Teológico Pastoral

Teológico Pastoral

terça-feira, 13 de junho de 2017

Corpus Christi

CORPUS CHRISTI: festa do corpo

“E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo” (Jo 6,51)

O corpo humano está no centro da revelação cristã, já que se trata de algo assumido pelo mesmo Deus na Encarnação de seu Filho Jesus Cristo; Ele se faz corpo humano e habita entre nós. Este gesto divino eleva e engrandece a corporeidade humana e a resgata para sempre, já que a divindade abraça a “carne”, assumindo sua fragilidade para dentro de Si mesmo.
Deus se revela encarnando-se, assumindo um corpo que sente, que vibra, que tem prazer e que sofre, uma carne que treme, vulnerável ao frio e ao calor, à fome e à sede. Corpo que comunga com nossa mortalida-de, padecendo dor, agonia e morte, sendo sepultado no ventre da terra como toda criatura.

Segundo os Evangelhos, Jesus de Nazaré foi Aquele que soube ser feliz transitando com sabedoria e amor o caminho do próprio corpo. Ele não tinha uma mentalidade dualista: sua visão do mundo não era dicotômica nem hierarquizada, nem separava entre sagrado e profano. Essa mentalidade que contaminou o cristianismo não procede d’Ele, mas de filosofias posteriores.
Jesus não se apresentou como inimigo do corpo, do prazer e da festa, nem foi um asceta como João; pelo contrário, escandalizou por sua forma festiva, prazerosa e livre de viver seu corpo e suas relações. Desfrutou de banquetes em companhia de gente excluída e marginalizada por diversas razões, e isso foi motivo de espanto. O fato de ter sido acusado de “comilão, beberrão, amigo dos publicanos e pecadores” é a melhor expressão de sua liberdade relacional e sua maneira de viver reconciliado com seu corpo ao permitir-se prazeres corporais: comer, beber, dormir, descansar, desfrutar dos sentidos... a vista, o sabor, o olfato, o tato.
Nem ele nem seus discípulos guardavam o jejum, participando de casamentos, banquetes, refeições festivas com “gente de má fama”, para escândalo dos considerados “puros”.

Além disso, Jesus viveu seu corpo como um lugar para a relação sem medos nem tabus: tocou e se deixou tocar com profunda liberdade, escandalizou os seus discípulos desfrutando do contato amoroso com Maria de Betânia, que derramou sobre Ele um caríssimo perfume, num gesto de total gratuidade e marcada somente pelo desejo de compartilhar amor e gratidão.
Olhou o corpo das mulheres de um modo muito diferente daquele dos seus contemporâneos; para Ele, elas nunca foram lugar de tentação ou seres inferiores dos quais não tinha nada que aprender: foram amigas, companheiras, discípulas, mestras em muitos momentos.
Empenhou-se por praticar um amor operativo e, sobretudo, centrado nos corpos enfermos, desgarrados, desnudos, famintos, encurvados, paralisados, cegos, coxos, leprosos...; além disso, deixou claro a quem quisesse escutá-lo, que isso era o fundamental para entrar no Reino: passar pela vida como tera-peuta/sanador e não como juiz que acusa; abraçar e acolher a carne sofredora dos outros e não manter uma prudente distância do corpo vulnerado de Jesus.
E, se com sua vida não tivesse ficado suficientemente claro, quis, num momento solene, recordar a todos que a verdade última sobre o que é ganhar a vida ou perdê-la definitivamente está no fato como tratamos os corpos de nossos irmãos que sofrem. O amor não é algo etéreo: ou passa pelo corpo ou é apenas um bom desejo e nada mais.

