domingo, 8 de julho de 2012

Homilia da Liturgia do domingo - 08 de julho de 2012

DEUS: FORÇA E SUSTENTO NA FRAQUEZA HUMANA!
(Liturgia do Décimo Quarto Domingo do Tempo Comum)


O tema apresentado nas leituras deste décimo quarto domingo do Tempo Comum é particularmente sugestivo.
Aparentemente, parece uma contradição que Deus, o Poderoso, seja capaz de manifestar-se no ser humano, também através da sua fraqueza.
Na primeira leitura podemos ouvir como o profeta Ezequiel (2,2-5) é enviado aos israelitas para proclamar a Palavra de Deus. Deus, porém, desde o início, lhe avisa que a Sua Palavra não será acolhida por esse povo rebelde. Os israelitas reservaram ao profeta o mesmo tratamento que deram ao Senhor, ou seja, o não acolhimento da Palavra.
Na base dessa situação de não acolhimento da Palavra está uma atitude de rebelião e de endurecimento do coração. O povo é composto, de fato, de filhos teimosos e de coração endurecido! Contra a teimosia do povo e o endurecimento do coração, Deus não pode fazer nada!
Mas que sentido tem o exercício do ministério profético, quando já se sabe que a Palavra não será acolhida? Faz sentido anunciar a vontade de Deus quando já se sabe, antecipadamente, que não será aceita? O ministério profético não será um exercício inútil, uma perda de tempo?
O livro do profeta Ezequiel nos diz que não! Ainda na recusa da verdade, que é consequência lógica do bem mais precioso que Deus deu ao homem, isto é, a liberdade, se manifesta um importante elemento da missão profética. Trata-se de dar e ser testemunho de Deus! Isto é, o profeta não anuncia a Palavra de Deus para “vencer” ou para ter razão. Ele é chamado a desenvolver a sua missão numa profunda liberdade interior, sem procurar o consenso ou a aprovação, tampouco almejar como critério da sua missão, a popularidade e a acolhida. A sua missão é levar uma mensagem que não é sua, mas de Deus. É necessário considerar que Deus é quem realiza!
Deus respeita a liberdade do homem, pois sabe que o homem pode recusar acolher a sua mensagem. Contudo, o avisa através dos profetas, que um dia, depois de ter experimentado as consequências da dureza do seu coração e da rebelião às Suas coisas a humanidade, repensando sobre as suas palavras, poderá se arrepender.
Aqui há um aspecto importante da profecia. As pessoas saberão que no meio deles está um profeta, não tanto porque o profeta é alguém poderoso, respeitado e bem aceito, mas pelo contrário, porque ele é derrotado, ou como se diz por aí, um perdedor. O que importa, aos olhos de Deus, é a realização de sua vocação e o testemunho que ele dá.
Deus é capaz de conferir ao profeta a Sua identidade e ao mesmo tempo fazer com que esta seja reconhecida pelo povo, inclusive através da experiência da fragilidade e das falhas humanas. Esta palavra nos recorda como é importante, para os cristãos, ser testemunhas da Palavra de Deus, mesmo naqueles contextos em que dificilmente o testemunho será acolhido. O êxito do testemunho não depende de nós! Somos “servos inúteis”. Quando fizermos aquilo que nos foi mandado fazer, deixemos que Deus dê a força que nós não temos e que realize o Seu projeto.
Uma temática semelhante é apresentada na segunda leitura. Paulo reclama de um “espinho na carne” que o atormenta e do qual gostaria de ser libertado. Embora não saibamos exatamente do que se trata, podemos supor que, certamente, era algo que o perturbava, atrapalhava e que tornava difícil a sua missão profética. Ele diz que orou a Deus por três vezes para que Ele o libertasse daquele “espinho”. Mas a resposta que obteve é algo verdadeiramente surpreendente: “Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força se manifesta”.  Na bíblia encontramos diversas vezes expressões que nos recordam essa realidade, quando Deus fala como falou a Paulo: “não quero que penses que venceste graças à tua coragem ou bravura, ou que é por ela que alcançaste o sucesso”etc.
Para evitar que Israel se ensoberbeça e atribua a si mesmo o mérito de certas vitórias, até mesmo Deus pede algo estranho, como por exemplo, quando pede para diminuir o número de soldados na batalha ou quando pede para realizar algumas ações incompreensíveis, isto é, humanamente sem lógica. Objetivo de tudo disso é que fique bem claro que a obra é de Deus e não do homem.
