quarta-feira, 2 de setembro de 2020
quinta-feira, 16 de novembro de 2017
Homilia dominical - 12 de novembro de 2018
O AZEITE DA VIDA QUE SE CONSOME ILUMINANDO
“As previdentes levaram vasilhas com azeite
junto com as lâmpadas” (Mt 25,4)
Os textos destes últimos domingos do ano
litúrgico nos convidam a velar, a estar preparados, a viver despertos. Deus não
nos espera no final do caminho para nos submeter a um juízo; Ele está dentro de
nós todos os instantes de nossa vida, inspirando-nos, para que possamos viver
com mais plenitude e sentido.
Interpretar a parábola deste domingo no sentido
de que devemos estar preparados para o dia da morte é falsificar o evangelho. Esperar
passivamente uma vinda futura de Jesus não tem sentido, pois Ele já disse a
seus discípulos: “Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do
mundo”.
A parábola não está centrada no
fim, mas na inutilidade de uma espera que não é acompanhada de uma atitude de
amor e de serviço. As lâmpadas devem estar sempre acesas; se esperamos para
prepará-las no último momento, perderemos a oportunidade de entrar para a festa
de casamento.
A ideia que muitas vezes temos de
uma vida futura esvazia a vida presente até o ponto de reduzi-la a uma incômoda
“sala de espera”. A preocupação pelo “mais além” nos impede assumir com mais
intensidade o tempo que nos cabe viver. A vida presente tem pleno sentido por
si mesma. O que projetamos para o futuro já está acontecendo aqui e agora, e
está ao nosso alcance; aqui e agora podemos viver a eternidade, já que podemos
nos conectar com o que há de Deus em nós; aqui e agora podemos alcançar nossa
plenitude, porque sendo morada de Deus, temos tudo ao alcance da mão.
A “chave de leitura” da parábola “das dez
virgens” está na falta de azeite
para que as lâmpadas possam permanecer acesas. O relato é tirado da vida
cotidiana. Depois de um ano ou mais de noivado, celebrava-se a festa de
casamento, que consistia em conduzir a noiva à casa do noivo, onde acontecia o
banquete. Esta cerimônia não tinha um caráter religioso. O noivo, acompanhado
de seus amigos e parentes, ia à casa da noiva para buscá-la e conduzi-la à sua
própria casa; na casa da noiva, encontravam-se suas amigas que a acompanhariam
no trajeto e participariam da festa. Todos estes rituais começavam com o
pôr-do-sol e avançavam noite adentro, daí a necessidade das lâmpadas para poder
caminhar.
A importância do relato não está
no noivo, nem na noiva, nem sequem nas acompanhantes. O que o relato destaca é
a luz. A luz é mais importante porque
o que determina a entrada no banquete é que as jovens tenham as lâmpadas acesas.
Uma acompanhante sem luz não tinha como fazer parte no cortejo nupcial.
Pois bem, para que uma lamparina
consiga iluminar é preciso ter azeite. Aqui está o ponto chave. O im-portante é
a luz, mas o que é preciso para alimentá-la
é o azeite.
Que é o azeite
que alimenta a lamparina?
São as reservas insondáveis de
potencialidades criativas, de recursos inspiradores, de dinamismos vitais, de forças
latentes, de energias sadias, de desejos oblativos... presentes nas profundezas
do coração humano, e que o impulsionam a viver em sintonia com tudo o que
acontece ao seu redor; o azeite é constituído pelas riquezas do próprio ser, as
beatitudes originais, as intuições, os valores... que alimentam a autonomia, a
autoria, a criatividade, a iniciativa, o espírito de busca, a capacidade de
sonhar... Trata-se do “tesouro do ser”, conservado em sua
mensagem essencial, e que pode tornar-se a energia que alimenta a luz da vida,
a sabedoria da própria existência; o azeite é tudo aquilo que é nutriente,
fecundo, iluminante... e que se ex-pressa como contínua fonte de renovação;
azeite é vida interior expansiva que se revela e que se consome nos encontros,
na interação e na comunhão com os outros...; em resumo, azeite é o que há de
mais divino
no interior de cada um, que precisa ser descoberto, reconhecido e ativado para
tornar-se luz.
No entanto, só quem vive a partir das raízes do
próprio ser, só quem tem acesso à própria interioridade, descobre a presença do
azeite que pode ser ativado para dar
um novo significado e sentido à própria vida. É isso que a parábola do
evangelho de hoje nos alerta: é preciso estar desperto e sintonizado com o
azeite interior para poder alimentar a luz da vida e corresponder às vozes surpreendentes
que vão surgindo.
“No
meio da noite ouviu-se um grito: eis que chega o noivo! Saí ao seu encontro”.
É uma convocação urgente a sair
do sono da distração e da trivialidade que talvez nos tem aprisionado, durante
muito tempo, àquilo que é acessório e que nos pro-voca a viver à espera do
essencial, atraídos por um impulso que nos move por dentro, ou seja, o desejo
de vida plena.
Com os distraídos não se pode ir
muito longe; dizendo melhor; distraídos são que vivem do momento e não pensam
no depois. Seduzidos por estímulos ambientais, envolvidos por apelos vindos de
fora, cati-vados pelas luzes artificiais, os distraídos perdem a direção da
fonte provedora de azeite em seu interior; dormem e acordam sem luz em suas
vidas.. Quem anda distraído, disperso e surfando na superfície de si mesmo,
acaba perdendo as grandes oportunidades que a vida lhe oferece.
Por isso, ser “sensato” é viver
com sentido, atento e desperto às surpresas da vida. Para quem está desperto, sua
vida interior torna-se uma fonte inesgotável de energia, de dinamismo e
criatividade.
Assim se entende porque as jovens
prudentes não compartilhem o azeite com as imprudentes. Não se trata de
egoísmo: é que a lâmpada não pode arder com o azeite do outro. A chama, à qual
se refere a parábola, não pode ser acesa com o azeite comprado ou emprestado.
Sabemos que o azeite só ilumina quando se consome. Nossa vida revela pleno
sentido e alcança seu fim quando desaparecemos, consumindo-nos no serviço aos
outros.
Quando a chama da vida está acesa, cresce em
nós a consciência de que somos luz na medida em que nos gastamos na nobre
missão de iluminar nosso entorno, até chegarmos a ser cera derretida.
Vivemos imersos num oceano de luz;
carregamos dentro a força da luz. Ela sempre está aí, disponível; basta
abrir-nos a ela com a disposição de acolhê-la e de fazer as transformações que
ela inspira.
A Luz é força fecundante, princípio ativo, condição indispensável
para que haja vida.
Somos luz quando
expandimos nosso verdadeiro ser, ou seja, quando transcendemos e vamos mais
além, desbloqueando as ricas possibilidades e recursos presentes em nosso
interior.
O que há de luz em nosso interior
pode chegar aos outros através das obras. Toda ação realizada com amor e compaixão,
é luz.
