quinta-feira, 15 de agosto de 2013

DUAS MÃES, DOIS HINOS

“Maria entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel” (Lc 1,40)

A festa da Assunção nos revela que em Maria realiza-se a situação final, situação prometida a toda humanidade: “ser um dia de Deus e para Deus”; Maria o é desde o início (imaculada) até o final (assunção), através de uma fidelidade de toda a sua vida.
Maria foi “assunta ao céu” porque “levantou-se apressadamente” em direção ao serviço; ela foi “assunta” porque assumiu tudo o que é humano, porque “desceu” e se comprometeu com a história dos pequenos e marginalizados. Maria foi glorificada porque se fez radicalmente “humana”. Por isso, Deus a engrandeceu plenamente.
Crer na Assunção de Maria implica crer na exaltação dos pequeninos e humilhados, dos pobres esquecidos, dos injustiçados sem voz, dos sofredores sem vez, dos abandonados sem proteção, dos mise-ricordiosos descartados, dos mansos violentados...

O Evangelho de hoje nos aponta que, quando Deus entra e atua na história das pessoas, Ele as move para irem “apressadamente” ao encontro dos outros, para serví-los nas suas necessidades, para comunicar a alegria pela salvação recebida, e para alegrar-se com os outros pelas graças que eles receberam.
Depois de receber o chamado de Deus, anunciando-lhe que seria mãe do Messias, Maria se põe em marcha, sozinha.  Quem foi “agraciada” por Deus não fica só contemplando as maravilhas que Deus realizou nela, mas sai para proclamá-las. Quem tem consigo o Salvador não pode guardá-lo só para si.
Começa para Maria uma vida nova, a serviço de seu Filho. Ela marcha “apressadamente”, com decisão; sente necessidade de compartilhar sua alegria com sua prima Isabel e de colocar-se o quanto antes a seu serviço. Sua “pressa” está dinamizada pelo fervor interior, pela alegria e, sobretudo, pela fé.

Tudo acontece numa aldeia desconhecida, nas montanhas de Judá. Duas mulheres grávidas conversam sobre o que estão vivendo no íntimo do coração. São elas que, cheias de fé e do Espírito, melhor captam o que está acontecendo. A Visitação realiza o encontro entre a mãe do precursor do Messias e a mãe do Messias, e no entanto, tudo se desenvolve numa casa normal, entre gente simples, na árida região monta-nhosa da Judéia. A atmosfera é de alegria. A Palavra de Deus adentra a intimidade e o calor familiar de uma casa, e anuncia um evento glorioso e universal.
O encontro das duas futuras mães é uma cena comovedora. Não estão presentes os homens. Zacarias ficou mudo. José está surpreendentemente ausente. Somente duas mulheres simples, sem nenhum título, nem relevância na religião judaica ou social, ocupam toda a cena. Maria, que leva consigo Jesus a todas as partes, e Isabel que, cheia do espírito profético, se atreve a bendizer a sua prima sem ser sacerdote.
Maria entra na casa de Zacarias, mas não se dirige a ele. Vai diretamente saudar a Isabel. Há muitas maneiras de “saudar” as pessoas. “Saudar” é despertar a saúde (o que é sadio, vivo) no outro. Com sua saudação, Maria traz paz e a casa se enche de uma alegria transbordante. É a alegria que Maria vive desde que escutou a saudação do Anjo: “Alegra-te, cheia de Graça”.

Todo o Evangelho da infância está envolto em um clima de oração, o qual se espalha como uma brisa que penetra e interpreta todos os acontecimentos. Os cânticos presentes no texto de Lucas exercem a função de interpretar  a história, penetrar os segredos da ação de Deus, consolar e revelar.
Feliz o povo em que há mulheres que acreditam, portadoras de vida, capazes de irradiar paz e alegria; mulheres que transmitem fé a seus filhos e filhas.

