Teológico Pastoral

Teológico Pastoral

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Artigo

ANO NOVO: OUTRO OLHAR, OUTRA VISÃO
Artigo do Pe. Adroaldo sj

“...porque olhou para  a humildade de sua serva...” (Lc. 1,48)
“Os pastores voltaram glorificando e louvando a Deus por tudo o que ouviram e viram...” (Lc. 2,20)

Assim como a Encarnação do Verbo foi determinada a partir de um “olhar” que saiu do coração de Deus, que pousou sobre Maria e que voltou ao Seu coração, estremecendo-O de compaixão e movendo-O à ação, assim, este novo ano que se inicia, pede também de nós um olhar compassivo, esperançador e comprometido para com o mundo à nossa volta, movendo-nos em favor da vida.
Deveríamos, ao longo deste ano, situar-nos diante de Deus desse modo, com mais freqüência, deixando os olhos, os d’Ele e os nossos, se falarem silenciosamente.
O cristão é aquele que conserva límpido os seus olhos interiores, prontos para perceber a maravilha que está germinando em sua vida. Movido por um olhar novo, ele acolhe a surpresa de Deus, passa a ser surpresa para os outros, com seu gesto de amor imprevisto, com sua palavra que reanima, com sua visita que consola, com sua atenção para com todos os que levam uma vida obscura e monótona.

Com o olhar, podemos transformar uma pessoa, destruí-la ou reconstruí-la, aniquilá-la ou fazê-la renascer, restituí-la a si mesma e ao futuro, fazê-la chorar ou consolá-la, expressar-lhe ódio, indiferença ou amor...
É preciso purificar o olhar, cristificá-lo.
“Quando penso em Jesus, imagino o seu primeiro olhar à sua mãe Maria no fundo da manje-doura ou o seu último olhar que Ele lhe dirige do alto da Cruz” (Kahlil Gibran)
Contemplar o rosto do outro é sentir sua presença, sem pré-conceitos e pré-juízos..., vendo nele o sinal da ternura de Deus. Passar da contemplação à acolhida: este é o movimento da oração dos olhos.
Apreender tudo que há de invisível naquilo que vemos. Ir até aquele ponto inacessível onde se encontram os olhares. Aqui o “ver” torna-se “visão”;  e a visão torna-se união.
Muitas vezes, o presente mais precioso que podemos dar a alguém é um olhar diferente; o futuro, a aco-lhida, o perdão, a alegria... dessa pessoa podem depender desse olhar novo, cheio de afeto e confiança.
Em muitas situações difíceis da vida, o que salva é o olhar.
Num contexto de relações afetivas, onde os sentimentos são determinantes, qualquer caminho de volta ou de diálogo inicia-se sempre dom um olhar conciliador ou reconciliador.

Vivemos sob o signo do olhar, sob o impacto da imagem, da sociedade do espetáculo. Nunca como hoje o olhar adquiriu tanta soberania e status diante dos outros sentidos; no entanto, é o sentido mais violen-tado pela quantidade de imagens despejadas sobre nós a todo momento.
O ser humano primitivo tinha um olhar limitado pelas suas necessidades; já o ser humano pós-moderno, devido à complexidade da vida, ao progresso da ciência e da tecnologia, está ficando com um olhar truncado pelas imposições artificiais criadas; cerceado em sua visão, ele não sente a realidade; agredido pelo acúmulo de imagens, ele não se deixa “afetar” por nenhuma delas. “Vê”  tudo e não “olha” nada.
A urgência em “ver” tudo tira a atenção e o tempo necessário para poder “olhar pausadamente”.

Pobre olhar! Prisioneiro do sistema, é manipulado e não dá sentido à realidade captada, não rompe, não vai além, não busca o novo nem faz mudanças... Portanto, um olhar desprovido de sentimento, de imaginação, de profundidade, de horizontes....
Treinado para ver o mundo através da lente das grandes redes de poder, de manipulação e de acordo com seus interesses, o olhar estreita-se, o mundo torna-se opaco e a superficialidade da visão não capta o “mistério” das coisas e das pessoas.
O “olhar contemplativo” está perdendo sua força criativa; marcado pela ansiedade de querer “ver” tudo ao mesmo tempo, a pessoa não é mais capaz de fazer uma “pausa” para se deixar “ver” pela realidade.
Marcado pelo olhar do racionalismo, ela tudo examina, compara, esquadrinha, mede, analisa, separa... mas nunca “exprime”. Daí o olhar reprimido, desviado, insensível, frio, duro, ríspido...
Este é o pecado contra o olhar: olhar supérfluo e imediatista, olhar esquizofrênico e narcisista, olhar morno, sem vibração, sem brilho, sem assombro... Nesse olhar não há lugar para a admiração, nem para a acolhida e a presença do outro. Só existe o olhar que “fixa”, escraviza e aliena.
Na verdade, o que imobiliza e petrifica é o olhar que se fecha no egocentrismo, que não se abre ao outro numa atitude de respeito, de fidelidade criativa. “Nossa civilização, que já ultrapassou a era do trabalho escravo, ainda está na era do olhar escravo” (Eugênio Bucci).


