terça-feira, 8 de julho de 2014

HOMILIA DOMINICAL - 13 DE JULHO DE 2014

TEMPO DE SEMEADURA: des-velar” o divino em cada ser humano

“O semeador saiu para semear” (Mt 13,3)

Antes de contar a parábola do semeador que “saiu a semear”, o evangelista nos apresenta Jesus que “sai de casa” para encontrar-se com as pessoas, para “sentar-se” sem pressas e dedicar-se durante “muito tempo” a semear o Evangelho entre elas. Segundo Mateus, Jesus é o verdadeiro semeador.  Ele está em movimen-to, percorrendo diferentes campos da realidade, lançando as sementes na terra, ou seja, ajudando as pessoas a descobrirem o que há de “divino” escondido nelas.
Toda parábola é um relato provocativo e aberto, que espera uma resposta do próprio ouvinte ou leitor.
O característico da parábola de hoje parece ser uma dupla mensagem: o esbanjamento do semeador e a certeza de uma colheita superabundante.
- Por uma parte, o relato mostra um interesse claro ao sublinhar o comportamento do semeador que, sem se importar com o resultado, semeia por todos os lugares, inclusive naqueles onde se sabe que a semente não poderá germinar, como os caminhos e os espinhos...
A parábola original fala, antes de mais nada, de Deus como Gratuidade, Excesso e Esbanjador… Podemos adivinhar, entre linhas, o gesto de Jesus dizendo: “Deus é assim”.
- O segundo traço que a parábola acentua é só uma consequência: o fruto terminará sendo também um excesso. Para uma terra como a Palestina, onde falar de uma colheita de sete por um já era considerada excelente, falar de um rendimento de trinta, sessenta e cem por um equivalia a ultrapassar a previsão mais otimista, um “exagero” conscientemente provocativo.

A verdadeira “semente” é o que há de Deus em nós.
Em nossa terra interior já está semeada a presença de Deus; é como a semente enterrada que permanece fértil debaixo da terra desértica pela seca prolongada, e o olhar de Deus é como a chuva que ao cair des-perta a vida presente na semente. Também gerará novidades em nós, convertendo-nos em vidas germinais.
Deus se derrama em todos e por todos da mesma maneira, não como produto elaborado, mas como semente, que cada um tem que deixar frutificar. O decisivo é tomar consciência do divino que nos habita e viver em harmonia com essa realidade. O fruto seria uma nova maneira de se relacionar com Deus, consigo mesmo, com os outros e com as coisas.

Deus é Doação permanente e gratuita: só sabe e só pode doar-se. Isso é o que “constitui” seu ser: não é um “Indivíduo” separado, criado à nossa imagem; é um “Doar-se” permanentemente – mais verbo que substantivo -, que em tudo manifesta sua presença.
Tantas vezes O temos diminuído, formatando-O segundo nossos critérios e reduzindo-O a um grande Legislador ou pervertendo-O com traços ameaçadores e cruéis.
Numa ocasião, no grupo de catequese, uma menina perguntou à catequista: “Por que Deus é sempre Deus, e nós não podemos ser “deus” ao menos uma vez por semana?”
A catequista, após um susto inicial, respondeu à menina: “O dia em que você for amor, e nada mais que amor, você será Deus.”
Este é o Deus do qual fala Jesus. Um Deus que é “sementeira” permanente de amor.
Para que isso se faça realidade em nós só é preciso “escutar”: “quem tem ouvidos que ouça”.
É preciso abrir os olhos, os ouvidos, cair na conta... O “Excesso” ou “Esbanjador” de tudo o que é nos alcançará na medida em que nos abramos a Ele; Sua presença expande e multiplica o melhor de nossa vida. Ao contrário, quando permanecemos reclusos na identificação com nosso ego, irremediávelmente, dia após dia, nossa existência se atrofiará e se empobrecerá.

De Jesus temos que aprender também hoje a semear: ir ao encontro dos diferentes “terrenos” para desvelar o divino presente em cada um.
O primeiro é sair de nossa casa. É o que pede sempre Jesus a seus discípulos: “Ide por todo o mundo...”, “ide e fazei discípulos...”. Para semear, temos de sair de nossa segurança e nossos interesses; semear im-plica “deslocar-nos”, buscar o encontro com as pessoas, comunicar-nos com o homem e a mulher de hoje, não viver fechados em nosso pequeno mundo eclesial.
Esta “saída” para os outros não é proselitismo, nem imposição de uma doutrina ou de uma verdade. “A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração” (papa Francisco). Não tem nada de imposição ou reconquista. É oferecer às pessoas a oportunidade de encontrar-se com o Deus vivo e presente na própria vida, que o acolham e se deixem conduzir por Ele, para poderem viver melhor, de maneira mais acertada e sadia. Isso é o essencial.

É fora de dúvida que, dentro de cada um de nós, continua existindo “caminhos” endurecidos, “terrenos pedregosos” com pouca profundidade, “espinhos” asfixiantes e atrofiantes...  que limitam a liberdade de Deus em atuar em nós. Mas, o ponto de partida é que comecemos por reconhecer esses terrenos e aceitá-los, reconciliando-nos com toda nossa realidade interior, abraçando-a com humildade.
Desse modo, ao crescer em unificação – integrando também os aspectos mais obscuros e vulneráveis de nossa própria sombra -, um bom “húmus”  estará se disponibilizando e constituindo a “terra boa” onde a semente brotará por si mesma. Devemos descobrir em cada um de nós a terra dura, os espinhos, as pedras que impedem a semente germinar. No mesmo terreno há terra boa, pedras e espinhos...

O Reino também tem seu ritmo e seu momento. Não o acelera a impaciência de uns nem o paralisa o fracasso de outros. Não somos nós que levamos o Reino em nossas mãos, mas é nossa missão ajudar a descobrí-lo (desvelá-lo) na vida humana como o dinamismo mais profundo da existência. O Reino alcança a todos, ninguém fica excluído, ele não está fechado nos limites da igreja ou das religiões.
Não temos a exclusividade dele, e por isso mesmo temos que viver constantemente despertos para desco-bri-lo e acolhê-lo ali onde se faz presente, seja onde for.
O “novo” sempre nasce pequeno, frágil, oculto e a partir de baixo. As sementes, muito pequenas, são colocadas na terra e desaparecem. No entanto, contém uma vitalidade oculta que as leva a germinar. O fundamental não é seu tamanho senão a enorme força transformadora que contém e sua grande fecundidade.
Como as sementes na terra, percebemos que somos convidados a atuar a partir de dentro, transformando a realidade a partir de meios simples, mas com criatividade e audácia.
Submergidas na terra as sementes vivem um lento processo até poderem liberar uma vida nova e abundante. Mas para que isto aconteça sofrem uma certa morte: para gerar vida entregam sua vida.

Texto bíblicoMt 13,1-23

Na oração: Nesta realidade tão distinta e complexa, impõe-se
                   uma séria reflexão encaminhada a revisar nossas presenças e nossa missão evangelizadora. Somos convidados a abrir-nos ao novo, a semear em outros lugares... Onde semear neste momento da história?
Ao contemplar nossa terra, com suas injustas e sangrentas desigualdades, facilmente surge em nós a sensação forte de impotência. Quê podemos fazer para que a justiça triunfe sobre o sofrimento e a miséria?
É necessário ter uma visão ampla e de longo alcance: para que algo novo germine em nossa terra, temos de discernir o que vamos semear hoje.


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