terça-feira, 19 de julho de 2016

Homilia Dominical - 17 de julho de 2016

HOSPITALIDADE: espaço de coração dilatado,
                                           gratuidade e contemplação

“Jesus entrou num povoado, e certa mulher, de nome Maria, recebeu-o em sua casa” (lc 10,38)

Se existe uma atitude de vida que pede o resgate de sua profundidade e seu poder evocativo original é a da “hospitalidade”. É um dos termos bíblicos mais ricos, que nos ajuda a aprofundar e aumentar a compre-ensão sobre a relação com nossos semelhantes.
A hospitalidade é uma “experiência existencial”, situa-se no nível do ser. É uma acolhida gratuita. Aquele que é acolhido tem direitos, mas também tem deveres e aquele que acolhe está disposto a mudar sua rotina, e ambos estão disponíveis a renovar, a redefinir sua identidade: “Antes de representar um pro-blema para a minha identidade, ele (o hóspede) é estímulo para uma convivência sempre a reescrever, atualizar, enriquecer...” (Dal Corso, Marco).
A diaconia (serviço) da hospitalidade é um movimento que vem de dentro da pessoa e se estende no vaivém das relações humanas mais distantes e mais próximas. É abertura e disponibilidade àquele que interpela as nossas convicções, nosso modo rotineiro e estreito de viver.
Em contexto de hospitalidade, anfitrião e hóspede podem revelar suas riquezas mais preciosas e trazer vida nova um ao outro. Só quem tem coração dilatado vive a hospitalidade como surpresa provocativa.
A hospitalidade é antes de mais nada uma disposição da alma, aberta e irrestrita. Acolher o outro significa multiplicar a alegria do encontro, da novidade e da partilha, não só do pão mas da vida.

Como comunidade seguidora de Jesus somos chamados a oferecer espaço aberto, hospitaleiro, onde os estranhos possam libertar-se de sua estranheza e transformar-se em nossos companheiros.
Talvez o conceito de “hospitalidade” possa oferecer uma nova dimensão à nossa compreensão de um relacionamento saudável e à formação de uma comunidade festiva e alegre em um mundo que sofre visivelmente de alienação, estranhamento e preconceito.
A hospitalidade envolve a escuta respeitosa daquilo que o outro tem a dizer, em uma abertura humilde do coração e da mente para compreender as diferenças e novidades que o outro nos traz. Aqui revela-se a diferença entre a hospitalidade de Marta e a de Maria, no evangelho deste domingo. A ansiedade e a preocupação de Marta impedem-na viver a hospitalidade com alegria. Seu ativismo compulsivo atrofia sua gratuidade e, quando se elimina a gratuidade, a vida pode perder seu sabor e seu sentido.

Como integrar Marta e Maria?
Marta é a eficácia do amor serviçal e hospitaleiro a um amigo muito querido que foi acolhido com todo carinho na casa familiar. Maria é a gratuidade que escuta absorta a novidade que Jesus traz. As duas dimensões da vida são necessárias.
Marta deve escutar o que diz Jesus e compreenderá que sua vida não fica limitada à tarefa de atender bem a familiares e amigos entre as quatro paredes da vida doméstica, senão que deve abrir-se para cuidar e servir o Reino de Deus que chega por todas as partes.
Maria não só deve estar atenta às palavras de Jesus, mas ao que dizem milhões de pessoas no mundo, suas solidões e suas alegrias, para que a novidade de Deus que se gesta em suas vidas encontre um rosto de lar onde possa ser acolhida e nascer na história.
Todos temos de ser Marta e Maria, o serviço eficaz e a gratuita contemplação de Jesus, irmanados em um modo original de viver a hospitalidade, onde o serviço pequeno e gratuito, a proximidade de portas abertas, o viver a cotidianidade como dom se constituem como a identidade cristã.

Essa é a nossa vocação: converter o “hostis” em “hospes”, o diferente em convidado, o estranho em amigo, e criar o espaço livre e sem medo, no qual a fraternidade pode ser experimentada em plenitude.
Na realidade, aqui se trata de um movimento expansivo onde se dá a travessia da hostilidade à hospitali-dade. Tal passagem é repleta de dificuldades: nossa sociedade é marcada pela presença de pessoas teme-rosas, defensivas e agressivas, agarrando-se ansiosamente ao seu modo fechado de viver, inclinadas a olhar ao redor com suspeitas, sempre à espera de que um inimigo de repente apareça e cause algum dano.
A hostilidade campeia nas redes sociais e a xenofobia circula como um veneno: daí a agressividade preconceituosa no campo político-social-racial-sexual...
De fato, ultimamente, os “estranhos” e “diferentes” tornaram-se mais sujeitos à hostilidade do que à hospitalidade: protegemos nossas casas com cães e trancas duplas, nossos edifícios com vigilantes, nossos colégios com guardas, nossas estradas com policiais, nossos aeroportos com seguranças, nossas cidades com polícia armada...
Nosso coração pode querer ajudar os outros e mostrar simpatia para com os pobres, solitários, rejeitados, minoritários...: no entanto, rodeamo-nos com um muro de medo e de sentimentos hostis, evitando instintivamente pessoas e lugares que possam nos lembrar de nossas boas intenções.
Em um mundo tão competitivo, mesmo pessoas próximas, como colegas de classe, de equipe, de trabalho, todos podem ficar infectados pelo medo e pela hostilidade quando sentem o outro como uma ameaça à sua segurança pessoal.
Muitas vezes, instituições criadas para oferecer espaço e tempo propícios para o desenvolvimento da hospitalidade (família, escolha, religião...), tornam-se tão dominadas pelo “defensismo” hostil que acabam atrofiando e bloqueando o melhor que cada pessoa traz em seu coração.

Hospitalidade não é mudar as pessoas, mas oferecer a elas um espaço no qual a mudança pode acontecer. Não é trazer homens e mulheres para o nosso círculo, mas oferecer uma liberdade sem as amarras de linhas divisórias. A hospitalidade não é um convite sutil para adotar o estilo de vida do anfitrião, mas a dádiva de uma chance para que o hóspede descubra o seu próprio estilo.
A hospitalidade não é uma tática para fazer de nossa fé e de nosso caminho critérios de felicidade; é abrir uma oportunidade para que os outros encontrem sua fé e seu caminho.
O paradoxo da hospitalidade é que ela deseja criar o “vazio”, não o vazio temeroso, mas um vazio amistoso no qual os estranhos podem entrar e descobrir a si mesmos livres como foram criados; livres para cantar suas canções, para falar suas línguas, para dançar suas danças; livres para expressar seus sentimentos e para seguir suas decisões. E isso não só no espaço físico da casa, mas nas redes sociais, nos diferentes grupos de interesse, nos relacionamentos...
O verdadeiro hospitaleiro é aquele que oferece o espaço onde não temos nada a temer, onde podemos ouvir nossa voz interior e descobrir nossa maneira pessoal de sermos humanos. A verdadeira hospitalidade é inclusiva e dá espaço para uma grande variedade de experiências humanas.

Texto bíblico:   Lc 10,38-42

Na oração: Continuamente nos deparamos com um Deus que chega gratuito e
                         imprevisível em nossa vida, suplicando hospitalidade. Quando Ele é acolhido,  nossa cotidianidade se converte em milagre.
- na relação com os outros, quê lugar ocupa a hospitalidade em sua espiritualidade cotidiana?




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