quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Homilia dominical - 2o. Domingo do Advento

ADVENTO: FOME E SEDE DE ESTRADAS 


"Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas!” (Mc 1,3)

Neste tempo de preparação para o Natal, aparece na liturgia cristã um personagem sumamente interessan-te e provocador: seu nome é João; “a terra se chama João”, escreveu Pablo Neruda. Ou seja, um nome universal; um nome que revela a identidade de um homem que rompe os esquemas estabelecidos; sua missão profética se dá no deserto, longe dos templos e da religião oficial.
A partir da margem ele grita e este grito é o que melhor revela o espírito de Advento. Ele denuncia que nossos caminhos estão bloqueados e que as veredas da humanidade estão torcidas, impedindo que venha e se manifeste o Deus da justiça.
Uma frase de Fernando Pessoa poderia sintetizar o quão inspirador é este tempo do Advento:
“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso cor-po, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos”.

Por isso, Advento é tempo propício para destravar nossa vida, colocando-a em movimento.
É nesse contexto de uma realidade atrofiada, pessoal e social, que ressoa forte a voz de João: “preparai...”. Somos nós que devemos nos mobilizar, fazendo-nos Caminho de Humanidade, precursores de “Alguém” maior. Somos peregrinos que preparam o Caminho para o verdadeiro Enviado de Deus, para os homens e as mulheres da paz e da plenitude futura.
“Preparai” significa estar atentos para não permanecermos fechados em nossos pequenos reinos e abrir um espaço de esperança frente a um mundo que gira em torno a si mesmo. Se estamos apegados ao que temos e somos, jamais seremos capazes de “fazer estrada com Deus” e participar da preciosa vida que Ele nos oferece.
É preciso “endireitar-se”, ter um horizonte de vida, preencher nosso vazio de vida interior, “aplainar” e descer de nossas montanhas de orgulho e soberba... Vivemos instalados em certos costumes, estilos de vida medíocres…Vivemos no centro de uma humanidade torcida, retorcida e, no fundo, envenenada. Para endireita-la é preciso forçar, fazer que se quebrem e se rompam as resistências interiores, a fim de que tudo se aclare, se desvele.

Estamos decididos a percorrer os caminhos novos que a novidade de Deus nos apresenta?
Ou nos entrincheiramos em estruturas caducas que perderam a capacidade de resposta?
Caminhar é sair do centro, das seguranças, da acomodação... e ir em busca das surpresas, das novas descobertas; implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de fazer a travessia para o outro lado. Somos passageiros, um Caminho aberto à vida de Deus que permanece, caminho que anuncia e prepara a Vida. Por isso precisamos, mais do que nunca, da figura do profeta; autênticos profetas que, sem medo e partindo de sua experiência de Deus, nos ajudem a encontrar o verdadeiro caminho; pessoas que por sua dedicação e experiência pessoal possam lançar alguma luz nesse emaranhado de caminhos que se entrecruzam e que a imensa maioria são sendas perdidas que não levam a lugar nenhum.
A humanidade deveria ser caminho de vida, jamais caminho de morte.
Nunca foi oferecido ao ser humano tantos falsos caminhos de salvação como agora:caminho fechados, caminhos obstruídos que veda passos e impede a circulação da vida, caminhos que paralisam mobiliza-ções, caminhos que travam saltos históricos, caminhos que barram transformações sociais, caminhos embrutecidos que conduzem à crueldade e à violência, caminhos mortíferos que precipitam à morte.
Nada mais desolador do que ser “inviável”, ficar “sem via”, ficar sem caminho, sem saída, sem futuro.
Nada mais trágico do que perder o caminho.

“O ser humano é Terra que anda” (Atahualpa Yupanqui). O caminho está dentro de nós. Sem caminho nos sentimos perdidos, confusos, sem rumo, sem bússola e sem estrelas para orientar as noites de nossa existência. Somos peregrinos. A vida cristã é um movimento constante de passagem. Somos seres em trânsito, rumo ao novo. Itinerantes. Caminhar sempre. O próprio caminhar desvenda mais caminho.
Enquanto amadurecemos no caminho, importa colher e acolher o que o próprio caminho oferece. Expandir a esperança que ilumina a mente e o coração.
Mais do que ser-de-caminho, o ser humano é ser-caminho: caminho da vida, caminho da verdade, caminho da justiça, caminho do coração, caminho do amor, caminho da ciência, caminho da ética, caminho da solidariedade. Cada pessoa tem a responsabilidade de ser caminho para os outros.
Caminho escancarado à passagem da humanidade peregrina. Caminho acolhedor; caminho aberto e solidário; caminho ecumênico; caminho plural; caminho sedutor.
“Senhor, mostra-nos teus caminhos!”
Para o povo que peregrina no deserto, é essencial conhecer direções e entender ventos. E para o coração que peregrina no deserto da vida, é essencial conhecer os caminhos do Espírito e os ventos da Graça.
De Deus viemos. Dele somos. Nele vivemos. Para Ele vamos. Peregrinos espertos em discernir rumos e encruzilhadas. Somos caravana que avança em êxodo continuado. Vida nômade, provisória.
Peregrinar sem morada permanente. Tenda ambulante, não casa sólida de pedra. Somos Pessoas de muitas tendas, de muitos acampamentos. Nada definitivo. Estado de itinerância evangélica, traço característico de Jesus e de todo seu seguidor. O mundo, nossa casa sem paredes.
Caminhar em direção a Quem é sempre maior, rumo ao destino prometido.

Somos todos peregrinos, mas os viajantes são diferentes. A estrada não é igual para todos. Vivemos uma caminhada que começa dentro de nós mesmos, nas estradas e trilhas do nosso eu profundo.
Mas, ao mesmo tempo, é um caminho solidário: no caminho de cada pessoa estão presentes milhões e milhões de experiências de caminhos vividos e percorridos por incontáveis gerações. A missão de cada um é prolongar este caminho e vivê-lo tão intensamente que aprofunde o caminho recebido, endireite o caminho retorcido e ofereça aos futuros caminhantes um caminho enriquecido com suas pisadas.
Caminhamos juntos, acompanhados por Aquele que é o Caminho: “Emanuel, Deus conosco”.
Quem caminha quer ser mais. Seu horizonte é o seu sonho, o seu ideal. Aceita o desafio de caminhar com os pés no chão e o coração na eternidade.
Pioneiras são as pessoas que vão a lugares onde ninguém esteve antes: “gente de fronteira”.
                  “Temos fome e sede de estrada, e ela está ardendo por dentro”.
Caminhar é preciso. O seu caminho tem coração?

Texto bíblico: Mc 1,1-8

Na oração:  rezar a bagagem de sua vida; imagine-se diante de sua mo-
                      chila... onde  colocou tudo o que você leva consigo, desde os anos de sua infância até agora (os dias felizes e menos felizes, as experiências plenificantes e as experiências frustrantes, tudo o que lhe pesa e lhe aborrece, o que você sente que o importuna, o que lhe pressiona e o abate, talvez alguma coisa que lhe parece insuportável...).
- Contemple as experiências bonitas e enriquecedoras em sua bagagem, as
  “coisas” que você guarda com carinho...  Faça “memória” das maravilhas
  que o Senhor realizou em você, na estrada da vida. Reze... louve... agradeça...
- Diante do Senhor, pegue a sua mochila para sentir o seu peso... ofereça-a.   



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