Encantam-nos os cristãos antenados que, cada
dia, alimentam sua fé, sua esperança com pequenas coisas, com pequenos detalhes
e gestos de amor carregados de luz; cada dia, aprofundam um pouco mais na
experiência do Evangelho, mantendo sempre suas lâmpadas acesas, atentos à
passagem e às pegadas de Deus por suas vidas; e, sobretudo, carregam sempre
reservas de azeite para acolher com alegria a chegada surpresa d’Aquele que
sempre está vindo ao seu encontro.
Encantam-nos os cristãos comprometidos que
sabem que o azeite se consome, a fé se debilita, a esperança se apaga e amor
atrofia quando não são alimentados com o azeite sempre novo em reserva nos seus
corações.
Texto bíblico: Mt.
25,1-13
Na oração: Dentro de ti deves descobrir o azeite.
Se o descobres, dará luz
que alumiará teus passos.
Essa
chama, se é autêntica, não pode se ocultar, pois iluminará tam-bém os outros,
ativando neles a luz ainda escondida.
Tens
que descobrir teu próprio azeite; ninguém pode te emprestá-lo, porque é tua
própria vida.
Toda
a vida se move de dentro para fora. Azeite que se consome na nobre missão de
iluminar.
-
Qual é o “azeite original” de teu interior, que inspira tua vida e te move a
ser presença iluminante?
segunda-feira, 30 de outubro de 2017
Dia de todos os Santos - 2017
SANTIDADE: o
DNA de Deus no coração do ser humano
“Bem-aventurados sois vós...” (Mt 5,11)
Todo ser humano deseja ser feliz, e o desejo de
felicidade é o dinamismo mais profundo que toda pessoa traz inscrita no
íntimo do seu ser. Em outras palavras, a aspiração primeira que nos habita é a “alegria
de viver”. Por isso, atentar contra a felicidade de viver é a agressão
mais grave que se pode cometer contra o ser humano.
No entanto, na experiência de fé
de muitas pessoas, a imagem de “Deus” não está associada à busca da “felicidade”. De fato, são
muitos os que vêem em Deus um autêntico rival da própria felicidade, pois costumam
relacionar Deus com a proibição de muitas coisas que lhes dão prazer e lhes
fazem felizes, ou com a obrigação de fazer outras coisas que lhes são pesadas e
desagradáveis. E, sobretudo, para muitos, “Deus” é uma ameaça, uma
proibição constante, uma censura, um juiz implacável com o código de leis nas
mãos... enfim, uma carga pesada que complica a vida, tornando-a sem sabor e sem
sentido.
Além disso, muita gente vê em
Deus a imposição de verdades que não compreende, a limitação da própria
liberdade, a necessidade de submeter-se a poderes e autoridades que lhe causam
rejeição...
E, para culminar, são muitos
aqueles cuja experiência de fé é vivida de maneira negativa, alimentando culpas,
acentuando os escrúpulos, fomentando divisões e conflitos internos,
comportamentos de caráter obsessivo, práticas piedosas carregadas de moralismo
e expiação..., e outras patologias.
É evidente que um “Deus” assim gera, nas
pessoas, sentimentos de culpa, de insegurança e de medo.
Podemos, então, compreender perfeitamente
porque muitas pessoas prescindem de Deus em suas vidas, inclusive, recusam
abertamente tudo o que se refere a Deus, à religião e aos seus representantes.
Um “Deus” que é percebido e sentido como
um problema, como uma presença que entra em conflito com nossa felicidade, por
mais que nos digam que Ele é bom, que nos ama e que é Pai, é e será sempre um “deus”
inaceitável e até insuportável. Um Deus assim não tem e nem pode ter relação
alguma com a aspiração maior que carregamos dentro de nós: o desejo de sermos
felizes na vida.
Não é fácil passar de uma
espiritualidade que fez do sofrimento e do sacrifício um lugar de redenção, de
santidade, de predileção por parte de Deus, a uma espiritualidade que integra a
busca da felicidade, não só como um direito humano, senão como um sinal do
Reino.
Falar de felicidade nos leva necessariamente a nos perguntar se é possível
ser felizes em um mundo cheio de dores, injustiças, mortes prematuras, solidão,
vida sem sentido...
No entanto, como seres humanos
não podemos renunciar à busca da felicidade. O importante é que não vivamos
esta busca de uma maneira solitária, nem que nossa busca seja à custa dos
outros ou à margem das grandes maiorias sofredoras. A isso não se pode chamar
felicidade.
A felicidade é a
busca fundamental do ser humano, o sonho da humanidade desde o começo da
história. O difícil é ter sabedoria para poder reconhecer os caminhos que nos conduzem a ela.
Nesse sentido, a liturgia da festa de Todos os Santos e Santas vem nos indicar este caminho, ao apresen-tar
o texto das Bem-aventuranças como um
programa para viver a felicidade; e
o motivo primeiro é porque todas elas são, na verdade, o caminho da santidade universal (acima e além de
toda religião, pois elas são simples e profundamente humanas). As
Bem-aventuranças são como o mapa de navegação para nossa vida; são o horizonte
de sentido e o ambiente favorável para nossa santificação, entendida como
empenho para viver com mais plenitude, segundo o querer de Deus.
A primeira “canonização”, pois,
teve lugar quando Jesus, num determinado dia, subiu à montanha e com grande
solenidade declarou felizes os pobres, os aflitos por causa do Reino, os mansos
que não recorrem à violência, os que tem fome e sede de justiça, os
misericordiosos, os que não tem segundas-intenções no coração, os que trabalham
em favor da paz, os perseguidos por causa da justiça. Todos eles(as) são
declarados felizes porque são os que mais se parecem com Deus, ou seja, deixam
transparecer em suas vidas a santidade
d’Ele. E a felicidade está justamente na vivência do chamado universal à
santidade.
A santidade é, pois, um dom recebido de
Deus, que alimenta na pessoa o desejo e a disposição de “sair de si mesma” para
viver a experiência do amor na relação com o mesmo Deus, no encontro com os
outros e no cuidado e proteção da Criação.
“Viver a partir da santidade de Deus” representa a melhor
definição da santidade cristã: reconhecer-nos como quem recebe tudo de Deus,
deixar-nos amar e guiar por Ele, assemelhar-nos
a Ele para fazer carne viva em nós os sentimentos de compaixão e misericórdia
que Ele tem com as pessoas.
Em outras palavras, a santidade significa viver
o divino que há em nós.
Só descobrindo o que há de Deus
em nós, poderemos cair na conta da nossa verdadeira identidade.
Todos somos santos(as), porque
nosso verdadeiro ser é o que há de Deus em nós; embora a imensa maioria das
pessoas não tem consciência disso ainda, não podemos deixar de manifestar o que
somos. Somos santos(as) pelo que Deus é em nós, não pelo que nós somos para
Deus. Para Jesus, é santa a pessoa que descobre o amor que chega até ela sem
mérito algum de sua parte, mas deixa-se envolver por este amor expansivo e
passa a viver uma presença amorosa.
