Teológico Pastoral

Teológico Pastoral

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Prof. Felipe Aquino


Posted: 19 May 2014 08:01 PM PDT
n_senhora8No ano de 1927, no Egito, foi encontrado um fragmento de papiro que remonta ao século III. Neste fragmento estava escrito: “À vossa proteção recorremos Santa Mãe de Deus. Não desprezeis as nossas súplicas em nossas necessidades, mas livrai-nos sempre de todos os perigos, ó Virgem gloriosa e bendita!”.
Esta oração conhecida com o nome “Sub tuum praesidium” (À vossa proteção) é a mais antiga oração a Nossa Senhora que se conhece. Tem ela uma excepcional importância histórica pela explícita referência ao tempo de perseguições dos cristãos (Livrai-nos de todo perigo) e uma particular importância teológica por recorrer à intercessão de Maria invocada com o título de Theotókos (Mãe de Deus).
Este título é o mais belo e importante privilégio da Virgem Santíssima. Já no século II, era dirigido à Maria e foi objeto de definição conciliar em Éfeso no ano de 431. Maria, Mãe de Deus! Qual é, na mente da Igreja e da Tradição, o genuíno e profundo sentido deste dogma mariano central?São Tomás afirma que pelo fato de ser mãe de Deus: “A Bem Aventurada Virgem Maria está revestida de uma dignidade quase infinita, a causa do bem infinito que é o mesmo Deus. Portanto, não se pode conceber nada mais elevado que ela, como nada pode haver mais excelso que Deus”(Suma Teológica 1, q.25, a.6 ad 4.). E, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica.
Denominada nos Evangelhos “a Mãe de Jesus” (João 2,1;19,25[a72]), Maria é aclamada, sob o impulso do Espírito, desde antes do nascimento de seu Filho, como “a Mãe de meu Senhor” (Lc 1,43). Com efeito, Aquele que ela concebeu Espírito Santo como homem e que se tornou verdadeiramente seu Filho segundo a carne não é outro que o Filho eterno do Pai, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A Igreja confessa que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (CIC 495)
O Concílio de Éfeso tem a glória de ser o grande Concílio Mariano, pois seu dogma destruiu a maior heresia contra a Virgem e pôs a pedra angular de toda a Mariologia. A igreja com o decorrer do tempo iria descobrindo os grandes tesouros encerrados na Maternidade Divina de Maria.
Porém, é necessário compreender o que a Igreja quer dizer quando fala em Maria como mãe de Deus. Jesus Cristo, segunda pessoa da santíssima Trindade, existe desde toda a eternidade. Ele procede do Pai por uma geração espiritual, na qual não intervém evidentemente nenhuma criatura humana. Portanto, Maria não é mãe do Filho de Deus quanto à sua origem divina, mas é mãe do “verbo encarnado”, do Filho de Deus feito homem.
Maria deve ser chamada Mãe de Deus, porque a maternidade se refere sempre à pessoa. A mãe de um homem não é só acpa_ora_es_de_todos_os_tempos_da_igreja mãe de seu corpo. Ela é mãe da pessoa toda. Assim também Maria é mãe de seu Filho, como pessoa divina e humana que Cristo é.
Convém ainda recordar que esta questão já foi tratada na era patrística, isto é, no Cristianismo primitivo. De fato, Nestório, bispo de Constantinopla, negava o título de “Theotokos” (“Mãe de Deus”) a Maria. Nestório sabia muito bem que isto significava a consequente negação da natureza de Cristo, homem e Deus.
A mesma história patrística mostra a forte reação dos cristãos contra Nestório, que resultou no Concílio de Éfeso, no ano de 431, reconhecendo a legitimidade do título de Mãe de Deus, dado a Maria, e condenando as ideias nestorianas.
Por Diácono Inácio de Almenida EP.
Fonte: Gaudium Press

sábado, 17 de maio de 2014

5o. DOMINGO DA PÁSCOA

VIVEMOS JÁ EM MORADAS ETERNAS

“Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2)

O contexto do Evangelho de hoje faz parte do chamado discurso de despedida de Jesus, depois da última ceia. O ambiente está carregado: a traição de Judas, o anúncio da negação de Pedro, a revelação da sua partida. Apesar do temor e da inquietação pairando no ar, Jesus diz coisas que nunca dissera antes: pala-vras condensadas, luminosas, mobilizadoras...;palavras como raios que rasgam a escuridão e iluminam a noite da vida.
Em primeiro lugar, Jesus tenta quebrar o clima pesado, convidando os seus amigos à calma, à confiança e revelando que na casa do Pai há muitas moradas; não se trata de um lugar, mas do horizonte do amor de Deus; são as Moradas do Amor.Todos estamos envolvidos por este amor providente e cuidadoso do Deus Pai e Mãe; no seu coração cabem todos. Também poderíamos traduzir assim: na família de Deus há lugar para todos, talvez de formas diferentes, por caminhos diversos, mas há lugar abundante. A casade Deus é ampla. Todos os seres humanos são chamados a fazer parte da família do mesmo Deus.

