Teológico Pastoral

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sexta-feira, 13 de junho de 2014

Homilia Dominical - 15 de junho de 2014

TRINDADE E MUNDO, DIFERENÇAS QUE SE AMAM


“Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito...” (Jo 3,16)

A afirmação acima recolhe o núcleo essencial da fé cristã. Este amor de Deus é a origem e o fundamento de nossa esperança. “Deus ama o mundo”, e o ama tal como é, finito e vulnerável, cheio de conflitos e contradições, capaz do melhor e do pior, espaço do des-velamento ou do ocultamento do rosto divino...
No centro da fé cristã está a verdade de que, em Jesus Cristo, Deus se humanizou para redimir o mundo.  Aqui está uma declaração mais radical: “O Verbo se fez mundo”.O Deus três vezes Santo se uniu ao nosso mundo frágil e limitado, para salvar.
Nossa realidade de mundo, de história, de cosmos, tocada pela divindade, ficou transparente, sacramental.
Vendo este mundo, detectamos Deus dentro dele. É através do mundo, no mundo e com o mundo que captamos a presença providente e cuidadora de Deus.
Em vez de ser uma barreira que nos distancia do divino, este mundotorna-se um sacramento que pode revelar a presença divina. No lugar do desprezo espiritual pelo mundo, nós nos aliamos ao Deus vivo, amando, como Ele, todo o mundo natural e toda a humanidade. O mundo é a visível Beleza de Deus, nem mais nem menos. “Fora do mundo não há salvação”.Se tudo é expressão do Amor criador, nada permanece fora de sua presença, e se torna possível descobri-Lo em tudo e em todos.

O verdadeiro seguidor de Jesus não é aquele(a) que se distancia do mundo, que fala uma língua enigmática, que cultiva práticas piegas, que se reveste de feições sóbrias e sombrias, avesso, quase sempre, a tudo aquilo que constitui a normalidade das pessoas. Mas é aquele(a) que corporifica tudo aquilo que constitui essencialmente a nossa humanidade: pobres e mortais, somos ricos e eternos.
O cristão será símbolo e mensageiro do Inefável se for destemundo epara este mundo.
Exatamente esta é a Boa-Nova e a alma do cristianismo:“que a Deus nós vamos não nos êxtases que nos arrancam do mundo e nos distanciam das pessoas, mas na radical paixão que nos faz descer ao coração de todos as coisas, decifrando, no emaranhado de nossos caminhos, os traçosde sua velada presença, num eterno tatear de experiência em experiência.Pois Deus e o mundo não são adversários, mas “diferenças que se amam”.

A festa da Trindade quer expressar o mistério do Amor-Vida de Deus que se comunica a nós. “Deus é UM, mas não está jamais só”. Deus não é um ser isolado, distante da Criação, solitário. É um Deuscomunhão, família, sociedade, fraternidade, etc... Por isso, o cume de toda a revelação bíblica é esta: “Deus é Amor”, ou seja, Deus não é uma realidade fria e impessoal, um ser triste, solitário e narcisista. E o Amor nunca é solidão, isolamento, mas comunhão, proximidade, diálogo, aliança...
O Deus revelado por Jesus é Amor e aproximar-nos do Deus Amor é descobrir a Trindade.
Se Deus deixasse de amar um só instante, deixaria de ser Deus. O movimento que parte do Pai, passa pelo Filho e se consuma no Espírito é um movimento de Amor sem fim.
Não podemos imaginá-Lo como poder impetrável, fechado em si mesmo. Em seu ser mais íntimo, Deus é vida compartilhada, diálogo, entrega mútua, abraço, comunhão de pessoas. O amor trinitário de Deus é amor que se expande e se faz presente em todas as criaturas.