Na festa de Todos os Santos e Santas somos convidados a deixar semear na terra
de nossa vida o anúncio mais impressionante de felicidade que Jesus nos faz.
Como não ficar maravilhados diante das bem-aventuranças e deixar que cada uma
delas nos des-vele e nos fale d’Ele? De fato, elas são o auto-retrato de Jesus;
antes de proclamá-las, Ele as viveu na radicalidade.
As bem-aventuranças constituem a carta magna do
Reino e princípio fundamental do(a) seguidor(a) de Jesus; nela aparece a visão
que Jesus tinha e desejava para o ser humano. Este texto não é apenas uma
normativa, uma ética, mas um modo de entender a vida humana; elas oferecem um
programa de felicidade e de esperança, ou seja, elas nos ensinam a ser ditosos,
no desprendimento e na solidariedade, na pureza de coração e de vida, na
liberdade radical, na esperança... tanto no nível pessoal como comunitário.
As bem-aventuranças compartilham uma mesma visão “macro-ecumêmica”:
valem para todos os seres humanos. O Deus que nelas aparece não é
“confessional”, não é “patrimônio” de uma religião específica; não exige nenhum
ritual de nenhuma religião, senão o “rito” da simples religião humana: a
pobreza, a opção pelos pobres, a transparência de coração, a fome e sede de
justiça, a luta pela paz, a perseguição como consequência do empenho em favor
da Causa do Reino... Essa “religião humana básica fundamen-tal” é a que Jesus
proclama como “código de santidade universal”, para todos os santos e santas,
os de casa e os de fora, os do mundo “católico” e os de outras expressões
religiosas...
Texto bíblico: Mt 5,1-11
Na oração: A chave da felicidade
está em permitir que se revele o sentido da
luminosidade que se encontra no fundo de nosso ser. O que nos tira a energia e
nos torna impotentes é afastar-nos desse princípio vital que é o Divino em cada
ser.
A
santidade é luz expansiva do divino que se faz visível no “modo contemplativo”
de viver.
-
Sua presença junto às pessoas é transparência da santidade de Deus?
terça-feira, 24 de outubro de 2017
Homilia dominical - dia 28 de outubro de 2017
UM CORAÇÃO CHEIO DE DEUS E
DE NOMES
“Toda a Lei e os Profetas dependem
desses dois mandamentos: amor a Deus e amor ao próximo”
Jesus, no seu ministério em favor
da vida, se depara com inúmeras perguntas; muitas delas escondiam uma pretensão
de colocá-lo à prova e desmoralizá-lo diante dos outros. Desta vez aparece uma
pergunta funda-mental e radical: “qual é o
primeiro de todos os mandamentos da Lei”?
Jesus, em primeiro
lugar, responde à pergunta tal e como lhe fazem. De sua boca, o
mandamento bíblico do amor recebe toda sua profundidade, não somente como
compêndio da lei, mas como síntese da vida: “Amarás o
Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as
tuas forças e com todo o teu entendimento”. Trata-se de amar com tudo o que existe em nosso
ser, em termos de capacidade de decisão (coração), de alento vital (alma), de
consciência (mente) e de força vital (forças).
Amar a
Deus com todo o coração é amá-lo com o que há nele: com seu lado de luz e de
sombra, com seu trigo e sua cizânia, com sua terra boa e sua terra baldia...; podemos
amá-lo sem medo, podemos amá-lo sem ter que esconder nossas fragilidades,
podemos amá-lo a partir de qualquer situação de nossa vida, pois nada do que é
humano fica fora, tudo se converte em motivo para deixar-nos habitar por sua
ternura amorosa. Isso significa que não teremos que esperar chegar à perfeição
para poder amá-lo com todas as nossas forças, que não precisamos ter tudo
resolvido dentro de nós, que não temos que ter a casa de nossa vida ordenada...
mas que é Ele quem, ao entrar em nosso interior e habitá-lo, vai ordenando tudo
à sua maneira e nos faz capazes de acolher e de amar os outros.
Mas, Jesus aproveita
também para responder à pergunta que não lhe fora feita, mais profunda e
revelado-ra. Jesus é mestre em fazer nova pergunta em cima de outra pergunta;
Ele não perde a ocasião e aproveita das perguntas para chamar a atenção para
algo mais importante.
Jesus responde, em
primeiro lugar, aquilo que todos já conheciam; mas, para que não ficassem
acomoda-dos com o primeiro mandamento, acrescenta-lhes o segundo: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
No fundo, Jesus
veio lhes dizer que sim, que o principal é o amor a Deus, mas que o
amor a Deus não era verdadeiro se não era acompanhado do amor ao próximo. Mais ainda, Jesus quis indicar que o manda-mento
do amor ao próximo é de igual valor e de igual importância que o mandamento do
amor a Deus.
Além disso,
Jesus simplificou as coisas, porque frente aos 248 preceitos e as 365 proibições
reduziu tudo a dois. E com isso era suficiente: “ama a Deus e ama o teu próximo”.
Por esta
resposta eles não esperavam, mesmo dizendo-lhes que estes dois mandamentos são
toda a Lei. E que com estes dois mandamentos todas as demais normas e leis são
secundárias.
Nós, certamente, não
temos a pretensão de tentar e nem de colocar Jesus à prova. Mas é possível que
tenhamos medo de lhe fazer a mesma pergunta dos fariseus, pois temos uma
infinidade de leis, a maioria inúteis e sem sentido. Encantam-nos a floresta de
leis; basta olhar o Código de Direito Canônico e nos encontramos com 1752 leis
e vários Apêndices; cada Diocese e paróquia tem suas normas e leis; e se
levarmos em consideração o Código Civil, o Código Penal e demais códigos...
Jesus é muito mais
simples e direto; para Ele dois mandamentos são suficientes.
Nós
também temos medo de lhe perguntar pelo essencial, pois temos medo de lhe
perguntar sobre o amor; até nos
atreveríamos perguntar pelo amor a Deus, mas que não diga que temos de amar o próximo
“como a nós
mesmos”.
No
entanto, no seguimento e identificação com Jesus, precisamos de dois remos: o
amor a Deus e o amor ao próximo. Se nos falta um deles, nossa fé não caminha.
Não caminha se não amamos a Deus com todo nosso coração; tampouco caminha se
não amamos os outros “como a nós mesmos”.
Temos
inventado mil e uma devoções e nos sentimos bons; criamos uma infinidade de
orações e de ritos, e nos sentimos merecedores do prêmio celeste; cumprimos uma
infinidade de ritos para pacificar nossa relação com Deus. E, no entanto,
sabemos que de nada vale todo este arsenal de coisas piedosas e rituais, se não
somos capazes de amar. O coração que não ama é um coração de casca, estéril,
seco... O coração que não ama é um coração vazio de Deus e dos seres humanos.
“No
final do meu caminho me dirão: - E tu, viveste? Amaste? E eu, sem dizer nada,
abrirei o coração cheio de nomes” (D. Pedro Casaldáliga).
