sábado, 14 de setembro de 2013

O PAI MISERICORDIOSO
(Liturgia do Vigésimo Quarto Domingo do Tampo Comum)

Pode, realmente, Deus arrepender-Se e voltar atrás, como nos fala a primeira leitura deste vigésimo quarto domingo do Tempo Comum, tirada do livro do Êxodo (32,7-11.13-14)?
Mas, não seria o arrependimento um sentimento “muito humano”, para ser atribuído a Deus, já que é derivado da negação das atitudes e pensamentos que o antecederam? Embora seja estranho pensar assim, é possível perceber no relacionamento da Aliança com o povo de Israel que Deus também tem sentimentos. São sentimentos que variam no relacionamento com o povo de Israel, de acordo com as opções que vai fazendo, dentro da sua liberdade humana.
Deus fica até mesmo irritado em algumas situações. Mas também a Sua ira é uma forma de amor. Tem o objetivo de provocar uma resposta do homem. Portanto, Deus se arrepende sim, e o Seu arrependimento é outra forma de amor que perdoa o homem, graças à intercessão de Moisés.
Na verdade, a ira de Deus convida e chama novamente o homem à conversão, mas não exige e não condiciona o amor como à sua resposta. Assim, independente da resposta do homem, Deus o amará, sempre!
Deus não exige nada, apenas dá. Isso Moisés compreendeu muito bem, porque na sua intercessão em favor do povo, ele “relembra” o próprio Deus da gratuidade das Suas ações em favor do Seu povo: “Por que, ó Senhor, se inflama a tua cólera contra o teu povo, que fizeste sair do Egito com grande poder e mão forte? Lembra-te de teus servos Abraão, Isaac e Israel, com os quais te comprometeste, por juramento, dizendo: Tornarei os vossos descendentes tão numerosos como as estrelas do céu; e toda esta terra de que vos falei, eu a darei aos vossos descendentes como herança para sempre”.
Se Deus deu ao povo gratuitamente toda a herança prometida a Abraão, a saber, a descendência e a terra, então ainda pode perdoá-lo, isto é, esquecer todos os seus pecados e renovar a Sua Aliança com ele.
O arrependimento de Deus está, portanto, em perfeita coerência com o que Deus é: Aquele que dá e perdoa.
Não será, talvez, esta imagem que Jesus tem de Deus e que nos revela na extraordinária parábola, que tradicionalmente chamamos de parábola do “filho pródigo”, mas que deveríamos chamar de parábola do pai amoroso ou do pai misericordioso?
Ali, o pai não espera que o seu filho caçula faça uma declaração formal de humildade. Pelo contrário, não permite que se coloque na posição de escravo. Tão logo o vê, se comove, corre ao seu encontro, o abraça e o beija!
O Pai revelado por Jesus não o reprova, nem o repele, tampouco lhe pergunta o que fez com o dinheiro da herança.
Esse pai é misericordioso, sobretudo, porque não assume a postura e o papel do ofendido, como nós costumamos fazer nesses casos, nem lhe impõe punições, fazendo-o viver mal consigo mesmo e como escravo. Não! Rapidamente coloca-lhe um anel no dedo, e sandálias nos seus pés. Trata-se de símbolos do homem livre, que tem direito à herança paterna.
É esta atitude radicada no amor e na gratuidade que o filho mais velho não consegue compreender. Ele, que sempre serviu o pai e nunca recebeu em troca um cabrito para fazer uma festa com os amigos.
O problema do filho mais velho, na verdade, é acreditar que merece alguma como recompensa do pai, pelo fato de ter sido bom. Ele pensa e enxerga o seu relacionamento com o pai apenas nos termos do direito e do dever, das obrigações e não do amor.
O pai, na verdade, tenta fazê-lo compreender que o verdadeiro relacionamento com ele deve ser fundamentado em outra atitude bem diferente. No amor.
A resposta do pai aponta justamente para isso. É como se dissesse: se não te dei um cabrito é porque o cabrito e tudo mais sempre foram teus! Você ainda não compreendeu que tudo o que é meu é teu?
É por isso que ele precisa entrar e participar da festa! Aliás, fazer festa com o irmão, que na verdade ele não considera mais como irmão, mas apenas como “esse teu filho”, torna-se sinal concreto e passagem obrigatória para reconhecer o amor do pai.
Será que, finalmente, o filho mais velho entrou para a festa? O Evangelho (Lc 15,1-32), que lemos hoje, não nos informa.
A resposta não é dada porque cada um de nós é chamado a dar essa resposta no seu lugar. Na verdade, a intenção de Jesus é fazer com os Seus discípulos e cada um de nós nos identifiquemos com o irmão mais velho e que nos perguntemos, sinceramente, se seremos capazes de ir festejar com o seu irmão, sem calcular se ele merece ou não, sem fazer comparações, sem abrir um  inquérito sobre o seu passado e sem fazer uma sindicância sobre a justiça do pai.
 Este é o Pai que Jesus nos revela. O Pai é alguém que não calcula os nossos méritos, mas que ama gratuita e desproporcionalmente. Isso mesmo, desproporcionalmente!
Trata-se da mesma superabundância de amor testemunhada por Paulo quando fala da sua própria conversão, na carta que escreve a Timóteo e que lemos na segunda leitura (1Tm 1,12-17): Agradeço àquele que me deu força, Cristo Jesus, nosso Senhor, pela confiança que teve em mim, ao designar-me para o seu serviço, a mim, que antes blasfemava, perseguia e insultava. Mas encontrei misericórdia, porque agia com a ignorância de quem não tem fé”.
Numa sociedade que presta culto aos méritos e que mercantiliza as relações, capaz de perdoar só os que vencem e pronta a condenar os “perdedores”, os que foram um dia “viver em meio aos porcos”, sem possibilidade de apelo, o Evangelho da superabundância e da manifestação do amor gratuito do Pai soa como provocatório e escandaloso.
Geralmente, preferimos um Pai que nos recompense e nos elogie pelo fato de termos sido bons, mas isso é apenas um “fetiche’ que carregamos por debaixo da educação moralista recebida na nossa infância.
O Pai revelado por Jesus, o Pai verdadeiro, não nos elogia, tampouco nos condena. Ele simplesmente nos ama! E isso basta! Quanto a nós, precisamos ter coragem para alinhar as nossas atitudes de cristãos que muitas vezes agem como o irmão mais velho, com os gestos concretos e gratuitos de amor de Jesus.
Do contrário o nosso nome de cristãos estará comprometido. Graças a Deus o papa Francisco tem exigido da Igreja uma atitude cada vez mais corajosa assim. Graça a Deus, como Missionários Inacianos, aprendemos isso do nosso fundador temos o mesmo desafio nas mais diversas situações da vida concreta. Nunca vi um homem com tanta coragem e ousadia para ser cristão a esse ponto! Assim como o Pai. Assim como Jesus. (Frei Alfredo Francisco de Souza, SIA – Missionário Inaciano – www.inacianos.org.brformador@inacianos.org.br).


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