A oração de Isabel (Lc 1, 42-45): trata-se de uma proclamação; a verdadeira oração não é principal-
                                                       mente expressão de um sentimento, mas celebração e reconheci-mento da ação  de Deus nos pobres e nos humildes. Deus está sempre presente na origem da vida. As mães, portadoras de vida, são mulheres “benditas” pelo Criador: o fruto de seus ventres é bendito. Maria é a “bendita” por excelência: com ela nos chega Jesus, a bênção de Deus ao mundo. O Pai, através do instrumento frágil de uma mulher, ignorada pela sociedade oriental, apresenta ao mundo a sua Salvação.
O grito de alegria de Isabel expressa, com o pulo de alegria de João, a chegada da Salvação que entra na nossa história através de Maria. É um convite a todos para que se unam ao seu louvor e à sua alegria.
As palavras de Isabel são a primeira profissão de fé em Jesus como Messias, isto é, como “Cristo”.

Magnificat: (Lc 1,46-55) Contra uma concepção cada vez mais “consumista” do mundo, contra o triun-
                     fo do possuir, do ter, da escravidão das coisas, o Magnificat exalta a alegria do partilhar, do perder para encontrar, do acolher, do admirar, da felicidade da gratuidade, da contemplação, da doação.
Nenhum outro texto nos revela de maneira tão densa e tão profunda a vida interior de Maria, os pensa-mentos e os sentimentos que invadem sua alma, a consciência de sua missão, sua fé e sua esperança, sua experiência de Deus, enfim.
Maria canta agora a realização das esperas e das esperanças cantadas, nas horas de júbilo e nas horas de pranto, pelo povo de Israel; ela fundamenta-se na esperança-certeza da fidelidade amorosa de Deus.
O Magnificat, na sua estrutura fundamental, é o canto das escolhas caprichosas de Deus, que tem um “fraco” pelos pobres, por todos os infelizes e os oprimidos; poder e riqueza não gozam de nenhum prestígio aos seus olhos.
Ali há a convicção de que Deus reverterá a sorte desta invertida história humana. O poder e a riqueza foram derrubados, são ídolos mortos.
A oração de Maria traz à tona as grandes coisas rea-lizadas por Deus, seus atos salvíficos, sua fidelidade, sua palavra eficaz, seus atributos fundamentais, que Maria reúne na trilogia poder-santidade-misericórdia.

Como fazer esta contemplação?
                                                 Quem ocupa o centro da cena, do começo ao fim, é a figura de Maria. Nela devem concentrar-se, portanto, nosso “olhar, escutar, observar”.
Por isso, talvez, o melhor modo de fazer esta contemplação seja o que propõe S. Inácio no “segundo modo de orar” (EE. 249-257), isto é, “contemplar o significado de cada palavra” ou frase, demorando-se “na consideração dela (da palavra ou frase) tanto tempo quanto nela encontrar significações, comparações, gosto e consolação, em considerações relacionadas com a mesma” (EE. 252).

Pedir a graça:  Ao longo da oração devemos pedir que as palavras de louvor e de libertação cantadas
                          por Maria penetrem no nosso coração e produzam frutos de conversão, de alegria e de gratidão; devemos pedir especialmente a graça de louvar a Deus, de cantar com um coração transbordante de júbilo, pela salvação recebida.
Peçamos também que as palavras do Magnificat transformem nossos valores, nossas atitudes e nossas práticas na linha da justiça e da misericórdia do Evangelho do Reino, proclamado por Jesus e antecipado no cântico de sua mãe.
Rezar as “marcas salvíficas” de Deus na própria história pessoal.

Gesto: no interior, ainda se conserva o hábito de “fazer visitas” (visitar famílias, doentes...); é preciso recuperar
               este gesto tão humano e humanizador. Nos grandes centros vivemos fechados em apartamentos, con-
               domínios, com um arsenal de segurança, impedindo a aproximação até dos parentes.

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