior dos Missionários Inacianos – formador@inacianos.org.br – Website: www.inacianos.org.br).

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