Sentimos a urgência de uma conversão do olhar; é preciso que o olhar busque a sua libertação de tudo aquilo que o oprime, o manipula e o intimida; há necessidade de recuperar o direito de olhar... de ver e de ser visto. Um olhar gratuito e desinteressado, “janela da alma”, que expande o ser humano numa atitude acolhedora de tudo que o rodeia; olhos que possibilitem o trânsito do olhar, revelando a interioridade e dialogando com o exterior, num movimento de ir e vir constante e interpelativo, onde ocorre a contínua criação de si, do mundo, do outro.
É possível debruçarmos sobre o mundo, a história, a vida, através do olhar. Recuperar o olhar que expressa acolhida e comunhão, olhar carinhoso que rompe a distância e a rejeição.
O olhar verdadeiramente humano não é um olhar de medusa, possessivo, mas um “olhar contempla-tivo”, que admira e acolhe o ser olhado e comunga sinfonicamente com ele.
O olhar contemplativo, que vê todas as criaturas e todas as pessoas, admirando-as e amando-as na singu-laridade do seu mistério, é um olhar feliz, pacífico e encantado.
Por ser um “olhar encantado” quer ver e olhar, admirar e contemplar sempre mais em profundidade, comprometendo-se com a realidade que o cerca.
Se nosso olhar se detivesse por um tempo em pousar e repousar no que ele vê, descobriria também que todas as coisas nos olham, que todas as coisas oram.
“Uma das verdades fundamentais do cristianismo, verdade por demais desconhecida, é esta: o que salva é o olhar” (Simone Weil).

Texto bíblico:  Lc. 2,15-20

Na oração: A partir do “olhar” admira-
                     do dos pastores, iniciar, ao longo deste ano, um processo minucioso de extirpação das “cataratas” do seu olhar interior: o olhar das lembranças negativas, das suspeitas, dos julgamen-tos, das comparações... e reacender o olhar contemplativo capaz de expressar a benevolência, a delicadeza, a acolhida, a cortesia, a serenidade, a modéstia, a afabilidade, a alegria simples de estar junto...
Recordar todos os “olhares amorosos” que Deus foi depositando sobre você ao longo da vida.
Coração e olhos espreitam na mesma direção. São os puros de coração os que verão a Deus (Mt. 5,8).
          “Dá-me, Senhor, um olhar livre, límpido e simples,
           que rompa as correntes do meu egoísmo e abra as portas de minha prisão.
           Dá-me um olhar profundo que não se limite a roçar as pessoas de modo fugaz, apressado.
           Que seja meu olhar desarmado, sem vínculos e atento.
           Dá-me, Senhor, um olhar que ultrapasse  a casca das coisas e penetre para além das fachadas.
           Um olhar explorador eu quero, que chegue, Senhor, ao teu aposento, no centro do ser e,
           no centro, fixe teu rosto  e, do centro, fixe o rosto do outro e, nele, te veja e de adore, Senhor”.
                                                                                                           

domingo, 30 de dezembro de 2012

Liturgia - janeiro de 2013

Mãe de Deus

A Liturgia de hoje comemora várias realidades:

- Celebra-se a solenidade da MÃE DE DEUS:
  aquela que, com o seu Sim ao projeto de Deus,
  nos ofereceu Jesus, o nosso libertador.
- Celebra-se o DIA MUNDIAL DA PAZ:
  em 1968, o papa Paulo VI quis que, neste dia, os cristãos rezassem pela paz.
- Celebra-se o PRIMEIRO DIA DO ANO CIVIL:
  é o início de uma caminhada que desejamos percorrer com a Bênção de Deus.