Na festa de “Corpus Christi” fazemos memória deste mistério: o único recurso de que Jesus dispunha antes de ser preso e sofrer a paixão era seu próprio corpo. Não teve outra riqueza nem outro dom a nos oferecer. Esse Corpo que era sua própria vida; sentia-se abençoado em sua totalidade, sem deixar nada fora. Agradeceu por isso e fez dele um gesto definitivo: entregou-se por inteiro, sem nada reservar para si. A partir de então, torna-se um Corpo expansivo que se deixa tomar pelas nossas mãos e saborear pela nossa boca, na maior proximidade e no mais íntimo contato.
De agora em diante, será nos corpos vulnerados, nos corpos que sofrem, resistem e curam, onde Ele quer permanecer expressamente presente, com uma presença imediata que não deixa lugar a dúvidas: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes”.
Na festa de Corpus Christi, há um grande perigo de alimentar a devoção à presença real de Jesus na Eucaristia desvinculado da realidade  de sua Encarnação, ou seja, esquecer que Ele se fez corpo, viveu intensamente seu ser corporal e comprometeu-se com os corpos desfigurados e sofredores dos outros, recriando-os e impulsionando-os a uma vida mais plena.


Portanto,  “Corpus Christi” é festa do corpo de Jesus e de todos os corpos. Festa do pão e do vinho, frutos da terra e da comunhão de todos os seres. A Terra é um grande organismo vivente; o universo, com suas estrelas e galáxias é um imenso corpo. Da mesma forma, cada átomo é um corpo no qual se movimenta o universo do imensamente pequeno.

Sempre foi verdade a afirmação de que “somos corpo”, e não a afirmação de que “temos corpo”; mas durante muito tempo a espiritualidade cristã esqueceu esta verdade, considerando o corpo como algo acidental ao ser humano, olhando-o com suspeita e inclusive como seu inimigo. Identificada com uma mentalidade dualista que desconecta corpo de espírito, material de espiritual, terra de céu..., a espiritual-dade cristã manteve a questão do corpo um tanto exilada e silenciada.
Atualmente caímos no perigo extremo: somos somente corpo, como se o corpo fosse o único centro de atenção da vida. Na cultura pós-moderna, o corpo está se convertendo em extensão da imagem de nosso ego, ao invés de ser expressão de nossa história pessoal e de uma vida aberta à plenitude de Deus.
Desconectado de sua intimidade, o corpo vive como objeto dos olhares exteriores e por isso se coisifica e se tecnifica como se fosse uma mercadoria.
“Somos corpo” em relação com tudo o que é. Somos nuvem, água, ar, terra. Carregamos todo o universo dentro de nós. Somos Terra que sente, canta, pensa, ama. Somos partículas de matéria aberta, fonte inesgotável de possibilidades. Somos corpo, somos espírito, somos alma, somos afeto, somos relação… Somos milagre.

Celebremos o Corpus Christi de outra forma; celebremos nosso corpo, tão maravilhoso e vulnenável. Cuidemos do corpo, sem torturá-lo com nossas obsessões, sem submetê-lo à escravidão de nossas modas e medos.
Respeitemos como sagrado o corpo do outro, sem apropriar-nos dele.
Sintamos como próprio o corpo do faminto, do excluído, do refugiado, da  mulher violentada, maltratada, da criança abandonada...
É nosso corpo. É o Corpo de Jesus. É o Corpo de Deus. Celebremos, cuidemos, sejamos Corpo de Deus, epifania carnal da Ternura infinita.

Texto bíblicoJo 6,51-58

Na oração:  Seu corpo, que é você mesmo, tão efêmero mas habitado pelo Infinito, o Eterno.
                      Você também, como Jesus, em comunhão com todo o universo em movimento e evolução, é “cor-po de Deus”. O Infinito se manifesta e emerge de seu interior. Acolha seu mistério, deixe-se acolher pelo Infinito em você, deixe que suba desde o mais profundo de você a Voz que lhe diz: “Isto é o meu corpo”.
- Que a festa de “Corpus Christi”  anime você a viver sua vida cotidiana buscando fazer de seu corpo um lugar de encontro, de vida, de amor, sem medos nem tabus. Você será mais feliz e, ao mesmo tempo, será agente de felicidade em seu entorno.