Paulo também faz essa experiência “para que a extraordinária grandeza das revelações não me ensoberbecesse... para que eu não me exalte demais”!
            A fim de que Paulo não possa pensar que as conversões suscitadas pela sua pregação são fruto da sua eloquência ou da sua capacidade comunicativa, Deus lhe põe um “espinho” na carne, e assim, deste modo, se realiza aquilo que Deus quer. Trata-se de deixar claro que a obra é de Deus e não humana, ele passa a ser reconhecido como profeta do Senhor e, através da experiência da limitação humana, torna-se instrumento do poder de Deus.
Tanto Paulo como Ezequiel são apenas instrumentos e, como tal, também fazem a experiência da inadequação e da derrota. Paradoxalmente, graças a esta inadequação, isto é, à falta de correspondência com tão alta missão, serão reconhecidos como instrumentos de uma mensagem que não é deles, mas de Deus.
Para nós cristãos também vale esta regra. O testemunho que devemos levar ao mundo não é o testemunho de nós mesmos. Somos apenas portadores da Palavra de Outro. Devemos fazê-lo com coerência e caridade, fazendo o melhor que pudermos, para que essa Palavra seja acolhida, mas devemos sempre deixar o êxito para Deus, para que a sua vontade seja feita.
Agindo assim poderemos, talvez, também nós chegar a reconhecer: “... quando eu me sinto fraco, é então que sou forte”, o que equivale a dizer, quando sou apenas um instrumento, Deus pode agir em mim.
Finalmente, o Evangelho recupera ainda o argumento das duas leituras. O próprio Jesus, o Filho de Deus, faz a experiência que Ezequiel e Paulo fizeram. No Seu caso o limite não se constitui de uma rebelião aberta do povo ou de um problema ou limitação humana da Sua pessoa, como no caso dos dois. Trata-se do fato de encontrar-Se na Sua pátria, entre o Seu povo, entre as pessoas que O conhecem e comentam: Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não moram aqui conosco”?
 E ficaram escandalizados por causa dele”! É muito forte este registro no evangelho de hoje. A palavra "escândalo" vem do grego e significa "tropeço”, obstáculo para derrubar alguém. O obstáculo, humanamente falando, para Ezequiel, foi colocado pela rebeldia do povo, pessoas coração endurecido. Já para Paulo, o obstáculo era a própria limitação humana.
O obstáculo para Jesus é encontrar-Se em meio às pessoas que mais deveriam acolhê-Lo. Pessoas que não conseguem imaginar que Ele mesmo, o carpinteiro conterrâneo, pudesse ser o Filho de Deus.
Essa atitude do povo gera a incredulidade, a indisponibilidade e incapacidade para acolher o dom presente na pessoa de Jesus. Contra essa incredulidade nem mesmo Ele pode intervir. “E ali não pôde fazer milagre algum”! A falta de fé do homem tem o poder extraordinário de “anular” o poder Deus, obstáculo para que Deus possa agir!
Assim como Ezequiel tinha desanimado diante da rebelião, sendo necessário o Espírito pô-lo de novo de pé, assim como Paulo rendeu-se ao limite da sua humanidade imperfeita, Jesus parou diante da descrença. A liberdade, que se manifesta em oposição rebelde, limite humano ou falta de fé, é uma característica do ser humano.
Às vezes não é usada para o bem e, por isso mesmo, não pode ser chamada de liberdade. Contudo, será sempre a capacidade das pessoas realizarem as suas próprias escolhas, mesmo em oposição ao plano de Deus. Na atitude de Jesus, rejeitado pelo seu povo, podemos ver o que ocorre com tantos cristãos, que experimentam a dificuldade de testemunhar a sua identidade, até mesmo dentro de suas próprias famílias, comunidades religiosas ou nos ambientes onde são bem conhecidos. Jesus também conheceu esse limite.
Concluindo, a liturgia de hoje nos convida a realizar um profundo ato de humildade. “Somos servos inúteis, fizemos somente aquilo devíamos fazer”. Portanto, quando nos esforçamos sinceramente para viver de acordo com o Evangelho, deixemos o êxito nas mãos de Deus.
Uma lição para nós, nesses tempos da busca pelos holofotes, tempo de celebridades e de busca pela fama, inclusive entre nós. A imprensa, de vez em quando divulga as consequências desse equívoco, porque nós deveríamos ser apenas profetas, conscientes da realidade que a Palavra hoje nos apresenta! (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Superior dos Missionários Inacianos – formador@inacianos.org.br – Website: www.inacianos.org.br).


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