O coração humano
deveria ser também uma espécie de agenda onde, como diz Casaldáliga, no final
da vida, quando seremos perguntados sobre o amor, nos bastará abrir o coração para que Deus o veja cheio de nomes. E isso será um dos sinais de que
temos vivido e amado.
Quando amamos,
escrevemos o nome das pessoas em
nossos corações. Por isso, podemos imaginar o coração de Deus cheio de nomes: o
teu, o meu e o de todos. Também os daqueles a quem ninguém chama e a quem
ninguém os leva em seu coração.
Quando quero
saber se de verdade amo a Deus, olho se levo seu Nome em meu coração.
Quando quero
saber se de verdade amor o meu próximo, me pergunto quantos nomes carrego escritos no coração. Quando quero saber a quantos
não amo, olho o meu coração e vejo quantos nomes apaguei ou quanto nunca
escrevi nele ou quantos faltam.
Ser seguidor(a)
de Jesus é encher o coração de nomes, muitos deles nunca temos escutado e até é
possível que nem saibamos pronunciá-los.
O(a) seguido(a),
que entrega sua vida pela causa do Evangelho e por amor à humanidade, tem o
coração cheio de nomes, inclusive aqueles que nem conhece e nem conhecerá
nunca, mas que ele(ela) continua amando e continua investindo sua vida para que
algum dia também eles entrem no fluxo do amor divino.
Esta é a razão pela qual o
“segundo mandamento” – “amarás o teu
próximo como a ti mesmo” – é “semelhante ao primeiro”. Não amamos
por imposição, mas porque somos amor. No amor, nada é
obrigação, tudo é dom! É certo que podemos viver na superfície mais
egocêntrica, ignorando e bloque-ando nossa realidade mais profunda. Mas, na
medida em que vivemos a partir dessa realidade profunda, tudo aparece unificado
e harmonioso; tudo fica admiravelmente integrado: uma existência sem costuras, sem
emendas, tecida e mantida no Amor fontal de Deus.
O amor unifica
tudo a partir do mais profundo. Ele dá unidade a toda a nossa atividade, por
mais dispersa que ela possa parecer. O amor é a força que pode dinamizar e
unificar nossa existência. Podemos fazer muitas coisas, comprometer-nos com mil
atividades, todos os dias; no entanto, o mais importante é fazê-lo sempre da
mesma maneira: com amor.
O amor estimula
o que há de melhor em nós. Ele ilumina nossa mente propor-cionando clareza de
pensamento e criatividade; dinamiza toda nossa pessoa; faz crescer nossas
energias; desperta nossa capacidade para a busca do que é me-lhor; dá um novo
colorido à nossa vida cotidiana; capacita-nos a realizar nossas atividades com
mais inspiração; enraíza-nos no mais profundo da vida, nessa corrente vital que
flui de um Deus, que é mistério de amor. É por isso que o amor cura e salva.
Texto
bíblico: Mt
22,34-40
Na oração: Faça
uma leitura das “marcas” do Amor de
Deus em sua vida; crie um
clima de ação
de graças.
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
Nossa Senhora Aparecida - 12 de Outubro de 2017
APARECIDA: uma mulher,
uma festa, uma presença inspiradora
“A segunda postura:
Deixar-se surpreender por Deus. Quem é homem e mulher de esperança sabe que,
mesmo em meio às dificuldades, Deus atua e nos surpreende. A história deste
Santuário serve de exemplo: três pescadores, depois de um dia sem conseguir
apanhar peixes, nas águas do Rio Paraíba do Sul, encontram algo inesperado: uma
imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quem poderia imaginar que o lugar de uma
pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se
sentir filhos de uma mesma Mãe? Deus sempre surpreende, como o vinho novo, no
Evangelho que ouvimos. Deus sempre nos reserva o melhor. Mas pede que nos
deixemos surpreender pelo seu amor, que acolhamos as suas surpresas. Confiemos
em Deus! Longe d’Ele, o vinho da alegria, o vinho da esperança, se esgota. Se
nos aproximamos d’Ele, se permanecemos com Ele, aquilo que parece água fria,
aquilo que é dificuldade, aquilo que é pecado, se transforma em vinho novo de
amizade com Ele” (Homilia do Papa
Francisco em Aparecida – 2013)
Uma festa mariana é sempre um motivo de
alegria; a festa da mãe Aparecida é,
para o povo brasileiro, um momento de inspiração e de profundidade. Neste dia
festivo, o que se pode afirmar de mais grandioso a respeito de Maria é que ela foi
uma mulher absolutamente humana; nessa humanidade devemos descobrir a grandeza
de sua pessoa. Se fundamentamos sua grandeza nos brocados e indumentárias que
fomos acrescentando durante séculos, estaremos minimizando seu verdadeiro ser e
dando a entender que, em si mesma, Maria não é suficientemente importante, já
que a valorizamos mais pelos adornos que vamos colo-cando sobre ela.
Em Maria descobrimos aquilo que, na essência,
todos somos. Conhecer seu verdadeiro ser é a chave para a interpretação
atualizada da festa de hoje. Não devemos nos conformar em olhar Maria para ficarmos
extasiados diante de sua beleza. O que descobrimos nela, devemos também
descobrir em nosso próprio ser. O que importa realmente é que em Maria e em
todo ser humano há um núcleo intocável que nada nem ninguém pode manchar. O que
há de divino em nós será sempre
imaculado. Tomar consciência desta realidade, seria o começo de uma nova
maneira de entender a nós mesmos e de entender os outros.
Maria é grande em sua simplicidade e não temos
nada que acrescentar ao que ela foi desde o princípio. Basta olhar para o seu
verdadeiro ser e sua maneira original de se fazer presente junto aos outros
para, então, descobrir o que há de Deus em seu interior; isso é que sempre será
puríssimo, imaculado. Se descobrimos isso nela, é para tomar consciência de que
também está presente em cada um de nós.
Como a imagem negra e despojada
encontrada no rio Paraíba do Sul, Maria não necessita nenhum adorno. Néscio é
aquele que pinta um diamante; tolo é aquele que cobre uma pérola de purpurina;
fantasioso é aquele que pretende enfeitar uma rosa que acaba de se abrir pela
manhã; insensato é aquele que tenta acariciar uma borboleta que acaba de sair
de seu casulo. Maria é o diamante, a pérola, a rosa, a borboleta. Livre de toda
indumentária, ela é mais formosa.
De nada nos servirá descobrir a
pérola em Maria se não a descobrimos também em nós mesmos. Somos milhões de
diamantes que habitamos esta terra, embora cobertos de terra e barro. De nada
nos servirá descobrir a pérola em Maria se não a descobrimos em nós em nós
também.
Contemplar Maria e deixar
des-velar (tiar o véu) a nobreza humano-divina escondida em nosso interior.
Em todos
nós, algo de bom, de inocente, de imaculado, continua a dizer “sim” ao incompreensível Amor... É preciso encontrar
esta dimensão interior por onde entra a vida, este lugar por onde entra o amor.