segunda-feira, 5 de junho de 2017

Santíssima Trindade - 11 de junho de 2017

TRINDADE: do Triângulo ao Icone

A festa da Trindade nos mobiliza para uma nova ma-neira de viver e de nos relacionar com o Deus Comu-nhão de Pessoas, cuja presença preenche o cosmos, irrompe na vida, habita decididamente no interior de cada um de nós e é vivido em comunidade.
A Trindade “des-vela” a maneira de ser de Deus, como Amor que se expande, em si e fora de si, de uma maneira “redentora”, inserindo-se na história da humanidade. Deus é Amor e só amor.
Diante da presença e da ação do Deus Trinitário, afogam-se as palavras, desfalecem as imagens e mor-rem as especulações. Só nos restam o silêncio, a ado-ração e a contemplação.
Para facilitar tal atitude, vamos ativar nossos sentidos interiores para que se deixem impactar pelo Icone de Rublev: da Trindade pensada à Trindade adorada.

A Trindade não é fácil de ser representada. Aqui o artista representou-a na figura de três anjos peregrinos, assentados à mesa de Abraão.
O quê vemos neste ícone? Três anjos, reconhecidos por suas asas, estão assentados em torno de uma mesa. Os três sustentam um cajado na mão (Trindade Peregrina).
Trata-se de uma representação do relato da hospitalidade de Abraão, que se encontra em Gen. 18, quando o Senhor apareceu ao patriarca na planície de Mambré, sob a forma de três jovens.
Abraão os convidou a descansar e lhes ofereceu uma refeição. A tradição patrística viu nesses visitantes uma figura das três pessoas divinas.
Podemos nos aproximar do ícone a partir da beleza; num primeiro olhar, a divindade aparece revelando-se como uma grande luz que atrai e purifica.
A ausência de sombras no ícone quer fazer refletir a luz divina em tudo, situa-nos diante da santidade de Deus e nos convida a participar da luz da vida trinitária.
Tudo está no mesmo plano, o plano celestial; e, num olhar de fé, detrás da beleza de sua realidade sensível, o ícone nos remete mais além do visível, para a beleza das realidades divinas que representa e transmite; a razão emudece, o coração admira. Ou seja, não é a imagem em si mesma que nos eleva pelo que representa, mas aquilo para o qual ela aponta: o mistério trinitário ou o “excesso de Deus”.

Observe, em primeiro lugar, o ritmo ou movimento circular que parece invadir todos os elementos do ícone, convidando-nos a entrar no mistério de Deus.
O movimento que, partindo do Pai, passa pelo Filho e se consuma no Espírito, é um movimento de amor sem fim. Aqui, o ícone deixa transparecer o amor que une às três Pessoas divinas. Trindade é mistério de comunhão. É uma comunidade perfeita.
O ícone, através da reciprocidade dos olhares, evoca o eterno movimento de amor que une as três Pesso-as divinas, no sentido de que nenhuma delas esgota em si mesma a existência, nem vive por si mesma, senão que subsiste num mistério de total compenetração que ao mesmo tempo as une e as diferencia.
Isso é sugerido também pelo movimento circular do rosto inclinado dos 3 anjos, eternamente jovens, sentados à mesa do universo, em torno ao alimento divino; rostos que são semelhantes sem ser realmente idênticos. A linha triangular dos rostos e o círculo dos corpos estilizados indicam um mistério de diver-sidade na unidade.  Fundidos num êxtase que fala de unidade e de harmonia, os três rostos já dizem tudo.
Pouco importa se o Pai é sugerido pelo anjo do centro ou se, antes, há um movimento que vai da esquerda à direita: o personagem da esquerda indica ser o Pai; o do centro, o Filho; e o da direita, o Espírito Santo. As figuras do centro e da direita olham com rosto respeitoso e humilde para a da esquerda, que se mantém mais erguida que as outras duas, posto que o Pai é origem e princípio de tudo.
Os três, com efeito, tem a mesma atitude de abertura, de respeito, de súplica e de invocação.
Deles emana um mistério de eternidade, de amor, de quietude, de paz, de serenidade.