O relato da Criação nos faz ser conscientes da atitude da Trindade na sua relação com o cosmos.
As Três Pessoas divinas abarcam e abraçam toda a Criação, com sua multiplicidade de cores, formas, tamanhos e atividades... Elas habitam nas alegrias e dores de todos os seres criados, conduzindo tudo para a plenitude, ou seja, para o interior da própria Trindade.
Quando contemplamos esta imensidade do universo, esta evolução que inspira assombro e espanto, recordamos que a Trindade, fonte da existência, ama profundamente a sua Criação e a julga digna da Encarnação; que a Trindade divina se faz presente em cada ser humano, ativando nele dinamismos de expansão: amplia seus olhos para contemplar os horizontes e as estrelas, desata sua mente para pensar nas maravilhas da criação, alarga seu coração para amar e acolher todas as criaturas...

O dogma da Trindade, portanto, nos liberta do Deus Poder e nos lança nos braços do Deus Amor.
Somente na medida em que formos capazes de amor, poderemos sentir a presença inspiradora da Trinda-de, mistério de comunhão. Viver a experiência do Deus Trino é com-viver, éentrar no fluxo da comu-nhão trinitária, que se expande na comunhão com os outros e com as criaturas.
Nossa vida deveria ser um espelho que em todo momento deixa refletir o mistério da Trindade.

Fomos feitos pelas mãos criativas da Trindade e como a Trindade é a perfeita comunhão e comunicação, também nós deveríamos deixar transparecer o que é trinitário em nós: fomos feitos para o encontro, a relação, a comunhão, a comunicação mútua, o espírito comunitário...Por isso, “só corações solidários adoram um Deus Trinitário”.

A história da vida de cada um de nós pode ser vista como uma experiência do amor da Trindade que vem ao nosso encontro através da vida de Jesus.É precisamente este o sentido particular da relação pessoal de Jesus com o Pai e o Espírito, com os demais seres humanos e com a Criação inteira, que nos permite des-cobrir o significado espiritual da dimensão da “relação”.
Em Jesus Cristo, nós nos fazemos conscientes da conexão que há entre todos os seres humanos e destes com todas as demais criaturas e com o Criador. Ele não só tornou próximo um Deus cujo próprio ser é relacional (cerne da doutrina cristã da Trindade), mas revelou que o caminho para a plenitude e a transformação consiste numa correta e justa relação e conexão entre todos os seres.
Neste sentido, celebrar a festa da Trindade é refazer o caminho da volta, como filhos pródigos, rumo à “comunidade universal de vida”, e irmanar-nos com todas as criaturas.
É urgente restaurar a re-ligação com o Todo e com todos.

Texto bíblico:Jo 3,16-18

Na oração:Contemplação para deixar-me alcançar pelo
amor da Trindade
Como preparação para esta oração, recordo os muitos lugares e situações em que experimentei o amor da Trindade.
- Recordo a atividade da Trindade ao iniciar o amplo pro-cesso evolutivo, que deu lugar a todo o universo, com todos os seres que há nele, assim como eu mesmo.
- Contemplo como a Trindade habita em todas as criaturas: nos céus, nos elementos, nas plantas, nos frutos e animais, nos seres humanos, em mim. Ela dá existência, protege, faz crescer e sentir.
- Reflito sobre minha experiência da presença da Trindade nas ocasiões e pessoas especiais de minha vida; considero com grande sentimento o muito que a Trindade tem feito por mim: o quanto me deu e o quanto deseja dar-se a si mesma a mim.
- Pondero como a Trindade, atua e trabalha para, por e em mim, ou seja, trabalha para continuar seu ato criativo. Considero que todas as bênçãos e dons que há em mim e na criação são uma expressão do amor da Trindade.
- Por fim, considero como a Trindade se derrama sobre nós como os raios de luz que descem do sol e como a água que mana da fonte.
- Deixo que me invada um sentimento de reverência pela imensidade e transcendência da evolução cósmica e pelo Amor da Trindade à comunidade planetária.




sábado, 7 de junho de 2014

Pentecostes

O Espírito Santo é o bom humor de Deus” (D. Pedro Casaldáliga)

O relato da aparição do Ressuscitado aparece unido ao dom da paz, da missão, do Espírito e do perdão. João, que não relata o episódio de Pentecostes, já havia situado o dom do Espírito no momento mesmo da morte de Jesus que, “inclinando a cabeça, entregou o espírito”. O que agora faz é confirmá-lo como dom do Ressuscitado.

