sábado, 14 de março de 2015

HOMILIA DOMINICAL - 15 DE MARÇO DE 2015

QUARESMA: contemplar novos e estranhos mundos


“...porque Deus amou tanto o mundo...” (Jo 3,16)

Esta afirmação faz parte do núcleo essencial da fé cristã. Deus ama o mundo, e o ama tal como é: inaca-bado e imperfeito, cheio de conflitos e contradições, capaz do melhor e do pior... Este mundo não percor-re seu caminho sozinho, perdido e desamparado. Deus o envolve com seu amor de ternura.
Isto tem consequências de máxima importância. O mundo inteiro transforma-se em objeto do nosso inte-resse e da nossa preocupação.
Se há um “hábito do coração” que poderia ser ativado nesta Quaresma é este: a “leitura orante da realidade do mundo”. Este “hábito do coração” tem suas raízes no relato evangélico de hoje, onde Jesus nos convoca a olhar o mundo como Deus olha: com amor e compaixão
Assim como a Salvação do mundo foi determinada a partir de um “olhar” que saiu do coração de Deus, que pousou sobre o mundo e que voltou ao seu coração, estremecendo-O de compaixão e movendo-O à ação, assim também toda nossa presença no mundo tem de ter sua origem num olhar misericordioso e compassivo, amoroso e esperançoso...

Inspirados na afirmação de Jesus, contemplamos com o olhar do Deus compassivo nosso mundo frag-mentado, cheio de conflitos que geram sofrimento, exclusão, morte... E esses espaços e fronteiras são cada vez mais extensos e problemáticos; mas, nas profundezas de todos esses “mundos que nos são estra-nhos” se revela a presença amorosa do Pai. Pois tudo foi alcançado e redimido pelo amor expansivo de Deus.
A Quaresma nos conduz à contemplação da realidade na qual vivemos e à qual somos enviados apostolicamente; tal exercício nos possibilita ter presente, como uma visão de conjunto, as grandes questões sociais e eclesiais que desafiam hoje os cristãos, enquanto seguidores de Jesus e  comprometidos com a fé e a justiça, em diálogo com a cultura e com as tradições religiosas.
Esta contemplação da nossa realidade (“ver o mundo”) nos ajudará a nos aproximar e a conhecer mais profundamente o mundo no qual estamos imersos. Nesse sentido, contemplar o mundo a partir de Deus será um convite a encarnar-nos nele para transformá-lo.

Tal aproximação e conhecimento deste mundo devem ser feitos a partir de uma atitude de compaixão: não de confrontação ou enfrentamento, mas movidos pelo desejo de compreender as entranhas do mun-do no qual vivemos. Não se trata de fazer um juízo moral sobre ele, nem para aprová-lo nem para conde-ná-lo. Assumimos uma atitude crítica valorizando o que nele há de potencialidades abertas e emergentes, bem como detectando suas limitações, desvios... Ao mesmo tempo queremos nos deixar interpelar por ele, fazendo com que ressoem em nós suas perguntas e suas inquietações, suas luzes e suas sombras, suas riquezas, seus paradoxos e suas contradições.
Estamos mergulhados no mundo trabalhando junto e com as pessoas, mas na mesma ação somos contemplativos porque “encontramos a vida divina no mais profundo da realidade”.
Existe uma forma contemplativa de viver no meio do mundo, ou seja uma forma diferente de descobrir o Deus oculto no centro das realidades. Como um pêndulo, o cristão oscila entre o mundo e Deus. É tão familiar com Deus que admira a variedade e a multiplicidade do mundo, e não teme o mundo com todo seu “mundanismo” e complexidades. É tão familiar com o mundo que sente o Espírito de Deus, que trabalha no mundo, em todos os lugares e da maneira mais inesperada.

O tempo Quaresmal nos sensibiliza e nos capacita para nos aproximar do nosso mundo com uma visão mais contemplativa. O “subir” até Deus passa pelo “descer”  até às profundezas da humanidade.
A pessoa contemplativa, movida por um olhar novo, entra em comunhão com a realidade tal como ela é. É olhar o mundo como “sacramento de Deus”. Um olhar capaz de descobrir os sinais de esperança que existem no mundo; um olhar afetivo, marcado pela ternura, pela compaixão e por isso gerador de mise-ricórdia; um olhar que compromete solidariamente.
As grandes fronteiras do mundo (globalização, diferentes culturas, ciência e tecnologia, ecologia, bioética, migrações...) vão adquirindo cada dia proporções novas e surpreendentes;  elas constituem os grandes desafios que pedem de nós, seguidores de Jesus, uma presença inspiradora e samaritana.
Esta é a atitude contemplativa: ver  Deus no mundo e o mundo em Deus.
Tal atitude fundamenta uma grande paixão e interesse pelo mundo. Para descobrir Deus não é preciso fugir do mundo; o seguidor de Jesus não é aquele que, por medo, se distancia do mundo, mas é aquele que, movido por uma radical paixão, desce ao coração da realidade em que se encontra, aí se encarna e aí,
 “esvaziando-se”, participa ativamente da solidariedade de Deus com a humanidade, que é o centro da salvação; ele estabelece sua moradia no mundo, inserido nos “extremos” do trabalho, da vida, dos direitos, da ética na política..., ali onde se faz mais necessária a atividade profética.

Neste momento em que tudo parece confuso, incerto e desalentador, nada nos impede introduzir um pouco de amor, de compaixão, de sensibilidade e justiça, no mundo. É o que fez Jesus. Sua presença nas periferias da pobreza e exclusão deixou transparecer o rosto humano e compassivo do Pai.
O mistério Pascal nos convida a “olhar” nossa terra cotidiana, nossa humanidade, fragilidade, paixões, sentimentos, fracassos, imperfeições... Deus se encontra misturado com tal realidade, salvando-a.
Nesta contemplação vai se purificando nossa imaginação e nosso mundo afetivo para poder seguir a Jesus em um serviço como o seu, no lugar mesmo onde Ele se fez presente para fazer Redenção.
A espiritualidade quaresmal abre-nos à missão apostólica, desvelando os aspectos criativos e esperançosos da realidade, denunciando as forças que desagregam ou excluem, propondo novos modos de viver o compromisso eclesial e social..., enfim, impulsionando a sermos agentes de trans-formação e atuantes no âmbito público.
Isso demanda lucidez, conhecimento rigoroso e sapiencial da realidade; para isso é preciso deixar-se afetar pela realidade (compaixão), incorporar uma leitura compassiva e entrar no fluxo da graça expansiva de Deus, que tudo redime.

Texto bíblico:  Jo 3,14-21

Na oração: diante de Deus responda: quê impacto tem sua vida cristã na realidade social que o(a) cerca?
                      Verificar, diante de Deus, se a experiência quaresmal está despertando em seu interior uma sensi-
bilidade social, um espírito solidário e um compromisso com o mundo da exclusão.









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