É uma experiência de silêncio, uma experiência de intimidade, alguma coisa de
mais profundo do que aquilo que aparentamos ser; existe em nós alguma coisa de
mais divino e mais profundo, que é a beatitude original.
Somos habitados por uma realidade
mais profunda que a nossa resistência, um sim mais profundo que todos os
nossos “nãos”, uma inocência original que todos os nossos medos e
feridas...
Maria é a nossa verdadeira natureza, é
a nossa verdadeira inocência original, aberta à presença do divino.
Nesse sentido dizemos que ela é
Imaculada como referência única de uma humanidade que também é capaz de escutar
Deus e de responder-lhe; ela é Imaculada porque nos “des-vela” que também nós
podemos romper as amarras que nos desumanizam; ela é Imaculada porque “re-vela”
que o ser humano é “lugar” de abertura a Deus, que é possível viver em
liberdade, dialogando com os outros, a serviço da comunhão e da vida.
Porque se fez presente a Deus, Maria vai se fazendo presente na vida das pessoas
de uma maneira sempre mais criativa e atenta; presença que se faz manancial de
vida para os outros, tornando-se, ao mesmo tempo, amiga, irmã e mãe de todos.
A presença silenciosa, original e mobilizadora de
Maria desperta e ativa também em nós uma presença inspiradora, ou seja,
descentrar-nos para estar sintonizados com a realidade e suas carências. Tal
atitude nos mobiliza a encontrar outras vidas, outras histórias, outras
situações; escutar relatos que trazem luz para nossa própria vida; ver a partir
de um horizonte mais amplo, que ajuda a relativizar nossas pretensões absolutas
e a compreender um pouco mais o valor daquilo que acontece ao nosso redor;
escutar de tal maneira que aquilo que ouvimos penetre na nossa própria vida;
implicar-nos afetivamente, relacionar-nos com pessoas, não com etiquetas e
títulos; acolher na própria vida outras vidas; histórias que afetam nossas entranhas e permanecem na
memória e no coração.
Escutando as
palavras de Maria – “Fazei tudo o
que Ele vos disser!” - nosso ouvido interior se afinará para
perceber melhor o clamor dos empobrecidos e excluídos da festa da vida. É o
clamor de nosso mundo.
Maria de Nazaré nos
recorda que a falta de vinho é esquecimento da fraternidade, é falta de amor e
de comunhao, é ausencia do Reinado de Deus entre nós. Por outro lado, em meio a
tantas carencias, também se fazem visíveis os sinais do Reino: desejos de
solidariedade, gente que protege a vida, homens e mulheres que buscam a Deus e
se comprometem com a vida, tantas vezes ameaçada. Maria nos atrai para a festa
que nunca se acaba: compartilhar nossa existencia com muita gente e viver sob
os impulsos do Espírito.
A festa de
hoje nos ajuda a ativar uma sensibilidade solidária, pois é muito frequente
estar próximo e não perceber os outros, estar junto e não ter consciência dos
problemas e dificuldades dos outros. É preciso ampliar o olhar para entrar em sintonia compromissada com a realidade
carente.
O mundo nos
reconhecerá pelos nossos gestos de solidariedade.
Evangelho: Jo 2,1-11
Na
oração: Com a
imaginação, situe-se em Caná e coloque-se junto a uma
das talhas cheias de água que João,
intencionalmente, diz que eram “de pedra, destinadas às purificações rituais dos judeus”. É a maneira dele fazer ver a
rigidez pétrea e a inutilidade da água na hora de animar uma festa.
-
Sinta tudo o que há de água
depositada e parada em sua vida, com a desculpa de usá-la como purificação na
relação com Deus; sinta-se como talha de pedra, fria e rígida, que o(a) torna
incapaz de mobilizar sua vida em favor da vida.
-
Reconheça e agradeça tudo o que na sua vida se parece com o vinho, que lhe dilata e lhe dá sentido
de festa.
Vinho
expansivo que provoca alegria, abundância, reconstrução de novas relações...
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
Homilia Dominical - 8 de outubro de 2017
HÁ UMA
VINHA PLANTADA DENTRO DE NÓS
“Certo proprietário plantou uma
vinha...”
(Mt 21,33)
Segundo o relato da Criação, nós
viemos da argila, do húmus... Por isso carregamos em nosso corpo os mesmos
elementos físico químicos da natureza: minerais, plantas, animais...
O universo inteiro mora,
adormecido, dentro de nossos corpos. Cada ser humano carrega latente em seu
íntimo toda a sabedoria do universo. O poeta americano Walt Whitman nos legou
uma frase maravilhosa e emblemática sobre este tema: "Eu
sou contraditório, eu sou imenso. Há
multidões dentro de mim".
Há multidões dentro de nós, não
só de animais, plantas, pássaros, peixes, minerais... como também de homens e
mulheres de todas as etnias, os jardineiros da criação divina. Há um universo inteiro dentro do corpo, universo mais fantástico, mais
colorido, mais belo que o universo que
existe do lado de fora.
E o maior desafio
é, justamente, a convivência e a harmonia com todo o universo que carregamos em
nosso próprio interior.
Partindo do evangelho de hoje, podemos dizer que há
uma vinha em nosso interior, plantada
com todo cuidado. A vinha interior é plantada por Deus em função da vida; por
isso ela é sagrada e é lugar de contemplação e encontro íntimo com o Criador;
ela é o teatro da glória de Deus, isto é, da manifestação da presença divina.
Ela deve ser o lugar da fecundidade, da convivência e da celebração.
A vinha interior é o “mundo” de nossa psique, de
nossos afetos, de nossas energias, de nossa espirituali-dade, de nossos
sentimentos e desejos, de nossas relações básicas, quer conosco mesmos e com os
outros, quer com as criaturas e com Deus. Quando todos estes dinamismos estão
pacificados e integrados, cria-se um “cosmos” interior, expressão da “vinha
secreta” que todos carregamos.
Esta vinha é expansiva, acolhedora, aberta a todos,
compartilhando seus frutos abundantes. Ela é lugar de movimento, de encontro,
de desafio, lugar provocativo e criativo..., enfim, lugar carregado de presenças.
Somos a verdadeira vinha a partir da qual Deus nos encontra e se dá a conhecer;
cada um de nós é autêntica vinha da eterna presença de Deus.
Na perspectiva bíblica, a imagem
da vinha nos fala de convivência,
harmonia, alegria, de acolhida e da gratuidade, por ela ser dada em herança.
Os homens e as mulheres de todos
os tempos e lugares trazem, como que enraizados nas fendas mais profundas de
sua interioridade, sonhos de rara beleza. São desejos de convívio, de superação
da dor e da solidão, sonhos de fraternidade e da harmonia... O “eu interior” é uma vinha que se des-vela e se re-vela aos
olhos encantados.Toda pessoa possui, nas profundezas de si mesma, um lugar misterioso onde a vinha se esconde, muitas vezes em meio
a entulhos de feridas, traumas, rejeições.... Ela deve reencontrar a “vinha perdida”, não fora
mas nas profundezas de si mesma. Há dentro dela uma vinha secreta,
fechada, que precisa ser aberta.