A imagem de “soprar sobre eles” contém uma riqueza profunda: significa compartilhar o que é mais “vital” de uma pessoa, sua própria “respiração”, seu mesmo espírito, todo seu dinamismo; trata-se de uma imagem que nos faz sentir a respiração comum que compartilhamos com Ele e com todos os seres.

As angústias mais radicais do ser humano são reunidas e transformadas pelo sopro do Espírito: um sopro vital que possibilita a vitória da esperança contra o desespero, da comunhão contra a solidão, da vida contra a morte. A voz sopra onde quer, a Palavra vem do alto, o Espírito chega impetuoso rompendo o silêncio da morte. O Vento traz a vida, mas não se sabe de onde vem e nem para onde vai.

De fato, “Espírito” parece ser um dos nomes mais adequados para referir-se a Deus, enquanto Dinamismo de Vida e de Amor que faz com que tudo exista. Desde o começo do tempo e desde antes, está acostumado a abrigar sua criação e habitá-la, a fecundar, remover e renovar tudo quanto existe.Segundo o livro do Gênesis, no início da Criação a multiplicidade dos elementos – “águas” – representava o caos. Ali o Espírito “pairava”, criando uma integração harmoniosa – “cosmos”. Ele é também Ela e todos os gêneros: é feminino em hebraico (ruah), neutro em grego (pneuma) e masculino em latim (spiritus).

O Espírito é dinamismo, vida, relação, comunhão divina. É alento, vento, água. É unguento, é consolo, é companhia. Espírito é invenção, é fonte de criatividade, de autêntica novidade. É fonte de novas possibilidades no mundo, energia inaugural de novas auroras. É a energia materna de Deus que aquece o coração da Criação, e que tudo sustenta.

Na bíblia hebraica, o Espírito apresenta forma feminina: é “a Ruah”, a brisa, o “esvoaçar” de Deus sobre as águas, sopro impetuoso que gera vida, ar que impulsiona, alento ou respiração que mantém a vitalidade dinâmica do ser humano. Hálito, sopro, vento, respiração, força, calor... com nome feminino que fala de maternidade e de ternura, de vitalidade e carícia.

Há um antigo ícone medieval, uma pintura muito interessante que se encontra em uma Igreja de Urschalling, na Alemanha, que representa a Trindade, onde o Espírito, entre as figuras masculinas do Pai e do Filho, é representado com um rosto e um corpo de mulher. A Ruah, em hebraico, é sopro que possibilita a existência, o solo de tudo o que vive, é um termo feminino: “a Espírito”.

Nos relatos da Criação, a Ruah de Deus gera harmonia no caos, dando a cada criatura seu lugar, o espaço que precisa para desenvolver suas possibilidade. Nessa relação adequada, cada erva, cada montanha, cada ser que vive, tem seu lugar e seu sentido.

Hoje somos conscientes e podemos agradecer essa presença da Ruah como presença feminima naquelas e naqueles que se empenham pela paz e pela justiça, em sua cumplicidade com os ciclos que favorecem a vida, na contribuição do ecofeminismo para a integridade da Criação.

Desatar a dimensão feminina que mulheres e homens trazemos dentro de nós é sinal do movimento da Ruah. Acolher em nós seu potencial de ternura, de cuidado e de resistência frente a todas aquelas situações e forças que desintegram a vida; fazer da colaboração, da interdependência, do diálogo e da abertura às diferentes culturas e às diferentes tradições espirituais maneiras novas e necessárias de situar-nos no mundo.