As leituras bíblicas evocam esses fatos...

A 1ª Leitura sublinha a presença contínua de Deus em nossa caminhada,
como BÊNÇÃO que nos proporciona a vida em plenitude. (Nm 6,22-27)

É uma linda oração de Bênção do Antigo Testamento,
sugerida pelo próprio Deus sobre o seu povo:
"Eis como abençoar os filhos de Israel: dizei-lhes:
O Senhor te abençoe e te guarde.
O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face,
e se compadeça de ti. O Senhor volte para ti o seu rosto e te dê a paz.
Assim invocarão o meu nome, e eu os abençoarei..."

* PEDIR A BÊNÇÃO: é uma maneira de reconhecer
a nossa dependência de Deus em todos os dias do novo ano.
A Felicidade verdadeira só é possível em comunhão com Deus...

A 2ª Leitura afirma que Cristo vem ao mundo, nascido de uma MULHER,
com a missão de libertar os homens do jugo da Lei e torna-los "filhos",
com o direito de chamar a Deus "abba" (papai). (Gl 4,4-7)

É o único lugar em que Paulo faz referência à mãe de Jesus.
Por isso, Maria é chamada verdadeiramente "Mãe de Deus",
como o celebramos na festa de hoje.

O Evangelho: nos apresenta Maria plenamente feliz,
recebendo a visita dos pastores... (Lc 2,16-21)

Lucas apresenta Jesus como o LIBERTADOR,
que veio ao mundo com uma mensagem de salvação para todos,
especialmente para os pobres e marginalizados:

1. Os Pastores, pobres e marginalizados,
    são os primeiros a receberem a notícia e
    dirigem-se "apressadamente ao encontro do menino.

* Sublinha a ânsia com que os pobres esperam a ação de Deus.
  
2. A Reação dos pastores:
   Glorificam e louvam a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido.
* É a alegria pela libertação, que se converte em ação de graças a Deus.
   Tornam-se assim porta-vozes do anúncio libertador,
    provocando admiração dos que escutavam o seu testemunho.

3. A Atitude de Maria:
   Ela "conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração".

* A atitude "meditativa" de Maria,
   que interioriza e aprofunda os acontecimentos,
   complementa a atitude "missionária" dos Pastores,
   que proclamam a ação salvadora de Deus,
   manifestada no nascimento de Jesus.    
   Duas atitudes que deveriam existir em todos nós...

* Qual é a nossa Atitude?
- Como os Pastores, alegres e agradecidos pelo que estamos vendo e ouvindo,
  felizes em poder anunciar a boa nova aos outros?
- Como Maria, atentos aos sinais de Deus,
  conservando e meditando a Palavra de Deus em nosso coração?

+ Hoje também é o Dia Mundial da Paz.
A Igreja quer nos lembrar desde o primeiro dia do ano,
que a paz anunciada pelos anjos em Belém é possível  
e devemos nos esforçar dia a dia para construí-la.
Paz que é antes de tudo obra da justiça e fruto do amor...
PAZ no coração... PAZ na família... PAZ na vizinhança... PAZ na comunidade...
PAZ no trabalho...  INSTRUMENTOS DE PAZ...

"Bem-aventurados os obreiros da paz"
Com esse lema, o Papa dirigiu sua mensagem para o dia Mundial da Paz.
E nos lembra que "a paz é dom de Deus e obra do homem. A paz envolve
o ser humano na sua integridade e supõe o empenho da pessoa inteira:
é paz com Deus, vivendo conforme à sua vontade; é paz interior
consigo mesmo, e paz exterior com o próximo e com toda a criação.
Obreiros da paz são aqueles que amam, defendem e promovem a vida na sua integridade... Devemos construir o bem da paz através de um novo modelo
de desenvolvimento e de economia. E fala do papel da família e das instituições
na educação para uma cultura da paz...

+ Que planos temos para ANO NOVO?

Que tal... COMEÇAR O ANO...
com renovada FÉ, renovada ESPERANÇA e renovado AMOR?

- E, a exemplo de MARIA, Mãe de Deus e Rainha da Paz,
  SEMEAR PAZ, ao redor de nós,
  para que esse ano novo seja mais humano, mais fraterno e mais cristão!...

* É O QUE DESEJO PARA TODOS NÓS!...

                                   Pe. Antônio Geraldo Dalla
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