sexta-feira, 3 de outubro de 2014

HOMILIA DOMINICAL - 05 DE OUTUBRO DE 2014

VINHA, VASTA VINHA DEGRADADA!!!


“Quando o dono da vinha voltar, o que fará com os vinhateiros?” (Mt 21,40)

Na perspectiva bíblica, a vinha aparece sempre como aliada do ser humano; ela nos ensina a viver em harmonia com a água, com a terra e com todos os seres,numa relação de aliança.
A primeira relação do ser humano com a Vinha, portanto, não é a da posse, mas a da acolhida, por ela ser dada em herança. Todos os bens da Criação são recebidos por nós deste modo, ou seja, como dons.
A Vinha, como realidade doada, convida à compreensão de sua origem, não para dominá-la e manipulá-la, mas para tornar o dom uma benção fecunda para todos. A vinha é dada por Deus em função da vida. Por isso a Vinha é sagrada e é lugar de contemplação e encontro íntimo com o Criador; ela é o teatro da glória de Deus, isto é, da manifestação da presença divina.
E o ser humano é chamado a“trabalhar com” o Criador, cuidando da Vinha, para que ela seja fecunda e alimente a alegria de todos.

O Evangelho de hoje revela que, quando as pessoas rompem a aliança com Deus e se afastam d’Ele, a vinha fica estéril. Quando uns poucos se apropriam dela como donos, ela passa a ser o lugar da espolia-ção, da devastação, da morte e deixa de ser espaço para a convivência fraterna e solidária.
De fato, contemplando a “grande Vinha do Senhor”, percebemos que o poder-dominação sobre a nature-za e o consumismo exacerbado destruiu o sentido cordial das criaturas e legou-nos um devastador vazio existencial.
Segundo a revelação bíblica, as criaturas não estão colocadas umas ao lado das outras, em justaposição, mas são todas sinfônicas, inter-ligadas. Há uma grande unidade, feita de muitos níveis, de muitos seres diferentes, todos eles ligados e religados entre si. E, por isso, num profundo e intenso dinamismo.
O drama do ser humano é não se sentir em comunhão num todo maior e perder a memória de que é parte do todo; énão se sentir um elo vivo e esquecer que este é um elo da única corrente de vida.
A antropologia bíblica é iluminadora ao reconhecer a vida humana numa estreita interconexão com outros seres, como uma teia interdependente.

Ao predominar a auto-afirmação e o domínio do ser humano sobre a Criação, produziu-se a quebra da “re-ligação” com tudo e com todos. Ele se colocou num pedestal solitário a partir de onde pretende dominar a Terra e os céus; como consequência dessa atitude temos a devastação da vinha.
O embrutecimento do ser humano, de sua interioridade, a perda do gosto pela verdade, pelo bem e pelo belo, o extravio da ternura e da transcendência, repercutem emfalta de respeito pela natureza, em ruptura com as outras criaturas, em insensibilidade ecológica.
Por sua atitude de arrogância e de autosuficiência, o ser humano explorou exaustivamente a vinha herdada e a destruiu, depredou, aniquilou, tomou posse dela... Assim, não foi respeitoso para com o Criador que a ele reservou a missão de cuidar da sua vinha e de compartilhar os seus frutos.
Há um clamor generalizado que emerge da realidade desafiante enfrentada pela humanidade: o planeta Terra está gravemente enfermo. As conseqüências trágicas estão presentes por toda parte: degradação do meio ambiente, diminuição acelerada das fontes de água potável, desertificação, degelo das calotas polares com a conseqüente elevação do nível do mar, grande incidência de furacões e de queimadas, extinção de milhares de espécies de animais, escassez de alimento, proliferação de doenças, migrações forçadas...Enfim, o desequilíbrio dos ecossistemas pode comprometer, de forma irreversível, todas as formas de vida sobre a terra.

Ferir a Vinha é ferir o próprio Criador.Quando ob-servamosvinhas outrora verdejantes e agora destruí-das ou entulhadas de lixo, uma sensação de violação, de tragédia, quase de sacrilégio, se manifesta no nosso interior. E uma voz ecoa das profundezas da destruição: “Quê fizestes de minha vinha?”.
Como seres humanos, somos convocados a desenvolver uma consciência criatural, em que a Criação deixa de ser vista como objeto de domínio. Ela é um dom de Deus que deve ser acolhido com reverência, respeito e louvor. Somente a vivência dessa relação do ser humano com a criação possibilitará novas relações sociais e ambientais, o novo tempo de paz e justiça.
É nesse momento dramático que uma nova cosmologia se revela inspiradora. Em vez de “dominar” a natureza, situa-nos no seio dela em profunda sintonia e sinergia.
O que caracteriza essa nova cosmologia é o cuidado em lugar da dominação, o reconhecimento do valor intrínseco de cada ser e não sua mera utilização humana, o respeito por toda forma de vida e os direitos e a dignidade da natureza, não sua exploração.
A primeira relação do ser humano com a Criação, portanto, não é a da posse, nem a da pergunta pelo seu porquê, mas a da acolhida em seu ser dado. A forma dessa acolhida é o assombro de sua presença e o temor diante de sua possível perda.

Enfim, a parábola do evangelho de hoje aponta para uma relação de acolhida agradecida e reconhecida para com a Vinha, pois ela é o lugar no qual não só existimos, mas somos chamados a uma plenitude de vida, em aliança e comunhão com o Deus Trindade.
Somos todos “lavradores” encarregados de tornar a vinha fecunda. Somos todos “lavradores” que temos de prestar contas a Deus dos frutos de sua vinha, que não nos pertence.
Assim, o exercício do senhorio, ou a dominação, por parte do ser humano, deve significar respeito à ação criativa divina e contribuir com o crescimento e a evolução da natureza em todas as suas dimensões;igualmente, cuidado com o meio ambiente para fazer dele uma fonte de bênçãos, ou seja, de comunhão com todos e, a partir dele, crescer em harmonia interior e estreitamento de relações com o próprio Criador.

Texto bíblico:Mt 21,33-43

Na oração:Mobilizar meus sentidos para ver, ouvir, tocar, sentir e saborear a beleza de nossa terra.
Considero minha conexão com esta beleza e como ela me fazperceber o amor da Trindade ao cosmos, em constante evolução.
Considero o novo sentimento de maravilha que cresce em meu coração e como dá novo sentido à minha missão de colaboradorno grande jardim do Criador.






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