Caminhar
pelo vinha interior é uma aventura, um desafio... Essa é a peregrinação interior:
ampliar o espaço da vinha para que ela seja sempre lugar da acolhida e da
festa.
É nesta direção que a imagem bíblica da vinha
também aponta: torná-la uma fonte de bênçãos, de comunhão com as outras pessoas
e estreitamento de relações com o próprio Criador. A vinha é o lugar no qual
não só existimos e revelamos nossa verdadeira identidade, mas onde somos
chamados a uma pleni-tude de vida, em aliança e comunhão com Deus e com todos.
No entanto, há sempre em nós uma tendência a
delimitar, defender e fechar-nos em nossa própria vinha. Isso fazemos de
maneira tão zelosa que nem vemos aquilo que está para além da nossa vinha. São
grandes os riscos de vivermos em horizontes tão estreitos. Tal estreiteza
atrofia a solidariedade e dá margem à indiferença, à insensibilidade social, à
falta de compromisso com as mudanças que se fazem urgentes. A própria vinha se
torna uma “bolha de proteção” e o sentido do serviço some do horizonte
inspirador de tudo aquilo que fazemos.
Contemplando o cenário do nosso
interior vamos também tomando consciência que perdemos o sentido da corrente da
vida e de sua imensa diversidade. Esquecemos a teia das inter-dependências e da
comu-nhão de todos com a Fonte originária de tudo.
Segundo a imagem bíblica da
Vinha, quando rompemos a aliança com Deus e nos afastamos d’Ele, ela fica
estéril. Por nossa atitude de arrogância e de autossuficiência, nós nos fazemos
centro e vamos deixando que nossos instintos de poder, vaidade, prestígio...
ocupem o espaço da vinha interior. Este auto-centramento se revela como uma
força de desintegração de nós mesmos com nossa fonte Original, como força de
auto-destruição e, por fim, como ruptura de comunhão com o Todo.
A “centração em nós mesmos”, sem
levar em conta a rede de relações que nos envolve, provoca a quebra da
“religação” com tudo e com todos. Este é o veneno que nos corrói por dentro: a
petrificação de nossa interioridade, o embrutecimento de nossa sensibilidade, a
perda do gosto pela verdade, pelo bem e pelo belo, o extravio da ternura e da
transcendência, a atrofia da comunhão com todos...
E nossa vinha interior deixa de
ser fecunda e oblativa.
Deus investiu pesado no plantio e no cuidado
desta vinha interior, esperando frutos saborosos.
Uma leitura honesta do texto do evangelho de
hoje nos move a fazer-nos graves perguntas: Estamos produzindo em nossos tempos
os frutos que Deus espera de sua vinha: justiça para com os excluídos,
solidariedade, compaixão para com quem sofre, a vivência do perdão...?
No entanto, quê coisas horríveis fizemos com a
vinha interior!
Ferir nossa vinha é ferir o próprio Criador, é
atrofiar a vida e suas possibilidades.
Quando observamos esta vinha outra verdejante,
lugar da criatividade, da relação, da comunhão... e agora entulhada de lixo, de
contaminação... uma sensação de violação, de sacrilégio, se manifesta em nosso
interior. E uma voz ecoa das profundezas de nosso ser: “Que fizestes de minha vinha!”
Deus não tem por que abençoar uma
vinha estéril da qual não recebe os frutos que espera. Não tem porque
identificar-se com nossa mediocridade, nossas incoerências, desvios e pouca
fidelidade. Se não respondemos às suas expectativas, Deus continuará abrindo
caminhos novos para seu projeto de salvação com outras pessoas que produzam
frutos de justiça.
Ampliar a vinha do coração implica agilidade,
flexibilidade, criatividade, solidariedade e abertura às mudan-ças e às novas
descobertas. Algumas fortalezas e seguranças pessoais caem quando a “vinha
interior”, abrasada e iluminada pela força do Espírito, começa a romper as paredes
de proteção e se conecta com a grande “vinha exterior”: lugar da missão, do
compromisso, do empenho em favor do Reino.
Não tem sentido ampliar a “vinha externa” se
nossa mente permanece estreita, se nosso coração continua insensível, se nossas
mãos estão atrofiadas, se nossa criatividade sente-se bloqueada... Vinha ampla
é convite a sonhar alto, a pensar grande..., ousar ir além, rompendo o modo
rotineiro de viver.
Por isso, nós e o universo só seremos felizes quando todos formos uma
grande vinha, por onde o Senhor
passeia, à hora da brisa fresca da tarde (Gen 3,8) .
A vinha é a face graciosa que Deus oferece à huma-nidade. Na vinha, Deus
realiza seu sonho. E fica feliz.
Texto bíblico: Mt 21,33-43
Na oração: deixe o Espírito transitar pela
sua vinha interior, para
que aí Ele estabeleça o “cosmos” (harmonia e
bele-za”) e crie um coração novo, de onde brotarão frutos de refinado sabor.
- Dê nomes aos
“frutos” de sua vinha interior.
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Homilia Dominical - 01 de outubro de 2017
PRESENÇA PROVOCATIVA DE JESUS
“...os
cobradores de impostos e as prostitutas entrarão antes de vós no Reino de Deus” (Mt. 21,31)
A
frase acima é uma das mais cortantes, proferida por Jesus aos chefes
religiosos. Os cobradores de impostos e as prostitutas
constituíam as duas classes de pessoas mais odiadas e que sofriam maior
pre-conceito na sociedade religiosa de seu tempo.
Com sua presença e ternura Jesus quebra
as atitudes preconceituosas que delimitam friamente os espaços e alimentam
proibições que impedem a manifestação da vida.
Jesus provoca um grande escândalo nos seus ouvintes,
sobretudo entre os fariseus, sacerdotes e anciãos do povo, que se consideravam
superiores aos outros, perfeitos cumpridores da lei, e portanto, merecedo-res
da atenção de Deus.
Eles apresentavam-se como modelos para o povo, porque
viviam atraídos por um Deus que somente eles encontravam. É duro viver ao lado
de um fundamentalista, porque igualmente duro é seu “deus”.
De
fato, há um monstro que habita as profundezas de nosso ser, devorando-nos
continuamente e expelindo seu veneno mortal: trata-se do preconceito.
Ele constitui o risco permanente em nossa vida, pois
limita a realidade, aumenta as distâncias, estreita o coração, inibe o olhar e
nos faz incapazes de acolher o bem e a verdade presentes no outro que é
diferente.
O
preconceituoso está o tempo todo petrificado em suas velhas e deformadas
opiniões sobre tudo e sobre todos. Ele é precipitado em julgar, apressado e
ansioso na formulação de juízos sem critérios.