Esse movimento se manifesta igualmente ao fundo do quadro. A árvore se inclina para a esquerda do orante como se fosse submetida ao sopro de um vento forte. Ainda à esquerda se inclinam os planos cortados do teto do edifício. Tudo está em movimento, porque a vida é sair de si mesmo, é doar-se.
Esse ritmo exprime a circulação e a comunhão da mesma Vida divina entre as Três pessoas.
Mas a Trindade não se fecha em si mesma. O movimento expansivo expressa adoção, efusão, dom, generosidade e  graça, que admite, convida o ser humano ao círculo divino.
Tudo se orienta, na fé, para o mistério, para o encontro D’Aquele que vem. Curvando a árvore, o movi-mento circular da vida divina atinge a natureza. Inclinando o teto do edifício, atinge a humanidade orante, a humanidade no que ela tem de mais elevado. O mundo todo constitui, de certo modo, a periferia; as Três Pessoas divinas permanecem no centro.

Fixemo-nos, agora, nos traços das três pessoas. Elas não tem idade e, no entanto, transmitem uma im-pressão de juventude. Elas não tem gênero, no entanto elas unem o vigor à graciosidade. As fisionomias e os gestos não foram “construídos” em vista do charme e, no entanto o charme que se desprende é imenso.
Rublev soube expressar de uma maneira única a eterna juventude e a eterna beleza das três pessoas.
Cada um dos três anjos leva nas mãos um cajado alongado e muito fino. É que cada pessoa divina é um viajante, um peregrino. O quadro ressalta a participação de toda a Santíssima Trindade no mistério da salvação. Os três cajados constituem uma declaração e uma promessa. Eles declaram que os três já vie-ram fazer morada na humanidade. Eles prometem que os três continuam, através da presença expansiva, a conduzir tudo para a plenitude. O quadro evoca, pois, o conselho das Três Pessoas divinas em vista da redenção do gênero humano.

O artista, com sua obra, não pretendia sugerir pensamentos, mas uma oração. A perspectiva do ícone é orante, pois nos predispõe para “entrar” no mistério de Deus; também nos convida a abandonar a lógica cotidiana do útil, para poder entrar na lógica da gratuidade, do espaço místico e cultual, do diálogo com Deus, até os cumes da adoração.
O ícone da Trindade de Rublev nos recorda que não se trata de entender, ou de pensar e estudar o Misté-rio da Santa Trindade. O decisivo é viver o mistério a partir da adoração e da partilha fraterna.
É Deus quem toma a iniciativa de se aproximar dos seres humanos. Como foram até Abraão, a Trindade quer se aproximar também de cada um de nós. Dentro de nós habitam um Abraão e uma Sara.

Que a contemplação deste quadro nos coloque em contato mais profundo com as Três pessoas divinas para poder repetir, prostrados, as palavras de Abraão aos divinos visitantes na planície de Mambré:
                 “Meu Senhor, se mereci teu favor, peço-te, não prossigas viagem sem parar junto a mim, teu servo”.
E se acolhermos as Três pessoas de todo coração, poderemos, como Abraão, receber de sua boca a certeza de que essa experiência abençoada, longe de ser um episódio isolado, nos será concedida de novo: “passarei de novo pela tua casa”. Só assim sentiremos Vida brotar em nossas vidas, como irrompeu no seio de Sara. Não mais seremos velhos, estéreis e infecundos. A fé faz rejuvenescer.
Que a contemplação do belo e do Santo faça brotar em nós a imagem de Deus que é Pai-Filho-Espírito.
Amem!





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