“Deus está logo ali, depois da nossa
zona de conforto”
“Passemos para a outra
margem” (Mc. 4,35)

- Levai-me até a outra margem, barqueiro!, dizia o refrão.
Mas
qual o significado desse chamado universal? Sem dúvida alguma, ecoa a sensação
que temos de não haver ainda chegado ao nosso destino. No entanto, haveria algo
mais? Onde está essa outra margem? Seria
algo diferente do que já possuímos? Estaria em outro lugar, além deste, onde
estamos?
Não,
claro que não. O lugar onde
procuramos nosso destino está no próprio coração
de nossa atividade. Estamos clamando para que nos levem ao próprio lugar onde
já nos encontramos.
Na
verdade, ó Oceano de prazer, esta margem e a outra que busco formam em ti uma
única margem. Quando digo: “esta minha
margem”, a outra me parece estranha, e, quando eu perco o sentido dessa
plenitude que existe em mim, meu coração ansioso reclama “outra margem”. Tudo que possuo e tudo que me parece alheio espera
para ver-se reconciliado por completo em teu amor. (Tagore)
O primeiro desejo de chegar à outra margem
nasce de dentro, do coração, que
sabe estar longe de seu centro e entende sua missão de busca e peregrinação
interior, de colocar-se em movimento...
Sair da margem conhecida,
“velha”, rotineira... para encontrar a nova margem: lugar de relação, de questionamento, de criatividade, de encontro com o novo e
diferente…
A outra margem: lugar provocador, incitador, desperta curiosidade...
: aqui brotam as grandes experiências
religiosas, as intuições, projetos, ideais vitais.
Caminhar para a outra margem é
sair do centro, da segurança, da acomodação... e ir em busca das surpresas, das novas descobertas;
implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de caminhar
para os “confins da terra”, para regiões desconhecidas em seu próprio interior...
Os poetas, artistas, místicos... são aqueles que fazem a experiência da “outra
margem”, vislumbram o outro lado, tocam as raízes mais profundas do próprio ser.
O
Evangelho de hoje começa com um forte apelo de Jesus dirigido aos seus
discípulos, convidando-os a sair da
sua rotina, a abrir-se para o novo, para o diferente, ultrapassando os próprios
interesses e precon-ceitos. “Passar para a outra margem”
exige mudança de atitude, pôr-se a caminho, êxodo, sair-de-si.
Jesus
se encontra no lado de cá, na margem
ocidental do lago de Genesaré, na Galiléia É a margem da vida regrada do judeu
piedoso: a margem da Lei, da sinagoga, do Sábado..., tudo o que dá segurança
aos judeus. No lado de lá do lago,
encontram-se a Traconítide, a Decápole, terras não familiares aos judeus. É a
margem dos pagãos, dos excluídos, do afastamento de Javé. Para surpresa e até
escândalo, Jesus convida os seus discípulos a passar para a outra margem,
para o “outro lado da humanidade”.
Jesus também nos convida a sair
da nossa própria margem, para ir à margem do Outro e dos outros.
Ele não diz
“passai para a outra margem”,
mas
“passemos”, “vamos juntos para a outra
margem”.
Viver
o seguimento é
iniciar uma travessia, sem saber exatamente as tempestades ou calmarias que
iremos encontrar, porque “o vento sopra onde quer”,
como o Espírito.
O seguidor de Jesus é “como quem está numa barca, no meio do rio e não rema
constantemente, mas, às vezes, se deixa levar pela correnteza” (Péguy).
Isto
supõe coragem para enfrentar o risco do
diferente, disponibilidade, abertura ao novo.
Para quem inicia este Caminho
Espiritual, seguindo as pegadas irrepetíveis do Cristo Jesus, a vida é sempre nova
e surpreendente. “Empreendemos com a ajuda dos acasos/as travessias nunca
projetadas/... em serviço de Deus e seus roteiros”
(J.Lima).