Geralmente, os preconceituosos são
dogmáticos e fervorosos, muitos deles tornam-se fundamentalistas, com
hostilidade e intolerância religiosa. Cegos para a verdade, eles preferem o
auto-engano ao conheci-mento de fato; fincam pé naquilo que pensam que sabem,
no que está estabelecido e normatizado; não se atualizam, não conseguem ver o
novo e a necessidade de mudanças.
Ao tornarem absoluta uma verdade, condenam-se à
intolerância e passam a não reconhecer e a respeitar a verdade e o bem
presentes no outro. Não suportam a coexistência das diferenças, a pluralidade
de opini-ões e posições, crenças e idéias. Daí surgem o conservadorismo
radical, o medo à mudança, a violência diante da crítica, a suspeita, a
vigilância, o controle autoritário...
Jesus,
pelo seu modo de ser e pela sua pregação, toca as profundezas da vida. Ele convive, a maior parte de seu
tempo, com aqueles que não tinham lugar
dentro do sistema social-religioso existente. Ele se coloca ao lado dos excluídos
e dos últimos da história: acolhe os “imorais” (prostitutas e
pecadores), os “marginalizados” (leprosos e doentes), os “hereges” (samaritanos e
pagãos), os “colaboradores” (pu-blicanos e soldados), os “fracos
e os pobres” (que não tem poder nem saber); os que não tem lugar passam a ser incluídos.
Jesus se revela “excêntrico” com relação
aos sistemas, poderes e costumes de seu tempo, e isto numa dupla dimensão: - o centro,
para Jesus, está nas margens,
- os marginalizados e
excluídos são trazidos por Ele para o centro.
Jesus
assume a tal ponto a indigência e a fragilidade do ser humano, que aqueles
que o encontram e o escutam reconhecem de imediato estar diante de um homem
profundamente humano.
Jesus “entra” na realidade, sem discriminá-la nem classificá-la.
Simplesmente acolhe tudo quanto é desprezível e aparentemente desprovido de
valor. A atuação de Jesus revela-se como abraço da realida-de. Sua visão de
vida não o afasta da realidade; manteve-se sempre em contato com a fragilidade da existência; sentou-se à
mesa com pecadores e misturou-se com prostitutas; voltou-se para aqueles pelos
quais as pessoas não nutriam qualquer interesse: os pobres, os oprimidos, os
excluídos...
Jesus derruba as barreiras
da religião e raça. A revelação messiânica se expande como o sol do meio-dia e
atinge a todos, sobretudo aqueles de “má-fama”. O Reino encarna-se na história dos pequenos e despre-zados. O vinho
novo faz arrebentar os odres velhos.
A partir da fragilidade, Jesus impulsiona o salto para a vida; Ele reconstrói o ser humano na própria raiz do seu ser,
precisamente onde ele se revela limitado, frágil. Pois é quando se reconhece
fraco e limitado que o ser humano se abre para Deus e para os outros; ele sente-se
necessitado de salvação; sua indigência e
fragilidade fazem-no disponível,
aberto à graça de Deus e lhe permitem abraçar o dom da salvação.
Por isso, o específico da vida cristã é
buscar, através do seguimento, fazer e viver o que fez e viveu Jesus:
adotar as atitudes, o olhar e a capacidade de contemplação da realidade que o
mesmo Jesus adotou.
No seu “exceder-se”, Jesus abraçou
diferenças e novos horizontes. O Seu ministério ultrapassou as fronteiras. Convidou-nos a tomar consciência da ação de
Deus em lugares e pessoas que estamos inclinados a evitar: cobradores de
impostos, doentes, prostitutas, pecadores e pessoas de todos os tipos, que eram
marginalizadas e excluídas. Jesus “deslocou” Deus do Templo para as periferias.
Como água que dá vida a todo aquele que
tem sede, Jesus mostrou-se interessado por todas as zonas áridas do Seu mundo.
O Reino de Deus, que pregava constantemente, tornou-se uma visão de um mundo
onde todas as relações são reconciliadas em Deus.
E foi nas “fendas da humanidade” que o próprio
Jesus revelou o novo rosto do Pai e entrou em comunhão com Ele. Jesus nos
aponta o Deus presente e atuante nos meandros de nossa história, de nossas
feridas, de nossos fracassos...; Aquele que não tem vergonha de se aproximar e
de se misturar com a pobreza e a fragilidade dos seus filhos; é o Deus santo que
mergulha e santifica toda nossa existência.
Ele se revela como um “Deus errante”, que corre
ao encontro daqueles que estão perdidos.
Nas
encruzilhadas desafiadoras de hoje somos chamados a estabelecer, também com
aqueles que não compartilham nossa fé, nem são de nossa cultura,
mentalidade..., relações de proximidade, reciprocidade e intercâmbio; somos
movidos a compartilhar com eles obscuridades e perguntas e também momentos de
luz e de revelação.
A
partir das “fendas da humanidade” se faz visível o rosto Deus que toma partido
pela vida de qualquer ser humano e que nos chama a fazer-nos presentes
nos lugares onde essa vida está ameaçada, algo que foi sempre a
“especialidade de Jesus”.
Uma profunda experiência cristã nos faz “virar
a cabeça” e dirigir nosso olhar
para as “margens”, para as “periferias” da história... comprometendo-nos com os
prediletos de Deus.
Textos bíblicos: Mt. 21,28-32
Na oração: Nossa vocação é
a de construir pontes em situações de
fronteira. Num mundo
dilacerado pela violência, preconceito, indiferença... como você coopera com o
Senhor para uma “globalização na solidariedade”?
* O papa Francisco nos dirige um contínuo
apelo a viver a “cultura do encontro” em meio a uma “cultura da indiferença”.
Concretamente: qual seria sua “ajuda” específica e original neste grande
empreendimento?
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
Homilia Dominical - 24 de setembro de 2017
O AMOR É
SEMPRE SURPREENDENTE
“Ou
está com inveja, porque estou sendo bom? (Mt 20,15)
Sabemos
que toda parábola é um relato
provocativo, instigante, que envolve o ouvinte...
A
partir de conceitos simples, tomados da vida cotidiana e que todo mundo conhece,
a parábola projeta nossa consciência para um horizonte maior; por estar
profundamente conectada à vida, toda parábola mantém sua atualidade através do
tempo e das culturas.
O objetivo das parábolas é
substituir uma maneira míope de ver o mundo por outra, aberta a uma nova
realidade cheia de sentido; igualmente, elas ativam a olhar o mais profundo de
nós mesmos e a descobrir possibilidades ainda não conhecidas.
A parábola revela uma pedagogia que
permite não dizer nada a quem não está disposto a mudar, e a dizer mais do que
se pode dizer com palavras a quem está disposto a escutar. Quem a escuta, deve
deixar transparecer em sua presença a mensagem do relato e começar a viver de
acordo com o que foi narrado.
A
parábola, em si mesma, dá o que pensar,
pois questiona nossa maneira de ser, nos diz que outro mundo é possível e
espera de nós uma resposta vital.