Mais ainda, a partir da afirmação do Mestre Eckhart“Deus está em sua casa em nós; nós somos osestrangeiros”, podemos dizer que quem realmente habita “nossa casa” não é o “eu”, mas Deus.
Caminhamos para a morada de Deus sendo morada do mesmo Deus. Do Pai-Mãe viemos, no Pai-Mãe vivemos eao Pai-Mãe voltamos. Esta é a experiência suprema da vida.
Esta morada interior é o espaço de transcendência, de oração, de admiração, de mistério, de silêncio; morada aberta e acolhedora, ambiente da comunhão, da comunicação, da intimidade; é a partir desta morada carregada de presenças que se vai ao Pai (Grande Morada).
Nessa direção podemos acrescentar que Jesus fez o caminho para que possamos percorrê-lo com Ele. Jesus não fez caminho para deixar-nos para trás, mas para lançar-nos para novas metas, abrindo nossos olhos e nosso coração para novas moradas do amor, porque Deus é sempre maior.

É nesse contexto de despedida que Jesus se atreve a dizer “eu sou”,mas não um eu isolado em si (um eu sem Deus, um eu sem os outros), mas um euaberto ao Pai (um eu-caminho) e dirigido a todos que queiram acolhê-lo (um eu-expansivo, que se faz verdade e vida para todos). O “eu” de Jesus se faz caminho, um caminho de Deus, um caminho no qual a verdade se revela e a vida se abre.
Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Estamos diante de um dos textos mais densos, referidos ao ser de Jesus. Não se conhece na história das religiões uma afirmação tão audaz. Jesus se oferece como o cami-nho que podemos percorrer para entrar no mistério de um Deus Pai. Ele nos faz descobrir o segredo último da existência. Ele pode nos comunicar a vida plena que todo coração humano aspira.
O conceito de “caminho” supõe um destino, o Pai. O conceito de “verdade” pressupõe um conteúdo, o mesmo Jesus. Dos três termos, o único absoluto é “Vida”. Porque possui a Vida, Jesus é verdade e é caminho.

Caminho, Verdade e Vida: três grandes carências existenciais; elas apontam para o sentido da existência; expressam as três grandes buscas do ser humano. Três dimensões que nos humanizam. Não são necessida-des periféricas. Jesus se apresenta como resposta a estas buscas.
O ser humano é ser de travessia: é peregrino por natureza, busca um horizonte, desloca-se em direção a uma plenitude. Jesus se faz o centro deste Caminho.
Ali onde alguém faz o caminho como Jesus fez (peregrino entre os mais pobres e excluídos) está deixando transparecer em sua vida o rosto do Pai. Por isso, quem o vê, quem vive como Ele (em amor aberto à vida) viu o Pai da vida. Trata-se de “ver a Jesus” (esta é a experiência pascal), mas de vê-Lo caminhando consigo, assumindo Sua verdade, vivendo na dinâmica de Sua vida.
O ser humano busca a verdade; antes que “ter” verdade, ele quer “ser verdade”. Jesus afirma: “eu sou a verdade”, e não “eu tenho a verdade” (poderia fechá-lo diante da verdade do outro, caindo no fundamen-talismo). O importante não é ter a verdade, mas ser verdadeiro. A pessoa verdadeira pode entrar em ressonância com a verdade do outro. Jesus é verdadeiro, revela o que é mais nobre em seu coração, não usa máscara, é pura transparência do rosto do Pai.
Quando Jesus diz “eu sou a verdade”, está identificando essa verdade de Deus com o caminho mesmo da vida humana. A verdade não está na ciência abstrata, nem nas teorias mais ou menos racionais, nem nos sistemas fechados... A verdade é a vida humana, como extensão do mesmo ser de Deus.
Ao dizer“eu sou a verdade”Jesus nos capacita também para dizer “nós somos a verdade”, não contra alguém, mas a favor de todos. Nós somos a verdade, os que caminhamos e vivemos no amor, sabendo que em nossa vida se expressa a vida do Pai.
Nós somos a verdade, em um nós aberto, como Jesus, aberto a todos os que vão e vem, de um modo especial os mais pobres, os excluídos de todos os sistemas de “verdade” do mundo.
O ser humano aspira vida plena;Jesus viveu intensamente; “morreu de tanto viver” – vida expansiva, voltada para os outros, compromisso com a vida. Plenificação de todas as dimensões da vida: corporal, afetiva, social, intelectual...

Ser seguidor de Jesus é fixar o olhar n’Ele, pois Ele é o centro do nosso cami-nho; ao caminhar com Ele, vamos nos revelando e a partir d’Ele vamos desco-brindo nosso ser verdadeiro (que nos abre para acolher a verdade presente em cada ser humano – verdade que vai além das verdades religiosas, políticas, racionais).
Quem se descobre verdadeiro e sem máscara, vive profundamente, alarga sua vida a serviço dos sem-vida. Esta é a via da humanização; e quanto mais nos humanizamos, mais nos divinizamos.
Por isso, Jesus, o homem radical, deixa transparecer o rosto do Pai: “quem me vê, vê o Pai”.
Esta nossa busca começa no retorno ao interior, onde o Senhor nos habita e nos move.
Podemos então afirmar que a busca de Deus e o encontro com Ele, a partir de Sua iniciativa, coincidem com a busca e o encontro de si mesmo, de modo que buscar a Deus é buscar-se a si mesmo, na própria interioridade.
Podemos entrar dentro de nós mesmos porque em nós está a dimensão de eternidade, a dimensão “divi-na” que nos situa acima do vai-e-vém das coisas, acima do tempo e da contingência, embora estejamos enraizados nela e caminhemos sobre a faixa da história fugaz.

Texto bíblico:Jo 14,1-12

Na oração:É no mais íntimoque se reza aoSenhor. É nomais profundo da interioridade que se escuta o Se-
nhor. Deixe-se invadir pela luz e pela vida d’Aquele quearmou sua tenda entre nós”.







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