O ser humano vive tencionado entre dois pólos, entre luz e escuridão, entre céu e terra, entre fragmentação e unidade, entre espírito e instinto, entre solidão e vida comum, entre medo e desejo, entre amor e ódio, razão e sentimento... Essa é a terra propícia onde atua o Espírito. Onde há mais carência, vulnerabilidade, pobreza... há mais criativas possibilidades. Nenhuma situação pode afastar-nos de Sua visita; pelo contrário, maior desamparo, maior proximidade; maior sofrimento, maior unção.

Toda terra baldia é boa para o Espírito. Ele é o buscador incansável de fragilidades e de conflitos. No não-amor, na não-existência, na não-possibilidade, vem com um “sim” ousado e forte que re-cria de novo nossa história, estabelecendo o “cosmos” (harmonia e beleza) em nosso “caos” existencial.

 Viver uma “vida segundo o Espírito”  é deixar-nos recriar, deixar-nos mover, transformar, alargar.

Soltar as asas nos momentos mais petrificados e pesados de nossa vida é sinal de sua silenciosa Presença. De imediato, nos sentimos livres do peso que fomos arrastando durante tanto tempo e, por uns instantes, nos atreveremos a “viver no Vento”.



Eduardo Galeano tem uma bonita história sobre o vôo do Albatroz que poderia ser uma parábola sobre a vida conduzida pelo Espírito:
“Vive no vento. Voa sempre, voando dorme. O vento não o cansa nem o desgasta. Aos sessenta anos, continua dando voltas e mais voltas ao redor do mundo.
O vento lhe anuncia de onde virá a tempestade e lhe diz onde está a costa. Ele nunca se perde, nem esquece o lugar onde nasceu; mas a terra não lhe pertence, tampouco o mar. Suas patas curtas mal conseguem caminhar, e flutuando se enfastia.
Quando o vento o abandona, espera. Às vezes o vento demora, mas sempre volta: busca-o, chama-o, e o conduz. E ele se deixa conduzir, se deixa voar, com suas asas enormes planando no ar”..

Falar do Espírito e celebrar Pentecostes é, portanto, celebrar a festa, a vida. Ele é o Sopro último, o Dinamismo vital que pulsa em todas as expressões de vida que podemos ver e que nelas se manifesta. Não há nada onde não possamos percebê-lo, nada que não nos fale d’Ele. Ele é o “ambiente de realização do ser humano”, porque n’Ele a vida adquire profundidade, consistência..., dando-nos firmeza à vontade, equilíbrio aos sentimentos e iluminação à mente.

Não é estranho que, com o Espírito, Jesus envia seus discípulos em missão: é o mesmo Espírito – seu sopro – aquele que quer manifestar-se em nós e quer que nos deixemos conduzir por Ele, como aconteceu com Jesus.

Textos bíblicos:  Atos 2,1-11   Jo. 20,19-23

Creia no Espírito Santo, pois “sem o Espírito Santo, Deus está distante, Cristo permanece no passado, o Evangelho é letra morta, a Igreja é uma simples organização, a autoridade é tirania, a missão é propaganda, a liturgia é arcaismo, e a vida cristã é uma moral de escravos.
Mas no Espírito, e numa sinergia indissociável, o cosmos é enobrecido pela iluminação do Reino, o ser humano luta contra o egoísmo, o Cristo ressuscitado se faz presente, o Evangelho é uma força vivifica-dora, a Igreja realiza a comunhão trinitária, a autoridade se transforma em serviço, a liturgia é memori-al e antecipação, e a ação humana é divinizante”. (Patriarca Ignacio de Antioquia, em Upsala, 1968).
Em nome do Pai, do Filho e da Santa Ruah. Amém.

Pe. Adroaldo Palaoro sj
Coordenador do Centro de Espiritualidade Inaciana 
22.05.2012

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