O seguidor
de Jesus não sabe o que há do outro lado. A ele lhe custa ver claramente. No
entanto, consi-dera que a outra margem é talvez diferente, mas
tão apaixonante como esta margem onde ele está; e então, decide animar-se a
cruzar o mar.
Uma das teorias mais importantes descobertas
atualmente defende que tudo o que é criativo surge quando saímos da nossa zona de conforto, ou seja, do lugar onde nos sentimos cômodos e
seguros. Essa teoria levada ao campo da espiritualidade, quer dizer que devemos
sair, como pessoas e como comunidade, de nosso espaço espiritual rotineiro e
“normótico” para poder nos encontrar com Deus.
Deus não “cabe” nas nossas “margens”
conhecidas; Ele está sempre além da nossa “zona de conforto”, instigando-nos a
fazer contínuas e ousadas “travessias”.
Deus nos quer a cada um fora de nosso espaço de
conforto para poder abraçar a missão
original que Ele tem reservada para cada um de nós.
Não devemos nos conformar com a espiritualidade
que vivemos, devemos buscar como aprofundar nela, em cada palavra, em cada
lugar, em cada gesto, em cada pessoa.
Todos os santos e santas foram pessoas que
sairam de seu espaço de conforto, “transgrediram” o conhe-cido e rotineiro,
fizeram a travessia…: nova visão, nova missão…
Ser santo(a) é sair desse espaço e entrar no
espaço de Deus. Cada um à sua maneira.
Em todo momento
histórico, quando a Igreja e a sociedade são sacudidas por grandes mudanças, surgem homens e mulheres que
rompem com esquemas e seguranças envelhecidos e se deixam conduzir pelo
Espírito ao deserto, às margens, às fronteiras... fugindo de
um ambiente e de uma ordem asfixiantes.
A fronteira, para eles, passa a ser terra privilegiada onde nasce o “novo”
por obra do Espírito.
Uma vez passada a zona de
conforto, situar-se na outra margem
passa a significar colaboração com o
Deus presente e ativo em toda situação humana. Isso vai gerar uma maneira nova
de viver, um estilo de vida, um compromisso diferente, uma ação carregada de
ousadia...
Em toda travessia
há o despojamento, a pobreza, por vezes a fome e a sede, os caprichos das
estações, a incerteza dos dias de amanhã. Há a liberdade do espírito,
horizontes infinitos, sem limites nem constran-gimentos; há o imprevisto, o
acontecimento inesperado, favorável ou adverso, que é o melhor e mais seguro
dos sinais de Deus, que comanda o ritmo da marcha, as paradas, as estadias, as
partidas, as mudanças de rumo ou itinerário. Há o encontro com os companheiros que se mantém fiéis, amigos que
ajudam, inimigos que espreitam, pobres que compartilham o mesmo pão.
Finalmente, a travessia aproxima o peregrino
cada dia, a cada instante, da meta
ainda escondida, mas certa. Ao voltar-se para trás, ele se dá conta de que o itinerário
foi realmente maravilhoso, que a expe-riência o transformou, que está mais “puro”,
mais “livre”, mais
“autêntico”...; numa
palavra, Deus, que está no têrmo, já palmilhava a travessia com
Ele.
Texto bíblico: Mc. 4,35-41
Na oração: Preparar-se
para a travessia
-
Nas nossas vidas acontece algo de verdadeiro e belo quando nos dispomos a buscar dentro de nós mesmos a razão da nossa existência.
-
A nossa vida é um êxodo, um sair constante de uma realidade para entrar em
uma outra realidade nova. O peregrinar é o elemento determinante
e com maior valor simbólico para toda a vida.
-
Existem ainda céus
por explorar, aventuras por empreender, pensamentos por experimentar e
expe-riências por aceitar; falta-nos ainda muito por saber,
por ver, por sentir, por desfrutar...
- No “mapa espiritual” de
nosso interior ainda existe uma “terra
desconhecida”, que proporciona interesse à vida, suscita curiosidade, nos põe a caminho... Grandes surpresas interiores estão à nossa espera, e a capacidade de
continuar buscando é que dá sentido
ao esforço e vigor à vida.