Nesse
sentido, as parábolas de Jesus não foram dadas por concluídas; elas estão
sempre abertas às novas realidades dos ouvintes; por isso, não podem ser
entendidas em atitude passiva, pois elas abrem espaço para que cada um entre
nelas de maneira criativa. A parábola não é verdade fechada, mas verdade
dialoga-da, onde todo ouvinte deve interpretá-la com sua vida.
Em toda parábola existe um ponto
de inflexão que rompe a lógica do relato. Nessa quebra se encontra a
verdadeira mensagem. Na parábola do evangelho de hoje, a ruptura se produz no
final do relato.
É evidente que, em chave de
lógica econômica, esta parábola é estranha, fora do normal. Mas Jesus, semeador
de parábolas do Reino, sabe que há uma lógica mais alta, a do poeta criador.
Esta é a lógica da gratuidade e
da bondade do dono da vinha que se expressam no gesto generoso de pagar a mesma
quantia para os trabalhadores que foram chamados em diferentes horários do dia.
O contexto da parábola é a
controvérsia de Jesus com as autoridades judaicas por sua contínua relação com
pessoas de duvidosa reputação como os publicanos, pecadores, enfermos,
crianças, pagãos e mulhe-res. Precisamente aqueles que eram considerados
impuros e, portanto, excluídos do círculo de santidade.
Com
a parábola do dono da vinha que
contrata trabalhadores, Jesus não pretende dar uma lição de rela-ções
trabalhistas. Qualquer referência a esse campo não tem sentido. Jesus fala da
maneira de comportar-se de Deus para conosco, que está para além de toda
justiça humana. Ele nos desafia a entrar em sintonia com esse modo de agir
original e gratuito de Deus, contrário à nossa mentalidade utilitarista. A
partir dos valores de justiça que manejamos em nossa sociedade, será impossível
entender a parábola.
O proprietário daquela vinha
tinha uma estranha forma de organizar sua empresa agrícola; não parecia se
importar muito com o dinheiro que investia na mão de obra. A relação entre
diária e tempo trabalhado não se ajusta aos cânones empresariais do nosso mundo
capitalista: não havia feito nenhum MBA em “racio-nalização de recursos
humanos”, “índices de produtividade” ou “salários mínimos, máximos benefíci-os”...
Incompreensível sua atitude: pagou a todos igualmente sem valorar tempo e
trabalho realizado.
A
partir da lógica humana, não há nenhuma razão para que o dono da vinha trate
com essa deferência ao trabalhador de última hora. Por outra parte, o
proprietário da vinha atua a partir do amor
absoluto, coisa que só Deus pode fazer. O que a parábola nos quer dizer é
que uma relação de “toma lá e dá cá” com Deus não tem sentido. O trabalho na
comunidade dos seguidores de Jesus deve fundamentar-se no modo de agir de Deus
e ser totalmente desinteressado.
O sistema religioso do tempo de
Jesus centrava a prática religiosa no mérito e no pagamento. A salvação se
havia convertido num mercado de compra e venda. Jesus questiona a fundo esta
mentalidade que tanto mal fez ao povo. A salvação
é dom gratuito de Deus. E a graça, que é sempre surpreendente, tem a ver com o
amor misericordioso. Deus não maneja nossos esquemas contábeis de rendimento e
lucros. Para Deus, tanto os primeiros como os últimos são objeto de seu imenso
amor e misericórdia.
Na
realidade, o que está em jogo na parábola é uma maneira de entender a Deus,
completamente original. Tão desconcertante é esse Deus de Jesus que, depois de
vinte séculos, ainda não o temos compreendido. Continuamos pensando em um Deus
que retribui a cada um segundo suas obras. Uma das travas mais fortes que
impedem nossa vida espiritual é crer que podemos e temos que merecer a
salvação.
O
dom total de Deus é sempre o ponto de partida, não algo a conseguir graças ao
nosso esforço.
O
caminho de cada pessoa é saber-se filho(a) de Deus e comprometer-se na
construção do Reino, sendo este um caminho de conhecimento que dura toda a
vida. Uns tem o privilégio de compreendê-lo ao ama-nhecer; outros, no meio da
manhã, dão-se conta de que estão sendo chamados; e ainda ao cair da tarde, uns
quantos mais entendem que são enviados; por fim, ao anoitecer, todos receberão
o pagamento pela sua entrega, seu esforço e sua confiança em Deus.
Considerando
o denário da parábola como o amor
total de Deus, que não pode ser fragmentado, que não faz distinções e que não
considera ninguém como forasteiro ou excluído, é preciso e urgente colocá-lo em
circulação como “moeda única mundial”.
O amor de Deus não se fraciona como o dinheiro. Ele é total; paga sem
importar-lhe quando as pessoas se deram conta de sua presença. No amor
misericordioso de Deus estão implícitas a justiça e a alegria. E a justiça aqui
significa “ajustar-se
ao modo de agir de Deus”.
Se sairmos de nossos esquemas e
entrarmos em sintonia com o modo de agir de Deus, não teremos dificuldades em
entender a estranha maneira d’Ele realizar os pagamentos; também nós passaremos
a desejar aos nossos irmãos aquilo que Deus sempre desejou: que todos
compartilhem igualmente do seu amor surpreendente, superando a estreita visão
do mérito e da recompensa; também vibraremos de alegria quando aqueles que, ao
cair da tarde, vierem se integrar à nobre missão de construtores do Reino e
rece-berem o único pagamento possível: o denário
do Amor de Deus.
Não
percamos tempo pensando e esperando ingenuamente que o FMI ou qualquer outro
organismo financeiro vá interessar-se por esta mudança de moeda, já que ela nem
é cotada nas bolsas, nem é protegida em paraísos fiscais, nem flutua seu valor
conforme convenha a quem move os fios financeiros.
O
denário da parábola é cotado no
coração humano e quem compreende seu valor quererá compartilhá-lo com cada
pessoa que habita este mundo, começando pelos que “ao cair da tarde” estão
parados: refu-giados, enfermos, excluídos, crianças sem acesso à educação nem
atenção sanitária, anciãos que não podem ter uma velhice digna e feliz junto às
suas famílias, imigrantes, jovens sem futuro enredados pela violência,
profissionais que não podem exercer o que sabem... São tantos os que aguardam!
Quando conseguirmos a “mudança de
moeda” em nosso coração, estarão em alta valores como a paz, a tolerância, a
fraternidade, o equilíbrio entre a natureza, a justa satisfação das
necessidades...
O amor será a única “moeda” aceita por todos; o amor será o único
meio para fazer que as diferenças caiam, as distâncias desapareçam, os erros se
emendem e a violência se extinga, o perdão sane e o abraço reconforte... Está
em nossas mãos a possibilidade e a esperança de concretizar tudo isso.
Texto bíblico: Mt
20,1-16
Na oração: “Por que afligir-se em
comparações? Não queira
ser o melhor, se
certamente não é o pior.
Contente-se
por ser diferente na missão que recebe para que algo em você passe a enriquecer
os outros.
Deixe-se
acompanhar pela eterna surpresa e, encantado, exercite a divina criatividade” (Frei
Cláudio)
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